I - A EXTINÇÃO DE UMA LUZ
Os seus cabelos compridos, de um louro quase branco, esvoaçavam à medida que ela corria pela floresta dentro. Sentia-se como se o diabo viesse atrás de si. A criança que carregava nos seus braços embrulhada em mantas parecia nem sequer se aperceber do perigo que ambas corriam enquanto atravessavam aquele arvoredo denso, na esperança de terem conseguido escapar. A mulher olhou para o seu bebé que não parecia ter mais de 1 ano. Olhou-o com aqueles grandes olhos que esbanjavam ternura e amor de um azul cristalino e a criança encarou-a com a mesma cor de olhos e sorriu-lhe, como se aquela corrida não passasse de uma mera brincadeira. Abrandou o passo e pôs-se à escuta. O silêncio era total, tudo ali parecia ter a respiração suspensa, na expectativa. Pensou que conseguira escapar e chegou mesmo a suspirar de alívio. Preparava-se para voltar a seguir um caminho, agora mais calma, quando de repente ouviu uma gargalhada…maléfica, perigosa, obsessiva…o seu mundo desmoronou-se ao ouvir tal gargalhada…estava perdida, nada nem ninguém a poderia salvar a ela. Mas não podia ter medo, tinha de proteger o seu bem mais precioso, não podia deixar que aquele ser desprovido de qualquer sentimento de compaixão ou misericórdia se aproximasse do seu filho…nunca!
Com um carinhoso beijo na testa da criança, a mulher pousou-o no chão junto ao tronco de uma árvore, abrigando-o do frio. Abriu um pouco as mantas que o rodeavam, tirou do seu próprio pescoço um fio com uma pequena medalha pendurada nele e colocou-o, delicadamente, no pescoço do seu filho. Murmurou-lhe umas palavras enquanto a criança olhava para ela a sorrir. Deixou que umas lágrimas lhe escorressem pela face. Só aí a criança começou a perceber que algo de errado se passava, mas antes que também a criança começasse a chorar, a mulher voltou a tapá-la com os cobertores e olhando-a uma vez mais com aqueles olhos grandes e azuis cheios de tristeza, mas agora também, decididos, murmurou-lhe uma pequena oração e, de seguida, afastou-se.
Não fugiu, não chorou, não se entregou ao medo ou pânico, limitou-se a caminhar até uma clareira e aí, ainda envolta na sua capa cinzenta, esperou…Pouco depois ouviu passos vindos de trás de si, endireitou-se, ocupou uma postura de guerreira e virou-se para encarar o seu inimigo.
Antes de qualquer coisa sentiu o cheiro do pecado, do ódio, do rancor, da inveja, do ciúme e de tudo aquilo a que estava destinada a combater desde que fora criada. Naquele momento estava sozinha, a ajuda não ia chegar, mas sabia que o seu filho em breve estaria protegido e isso bastava-lhe. E foi então que a viu surgir por entre a penumbra do arvoredo. Primeiro a sua sombra e depois, à medida que a sua perseguidora se aproximava mais da clareira, viu-a nitidamente...Era uma mulher extremamente bela. Envergava vestes pretas que lhe delineavam o corpo esguio. Não era propriamente roupa, mais pareciam trapos, mas de uma elegância notável que a permitiam movimentar-se com a perícia e rapidez de uma temível assassina. Parecia uma mulher delicada cujo cabelo comprido e loiro esvoaçava atrás de si, caminhando descalça através da clareira. Nas suas costas transportava asas. Asas enormes, tão delicadas quanto mortíferas e negras como a noite. Caminhava determinada, com movimentos fortes e femininos. Apesar de a sua expressão nada demonstrar, os seus olhos de um tom de avelã pareciam faiscar, presos na mulher que a aguardava do outro lado da clareira. Olhos que já haviam presenciado todo o tipo de injustiças e derramamento de sangue. Olhos que, pareciam sorrir como se a dona daquele olhar estivesse prestes a fazer algo que lhe daria imenso prazer. Por fim parou. As duas mulheres estavam agora a cerca de 3 metros de distância uma da outra e fitavam-se mutuamente.
- Luz! – murmurou num silvo a mulher de asas negras dirigindo-se à sua rival. Aquilo não passou de um murmúrio, mas o ambiente naquela clareira tornou-se ainda mais gelado.
- Lilith! – murmurou igualmente a dona daqueles olhos de um azul cristalino.
- Já ouvi falar muito de ti, sabes? – continuou Lilith com um sorriso trocista – Confesso que cheguei a sentir alguma inveja, ciúmes até, mas agora que estás diante de mim…vejo que és apenas um desperdício de tempo! – concluiu Lilith tentando provocar a sua adversária que continuava em silêncio. – Que estranho! – continuou provocativa – Pensei que eras de uma importância muito elevada para eles, mas nunca, em momento algum, vieram em teu socorro. – atirou ela com desprezo. Fez-se silêncio e como a outra nada dizia continuou – Eles não sabem de nada pois não?
Luz continuou sem responder, mas também não era necessário. Em qualquer outra ocasião teria um exército pronto a dar a vida por ela, a fazer de tudo para a salvar. Mas desta vez não, ninguém sabia do seu paradeiro e muito menos do que se tinha passado nos últimos tempos. Não podia dar-se ao luxo de sequer os chamar. Se descobrissem tudo, poderia provocar uma guerra, pôr em perigo a existência do seu filho…o seu filho…não podia permitir que algo de mal lhe acontecesse. Não tinha certeza se a oração que tinha feito perto do seu filho minutos antes alcançara o seu resultado e neste momento só podia acreditar que sim…mas então porque é que não ouvia qualquer barulho perto dele. E quanto a Lilith, saberia ela mesmo de tudo? Saberia ela da existência do seu filho?
- O que lhe aconteceu? – perguntou de repente Lilith afastando Luz dos seus pensamentos. Baralhou o medo estampado nos olhos de Luz com confusão e por isso refez a sua pergunta - O que aconteceu à criança? Onde está ela? – como Luz continuou sem responder continuou – Eu sei que tiveste um filho, não negues! – Lilith falava muito calmamente, mas com uma frieza de arrepiar.
Várias lágrimas escorregaram dos olhos de Luz que estavam mais brilhantes do que nunca e murmurou – Não sobreviveu!
- Não ouvi o que disseste! – disse cruelmente Lilith já com um sorriso a formar-se nos cantos da boca – Terás de repetir mais alto – aquilo não fora um pedido.
Parecia que Luz não ia ceder às ordens de Lilith, mas de repente gritou:
- Morreu!!! Um dos teus demónios… - a voz falhou ao lembrar-se de como quase perdera o seu filho umas horas antes.
Uma gargalhada gélida percorreu a clareira. Lilith vibrava de contentamento com aquela notícia e as lágrimas de Luz pareciam contribuir, ainda mais, para isso. Além do mais Luz não podia mentir e Lilith sabia disso. Mas para proteger o seu filho Luz já não se importava com as consequências.
“Porque é que o resultado da sua oração estava a demorar tanto tempo?” Pensava Luz. O seu bebé ainda ali estava, ela sentia-o…só esperava que Lilith não o sentisse. Luz observava Lilith que rejubilava. Durante séculos que sonhara com aquele frente a frente com Lilith e agora só desejava que ela se fosse embora. Mas essa não era a ideia de Lilith e Luz sabia-o muito bem e percebia pelos olhos de Lilith que o momento aproximava-se.
- Ele soube da sua existência? – perguntou Lilith rispidamente
- Não, nunca… - murmurou Luz e Lilith voltou a sorrir.
- Apesar das excelentes notícias que acabas de me dar… - Lilith saboreava cada palavra e o impacto que elas tinham em Luz - …sabes que não posso deixar-te partir! – Sorriu deliciada.
- Nunca quis que alguém saísse magoado com tudo o que… - começou Luz
- Poupa-me! – cortou imediatamente Lilith agora toda ela libertando uma força demoníaca através do seu corpo e fazendo aparecer na sua mão uma arma. Uma arma que fazia lembrar um machado, mas cujo cabo tinha o triplo do tamanho normal acabando na ponta com duas enormes lâminas afiadas encostadas uma na outra. A da frente com o dobro do tamanho da detrás, ambas prontas a cortar tudo aquilo em que a sua dona tocasse.
Lilith tocou com ela no chão proporcionando não só um tremor de terra como também uma rajada de vento que fez voar a capa cinzenta de Luz. Sem a capa, Luz não estava apenas toda ela vestida de branco e dourado, a sua aura era, ao contrário da de Lilith, luminosa e quente. Irradiava paz e serenidade. Por momentos revelou medo, não por ter de enfrentar Lilith, mas porque, devido ao tremor de terra provocado por esta, o seu filho começara a chorar. Para que a sua rival não percebesse, só havia uma coisa a fazer…lutar até perceber que o seu filho estava finalmente a salvo.
Assim, Luz olhou decidida para Lilith, que lhe sorriu deliciada com aquele momento. Sem mais demoras, com uma rajada de vento, das costas de Luz saíram umas enormes asas brancas e na sua mão surgiu uma arma. Parecia um bastão do mesmo tamanho do machado de Lilith, mas ao contrário da arma da sua rival, este acabava numa cruz. E para finalizar, por cima da sua cabeça, quase passando despercebida, encontrava-se uma auréola. As duas estavam finalmente prontas para a iminente batalha que se tornara inevitável.
- Ele sabe que estás aqui Lilith? – perguntou-lhe de repente Luz. E, pela primeira vez, viu, no olhar da sua adversária, uma centelha de medo.
Ao medo deu lugar a raiva e sem mais demoras Lilith lançou-se a Luz que reagiu no exacto momento. Não caminharam, não correram. Os seus pés nem sequer pareciam tocar no chão quando as suas armas foram de encontro uma à outra provocando uma luz intensa e um estrondo capaz de fazer arrepiar o mais corajoso dos homens. Das suas armas saltavam ataques invisíveis que eram bloqueados pela outra. Havia ramos de árvores a cair à sua volta, pedras a levantarem-se do chão, raios, trovões, poeira. Mas nada disso parecia distrair-lhes a atenção. Lutavam fervorosamente, como se não houvesse mais nada para além delas. E foi então que Luz, com destreza, conseguiu atingir Lilith derrubando-a ao chão. Lilith foi atirada pelo ar indo cair a alguns metros de distância de Luz. Parecia surpreendida ao levantar-se e ao aperceber-se que do seu braço estava a escorrer sangue. Olhou furiosa para Luz. Esperava vê-la a vangloriar-se, mas ao contrário disso, o olhar de Luz não reflectia orgulho, vaidade ou altivez. Luz parecia apavorada, aterrorizada mesmo. Lilith não percebeu o porquê daquela reacção, mas se tivesse olhado para trás, teria visto a criança que, tendo-se visto livre das mantas envolvidas à sua volta pela mãe, se encontrava sentada, ali na clareira, a olhar para a sua mãe. Parara de chorar, pois agora olhava para Luz com ternura e alegria ao mesmo tempo que sorria. Para horror de Luz, o seu filho preparava-se para começar a gatinhar na sua direcção e ela sabia que era uma questão de tempo até Lilith dar pela sua presença. Lilith por sua vez, apesar de estranhar o comportamento de Luz, nem pensou duas vezes. Sem perder a oportunidade contra-atacou acertando, em cheio, em Luz que tal como Lilith foi arremessada pelo ar indo embater numa árvore que acabou por mantê-la de pé. Agora era Luz quem sangrava e uma vez que não amparara o golpe, o seu estado era muito pior. Algumas partes das suas roupas estavam rasgadas e manchadas de sangue revelando cortes profundos.
