- É ELA! – gritou Tânia verdadeiramente apavorada e já completamente desperta.
- Tens a certeza? – perguntou-lhe Diogo sem saber muito bem o que pensar.
- Sim…eu sou uma renegada, lembras-te? – perguntou a Diogo sem, no entanto, estar à espera de uma resposta – Nós, os renegados, pressentimentos sempre a chegada de um Príncipe ou da Lady Lilith para não nos atrevermos a atravessar-nos no caminho deles. Por favor, ela não pode encontrar-me aqui! – Tânia mostrava-se cada vez mais amedrontada, os seus olhos não revelavam mais nada para além de um grande temor. Continuava a agarrar o braço de Diogo com toda a sua força, como se ele fosse a sua única salvação.
- Nós protegemos-te, não vou deixar que ela te faça mal… - assegurou-lhe Diogo sem desviar o olhar de Tânia para lhe tentar passar alguma segurança.
- Tu não percebes…por favor…ela não pode ver-me! – Ao dizer isto Tânia abraçou Diogo com tanta força que este pensou que ia sufocar. – Por favor…
Diogo estava verdadeiramente surpreso com todo aquele medo de Tânia. Esta tinha lutado com tanta coragem e enfrentado Belial e o seu exército sem pestanejar, mas agora ali estava ela, como uma criança com medo da própria sombra depositando toda a sua confiança na protecção que ele pudesse fornecer-lhe.
- Está quase… - soluçou Tânia sempre abraçada a Diogo.
Sem pensar mais no significado de todo aquele medo relacionado com o demónio que matara a sua mãe e que estava por trás de tudo aquilo, Diogo, sempre com Tânia agarrada a si, estendeu uma mão e como se tivesse feito aquilo toda a sua vida, fez aparecer do chão enormes rochedos que formaram uma pequena gruta. Tânia deve ter percebido a sua intenção, pois sem sequer olhar para ele correu na direcção da gruta, entrando na mesma no preciso momento em que Diogo sentiu uma força repleta de malícia surgir do nada.
Assegurando-se que Tânia estava fora de vista Diogo virou-se para trás e antes mesmo de a ver, sentiu toda a sua força maligna, toda a sua perversidade, como se todo o mal estivesse encarnado naquele corpo que se aproximava a passos lentos e confiantes.
Ela vinha sozinha. Trajada com um vestido negro e emoldurado por umas asas ainda mais negras, ali estava Lady Lilith, com os seus caracóis de um loiro cor de mel a esvoaçarem atrás de si, apesar de Diogo não sentir qualquer brisa. Se Diogo não soubesse que aquela mulher era a assassina da sua mãe, teria admirado toda aquela beleza. Era estonteante. Os olhos, da mesma cor do cabelo, eram ousados. Os lábios, carnudos e de um vermelho quase sangue, mostravam um sorriso desafiador. As suas formas fariam inveja a qualquer mulher e a forma como caminhava revelava poder e confiança.
Todos olhavam para Lady Lilith que se aproximava como se estivesse apenas a comparecer a uma pequena reunião de amigos. Diogo sentia a tensão que provinha de todos os outros. Até mesmo Matilde estava apreensiva.
Lilith parou a cerca de três metros do grupo, numa pose que em qualquer altura Diogo teria considerado muito sensual, pois nada daquilo era propositado, o charme e a sedução pareciam ter nascido com ela. Observou-os a todos individualmente tendo demorado mais tempo em Sofia e em Samuel. Sorriu aos dois, acompanhado por um pequeno inclinar de cabeça, como se estivesse a cumprimentar velhos amigos. Samuel permaneceu calmo e tranquilo, porém Sofia apertou ainda com mais força as suas espadas que fizera surgir mal Lilith aparecera. Diogo lembrou-se que Lilith fora um dos demónios a quem Sofia prestara vassalagem quando se tornara num anjo caído. Lilith ignorou Júlio assim que os seus olhos passaram por ele e parecia avaliar Matilde com alguma atenção. No entanto, foi ao ver Diogo que toda a sua postura revelou estar ali somente por ele. À medida que o seu olhar de mel o observava atentamente, Diogo conseguiu perceber que ela estava à procura de semelhanças ou com Luz ou com aquele que era o seu pai.