Não era altura para desesperar, pensou Luz, tinha de afastar Lilith do seu filho. Não se importava com o que lhe podia acontecer a si. Nesse momento, com um bater de asas levantou voo e felizmente Lilith seguiu atrás dela. A velocidade das duas era alucinante. Pararam subitamente ambas a cerca de 200 metros do chão prontas para reiniciarem o combate. E foi nesse momento que Luz o pressentiu, a sua oração tinha sido ouvida. Olhou na direcção em que sabia que o seu filho se encontrava, agora, nos braços de alguém que podia protegê-lo. Só queria que o seu filho ficasse a salvo e pudesse levar uma vida normal. Esperava também que um dia a viesse a perdoar e pudessem, quem sabe, ser felizes juntos. Sim era possível que tudo acabasse bem, pensou Luz. Mas Luz nunca o iria saber, pois aproveitando aquela distracção, Lilith desferiu um golpe mortal em Luz. Ao sentir o golpe, Luz abriu muito os olhos, parecia surpreendida. Ainda em direcção à floresta tentou dizer algo, mas nenhum som atravessou os seus lábios. Não chorou nem implorou por misericórdia, apenas sentiu uma grande angústia invadir-lhe o peito quando lhe veio à memória o sorriso do seu filho a olhar para ela com tanta ternura. Amava-o mais do que tudo e ele sabia-o. O golpe de Lilith tinha sido certeiro, ela sabia muito bem como matá-la, sabia como matar um anjo. Com isto Luz, simplesmente desapareceu, fazendo com que o silêncio se abatesse sobre aquela floresta. De repente ouviu-se a gargalhada cruel de Lilith cujo olhar parecia ter enlouquecido. Regressou ao solo e satisfeita consigo mesma, suspirou fundo, e desapareceu nas sombras da floresta sem sequer olhar para trás.
Ainda ali na clareira, um homem, coberto por um capuz cor de prata, transportando o filho de Luz ao colo, saiu detrás dos arbustos. Ficou ali por momentos e depois olhou para a criança que adormecera ao seu colo. Precisava sair dali, precisava afastar a criança daquele mundo o mais rapidamente possível, ou o rapazinho que tinha ao seu colo teria o mesmo destino da sua mãe.II - A RAPARIGA E O MONSTRO
Diogo acordou sobressaltado. Estava subitamente sentado na cama e ainda a tremer, quando percebeu que se encontrava no quarto da residência da sua faculdade. Olhou para o relógio que marcava 6:30 da manhã e depois para a cama na outra ponta do quarto onde dormia profundamente o seu colega de quarto, totalmente coberto pelos lençóis. Levantou-se e caminhou ensonado até à janela de onde já surgiam os primeiros raios de luz do dia. Lá fora ainda estava tudo calmo. Algumas janelas dos outros dormitórios já estavam abertas, mas na rua ainda não existia qualquer movimento. Deixou a janela e olhou para a cama, estava sem sono. Tivera novamente aquele pesadelo que o atormentava desde criança, mas que agora surgia cada vez com mais frequência nas últimas semanas. Agarrou, entre os dedos, na pequena medalha presa a uma fio que trazia sempre ao pescoço e tentou lembrar-se do que tinha visto no sonho. Novamente aqueles olhos de um azul cristalino que transbordavam ternura, asas como aquelas com que os anjos são retratados nas pinturas e que variavam entre o branco e o negro, algo parecido com uma luta que implicava voos e por fim sempre a mesma gargalhada que o arrepiava só de pensar nela. Não conseguia lembrar-se de mais nada e sempre que tentava começava a deixar de ter certeza sobre aquilo que realmente vira no sonho. Com o tempo deixou de dar tanta importância àquele sonho, mas nas últimas semanas assombrava-o todas as noites fazendo-o acordar encharcado em suor e a tremer da cabeça aos pés.
Abanou a cabeça para afastar aquelas imagens da sua mente e visto que já estava bem desperto, fez a cama e vestiu a primeira coisa que encontrou no armário. Já vestido, antes de fechar a porta do seu armário olhou para o espelho de corpo inteiro que estava preso na porta do mesmo e viu o seu reflexo. Nele viu reflectido um jovem de 18 anos a encará-lo. Visto que estava calor resolvera optar por um par de calças de ganga e uma t-shirt preta. Para desespero da sua mãe e às vezes do seu psicólogo, sempre gostara muito da cor preta. Não percebia o que isso tinha de mal, mas parecia ser algo que os deixava nervosos. Era alto, atlético, apesar de nunca ter percebido como adquirira aquela fisionomia visto que não praticava qualquer tipo de desporto e não frequentava nenhum ginásio. Tinha cabelo castanho escuro e liso, de um tamanho que a sua mãe considerava aceitável e o qual gostava de usar completamente despenteado. E por fim aqueles olhos de um azul tão intenso e que sempre o faziam lembrar aquele sonho que o assombrava desde sempre. Pareciam os mesmos olhos, mas sem toda aquela tristeza e ternura de que se lembrava. Deu uma pancada na sua própria cabeça por se ter permitido deambular novamente por aquelas lembranças. O seu psicólogo já lhe tinha dito que precisava aprender a controlar aqueles sonhos, mas como havia ele de conseguir fazer alguma coisa se nessas alturas estava a dormir?
Fechou a porta do armário e reparou na foto que tinha em cima da sua secretária. Um rapaz com cerca de 15 anos irradiava alegria no meio de dois adultos que o abraçavam com carinho. Eram os pais que sempre conhecera a vida inteira. Diogo sabia, desde os 8 anos, que aqueles não eram os seus verdadeiros pais. Após tantas insistências para que lhe dessem um irmão, a sua mãe não teve outra alternativa senão revelar-lhe que não podia ter filhos e que ele fora adoptado por eles quando ainda tinha pouco mais de um ano. Na altura, para surpresa dos pais, lidara muito bem com aquela descoberta e chegara mesmo a sentir-se mais tranquilo, pois por alguma razão que lhe era desconhecida, apesar de adorar os seus pais adoptivos, nunca se identificara com qualquer um dos dois. Não só fisicamente, pois a sua mãe era ruiva, de cabelos encaracolados e olhos verdes e o seu pai moreno, de cabelo preto e olhos de um castanho muito escuro. Diogo já os havia, igualmente, ultrapassado, em muito, a altura de ambos e nenhum deles era muito dado a um porte atlético. Mas também interiormente…sem saber muito bem porquê, achava que, apesar do esforço de ambos, não conseguiam percebê-lo verdadeiramente. Tal não lhe fazia confusão, eram uns excelentes pais que tudo faziam para o verem feliz e isso bastava-lhe. Tinham feito de tudo para o manter em boas escolas e hoje estava naquela faculdade tão prestigiada graças a eles.
Sem acordar o seu colega de quarto, que agora parecia estar a sonhar em voz alta balbuciando palavras sem sentido, saiu do quarto em direcção ao refeitório da faculdade constatando que afinal estava mais esfomeado do que julgara. Desceu as escadas em passo de corrida e quando estava quase a chegar ao último lanço de escadas algo entrou no seu campo de visão. Parou instantaneamente e olhou para a sua direita, onde se estendia um grande corredor. Estava vazio. Mais uma daquelas sensações. Já não era a primeira vez que aquilo acontecia, muito pelo contrário. Desde pequeno que parecia estar sempre a ver algo que depois simplesmente não estava lá. Nunca conseguiu explicar aquelas sensações de ter visto mais do que aquilo que estava à sua frente. O psicólogo, a que os pais o obrigavam a ir desde pequeno, tentara já várias vezes explicar-lhe algo sobre um ângulo morto que toda a gente possuía e que poderia ser o causador de tais impressões e o seu amigo Júlio apostava que tudo não passava de uma espécie de “dejá vu” seja lá do que for. Algo fazia Diogo acreditar que era mais do que isso, mas passar o tempo todo a pensar nisso só o levaria à loucura, portanto mais valia não dar importância.
Chegou finalmente ao refeitório, estava quase vazio. Duas raparigas ensonadas encontravam-se na fila do pequeno-almoço a servirem-se de cereais. Um rapaz corpulento encontrava-se já numa mesa pronto a devorar aquilo que parecia tudo o que poderia ser encontrado de comestível àquela hora da manhã. E por fim, a um canto, apenas com um copo de sumo de laranja numa mão e um livro na outra, estava uma rapariga. Não era a primeira vez que Diogo via aquela rapariga. Apesar de não saber o seu nome, de nunca na vida ter falado com ela ou sequer se ter aproximado dela mais do que uns 5 metros de distância, sentia que ela se encontrava em todos os momentos e fases da sua vida. Haviam frequentado as mesmas escolas e calculava que ela vivia perto da casa dos seus pais pois encontrava-a em todos os sítios a que ia, e agora ali estava ela na mesma faculdade e na mesma residência que ele. Na escola tinham pertencido a mundos completamente diferentes, ela era popular, participava em todo o tipo de actividades, todos pareciam gostar dela, de estar com ela, de falar com ela. Ao contrário dele, que fazia de tudo para se manter à parte de qualquer tipo de atenção, de qualquer actividade mais social, de qualquer contacto humano. Diogo não sabia porque preferia manter-se à distância. Por vezes sentia que envolver-se com outras pessoas não passava de uma perda de tempo, não via qualquer interesse nisso. Apesar de não o querer reconhecer, às vezes chegava a sentir-se superior aos restantes. Já outras vezes, sentia que não era uma boa ideia aproximar-se de quem quer que fosse, que seria tudo menos uma boa companhia. Resumindo, parecia que ambos se esforçavam por se manterem em mundos tão distintos um do outro, quanto possível.
Diogo, perdido nos seus pensamentos, sem se aperceber que continuava a olhar para a rapariga, assustou-se quando esta fechou bruscamente o seu livro e se levantou dirigindo-se para a saída do refeitório. Não podia negar que era uma rapariga muito bonita, que atraia as atenções de todos os que se encontravam por perto. Tinha uma pele clara que contrastava com o seu longo cabelo negro e olhos de um cinzento tão forte como a cor das nuvens em dia de chuva. Tinha, igualmente, um porte atlético e um ar decidido a cada passo que dava. Apesar de a seguir com os olhos, ela parecia nem sequer reparar na sua presença ou sequer no impacto que estava a ter em todos os que começavam a entrar no refeitório e que não deixavam de olhar para ela. O único que parecia nem sequer tê-la visto era Júlio, seu colega de quarto e melhor amigo desde que se lembrava, e que vinha agora a entrar no refeitório a correr na sua direcção.
Com a sua pele negra que contrastava com o cabelo branco, quase prata, que lhe chegava a meio das costas e olhos de um verde-esmeralda, Diogo tinha a certeza de que, aos olhos dos outros, Júlio era considerado um rapaz muito estranho. As roupas largas que teimava em usar faziam-no parecer mais baixo e menos corpulento do que aquilo que ele realmente era. Diogo já tinha visto Júlio em tronco nu e ficara surpreso com o facto de Júlio ser tão forte e atlético. Desde muito jovem que parecia ter decidido que seria amigo de Diogo combatendo todas as insistências da parte deste para que se afastasse. Nunca percebera porque é que Júlio o escolhera a ele, Diogo, para ser seu amigo mesmo contra tanta relutância, mas Diogo habituara-se à sua companhia e Júlio não parecia preocupar-se com as suas constantes alterações de humor.
- Ei porque é que não me acordaste? – perguntou Júlio já próximo de Diogo e com ar de quem se tinha vestido à pressa.
- Porque achei que ias gostar de continuar com o teu sonho! – respondeu Diogo de repente algo mal humorado servindo-se de cereais.
- Sonho? Que sonho? – perguntou de repente Júlio mostrando-se assustado, para surpresa de Diogo.
- Não sei, disseste qualquer coisa enquanto dormias, mas não percebi nenhuma palavra – informou e Júlio suspirou com alívio, deixando Diogo desconfiado.
- Andas a esconder-me alguma coisa Júlio? – atirou Diogo distraído ao voltar-se para as mesas tentando decidir-se onde iriam sentar-se.