- A tua mãe jurou-me que tinhas morrido…aquela cabra afinal era mais esperta do que eu pensava! – atirou-lhe Lilith num tom de voz aveludado mas impregnado de desprezo – Cometi um erro ao pensar que ela nunca se atreveria a mentir, a quebrar o juramento que todos os anjos fazem e que a tua mãe sempre se recusara a desrespeitar.
Diogo sentia a raiva e a vontade de a atacar a crescer dentro de si, mas conseguiu manter-se lúcido e controlar-se. Não ganharia nada com isso, precisava de informações sobre os seus pais e o combate anterior com Belial fizera-o perceber que isso era o mais importante, a vingança ficaria para depois, mais cedo ou mais tarde teria o seu combate com Lilith, a assassina da sua mãe.
- Lembro-me muito bem dela… - continuou Lilith sem deixar de olhar para Diogo – Foi criada pouco tempo depois de eu sair do Paraíso…toda ela era perfeita, adorada por todos, leal, cumpridora de todas as regras dos anjos, integra… - ao fazer esta lista, Lilith revelou todo o seu desprezo pelas qualidades enumeradas. – A idiota sentia-se superior a todos, até mesmo superior a mim…eu que fui a primeira mulher a ser criada… - este acontecimento parecia ser motivo de orgulho para Lilith que por momentos pareceu dispersar-se, mas por pouco tempo - Porém, não fui eu quem cometeu o pior dos pecados…foi a querida Luz…quando todos pensavam que ela se mantinha pura e fiel aos ideais dos anjos, o que é que ela andava a fazer? – o tom de voz de Lilith aumentou denunciando todo o ódio que ainda sentia por Luz, mesmo depois de tanto tempo – Andava a pôr-se debaixo do MEU Príncipe! E com aquela cara de inocente…NÃO ERA DIFERENTE DE MIM!
- ERA SIM! – gritou-lhe Diogo sem conseguir conter-se mais – Ela apaixonou-se! – atirou Diogo apesar de ele mesmo ter dificuldade em acreditar ser possível um anjo com a reputação de Luz poder amar um Príncipe do Inferno.
- Paixão?! – desdenhou Lilith – Eu saí do Paraíso por me ter apaixonado pelo Sammael e fui renegada e considerada uma traidora do mais alto nível, mas a querida Luz não, a coitadinha da Luz apaixonou-se, entregou-se aos prazeres carnais e mesmo assim continua a ser idolatrada e a ser considerada uma mártir…ELA NÃO FOI DIFERENTE DE MIM EM NENHUM MOMENTO, ELA FEZ EXACTAMENTE O MESMO QUE EU!
- Tu entregaste-te ao pecado, tu geraste demónios atrás de demónios por belo prazer, usaste magia negra para te tornares na primeira bruxa da humanidade… - atirou-lhe subitamente Sofia – A luz pode ter cometido um erro, mas nunca houve um anjo mais leal e fiel do que ela…
- De erros percebes tu, não é Ariel? – atirou-lhe Lilith com um sorriso – Tu também te deixaste seduzir…
- Eu fui enganada… - defendeu-se Sofia.
- E não é por causa disso que te arrependes da tua escolha, pois não? – continuou Lilith satisfeita com o silêncio de Sofia.
- A Luz era tão pecadora quanto eu, mas ao contrário de mim era uma sonsa, eu não escondia nada, mas ela conseguiu durante dois anos inteiros esconder o seu segredo mais precioso…MAS EU DESMASCAREI-A…como é que ela se atreveu a aproximar-se dele, a tocar-lhe, a beijá-lo – o olhar de Lilith revelava apenas ódio puro, mas parecia falar apenas para si própria – Ele andava diferente, andava a esconder-me algo, eu não podia suportar que tivesse outra, mas quando descobri que era a Luz, não podia deixar aquilo impune…
- E por isso mataste-a! – concluiu Diogo com a voz a tremer. Lilith voltou a encará-lo.
- Não quis acreditar no que os meus olhos viam…ela beijava-o como se ele lhe pertencesse, como se ela fosse a única na sua vida…não podia deixar que continuasse a pensar assim, ele podia ter outras, mas eu era a única para quem ele sempre voltava…não admitia que ela acreditasse no mesmo!
- Então mataste-a apenas por ciúmes? – perguntou-lhe Diogo com desdém.
- Não era uma questão de ciúmes, mas sim de pô-la no seu devido lugar…seguia-a nessa noite para a matar, mas para minha surpresa ela voltou ao céu…aquilo baralhou-me, ela era agora um anjo caído, era impossível regressar, no entanto eu vira-o com os meus próprios olhos. – explicou Lilith como se estivesse a falar pela primeira vez de tudo aquilo – Comecei a ficar atenta aos seus passos, seguia-a para todo o lado, via-a continuar com as suas funções de Anjo Serafim, via-a continuar a conviver com os outros anjos, a ser idolatrada por todos eles, via-a esconder durante semanas o seu segredo, sem nunca ser descoberta, sem nunca sofrer as consequências que eu fui obrigada a amargar…não era justo…por isso uma noite decidi confrontá-la…sabia onde é que eles se encontravam e esperei lá por ela…viu-o a andar de um lado para o outro, sempre a olhar para o relógio de parede, a estranhar o atraso da Luz tal como eu. – recordou – Pensei que ela devia estar numa das suas missões e o mesmo deve ele ter pensado porque quando a noite começava a tornar-se dia, desistiu de esperar e voltou para casa. Fiquei a observá-lo partir e quando percebi que já o tinha feito, preparei-me também para ir embora, mas quando me voltei para trás vi a Luz. Ela não conseguia ver-me, mas eu vi-a muito bem a fitar o ponto onde ele tinha desaparecido. Parecia confusa e várias lágrimas escorriam-lhe pela face…por breves instantes pensei que ela me tinha visto, mas quando a vi pousar a mão no ventre com tamanha delicadeza e protecção percebi de imediato…nunca senti tanta raiva, nunca me senti tão traída…não era suposto um anjo conceber, não era suposto um anjo gerar uma criança, mas naquele momento eu percebi que a Luz estava grávida…aquela maldita estava a gerar um bebé dele…eu não ia admitir isso NUNCA!
Todos ouviam atentamente o relato de uma história que tantas perguntas sem resposta tinha suscitado. A morte de Luz sempre permanecera envolta num mistério que era agora deslindado sem dó nem piedade pela sua própria assassina. Samuel bebia cada palavra de Lilith, quase parecia nem respirar não fosse ela desistir de continuar a deslindar todo aquele mistério à volta da sua preciosa Luz. Diogo sentia a tensão que emanava do seu antigo psicólogo e a curiosidade estampada na face de Sofia. Matilde mantinha a boca aberta como se estivesse a ouvir uma história de terror e Júlio apertava com força o machado que segurava na mão. Diogo queria atacar Lilith, mas a curiosidade falava mais alto e por isso, tal como os outros, ouvia com atenção.
- Ela viu-me nesse preciso momento e deve ter visto na minha expressão que eu percebera tudo…tentou fugir, mas eu fui mais rápida, segurei-a num braço e apontei a minha lâmina afiada ao seu ventre…aquilo deixou-a aterrada – Lilith mostrava agora satisfação. – Eu ia matá-la ali mesmo, a ela e à criatura que estava a crescer dentro dela, nem todos os anjos juntos conseguiriam impedir-me! Mas foi nesse momento que ele voltou e a Luz não perdeu essa oportunidade, chamou-o e eu não tive outro remédio senão desaparecer, mas não sem antes lhe dar o devido recado…ela percebeu que eu falava a sério quando lhe disse que ia persegui-la até conseguir matá-la a ela e ao filho…nada nem ninguém iria impedir-me. Ela correu para os braços dele pela última vez e tal como prometido quase três anos mais tarde…
- MATASTE-A! – gritou Samuel enraivecido ao mesmo tempo que com a sua enorme foice investia contra Lilith. Esta fez surgir com a rapidez de um relâmpago um bastão negro de duas lâminas costas com costas e defendeu-se sem qualquer dificuldade atirando Samuel ao chão.