No entanto, tal pergunta, surtiu um efeito inesperado em Júlio, que de repente deixou cair no chão a sua taça de cereais já cheia de leite que se partiu em pedaços. Júlio ficou completamente atrapalhado, mas depressa foi socorrido por uma funcionária que lhe lançou um olhar mal humorado ao mesmo tempo que lhe entregava outra taça de cereais com leite e o empurrava para fora da fila.
- O que foi aquilo? – perguntou Diogo
- Uma taça a partir-se. – informou Júlio ultrapassando Diogo e sentando-se numa mesa ao calhas – Já não fazem taças como no meu tempo! – comentou distraído.
- E que tempo é esse? – perguntou Diogo divertido sentando-se de frente para o amigo.
- É só uma força de expressão ora… - apressou-se Júlio a dizer.
- Pareces nervoso – comentou Diogo começando a comer os seus cereais, mas de repente ficou muito quieto fixando um ponto à sua esquerda.
- O que foi? – perguntou Júlio num tom de voz aflito – O que foi que viste? – voltou a perguntar agora mais alarmado enquanto Diogo continuava calado a olhar para o mesmo sítio.
- Não sei… - disse finalmente, voltando a sua atenção para os cereais.
- São outra vez os tais “dejá vu” ? – perguntou Júlio ao mesmo tempo que baixava o tom de voz.
- Sim acho que sim – limitou-se a dizer Diogo
- E nunca vês mais nada do que isso? – insistiu Júlio algo nervoso.
- Porque é que esta manhã estás tão nervoso Júlio? Pareces à beira de um ataque de nervos! – constatou Diogo parando a colher cheia de cereais a meio caminho da boca.
- É impressão tua! – Afirmou Júlio não parecendo muito convicto do que dizia já que não parava de olhar para todos os cantos. – Então como te sentes ao atingires amanhã a maioridade? – Perguntou mudando de assunto.
- Onde andas com a cabeça Júlio? Eu amanhã faço 19 anos, a maioridade atinge-se aos 18 anos lembras-te?
- Sim claro, tens toda a razão, não sei onde tinha a cabeça – apressou-se a dizer enquanto mexia nervosamente na sua tigela de cereais, ainda cheia.
- Bem de qualquer maneira não será nada de especial, vou almoçar com os meus pais e não passará disso – informou-o – Sabes que não gosto de festas.
- Mas é uma data importante, devias comemorar, fazer algo mais… - começou Júlio novamente distraído.
- Que fixação é essa pelos 19 anos, Júlio? – perguntou Diogo novamente desconfiado.
Mas antes que Júlio pudesse dizer alguma coisa, ouviu-se um forte grito vindo da rua. Todos os que ali se encontravam correram para a rua.
- Não devíamos ir lá para fora… – murmurou Júlio parecendo quase implorar, mas tais palavras não surtiram qualquer efeito em Diogo que se levantou num reflexo rápido, o que forçou Júlio a segui-lo.
Diogo e Júlio seguiram a multidão. Júlio parecia estar a ficar cada vez mais nervoso ao ver Diogo olhar para todos os lados com uma expressão cada vez mais confusa.
- O que se passa? – perguntou Júlio com algum receio ao observar que Diogo continuava com uma expressão aterrorizada a olhar para todos os lados.
- Não estás vê-los?! – perguntou Diogo de olhos muito abertos.
- Quem? – perguntou Júlio verdadeiramente confuso, pois eram os únicos que tinham ficado para trás na multidão que já se encontrava toda na rua.
- Não sei explicar, eu mal consigo vê-los… - continuava Diogo cujos olhos não paravam quietos percorrendo todo o espaço em seu redor - …não passam de vultos, nem consigo sequer fixá-los nitidamente…
- Eles quem Diogo? Estás a deixar-me nervoso! – apressou-se Júlio a dizer olhando para todo o lado – Nós estamos sozinhos, caso ainda não tenhas reparado!
- Vamos despacha-te – Diogo puxou Júlio pela camisola em direcção ao resto da multidão que já estava aglomerada lá fora e abriu caminho entre ela até chegarem ao motivo da curiosidade de todos e ao grito que os levara ali.
Ali, sentada no chão, agora amparada por outros colegas e rodeada por uma multidão, estava uma rapariga que Diogo reconheceu como sendo uma finalista. Estava pálida e banhada em lágrimas ou suor, talvez uma mistura dos dois. Tremia da cabeça aos pés e parecia estar em estado de choque.
- O que aconteceu? – perguntou.
- Foi de certeza uma brincadeira de muito mau gosto – respondeu um colega da rapariga que tentava levantá-la com algum custo, pois ela parecia não ter forças para se manter em pé.
- Eu tenho certeza do que vi! – disse de repente a rapariga sem parar de tremer, mas num tom sem qualquer ponta de dúvida.
- E o que foi que viste? – perguntou o rapaz corpulento que Diogo vira ao chegar ao refeitório e que surpreendentemente trazia uma sandes na mão.
- Um monstro… -revelou ela após alguns segundos de silêncio. Ouviram-se alguns risos abafados entre a multidão e alguns colegas da rapariga lançaram-lhes olhares furiosos
- E como era esse monstro? – perguntou em tom de gozo o rapaz corpulento dando uma dentada na sua sandes. Sem saber muito bem porquê, Diogo sentiu de repente uma vontade imensa de atacar aquele rapaz, fazê-lo engolir aquele sorriso trocista. “O que se passa comigo?” – perguntou para consigo cerrando os punhos ao mesmo tempo que procurava acalmar a sua respiração. Resolveu concentrar-se na história da rapariga que começava agora a falar.
- Tinha três cabeças… - disse quase sem fôlego – sim três cabeças tenho certeza! – repetiu agora mais segura de si mesma, mas fazendo com que algumas pessoas tentassem abafar o riso atrás das mãos ou com as mangas das camisolas. No entanto isto não a impediu de continuar – Ao início era apenas um homem normal. Estava a vir na minha direcção, pensei que ia pedir-me direcções ou algo do género. Lembro-me de achar estranho o facto de trazer um casaco que lhe cobria o corpo todo tendo em conta o calor que está. Mas quanto mais próximo se encontrava comecei a achá-lo estranho, tinha os olhos raiados de sangue… - parou para respirar fundo antes de continuar – Quando estava a apenas dois passos de distância…foi horrível… - disse ela começando a soluçar.
- O que se passou depois? – insistiu um rapaz que estava por perto. A rapariga respirou fundo, novamente, limpando as lágrimas, antes de voltar a falar.
- De repente além da cabeça do homem surgiu a cabeça de um touro e também a cabeça daquilo que me parecia ser um carneiro… - a sua voz falhou devido a um novo ataque de choro e uma das suas amigas abraçou-a.
- E o que é que ele fez a seguir? – perguntou o rapaz corpulento que já tinha comido toda a sua sandes – Começou a bufar como um touro ou a balir como um carneiro? – e com isto desatou a rir às gargalhadas acompanhado por outros colegas que não conseguiam conter mais o riso.
Com isto os colegas da rapariga, indignados, rodearam a amiga e afastaram-se dali com ela ainda a soluçar fortemente.
- Ei Diogo acho melhor voltarmos para dentro – sugeriu Júlio ainda mais nervoso do que o normal sentindo-se cada vez mais desprotegido agora que a multidão começava a dispersar.
- Não me digas que estás com medo de um demónio de três cabeças?! – atirou Diogo divertido voltando-se para o amigo que para sua surpresa parecia ter paralisado de medo fixando-o de olhos bem abertos.
- Um demónio? Achas que é um demónio? – perguntou apavorado.
- Então Júlio, os demónios não existem! – lembrou Diogo voltando-se para seguir o amigo. Mas no preciso instante em que se virou, viu no chão a sombra de umas asas. Olhou para cima, mas não viu nada nem ninguém. A sombra também desaparecera.III - DR. SAMUEL
Acabara mais um dia de aulas. Diogo pegou no seu livro e caneta e apressou-se a sair da sala de aula com Júlio atrás de si.
- De certeza que não queres que eu vá contigo? – perguntou Júlio acompanhando o passo rápido de Diogo
- Já te disse que não. – apressou-se Diogo a assegurar – Não passa de apenas mais uma consulta com o meu psicólogo, nada a que já não esteja habituado.
- Mas e se acontece alguma coisa? – insinuou Júlio – E se…
- Alguma coisa como por exemplo aparecer um demónio de três cabeças à minha frente? – brincou Diogo divertido, mas para sua surpresa Júlio ultrapassou-o quase em passo de corrida e obrigou-o a parar.
- Diogo, promete-me que não te metes em nenhuma confusão! – ordenou repentinamente Júlio muito sério – Se algo te parecer fora do normal não vás atrás, promete-me! – Diogo ia começar a falar mas Júlio impediu-o – Vais directamente para o consultório do Dr. Samuel, ouviste bem?
- O que se passa contigo Júlio? – perguntou Diogo tanto divertido como algo preocupado com a saúde mental do amigo - O que aconteceu hoje de manhã deixou-te mesmo paranóico – comentou – Não te preocupes que eu vou sobreviver – disse sempre divertido, mas tal não mudou o ar sério de Júlio.
- Promete-me! – obrigou Júlio sem brincadeiras fitando Diogo
- Pronto eu prometo, paizinho! – disse finalmente Diogo, mas Júlio não parecia ainda satisfeito por isso acrescentou – Se eu vir algum demónio de três cabeças, prometo que fujo a sete pés na direcção oposta. Satisfeito?
- Não totalmente, mas já é alguma coisa – comentou Júlio voltando a ter uma postura descontraída.
- Então até mais logo! – disse rapidamente Diogo antes que Júlio mudasse de ideias e resolvesse querer também ajudá-lo a atravessar o corredor até à porta da saída e por isso afastou-se quase em passo de corrida.
Diogo sempre considerara Júlio um rapaz algo estranho, parecia sempre com medo de que algo acontecesse ou então que alguém estivesse prestes a chegar. Parecia estar sempre a preparar-se para algo que nunca vinha a acontecer. Diogo já se cansara de lhe perguntar o que é que o deixava num estado de nervosismo constante, mas Júlio ou desviava a conversa ou dizia que era Diogo quem andava a imaginar coisas. No entanto, ultimamente parecia ainda mais estranho e nervoso do que o normal, se é que isso é possível. Parecia estar constantemente a olhar para todo o lado e andava sempre distraído com os seus pensamentos. Diogo chegou-lhe a perguntar um dia se ele não gostaria de ir também a uma consulta com o seu psicólogo, mas Júlio ficou de repente muito sério como nunca antes o tinha visto e disse apenas “Há coisas que nunca se esquecem, mesmo com o passar de tanto tempo.” E sem mais nenhuma palavra fechou-se em silêncio. Diogo nunca percebera aquelas palavras, mas visto que Júlio parecia ficar enervado de cada vez que falava no seu psicólogo achou melhor não voltar a tocar no assunto. De qualquer maneira nas últimas semanas Júlio voltara a ficar mais estranho do que nunca. Com este pensamento na cabeça e a mão na maçaneta da porta para sair da faculdade, Diogo virou-se para trás para ver se Júlio ainda estava ali parado ao fundo do corredor. Antes de reparar no amigo, os seus olhos caíram primeiro sobre a tal rapariga de cabelos negros que estava de manhã no refeitório a beber um sumo de laranja. Ela caminhava na direcção oposta e estava prestes a passar ao lado de Júlio que se encontrava de joelhos a apanhar os livros que devia ter deixado cair quando Diogo se afastou. Para sua surpresa, Diogo, que julgava que Júlio e a rapariga nunca na vida tinham reparado um no outro, viu Júlio levantar os olhos na direcção dela e a mesma fazer um leve acenar de cabeça que passaria despercebido a qualquer um que não estivesse a prestar-lhes tanta atenção como estava Diogo. Mas de repente parecia que nada daquilo acontecera, pois Júlio levantava-se novamente satisfeito por já ter os livros bem seguros e a rapariga juntara-se a um grupo de estudantes e ria divertida com eles.
“Terei imaginado tudo aquilo?” – perguntou-se Diogo ainda parado no mesmo sítio e sem qualquer reacção. Apesar de confuso, abanou a cabeça para abandonar aqueles pensamentos e saiu da faculdade.
Diogo acabava de chegar a um prédio com cerca de cinco andares, tocou à campainha do quarto andar e a porta abriu-se. O elevador tinha um aviso a informar que estava avariado e por isso, mal-humorado, subiu as escadas até ao quarto andar. A porta do consultório já estava aberta. Cumprimentou a secretária com um aceno de cabeça e ela mandou-o aguardar na sala de espera. Dirigiu-se a uma pequena sala. Toda ela estava pintada em tons de azul. Os sofás, sempre confortáveis, eram de um azul-escuro que contrastava com o azul celeste das paredes. Não havia televisão, mas sim uma música de fundo que sempre acalmava Diogo, qualquer que fosse o seu estado de espírito. Uma grande janela ocupava todo o cumprimento de uma das quatro paredes, deixando entrar raios de sol luminosos que aqueciam a sala tornando-a ainda mais acolhedora. Um jarro de margaridas brancas encontrava-se em cima de uma pequena mesa onde tinham sido colocadas algumas revistas e jornais antigos. Por fim na parede em frente ao sofá onde Diogo se sentara, encontrava-se uma tela de um tamanho médio. Aos olhos de qualquer um não passava de uma pintura abstracta em tons de encarnado, laranja, castanho, verde, azul, amarelo e cinzento, cores estas que pareciam misturar-se umas com as outras de uma forma desordenada. Diogo, desde pequeno, que sempre se divertira a imaginar o mais variado número de coisas que pudesse estar representado naquela tela, ou o que o pintor teria na cabeça para expor as cores daquela maneira. Por vezes chegava mesmo a criar histórias provindas da sua imaginação que o levava para um mundo completamente diferente. Porém de uma coisa tinha certeza, aquelas quatro cores convergiam em simultâneo para um único ponto, isto é, para o centro da pintura, onde se encontrava um único e pequeno circulo que fundia o branco e o preto em toda a sua circunferência.
- Vejo que continuas a gostar muito desta pintura – comentou um homem que, apesar de Diogo nem se ter apercebido da sua chegada, se encontrava agora ao seu lado a olhar também para a tela.
- Dr. Samuel… - disse Diogo apanhado desprevenido e olhando agora de frente para o homem que olhava para ele a sorrir. Era o mesmo homem de que sempre se lembrava, nunca parecia mais velho apesar de ser seu paciente desde os seis anos de idade. Aparentava ter sempre entre trinta e cinco a quarenta anos, mas uma vez que já o conhecia há quase treze anos, tal certeza tornava-se algo irrelevante. Diogo sempre achara que o Dr. Samuel devia recorrer à cirurgia plástica ou então tinha geneticamente herdado uma excelente pele. Tinha cabelo loiro que trazia sempre preso num comprido rabo-de-cavalo até ao fundo das costas e por trás dos óculos que ele costumava estar sempre a endireitar fitavam-no uns olhos azuis que na opinião de Diogo pareciam ter muitas histórias para contar, pois sempre que aqueles olhos encontravam os seus pareciam ansiosos por dizer algo que a boca não permitia que fosse revelado. Era mais alto que Diogo e o fato cinzento-escuro que usava acentuava a sua excelente forma física. Sorria-lhe permanentemente com ternura e Diogo, apesar de nunca ter percebido muito bem porque é que tinha de continuar a ir todas as semanas àquelas consultas, sentia-se sempre confortável na presença de Samuel, não só porque tinha um tom de voz que actuava como um tranquilizante, mas também porque algo nele lhe inspirava confiança, como se soubesse que com ele por perto estaria protegido. O que não passava de uma estupidez visto que, para além do seu professor de História, não tinha do que ter medo
- Quando é que te vais habituar a tratar-me só por Samuel? – perguntou-lhe o psicólogo – Antes de ser Doutor, sou teu amigo e agradava-me muito se me visses como tal.
- Claro – concordou Diogo sorrindo-lhe também.
- Pareces-me algo cansado hoje – reparou Samuel
- Devo informar que pelo décimo terceiro ano consecutivo aquele elevador continua avariado – protestou Diogo – Já passou a alguma espécie de ritual manter o elevador avariado ou é mesmo para obrigar as pessoas a fazer exercício? Devo dizer que mais uns aninhos e já não me apanha a subir até cá acima!
- Sempre muito espirituoso! – foi o único comentário de Samuel que começou a conduzi-lo até à sua sala de consultas.
A sala particular de Samuel era igualmente muito acolhedora, no entanto ao contrário da sala de espera, esta estava toda ela decorada em cores de tons quentes que variavam entre o encarnado, o laranja e o castanho, tendo inclusive a um canto uma lareira que Diogo nunca vira funcionar, mas que completava todo aquele ambiente. Perto da lareira encontrava-se uma secretária que Diogo acreditava ser bastante antiga devido aos seus ornamentos e que era completada por um cadeirão. Em cima da secretária, para além do habitual bloco de notas, e em cima do parapeito da lareira, via-se todo o tipo de objectos de decoração. Ou pelo menos Diogo calculava que todas aquelas coisas tivessem uma finalidade apenas decorativa, pois nunca vira nada parecido com o que quer que aquelas coisas fossem. Um dia chegara a pensar que se tratavam de armas devido às suas formas afiadas e até mesmos que algumas dessas coisas se movimentavam sozinhas quando ele parecia distraído. Mas depressa concluiu que só podia estar a alucinar. Para completar aquele cenário, encostada ao longo de uma das paredes tinha sido colocada uma estante que estava apinhada de livros. Livros esses, nos quais Diogo estava impedido de tocar desde o dia em que aos 7 anos os tinha tentado usar como uma escada na tentativa de alcançar mais um daqueles objectos de decoração que tanto o fascinavam. Por fim um sofá enorme em tons de castanho decorado com almofadas cor de laranja encontrava-se do outro lado da lareira e era aí que Diogo gostava de se deitar em todas as sessões a que era obrigado a ir semana após semana. Portanto atirou-se mais uma vez para o sofá estendendo-se ao comprido. Nesta posição ficava de frente para a única tela que se encontrava naquele escritório e de que tanto gostava sem saber muito bem porquê. Estava pintado a carvão o que destoava em muito com o resto da decoração, mas já reparara que Samuel tinha uma verdadeira adoração por aquela pintura. Nela encontrava-se retratada uma mulher, que na verdade era um anjo, ou pelo menos era o que se depreendia tendo em conta que das suas costas saiam duas longas e delicadas asas brancas. Parecia estar a voar, uma vez que toda ela se encontrava ao comprido tendo como pano de fundo o céu escuro, algumas nuvens que a envolviam e penas que esvoaçavam à sua volta. Estava toda vestida de branco e as suas roupas faziam lembrar alguém da realeza. Estava descalça e numa das mãos transportava aquilo que devia ser uma arma. Era um enorme bastão que equivalia a quase todo o cumprimento da sua dona e que terminava em forma de cruz. Mas o que mais deslumbrava Diogo era a cara daquele anjo, principalmente os seus olhos. Tinha um rosto pequeno, todo ele rodeado pelos seus longos cabelos claros que parecia esvoaçar, e para completar, aqueles olhos grandes, cheios de vida, mas ao mesmo tempo tão tristes. Tristeza era a palavra certa para descrever não só os olhos mas também a pintura em si que devido às cores usadas mais parecia uma recordação antiga, uma recordação que não se teria de volta.
Diogo reparou que, Samuel, sentado no seu cadeirão, também olhava para a tela. E viu, como tantas outras vezes que apanhava o seu psicólogo a olhar para aquela pintura, o mesmo olhar triste e saudoso. Já lhe tinha perguntado anteriormente se aquele quadro tinha algum significado para si, mas a única resposta que obteve foi “As palavras não são suficientes para descrever o tamanho do seu significado”. Nunca conseguiu mais do que isto apesar de ter insistido várias vezes. Samuel percebeu que Diogo olhava para ele e por isso apressou-se a começar mais uma sessão.
- Alguma novidade, Diogo? – perguntou, mais como um início de conversa do que propriamente esperando alguma resposta concreta. Por isso não se preparou para o que Diogo disse de seguida
- Parece que temos um demónio de três cabeças a vaguear pelo recinto da faculdade – disse Diogo num tom casual
Samuel, não só se levantou repentinamente com um ar muito sério, como com esse movimento brusco, derrubou uma série de objectos que tinha em cima da sua mesa.
- O que foi que disseste? – perguntou num tom engasgado e de olhos muito abertos por trás dos seus óculos
- Estava a brincar – apressou-se a dizer Diogo sentando-se agora direito no sofá, surpreso com aquela reacção. Uma coisa era Júlio a reagir de uma maneira tão exagerada a um comentário daqueles, outra era o Dr. Samuel agir de forma tão estranha. – Uma rapariga acreditou ter visto um monstro com três cabeças, uma de homem, outra de touro e outra de carneiro…mas tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto – explicou rapidamente.
Apesar de ainda se encontrar algo tenso no momento em que voltou a sentar-se na sua cadeira, Samuel parecia ter descontraído um pouco mais os ombros. Voltou a ordenar os objectos que tinha deixado cair com o encontrão na mesa.
- Essa rapariga está bem? – perguntou simplesmente Samuel tentando mostrar-se mais calmo ao reparar no ar surpreso de Diogo.
- Acho que sim… - murmurou Diogo – Mas… - ia começar Diogo a questionar quando Samuel lhe cortou a palavra.
- Como anda esse temperamento? – perguntou Samuel ajeitando os óculos e aproximando a sua caneta e bloco de notas para mais perto de si, dando a entender que não ia dar qualquer hipótese a Diogo para voltarem ao tema anterior. Diogo lembrou-se da vontade enorme que tivera naquela manhã de enfiar um murro na cara do rapaz corpulento que gozava com a rapariga que acreditava ter visto um monstro, enquanto ainda comia a sua sandes, mas preferiu não revelar essa situação a Samuel. Por isso, uma vez que tinha certeza de que Samuel estava a perceber alguma hesitação nele, resolveu mudar de assunto rapidamente.
- Na verdade o que me anda a preocupar mais é a minha imaginação – começou Diogo a revelar ao mesmo tempo que voltava a deitar-se no sofá fitando o anjo pintado na tela á sua frente.
- Continuas a achar que há algo mais no teu campo de visão do que aquilo que todos os outros vêm? – perguntou Samuel muito atento a qualquer reacção de Diogo.
- Para dizer a verdade, desde a nossa última consulta que essa sensação de estar rodeado por algo mais tem aumentado de dia para dia. – confessou Diogo sem tirar os olhos da tela – Sei que parece completamente absurdo, mas eu vejo-os…não nitidamente, pois não passam de uma simples névoa que irradia uma luz brilhante…mas consigo captá-los, às vezes de uma forma mais intensa do que outra. E não é só vê-los…eu sinto-os! – disse cruzando os braços por cima do peito. Samuel deixava-o simplesmente falar, sempre fora assim. – Esta manhã, então, parecia que estava enlouquecer, estavam por todo o lado. E mesmo quando estava a vir aqui para o consultório, continuei a dar-me conta da presença deles.
- Parecem-te sempre iguais? – perguntou Samuel num tom calmo
- Não. – disse pensativo após uma longa pausa – Não sei explicar, mas sinto que há uma diferença entre eles. Além disso dá para perceber que uns se encontram mais próximos das pessoas e outros que nem sequer se chegam perto. - Fez-se silêncio. Ambos ficaram calados durante, o que pareceu a Diogo, um bom tempo, até que resolveu acrescentar mais uma coisa. – Aquelas asas… - começou apontando para as asas pintadas na tela e que saiam das costas do anjo.