- Sempre tão dramático... – disse-lhe Lilith divertida ao mesmo tempo que lhe apontava ao coração a lâmina afiada da sua arma – Lembro-me de ti bem mais divertido… - disse piscando-lhe o olho com malícia – Mas desde que ficaste maluquinho por aquela oferecida…
-NÃO FALES ASSIM DA LUZ…NUNCA SERÁS NEM UM TERÇO DAQUILO QUE ELA FOI – gritou-lhe Samuel de forma desafiadora, mas Lilith apenas revirou os olhos endireitando-se e devolvendo toda a sua atenção novamente a Diogo.
- E tu, não vais tentar vingar-te? – perguntou a Diogo
- Quero saber onde estão os meus pais – disse-lhe apenas Diogo controlando a sua raiva.
- Estou a ver que o drama abunda por aqui…foste buscar isso à tua preciosa mãe… - disse como se aquilo a enjoasse – Para que é que queres aqueles humanos? Não te servem de nada…
-São os meus pais…diz-me onde eles estão…
- E o que acontece se eu não disser? – Atiçou-o ela.
- Nesse caso eu vou acabar aquilo que a Luz começou… - disse-lhe Diogo desafiadoramente o que provocou uma gargalhada sonora em Lilith – Podes ser parecido com a tua mãe, mas a insolência do teu pai é notória…tal como esse olhar… - completou adoptando uma postura mais séria ao ver o tom encarnado a substituir o azul cristalino dos olhos de Diogo. – Isto vai ser divertido…
Atacaram-se mutuamente. A velocidade era estonteante, a força era avassaladora e a destreza no manuseio das armas verdadeiramente impressionante. No entanto, Diogo conseguia perceber que apesar de ele estar a dar o seu máximo, o mesmo não acontecia com Lilith. Para ela aquilo parecia não passar de uma simples brincadeira.
- Tens bons reflexos – elogiou-o Lilith olhando de seguida para a espada negra de Diogo – Manuseias bem a tua espada e sabes mexer-te…no entanto para filho de um Príncipe esperava mais, principalmente sendo ele quem é…
- Quem é ele? – perguntou por fim Diogo.
- Não te vou facilitar a vida meu querido – negou-se Lilith fazendo a sua arma desaparecer. Ao ver a expressão de Diogo completou – Não te preocupes, vamos voltar a encontrar-nos…até lá vai treinando, nem sequer me fizeste suar! – atirou-lhe e depois virou-se para Sofia – Sempre gostei de ti Ariel…devias pensar seriamente em voltar a prestar-me vassalagem – riu-se perante a expressão repulsiva de Sofia. Atirou um beijo a Samuel e piscou o olho a Matilde.
- Vamos voltar a encontrar-nos! – assegurou-lhe Diogo antes que Lilith desaparecesse – E quando chegar esse momento eu vou vingar a Luz!
- Vou ficar a aguardar…até lá, eu tomo conta dos teus queridos pais… - disse num tom malicioso desaparecendo logo de seguida à frente de todos eles com um pequeno estalo sonoro.
- Diogo… - murmurou Júlio colocando-se ao lado do amigo que continuava a olhar para o local onde Lilith tinha desaparecido – O que é que estás a pensar?
- Só me faltam dois pendentes… - disse subitamente Diogo com determinação – Vou buscá-los e depois vou ter com Lady Lilith para vingar a Luz e para levar os meus pais de volta a casa. – concluiu decidido.
- Ela está a preparar alguma… - disse Sofia - …ela nunca deixou alguém vivo quando podia simplesmente eliminá-lo…existe um interesse por trás de tudo isto, desta visita…
- Mais cedo ou mais tarde vamos descobrir. “Paciência e tempo podem mais que força e raiva” Jean de la Fontaine – interveio Samuel fitando igualmente o lugar onde Lilith tinha desaparecido - Mas sabes que para obteres os pendentes que faltam terás de matar aquele que é o teu pai… - lembrou-lhe.
- O meu pai é aquele que me criou…nenhum Príncipe do Inferno vai impedir-me de voltar a encontrar a Lilith e vingar o assassínio da Luz e recuperar os meus pais – Diogo sentia a raiva dentro de si, mas começava a conseguir controlá-la, focar-se num objectivo ajudava-o e era isso que ia continuar a perseguir. – Compreendo se não quiserem continuar comigo… - o seu olhar passou por Sofia que não o fitava - …a partir de agora tratar-se-á de uma caça aos pendentes…não sei porque é que eles têm este efeito em mim, mas são a única forma para conseguir chegar ao nível de Lilith e ter alguma hipótese num confronto…
- Nem penses que vou perder a continuação desta visita guiada ao Inferno! – disse-lhe Júlio com sorriso travesso.