- Sim?… - incentivou-o Samuel olhando também para a pintura
- Acho que as vi esta manhã – concluiu calmamente – Não eram propriamente as asas, mas sim a sombra delas, tais como as daquele quadro – apressou-se a informar rapidamente. – Dr. Samuel… - pronunciou o nome num tom receoso - …estarei a ficar completamente louco? – e como isto olhou para Samuel.
- Posso garantir-te que estás perfeitamente saudável! – disse por fim Samuel após uma pausa que pareceu a Diogo uma eternidade e antes que este lhe fizesse mais alguma pergunta prosseguiu – Há pessoas que criam uma maior sensibilidade do que outras, que vêm mais para além do que está à vista de todos os outros, que vêm algo que não faz parte do mesmo mundo.
- Isso quereria dizer que posso ver…fantasmas…espíritos? – perguntou Diogo tanto divertido como algo incrédulo. Samuel sorriu.
- Não te ocorre mais nada para além de fantasmas ou espíritos? – questionou-o ao mesmo tempo que lançava um olhar para a sua direita. Olhar esse que Diogo seguiu e que foi de encontro àquele anjo de olhar triste pintado na tela.
Diogo ficou por momentos a admirar, novamente, aquele desenho e depois sentado muito direito olhou de frente para Samuel que ainda não tirara os olhos do quadro. Um sorriso divertido começou a formar-se no canto da boca de Diogo que depois se espalhou por toda a sua boca.
- Mudei de ideias – revelou Diogo divertido – Afinal, acabei de chegar à conclusão que, nesta sala, não sou eu quem está completamente louco! – Samuel olhou para ele e sorriu-lhe.
- “O que é a vida senão uma série de loucuras inspiradas” George Bernard Shaw – citou Samuel.
- Só cá faltava mais uma das suas frases – murmurou Diogo revirando os olhos
Sem dar importância ao comentário de Diogo, Samuel lembrou-se:
- Amanhã é o grande dia certo? Dezanove anos devem ser comemorados em grande!
- Não percebo qual a grande fixação pelos dezanove anos! – Constatou Diogo – Primeiro o Júlio e agora o Dr. Samuel. Sempre pensei que o grande alvoroço era à volta dos dezoito anos e não me lembro de nenhum dos dois parecer muito entusiasmado com essa data. – continuou indignado. Mas de repente o relógio que Samuel tinha na sala começou a dar badaladas. – Já é mais tarde do que pensava! – verificou Diogo levantando-se rapidamente, ao mesmo tempo que consultava, também, o seu relógio de pulso – Vemo-nos para a semana à mesma hora, não é assim?
- Claro que sim – confirmou Samuel levantando-se também e dando a volta à mesa até ficar de frente para Diogo – Mantém-te em segurança Diogo, nada de proezas ou perigos à mistura.
- Não percebo onde vai sempre buscar essas ideias…o mais perigoso que me pode acontecer é não entregar o trabalho a tempo e ter de ouvir uma palestra sobre já estar na idade de ganhar algum sentido responsabilidade – brincou Diogo apertando a mão a Samuel que demorou um pouco mais de tempo do que o habitual para lhe soltar a mão. Quando ele o soltou Diogo saiu do seu consultório deixando Samuel sozinho.
Samuel aproximou-se da tela, estendeu uma mão cujos dedos percorreram a face daquele anjo de forma carinhosa, quase saudosa, e murmurou pausadamente “Não vou poder esconder-lhe tudo isto por muito mais tempo… ele está prestes a completar dezanove anos…sabes que vou começar a ter cada vez mais dificuldade em protegê-lo se ele continuar na ignorância…esta manhã parece ter sido um exemplo disso”.IV - UM ATAQUE SURPRESA
O relógio de cabeceira de Diogo marcava quase quatro horas da manhã. A janela que tinham deixado aberta devido ao calor que fazia, deixava entrar a luz proveniente do candeeiro que ficava em frente e que projectava sombras por todo o quarto. Apesar de num dos quartos ali perto alguém parecer estar ainda a fazer uma festa, tanto ele como Júlio, dormiam profundamente e nada parecia perturbar o sono dos dois. E por isso mesmo, nem o “clic”, oriundo da fechadura da única porta do quarto, cuja maçaneta começava a rodar muito lentamente, foi motivo de alarme para qualquer um deles. A porta foi empurrada alguns centímetros, dando espaço suficiente para que uma silhueta se introduzisse no quarto. Após uma pausa, alguém se aproximou da cama de Diogo com todo o cuidado. A figura estava já a escassos centímetros do corpo adormecido de Diogo e estendia uma mão na sua direcção. Quando estava prestes a tocar-lhe, este abriu repentinamente os olhos. Tudo o que viu foi uns grandes olhos cinzentos mesmo à sua frente. Gritou assustado e o intruso apanhado de surpresa gritou também recuando alguns passos. Tudo aquilo acordou Júlio e ao contrário do que Diogo pensara, o amigo não começou aos berros, nem vacilou uma única fracção de segundo. Para sua surpresa, Júlio adoptou uma postura de guerreiro e atirou-se ao intruso como uma rapidez surpreendente. Aproveitando a oportunidade, Diogo levantou-se e correu a acender as luzes. Quando o quarto ficou finalmente todo iluminado viu Júlio em cima de alguém que conseguira virar ao contrário e manter preso contra o chão de barriga para baixo e com os braços bem presos atrás das costas.
- Seu idiota, sai de cima de mim! – ordenou uma voz feminina que se debatia com Júlio.
Quando ouviu aquilo, Júlio reagiu como se tivesse levado um choque. Afastou-se, subitamente, do corpo estendido no chão para o mais longe possível, o que ali implicava ir para a outra ponta do quarto. Diogo olhou para a pessoa que se levantava agora do chão. Era uma rapariga de estatura média, atlética, de cabelos negros até à cintura, a mesma rapariga com quem nunca falara, mas que sempre encontrara em todo o lado. Usava calças de ganga, um top de mangas cavas cor-de-rosa e ténis.
- Sofia? O que fazes aqui? – perguntou Júlio com algum alarme no tom de voz.
- Se em vez de estares a dormir, estivesse mais atento ao odor que anda no ar desde a meia-noite, essa pergunta deixava de ter sentido – respondeu a rapariga que Júlio acabara de tratar por Sofia. Ela tinha, naquele momento, um olhar destemido e audaz, capaz de assustar qualquer um.
Diogo estava com dificuldade em descobrir o que era mais estranho em toda aquela situação. Se era o facto de aquela rapariga ter entrado secretamente no quarto deles às quatro da manhã, se o facto de ela e Júlio parecerem conhecer-se, ou o facto de os olhos de Júlio terem mudado da sua habitual cor verde-esmeralda, para um vermelho escuro. Optou por pensar que Júlio estava com alguma infecção nos olhos. No entanto apesar dessa exclusão, as outras situações só por si já eram suficientemente estranhas para lhe tirarem, por completo, o sono.
- Eu estava atento – protestou Júlio com um ar ofendido. Sofia ia voltar a dizer qualquer coisa, mas Diogo interrompeu-os.
- Alguém pode explicar-me o que se passa aqui? – perguntou alternando o olhar entre Júlio e Sofia que lhe davam, finalmente, atenção. Júlio ia dizer qualquer coisa, mas foi Sofia quem falou primeiro.
- Temos de ir embora imediatamente – disse ela aproximando-se da janela com uma rapidez e ao mesmo tempo com uma elegância que surpreendeu Diogo – O cheiro é cada vez mais intenso, não tarda eles estão aqui – continuou, e ao olhar para os dois, ambos de calções e t-shirt de dormir, prosseguiu – Vistam-se e ponham mais qualquer coisa numa mochila. Rápido!
- Mas quem és tu para chegares aqui e começar a dar-nos ordens? – começou Diogo – Nós não vamos a lado nenhum até começares a explicar-nos quem são “eles” de quem falas e o porquê de ser tão urgente sairmos a esta hora da madrugada.
Sofia olhou para ele pelo canto do olho e depois virou-se para Júlio – Eu espero lá fora – disse ela como se Diogo não tivesse pronunciado qualquer palavra. Sem mais demoras, saiu do quarto, encostando a porta atrás de si.
- Ela é louca ou quê? – atirou Diogo ainda a olhar para a porta – Devíamos fazer queixa por invadir assim o nosso quarto e… - interrompeu-se a meio da frase, pois agora olhava para Júlio que estava de costas para ele, verdadeiramente atarefado a tirar uma mochila tira colo de cabedal castanho do fundo do armário. – O que estás a fazer Júlio?
- O que ela disse…veste-te e põe o que conseguires dentro desta mochila – disse atirando-lhe uma mochila normal mas também tira colo.
- Não podes estar a falar a sério! – exprimiu Diogo incrédulo
- Confia em mim Diogo – pediu-lhe Júlio parando por momentos o que estava a fazer e encarando o amigo – Ela tem razão quanto ao odor, está cada vez mais forte, em breve estaremos rodeados deles…
- De quem é que estás a falar? – insistiu Diogo ainda parado a olhar para Júlio que agora começara a trocar de roupa
- Vamos primeiro para um sítio seguro e depois explico-te tudo – informou-o
- Um sítio seguro? Mas do que é que estás a falar? Estamos perfeitamente seguros aqui! – tentou Diogo chamar á razão já num tom alterado – A única louca que temos por perto é a rapariga que diz estar lá fora à nossa espera sabe-se lá para quê.
- Faz o que ela te disse Diogo! – desta vez Diogo percebeu que o amigo não estava a brincar. O olhar que lhe lançou mostrava receio. Apesar do tom seguro e firme com que pronunciou aquelas palavras, todo ele emanava preocupação. Nunca vira Júlio reagir daquela maneira. Algo começava a dizer a Diogo que aquilo não era uma brincadeira. Assim, deixando as perguntas para mais tarde, seguiu o exemplo de Júlio. Trocou de roupa e pôs uma segunda muda de roupa na mochila que o outro lhe passou. Quando estavam ambos prontos fecharam a luz e saíram para o corredor onde encontraram Sofia à espera deles.
Sofia olhou para os dois. Júlio tinha vestido umas calças de ganga e uma t-shirt verde-esmeralda e estava agora a pôr a mochila tira colo às costas. Já Diogo encontrava-se de calças pretas e t-shirt preta. A única coisa que destoava era a mochila cinzenta que trazia ao ombro. Cada um usava também um casaco preto.
- Vamos! – disse simplesmente virando-se de costas para eles e afastando-se a passos largos
- Vamos para onde? – perguntou Diogo quando Júlio se preparava para segui-la.
- Vamos ter com o Samuel – esclareceu Júlio apressando o passo
- Samuel? – repetiu Diogo espantado e ainda parado no mesmo sitio – Estás a falar do meu psicólogo?
- Esse mesmo. – confirmou Júlio. Diogo quase teve de correr para os apanhar.
Os três caminhavam lado a lado pelas ruas da cidade. Não corria nenhuma brisa apesar da hora tardia. De acordo com os noticiários, o Verão daquele ano, fora o mais quente dos últimos 20 anos, e apesar de já se encontrarem no mês de Outubro, as temperaturas elevadas continuavam a não ceder. O trio atravessava agora a última avenida que os faria chegar ao escritório do Dr. Samuel. As ruas estavam desertas e a luz que emanava dos candeeiros tornava tudo ainda mais sombrio. Parecia, a Diogo, que a qualquer momento alguém saltaria das sombras para os atacar. No entanto, ele parecia não ser o único a ser assombrado por aquele pensamento, pois tanto Júlio como Sofia olhavam incansavelmente para todas as direcções. Nenhum dos três voltara a pronunciar qualquer palavra desde que tinham saído do espaço universitário e aquilo começava a enervar Diogo. Preparava-se para abrir a boca com a intenção de obrigá-los a explicarem-lhe o que se estava a passar quando de repente Sofia parou. Júlio seguiu-lhe, automaticamente, o exemplo. Estavam os dois à escuta como se fossem dois caçadores à espera de ouvir algum sinal da sua presa para, só então, atacarem. No entanto os caçadores não costumavam ficar com uma cara tão assustada, pensou Diogo ao ver tanto Júlio como Sofia mudar de uma expressão determinada para aquilo que parecia ser apreensão e incerteza.
- O que se passa? – arriscou perguntar Diogo, o que pensou ser pela milionésima vez, naquela noite.
- Estamos a ser seguidos – murmurou-lhe Júlio sem no entanto olhar para ele e não desviando o olhar de uma esquina pouco iluminada.
- Por quem? – perguntou Diogo tentando vislumbrar alguém no meio daquela escuridão.
- E não é só por terra – acrescentou Sofia que como Diogo reparava agora, tinha os olhos fixos nos telhados dos edifícios.
Ficaram em silêncio. Um silêncio, na opinião de Diogo, de cortar a respiração. Algo que para ele só devia ser possível recriar no cinema, mas que estava ali a ser partilhado pelos três. Estavam em suspenso, como se ao primeiro barulho algo fosse acontecer. E assim foi. Não que ele tivesse ouvido o que quer que seja, mas a expressão de Sofia não deixava margem para duvidas de que algo de muito errado se estava a passar quando ela gritou “FUJAM” e desatou a correr como se o diabo viesse atrás dela. Júlio deu um puxão a Diogo, mas este apenas cambaleou.
- CORRE DIOGO! – gritou Júlio olhando para lá de Diogo. Parecia estar a ver nas suas costas algo que o aterrorizava.
Tudo parecia estar a processar-se em câmara lenta na cabeça de Diogo. Sofia a gritar para que fugissem, Júlio a olhar aterrorizado para trás de si e dizendo a Diogo para que corresse. Diogo olhou então para trás e o seu mundo, ou aquele em que acreditava, pareceu desmoronar-se à sua frente. Das sombras, por trás das esquinas, vindos dos céus, via-se todo o tipo de bestas, pelo menos foram essas a palavra que Diogo encontrou para descrever as figuras monstruosas que se multiplicavam à sua frente. O mais próximo de si era grande, tronco humano encarnado, patas de bode e cabeça de touro. Tinha os olhos de um vermelho sangue e avançava na sua direcção com passos pesados. O que se seguia não era menos assustador, também tinha um tronco e cabeça de homem, mas para além de membros inferiores que o fazia lembrar os de um leão, no alto na cabeça possuía, ainda, dois cornos. De cima de um edifício acabava de saltar para a sua frente, encontrando-se a cerca de três metros de distância de Diogo, aquilo que lhe parecia ser uma rapariga. À primeira vista podia ser considerada uma rapariga bastante atraente. Era de estatura média, cabelo curto em tons de cor de rosa a combinar com o seu top minúsculo em forma de espartilho, também, cor-de-rosa, calças pretas descaídas, com um cinto cor-de-rosa e luvas sem dedos da mesma cor. Para completar umas botas de combate igualmente pretas. Toda ela esbanjava sedução e Diogo teria ficado impressionado com a ousadia da rapariga, não fossem as enormes e ameaçadoras asas negras que lhe saiam das costas e aquele olhar que só por si era um convite ao ódio, à vingança e à destruição, algo neles lhes dizia que a melhor solução era realmente correr. Por isso mesmo quando Júlio lhe deu um novo puxão pelo casaco, nem precisou fazê-lo novamente, Diogo corria agora ao lado de Júlio a toda a velocidade e aquelas criaturas corriam, ou no caso da rapariga, ou o que quer que ela fosse, voavam atrás deles.
Por mais que se esforçassem por correr mais e mais rápido, não era suficiente. A rapariga voadora, ainda não os apanhara, apenas e tão-somente, porque Júlio tivera a ideia de entrarem num túnel para automóveis mesmo na altura em que ela se preparava para em voo picado os atacar. No entanto, os restantes perseguidores, estavam cada vez mais próximos e Diogo e Júlio não tinham onde esconder-se. Sofia não entrara no túnel com eles, continuara a correr em campo aberto. Quanto a eles, a única coisa que podiam fazer era correr e na opinião de Diogo rezar para que alguém ouvisse toda aquela algazarra e chamasse o exército, pois na sua opinião não era qualquer um que fazia frente àquelas coisas. O túnel estava a terminar, já se via a luz dos candeeiros a fazer sombra contra a única saída. Diogo sabia que a rapariga das asas negras estaria ali à espera deles, mas se optassem por permanecer no túnel, tanto o cabeça de touro, como o outro com corpo de leão iriam desfazê-los em mil bocados. Este último por pouco que não os apanhara, mas Júlio, sem Diogo perceber como, conseguira que o mesmo fosse embater contra uma parede do túnel e ficasse para trás durante o tempo necessário para conseguirem algum avanço. Portanto, concluiu Diogo, não pareciam ser muito inteligentes, mas tal não ia fazer Diogo abrandar o passo de corrida. “E onde raio se encontrava a Sofia?” pensou Diogo. Só esperava que ela não tivesse sido apanhada e que conseguisse de alguma forma trazer ajuda.
Estava quase. Mais cinquenta metros e estavam fora do túnel. Diogo preferia nem pensar no que os esperava do lado de fora. Olhou para Júlio que parecia mais confiante do que aquilo que esperava e os seus olhos estavam mais encarnados do que nunca. Saíram. Como era de esperar a rapariga do cabelo cor-de-rosa pousou à frente deles com um olhar divertido, fazendo-os parar. Estavam encurralados. Ela tapava-lhes a frente e à retaguarda tinham as outras duas criaturas que também já estavam fora do túnel não lhes permitindo qualquer escapatória. Mais dois monstros vieram juntar-se a eles. Um deles, reconheceu Diogo, era o descrito pela rapariga da faculdade. Lá estavam as três cabeças, uma de homem, outra de touro e outra de carneiro. Por fim, a completar o bando, tínhamos um rapaz, que poderia ser igual a qualquer outro, não fosse aqueles olhos completamente brancos sem qualquer tipo de expressividade, o cabelo roxo que deixava ver duas orelhas pontiagudas e bem afiadas, uma delas com um brinco comprido verde e por fim o que pareciam ser tatuagens negras por todo o tronco nu. Tal como a outra rapariga, nas suas costas também trazia umas asas negras abertas em todo o seu esplendor. A sua cara pequena exibia um sorriso trocista.
- Cinco contra dois não me parece uma conta justa – disse Diogo fazendo o mesmo tipo de sorriso e surpreso por aquele seu atrevimento perante uma situação tão desfavorável.
- Ora vejam quem é que tem sentido de humor – comentou a rapariga e o rapaz de olhos brancos riu despropositadamente
- Não é todos os dias que temos uma assistência tão bem humorada – continuou Diogo sem perceber muito bem de onde vinha toda aquela audácia. Apesar dos olhos brancos, Diogo percebeu que o rapaz já não estava a achar piada nenhuma, pois o sorriso desaparecera por completo e tinha agora os punhos cerrados.
Júlio olhou para Diogo e pela sua expressão devia achar que Diogo estava a enlouquecer. As criaturas deram todas alguns passos na direcção dos dois.
- Espero que tenhas algum plano – murmurou Diogo para Júlio
- Fica atento – foram as únicas palavras de Júlio e Diogo olhou para o monstro de três cabeças que estava cada vez mais próximo
- Já tenho dificuldade em ficar atento só com uma cabeça quanto mais com estas todas – voltou a brincar
- Está na hora de perderes esse ar arrogante – sibilou a rapariga de cabelo cor-de-rosa e de repente baixando o tronco adoptou uma posição de ataque. Olhava de baixo para cima. Os olhos de um tom dourado estavam mais cruéis do que nunca. Abriu a boca como um cão pronto a rosnar, mostrando, para surpresa de Diogo, os dentes mais aguçados que já vira. Tinha, tal como retratam os vampiros, na parte de cima, dois dentes bem afiados, no entanto não eram os únicos, pois possuía outros dois tão aguçados como aqueles, na parte de baixo da boca. Naquela posição e a mostrar os quatro dentes mais afiados do mundo, a rapariga perdera toda a aparência capaz de seduzir qualquer homem, na realidade parecia demoníaca. Diogo sabia que faltavam segundos para ela atacar. Olhou em volta e para sua surpresa viu o rapaz de olhos brancos exactamente na mesma postura de ataque, com um sorriso que Diogo sentiu uma vontade repentina de apagar. Diogo não tinha nada que pudesse usar como arma e encontrava-se agora costas com costas com Júlio. E foi então que o animal com cabeça de touro e pernas de carneiro avançou para eles emitindo um rugido monstruoso. Apesar da sua aparência de gigante, movimentou-se com uma agilidade impressionante. Mas algo aconteceu nesse preciso momento. Quando a criatura estava prestes a atacá-lo com umas garras aguçadas que Diogo podia jurar que não estavam ali momentos antes, ouviu-se um silvo e ela caiu pesadamente no chão. Tinha, reparou Diogo com surpresa, uma flecha espetada na omoplata, bem no local onde estava o coração. Era uma flecha de prata com alguns ornamentos que tinham algo de familiar para Diogo, mas que de momento não se conseguia lembrar porquê. Todos olharam para aquela flecha e para a criatura que agora começava a deitar um líquido verde e na opinião de Diogo, muito nojento, e a desfazer-se ali à frente de todos. Aquilo foi para os restantes um sinal de inicio de combate. A rapariga saltou na direcção deles e o mesmo fizeram os restantes. Mas foi nesse preciso instante que Sofia apareceu entre eles e a rapariga dos dentes afiados, como se tivesse caído do céu. Trazia na mão esquerda aquilo que parecia ser uma arma, mais exactamente uma besta prateada. Diogo tinha agora certeza que tinha sido daquela arma que fora disparada a seta que se cravara nas costas do touro. Com aquela aparição repentina, tinham todos voltado a imobilizar-se. Sofia e a rapariga fitavam-se mutuamente com tal aversão uma da outra, que parecia haver ali algo mais do que uma simples disputa.
Sofia e a sua adversária olhavam uma para a outra de uma forma, que levantou suspeitas a Diogo, quanto a não ser a primeira vez que se encontravam. Para sua surpresa ambas sorriam.
- Ariel – murmurou a rapariga de cabelo cor-de-rosa endireitando-se e pronunciado o nome num tom de voz enraivecido – Já não é a primeira vez que te interpões entre mim e a minha presa! – lembrou.
- Ariel?! – murmurou Diogo que tinha quase a certeza absoluta que Júlio a tratara por Sofia.
- Desta vez não vais escapar à punição das minhas espadas, Aaba – disse Sofia ou Ariel, pronunciado o nome da sua adversária com o mesmo desprezo que a outra usara ao proferir o seu e deixando cair no chão a besta que trazia na mão. E como se tivessem sido invocadas, em cada uma das suas mãos apareceu uma espada de tamanho médio. Mas em vez de terem apenas uma lâmina comprida, ambas as espadas apresentavam duas lâminas prateadas lado a lado e que terminavam cada uma das lâminas numa ponta bem afiada. Com um punho negro, Sofia segurava nelas com uma delicadeza mortífera.
- Nada que nunca tenha feito antes – atirou Aaba com um brilho rejubilante no olhar – As minhas meninas estavam ansiosas por voltarem a encontrar-te – e ao dizer isto na sua mão esquerda surgiu, vindo do nada, uma arma. Tratava-se de uma espada, na realidade duas, uma em cada extremidade do bastão em que segurava e tão afiadas como as espadas de duas lâminas de Sofia.
- Estás pronta? – perguntou Sofia quase imperceptivelmente
- Estou pronta se tu estiveres pronta – respondeu Aaba naquilo que pareceu a Diogo um rosnar, ao mesmo tempo que segurava bem a sua arma.