- Onde estiver a Lady Lilith estará a Aaba – disse simplesmente Sofia – Não és só tu que tem umas contas para ajustar!
- Fiz uma promessa à Luz e tenciono cumpri-la! – disse Samuel piscando o olho a Diogo que sentiu um calor familiar invadi-lo.
- Acham que quando eu crescer vou ficar com um cabelo tão bonito como o da Lady Lilith? – perguntou subitamente Matilde surpreendendo todos ao ponto de desatarem a rir às gargalhadas.
- Matilde, o teu cabelo será mais invejado do que o da Lady Lilith! – respondeu-lhe Diogo dando origem a um enorme sorriso no rosto de Matilde.
- Tu por acaso estavas a ouvir alguma coisa do que estávamos a dizer? – perguntou-lhe Júlio, mas antes que Matilde respondesse, ouviram passos vindos de trás. Viraram-se todos em simultâneo, mas apenas encontraram Tânia que se aproximava timidamente. Sofia virou de imediato as costas pondo-se a examinar as suas espadas de duas lâminas.
- Lamento não poder ter estado aqui com vocês, eu…Bem, quero que saibas que podes contar comigo, farei de tudo para te levar novamente à Lady Lilith se esse for o teu desejo – informou-o decidida. Diogo sorriu-lhe agradecido.
- Para onde vamos agora? – perguntou Júlio ao mesmo tempo que guardava o seu machado na mochila junto com os restantes.
- O reino mais próximo é o de Sammael… - murmurou Tânia. Sofia sobressaltou-se por momentos, mas ao sentir o olhar de Diogo voltou a ficar impassível.
Diogo sabia que para ela aquilo era voltar a reencontrar o Príncipe a quem jurara vassalagem. Mas para Diogo era a possibilidade de estar cara a cara com aquele que casara com Lady Lilith…seu pai ou não, era uma fonte de informações sobre a assassina da sua mãe.
- Então é para lá que vamos! – Disse. Ao ouvir isto Tânia encaminhou-se na direcção que os levaria para o reino de Sammael, para o reino do Príncipe do Fogo.
- Irá demorar muito tempo a passarmos a fronteira? – perguntou Júlio.
- Menos de uma hora – respondeu-lhe Tânia e todos a seguiram.
- O que podes dizer-me sobre este Príncipe? – perguntou Diogo aproximando-se de Tânia, assumindo assim, juntamente com ela, a liderança da caminhada que terminava em Sofia.
- Bem como sabes ele controla o elemento fogo…
- Nesse caso podemos contar com um lugar bem quente! – brincou Diogo, mas Tânia manteve-se séria.
- O nome deste príncipe significa veneno - descreveu Tânia – Por aqui já podes perceber que as suas intenções são as mais perversas, malignas e corruptas. É também conhecido como o anjo da morte, pois é aquele que consegue fazer mais vítimas entre os humanos e também aquele que extinguiu mais anjos – aqui a voz de Tânia tornou-se num murmúrio, como se tivesse medo que Samuel ou Sofia a ouvissem. – Foi ele quem ajudou Lady Lilith a fugir do Paraíso e foi também ele quem lhe apresentou o mundo da bruxaria e da sabedoria mística. Ela era completamente apaixonada por ele, casaram, mas isso não os impediu de manterem outras relações e é assim até hoje. Sozinhos aterrorizam tanto demónios, como anjos ou humanos, mas juntos são o pesadelo de qualquer um. Dizem, também, que ele era a serpente encarregada de tentar a Eva no Paraíso, mas nunca nenhum dos Príncipes confirmou ou desmentiu a suspeita. – Tânia ficou pensativa antes de continuar – Nega por completo a existência de Deus e de qualquer ser acima do “EU” – Tânia imitou o sinal das aspas ao dizer a dizer a última palavra.
- Temos então um egocêntrico!