Com isto, inesperadamente, com uma forte rajada de vento, das costas de Sofia surgiram umas asas, de tamanho médio, tão brancas como o algodão. E com elas um aroma, um perfume que Diogo não conseguiu identificar. Mas era doce e tranquilizante, como um dia de Primavera.
- Não é possível… - murmurou Diogo incrédulo com o que estava a ver à sua frente – Só posso estar a sonhar!
- Não é sonho nenhum – informou-o Júlio. Diogo olhou para Júlio. Estava tão distraído com os últimos acontecimentos que quase se esquecera do amigo. Agora que olhava para ele percebeu que também Júlio estava diferente. Tinha tirado o casaco que estava no chão ao seu lado junto da mala que agora também estava aberta. Estava muito direito, de olhos fixos no inimigo, olhos esses que continuavam no mesmo tom de encarnado. Na sua mão direita segurava um machado de duas pontas bem afiadas. O machado tinha alguns elementos decorativos, mas àquela luz era impossível distingui-los.
- Diogo escolhe uma arma – gritou-lhe Sofia de costas para ele
- Uma arma? – repetiu Diogo voltando a olhar para ela – Eu não tenho armas! – gritou-lhe Diogo – Não sei se reparaste, mas não tenho o hábito de andar por ai com armas afiadas como essas!
- Não sejas idiota, és um de nós… - começou Sofia
- Ah sim? E o que raio são vocês, podes explicar-me? – interrompeu-a Diogo sem se conseguir controlar
- Não temos tempo para isto, invoca uma arma imediatamente – voltou a gritar-lhe Sofia olhando agora para ele, mas sem perder Aaba de vista. Perante o olhar interrogador de Diogo, sugeriu – uma espada, uma adaga, um punhal, uma alabarda, um machado, uma besta, um chicote, uma corrente, um gládio, uma lança, um arco e flecha…QUALQUER COISA!
- Não te imaginava uma rapariga tão entendida em armas – comentou Diogo, mas calou-se imediatamente ao ver o olhar furioso de Sofia – Pronto muito bem, o que é que tenho de fazer? Berrar o nome da arma?
- Ouviste-me berrar seu idiota? – não era exactamente uma pergunta – Configura mentalmente a arma que desejas. Uma vez que não tens propriamente uma arma tua, um anjo vai encarregar-se de providenciar-te uma – explicou rapidamente Sofia
- Um anjo? – repetiu Diogo espantado
- AGORA DIOGO!!! – não fora Sofia a única a gritar, Júlio juntara-se a ela. Os restantes pareciam estar a divertir-se com aquela situação.
- Estás condenado – ouviu ele uma voz na sua cabeça. Mas aquela não era a sua voz. Olhou em redor, o rapaz de asas negras e olhos brancos estava a fitá-lo com malícia. Apesar de o mesmo nunca ter aberto a boca para pronunciar qualquer palavra, algo lhe dizia que tinha sido ele a entrar na sua cabeça.
Sem mais nenhuma hesitação, Diogo deixou cair a mochila que trazia consigo e esforçou-se por imaginar uma arma. Não fazia ideia do que Sofia tinha na cabeça com alguns dos nomes de armas que lhe exemplificara. Por isso, na cabeça de Diogo começou a formar a imagem de uma espada. Não lhe parecia uma arma lá muito boa, mas foi o melhor que conseguiu. Foi uma questão de milésimos de segundo. Na sua mão direita surgiu uma espada em todo o seu esplendor. Não tinha nada a ver com a espada que imaginara, esta era grande, mas ao mesmo tempo muito leve. O seu cabo negro com ornamentos dourados e prateados onde conseguia distinguir uma cruz e as asas de um anjo, terminava numa ponta decorada com um olho aberto. O punho da espada tinha a largura suficiente para que toda a mão de Diogo se mantivesse fechada à sua volta. Quanto à ponta da lâmina nunca tinha visto uma tão afiada e vislumbrou alguns símbolos, que Diogo não soube identificar, ao longo de toda a lâmina. Percebeu que não era o único a admirar aquela arma. Sofia olhava também para a espada, mas a sua expressão não era de admiração mas sim de surpresa e até mesmo de choque. Mas quando viu que Diogo a fitava, esta voltou à sua expressão impenetrável.
- Agora vê se usas isso para matar os demónios e não para te matares a ti mesmo! – disse Sofia com sarcasmo.
- Matar demónios? – disse Diogo num tom alarmado – Como assim matar? Eu nunca matei ninguém! E nunca usei uma espada… - quase gritou
- Tenta apenas defender-te – disse Júlio – Eu protejo-te!
Júlio disse aquelas palavras com tanta certeza que se não fosse o facto de estarem rodeados por quatro daquelas coisas que Sofia chamou de demónios, tão ameaçadores e cruéis quanto podia imaginar, Diogo quase que acreditaria nelas.
O que se seguiu, nem em sonhos, Diogo pensou que tal fosse possível acontecer.V - A ESPADA E A ADAGA
Não foi preciso qualquer sinal. Estavam todos em sintonia. Assim que alguém pensou em dar o primeiro passo, todos o fizeram em simultâneo, empunhando as suas armas. Sofia e Aaba precipitaram-se uma para a outra. As suas armas colidiam uma na outra provocando não só um som ensurdecedor, como também um pequeno tremor de terra. Nunca vira nada tão rápido, tão veloz. Os movimentos eram ágeis, com a verdadeira intenção de derrubar as defesas da adversária. As espadas de duas lâminas de Sofia cortavam o ar e tudo aquilo em que tocavam. Sofia manejava-as como se tivesse nascido com elas no lugar das mãos, esquivando-se sempre no último momento. Aaba, parecia enlouquecer de tanto entusiasmo. Esquivava-se igualmente aos golpes de Sofia e manuseava o seu bastão de duas espadas. Era uma arma muito perigosa. Sofia tinha de estar atenta a cada ponta afiada, quer Aaba estivesse de frente ou de costas, as lâminas aguçadas estavam sempre apontadas de forma ameaçadora.
Por sua vez, Júlio lidava com dois demónios. Atirara-se na direcção do rapaz de olhos brancos e asas de morcego, ao mesmo tempo que o outro com cornos na cabeça e com corpo de leão se precipitava na sua direcção. Júlio parecia ter sempre andado com um machado atrás. Diogo acreditava que aquele machado tinha aspecto de pesar toneladas, no entanto, parecia uma pena nas mãos do amigo. Lançava-o em todas as direcções com reflexos rápidos e certeiros. Apesar da sua agilidade, era assustador ver Júlio arremessar o machado sem medo de cada golpe poder arrancar a cabeça ou outro membro do seu adversário. Estava longe de ser o Júlio que conhecera durante tanto tempo. Júlio estava a revelar-se um verdadeiro guerreiro, conseguia esquivar-se aos golpes que se lançavam a ele furiosamente. Diogo repara que o demónio com corpo de leão tropeçava muitas vezes nele mesmo dando oportunidade a Júlio de enfrentar mais violentamente o outro rival. Ambos os seus adversários possuíam armas que também deviam ter invocado, pois não se lembrava de qualquer um deles trazer uma arma consigo quando os cercavam e o demónio com dorso de leão não tinha de certeza um bolso onde transportar a sua arma. Este tentava atingir Júlio com uma arma algo estranha. Tinha o aspecto de um gancho como aquele que identificamos desde pequenos como pertencendo ao capitão gancho, mas com o dobro do tamanho. Todo ele estava decorado com caveiras e em vez de liso, dele parecia despontar todo o tipo de pontas afiadas e capaz de provocar golpes fundos e repugnantes. Era todo preto e na sua ponta, depois de terminada a curva do gancho, brilhava uma aguçada lâmina capaz de esventrar tudo em que tocasse. Já o demónio de olhos brancos possuía duas armas que eram pouco maiores do que punhais e se Diogo não estivesse no meio daquilo que parecia ser uma batalha, teria todo o prazer em apreciar a beleza delas. Uma era toda ela em tons de prata e encarnado. Terminava em forma de um anzol bem afiado e em toda a lâmina despontavam outras lâminas também afiadas em forma de gancho. Parecia ter sido decorada manualmente. O punho tinha cravado o rosto de vários demónios, acreditou Diogo, pois não era propriamente um conhecedor de tais criaturas. A zona que protegia a mão da lâmina tinha o aspecto de um sol cujos raios despontavam ameaçadoramente tanto para a esquerda como para a direita. E aquele tom encarnado começava a fundir-se com a lâmina prateada. A outra arma era muito parecida com a primeira, mas em vez de terminar em forma de anzol, acabava numa lâmina bicuda como uma espada ou punhal. O punho retratava igualmente rostos de demónios, ou o que quer que aquilo fosse, mas da parte de protecção da mão, rompiam, aquilo que parecia a Diogo, penas muito afiadas em forma de remoinho. E ao contrário da primeira arma, esta tinha todo o seu punho e protecção de mão em tons de amarelo que começava a fundir-se com o prateado da lâmina. Apesar das suas cores claras pareciam confundir-se com a escuridão em redor quando arremessadas pelo seu dono.
Diogo olhava tanto para Sofia como para Júlio. Esperava que algum deles pudesse vir em seu socorro, mas naquele momento parecia estar por conta própria. O demónio que tinha à sua frente avançava com passadas lentas, como se estivesse a saborear cada momento. Parecia adivinhar que aquele seria o primeiro e último combate de Diogo e queria criar o devido impacto antes de pôr fim à vida da sua presa. Diogo não sabia muito bem o que fazer com aquela espada, apesar de não ser particularmente pesada, tinha a certeza que no momento em que tentasse usá-la iria tropeçar e muito provavelmente, como insinuara Sofia, acabar por se matar a si próprio. Além disso as três cabeças do seu adversário também não estavam a ajudar nada. A cabeça de touro parecia mais enraivecida do que nunca, a de carneiro parecia ansiosa por ter oportunidade de dar uma cornada e a cabeça humana agora totalmente desfigurada e de olhos encarnados sorria maliciosamente, lembrando a Diogo um canibal. Trazia um sobretudo a cobrir o resto do corpo tal como a rapariga da faculdade descrevera.
- Bem, parece que fui eu quem te calhou na rifa – brincou Diogo algo nervoso. O outro não pronunciava qualquer palavra, continuava a avançar na sua direcção fazendo com que Diogo recuasse alguns passos. – Sabes que hoje em dia podemos resolver as nossas rivalidades sem este tipo de armas. Ouvi dizer que falar sobre o que nos incomoda trás excelentes resultados – tentou propor Diogo sem muitas esperanças e com um sorriso nervoso. – Hoje faço anos sabes? Não que tenha muita importância para alguém como tu…mas não sei, não gostava de morrer sem antes saber quais os meus presentes de aniversário! Ainda para mais porque tenho certeza que vou receber aquele…
- Falas demasiado – rugiu de repente a cabeça humana do demónio, e sem nenhum aviso prévio fez surgir na sua mão uma espada do tamanho da de Diogo e, igualmente, tão afiada como a deste. No entanto, ao contrário da de Diogo cujo protector entre o punho e a lâmina tinha a forma de umas asas de anjo, o de monstro tinha, por sua vez uma enorme caveira negra rodeada por chamas também negras. O demónio investiu a espada na sua direcção com tal brutidão que Diogo pensou que além de o ir cortar ao meio também abriria uma cratera no chão. Mas para sua surpresa, apesar do medo que sentia, agiu por instinto levantando a arma de forma protectora com uma rapidez que chegou a assombrá-lo. O certo é que aguentou o ataque do seu adversário, que descobriu não ter toda aquela força que imaginara. O choque das duas espadas ecoou em redor dos dois e viu o espanto estampado nas três caras, até mesmo nas dos animais. Aquilo veio dar um novo alento a Diogo. De repente nem parecia ele mesmo. Olhou para o seu adversário com o atrevimento estampado no rosto e uma audácia que nem sabia possuir. O medo passou para segundo plano e todo ele era agora adrenalina. Apertou bem o punho da sua espada e pressionou-a contra a do demónio empurrando-o com uma força que também desconhecia ter, fazendo-o cambalear alguns passos para trás.