- É cheio de artimanhas, muito inteligente e racional…tudo o que faz é premeditado ao pormenor, até mesmo cada suspiro, cada pausa, cada expressão…
- Já percebi que nunca foi o teu preferido – brincou Diogo, conseguindo arrancar um sorriso a Tânia.
- Só quero ter a certeza que sabes tudo sobre ele, tens de estar preparado, Sammael não é como Leviathan ou Belial…ele é…demoníaco! – concluiu Tânia ansiosa – Ok, os outros dois também eram, mas Sammael é…
- Tânia acalma-te! – pediu-lhe Diogo fazendo-a parar e virando-a de frente para si – Vai correr tudo bem! – garantiu-lhe olhando-a bem nos olhos para lhe passar confiança.
- Pensei que estávamos com pressa! – disse de repente Sofia passando por eles. Diogo olhou à sua volta e só aí percebeu que já todos os tinham ultrapassado sem se ter dado conta. Olhou novamente para Tânia que continuava a olhar para ele muito atentamente.
- É melhor irmos andando… - disse algo atrapalhado. Tânia seguiu-o sem proferir nenhuma palavra.
O resto da caminhada passou-se em silêncio. O grupo estava agora mais próximo, incluindo Sofia.
- Estamos a chegar… - disse subitamente Tânia e todos pararam.
Tal como tinha acontecido na fronteira entre o reino de Leviathan e de Belial, todos ficaram lado a lado a observar uma planície igual àquela em que se encontravam.
- Basta dar um passo, não é assim? – lembrou Júlio que parecia engolir em seco.
- Um passo! – assegurou Tânia a olhar em frente tal como os outros.
- Bom…caso volte a ficar inconsciente, tentem resolver tudo antes de eu voltar a acordar! – brincou Júlio apesar de o nervosismo estar patente na sua voz.
- É agora… - murmurou Samuel e como se aquilo fosse um sinal, todos levantaram um pé dando um passo em frente.
Tudo mudou drasticamente. O cheiro a enxofre entrou pelas narinas de Diogo como se tivesse levado um murro. Sentiu a sua cabeça a ficar zonza e os olhos a queimarem devido ao fumo que os rodeava. À sua volta tudo era fogo, havia poças de algo que faziam lembrar lava borbulhante. Apesar do fumo conseguia vislumbrar ao longe aquilo que lhe parecia vulcões activos. O calor era abrasador. Diogo ainda estava a tentar habituar-se ao ambiente, quando percebeu que alguém se aproximava. Não conseguia distinguir o vulto, mas era de certeza um homem. De repente o fumo dissipou-se e Diogo conseguiu deixar de pestanejar ao mesmo tempo que tentava evitar as lágrimas devido ao ardor que sentia na vista. Assim que conseguiu focar a imagem, o que viu deixou-o de boca aberta.
“É impossível…” – pensou Diogo olhando de imediato para Samuel que se encontrava ao seu lado também de olhar fixo no homem que estava à frente deles. Viu os restantes reagirem da mesma maneira, todas as cabeças se viraram para Samuel alternando entre este e o outro homem.
Diogo viu a expressão de Samuel. Havia ali uma mistura de medo e de incredulidade. Desviou o olhar do anjo potência e dirigiu a sua atenção ao outro homem. Se a sua visão não o estava a enganar, Diogo tinha à sua frente outro Samuel. O cabelo podia ser curto e as roupas mais escuras, mas era Samuel que também os fitava do outro lado. Algo de muito estranho estava a passar-se. Seria um truque do Príncipe do Fogo? Diogo viu a foice gigante de Samuel aparecer na mão deste. Preparava-se, também, para invocar a espada de Metatron, quando as palavras proferidas por aquele homem idêntico a Samuel lhe toldaram por completo os seus pensamentos.
- Então Shemjaza, isso são modos de cumprimentar o teu irmão Azazel?
Aqueles nomes não significavam nada para Diogo, mas ao ver as expressões chocadas dos seus amigos e o facto de Sofia, Júlio e inclusive Matilde se afastarem de Samuel como se tivessem sido electrocutados, deixou-o mais aterrorizado que ter de enfrentar todos os Príncipes do inferno ao mesmo tempo.