- Não me parece que tenhas trazido alguma prenda de aniversário, estou certo? – atirou-lhe Diogo com um sorriso a formar-se no canto dos lábios. E sem esperar por uma resposta investiu contra o inimigo. Diogo não percebeu como conseguia atacar daquela maneira ou sequer esquivar-se com tanta desenvoltura, mas isso era uma preocupação para depois. Agora o que queria era destruir aquele ser.
Foi frenético. As suas espadas tocavam-se estrondosamente por milésimos de segundo para depois voltarem a afastar-se e a convergir, novamente, em direcção uma da outra. O demónio parecia começar a recuar à medida que a força e destreza de Diogo ia aumentando a cada nova investida. Diogo já não lutava para se defender, mas sim para ver o que era capaz de fazer com aquela espada, lutava para se exibir. Algo parecia estar a possuí-lo, a tomar conta de todo o seu ser. E foi então que sentiu algo estranho. Não sabia explicar porquê, mas parecia que a espada estava a abandoná-lo tornando-se mais e mais pesada a cada movimento. Tinha cada vez mais dificuldade em manuseá-la e começava já a respirar com dificuldade. Teve de parar, a espada pesava agora chumbo, não conseguia voltar a levantá-la.
- O que é que está a passar-se? – murmurou Diogo tentando a todo o custo levantar a espada, mas conseguindo apenas arrastá-la no chão. Estava tão distraído que não percebeu que o demónio estava a aproveitar-se daquele momento para contra atacar. Corria agora a toda a velocidade na sua direcção com o punho da espada bem seguro entre as suas mãos e seguro alguns centímetros acima da sua cabeça, como se fosse espetar a espada no solo. No entanto a sua intenção não era espetá-la no chão mas em Diogo que ainda se debatia com a sua. Estava a dois passos de distância de Diogo quando este finalmente se apercebeu. Pensou que estava morto, mas subitamente, a espada voltou a ficar leve como uma pena e sem demoras apontou a ponta afiada da espada na direcção do demónio quando este já estava em cima de si e perfurou-lhe o peito. De olhos muito abertos perante o que acabara de fazer, Diogo viu um liquido verde começar a escorrer pela sua espada e depois o demónio começou a derreter e a evaporar-se tal como acontecera àquele que Sofia matara com uma flecha certeira provinda da sua besta.
Diogo olhou à sua volta e percebeu que, naquele momento, todos, amigos e inimigos, olhavam na sua direcção. Júlio parecia sorrir-lhe, mas Sofia parecia não acreditar que ele se tinha visto livre de um demónio completamente sozinho. Já os demónios não demonstravam qualquer reacção, nem quanto ao feito de Diogo, nem quanto ao facto de terem perdido um dos seus. Mas aquilo foram segundos, pois de repente, como se nada tivesse interrompido os combates, as lutas continuaram de forma aterradora. Diogo voltou a olhar para o sítio onde antes estivera o demónio que já desaparecera deixando apenas um rasto de um liquido verde.
- É no que dá subestimares a determinação de um aniversariante em querer ver as prendas que irá receber. – e sem mais demoras foi a correr para ajudar Júlio.
Assim que chegou perto de Júlio percebeu de imediato quem iria ser o seu novo adversário. O demónio com asas de morcego olhou para ele com o mesmo sorriso que lhe mostrara da primeira vez que o vira bloquear-lhe o caminho de fuga. Afastou-se de Júlio que olhou para Diogo.
- Podes deixar este comigo – assegurou-lhe Diogo voltando-se para o seu oponente – Acho que não fomos apresentados – fez notar de forma arrogante.
“Subestimámos-te rapaz” – disse, novamente, aquela voz tão calma como ameaçadora, dentro da sua cabeça. Não vira o demónio abrir a boca para falar, mas sabia provir dele que continuava a fitá-lo com um sorriso que mais uma vez Diogo sentiu vontade de arrancar.
- Ora ainda bem que reconhecem! Já estava na altura de darem aqui algum valor ao rapaz – disse no seu novo tom arrogante provocando o outro
“Cuidado, quem fala demais, pode ficar sem língua” – avisou o demónio cujo sorriso desaparecera e que voltava à sua postura de combate mostrando a ponta bem afiada das suas armas coloridas.
- Foi isso que te aconteceu? – atirou-lhe Diogo e os olhos do seu adversário semicerraram-se de raiva – Ups, parece que toquei num ponto sensível – espicaçou novamente. E sem mais demoras o rapaz de olhos brancos passou ao ataque.
A espada de Diogo parecia estar novamente do seu lado. Leve como uma pena ajudava Diogo a defender-se dos punhais que afluíam na sua direcção com uma força três vezes superior à do anterior demónio e com uma rapidez ofuscante. Diogo sentia que estava a usar o dobro das suas forças e parecia ter muito mais dificuldade em evitar os obstáculos e tentar atacar em resposta. Por isso estava a tentar pelo menos não se deixar atingir.
“Parece-me que já não estás a achar tanta piada como antes” – ouviu Diogo na sua cabeça num tom trocista que fez aumentar a sua raiva.
Apesar da dificuldade muito superior que estava a ter, Diogo voltava a começar a sentir a mesma coisa que sentira no primeiro combate. A espada parecia enviar-lhe uma força que ia subindo pelo seu braço e que lhe renovava as energias tornando-o mais forte e mais rápido a cada estocada. Começou, mais uma vez, a tornar-se superior ao seu adversário e conseguia perceber nos olhos brancos dele que a ideia do seu oponente estar a ganhar forças ao invés de as perder também lhe passava pela cabeça.
- Quem é que estava mesmo a deixar de achar tanta piada? – provocou Diogo empolgando-se cada vez mais com a sua superioridade.
Mas foi então que Diogo ouviu um grito. Esse grito assustou-o, não só porque provinha de alguém que tinha sido ferido, mas principalmente porque esse alguém era Sofia. Cometeu o erro de olhar na direcção de Sofia, que para sua surpresa voltara ao combate sem sequer parecer preocupada com o facto de ter o braço coberto de sangue. Percebeu que já só tinha uma das espadas, mas também ficou feliz por perceber que Aaba já não possuía a sua arma lutando agora com o que parecia ser uma adaga. No entanto, Diogo pagou pelo seu erro, pois o seu oponente conseguira tirar-lhe a espada das mãos atirando-a para bem longe. Sorria triunfante perante o olhar petrificado de Diogo que olhava para a sua espada perguntando-se a si mesmo se conseguia alcançá-la. Como se lhe lesse os pensamentos, o demónio voltou a entrar na sua cabeça.
“Podes invocar uma arma quando não a tens, mas aquela que ali está não vai voltar para ti mesmo que implores por ela a plenos pulmões” – informou-o ao mesmo tempo que acelerava na direcção de Diogo pronto a acabar com a vida dele.
Mas foi então que Diogo revelou um sorriso endiabrado no preciso instante em que o outro estava prestes a cravar as suas armas no peito de Diogo. Sem vacilar um segundo, Diogo imaginou uma adaga e esperando que fosse a mais poderosa que existisse viu-a surgiu instantaneamente na sua mão esquerda e cuja arma usou para acabar com o sorriso do seu opositor. Os seus olhos estavam literalmente vermelhos quando espetou a adaga no outro, mesmo no último segundo. Viu a cara de surpresa do demónio que olhava para a ferida que tinha no peito e para a adaga que Diogo usara para o atacar.
- Não me teria lembrado de invocar uma arma se não me tivesses tu mesmo dado a ideia – explicou-lhe Diogo interpretando o espanto do demónio como se o problema fosse ter encontrado uma arma.
A criatura ainda fitava de olhos muito abertos a arma de Diogo e o próprio Diogo, quando o seu corpo começou a desfazer-se num líquido verde e a evaporar-se no ar como uma fumaça. Quando desapareceu por completo, já o sol tinha nascido. Diogo virou-se e viu que o demónio que combatia com Júlio também estava a evaporar-se e que o amigo não tinha qualquer arranhão. Mas para sua surpresa o amigo olhava para ele quase com a mesma cara com que o demónio olhara antes de desaparecer. Ouviu passos e olhou para a sua direita. Viu Sofia aproximar-se muito lentamente. Tinha um ar interrogativo ao avançar na sua direcção e toda ela era cautela. Já não tinha o braço a sangrar, aliás, nem parecia ter sofrido qualquer golpe.
- Onde foi que arranjaste essa Adaga? – perguntou súbita e brutamente Sofia agora sem tirar os olhos da arma que Diogo ainda tinha na mão.
Diogo olhou pela primeira vez para a adaga. Parecia-lhe uma arma pouco propícia a suscitar assim tanto interesse. Era igual a uma espada, mas tinha o tamanho de um punhal. A lâmina estava dividida em duas tais como as espadas de tamanho médio de Sofia e igualmente bem afiadas. O que lhe dava uma beleza fora do normal era o seu punho e o protector de mãos que separava o punho da lâmina. Todo o punho era negro, terminando, reparava agora Diogo com mais atenção, num rosto que todas as pessoas interpretariam como sendo do diabo e cujos olhos eram decorados com dois rubis encarnados. Já o protector de mãos tinha toda uma ornamentação que fazia lembrar a realeza, mas nada que Diogo reconhecesse como pertencendo a tal.
- Eu invoquei-a tal como fiz com a espada – explicou finalmente Diogo sem perceber todos aqueles olhares assustados. Nisto olhou para Júlio como que a pedir socorro, mas foi Sofia quem voltou a falar.
- Eu pensei que eras um de nós – disse Sofia dando um passo atrás como se de repente Diogo lhe metesse aversão – Tu invocaste a adaga de … - ia Sofia pronunciar, mas foi interrompida pela fúria de Júlio
- O Diogo é um de vocês – disse bruscamente Júlio enfrentando o olhar de Sofia e pronunciando pausadamente cada palavra. Diogo não pôde deixar de reparar que Júlio usara a termo “vocês” em vez do “nós” proferido por Sofia.
- Vê os olhos dele – continuou Sofia fazendo um gesto na direcção de Diogo
- O que têm os meus olhos? – perguntou Diogo algo alarmado e Sofia apontou-lhe a sua espada de duas lâminas ameaçadoramente, não para o atacar, como pensou Diogo ao início, mas para que este visse o seu reflexo nela.
Diogo assim o fez e quando tinha a lâmina à altura dos seus olhos, viu que o azul vivo dos seus olhos fora substituído pela cor encarnada, cujo tom era igual aos rubis do punho da adaga que invocara. Diogo olhou para Júlio e reparou que os olhos do mesmo já tinham voltado à sua tonalidade de verde esmeralda com que sempre o conhecera.
- Os olhos do Júlio estiveram sempre encarnados e agora já não estão – reparou Diogo esperançoso – De certeza que me aconteceu o mesmo que ao Júlio, seja lá o que for, e não tarda também vou voltar à normalidade.
- No meu caso eu sempre fui assim, mas tu… - começou Júlio mas parou como se se tivesse lembrado de alguma coisa – Só há uma pessoa que talvez possa ter uma explicação para tudo o que aconteceu aqui esta noite.
- Quem? – perguntou Diogo ansioso
- Samuel – apressou-se Sofia a informar ao mesmo tempo que as suas armas voltavam a desaparecer, e sem mais palavras afastou-se de Diogo como se a aversão por ele estivesse a aumentar a cada minuto que passava.
- Trás a tua espada – disse-lhe apenas Júlio muito sério ao mesmo tempo que guardava o machado na sua mochila tira colo e a punha ao ombro.
Diogo obedeceu-lhe.VI - REVELAÇÕES
Diogo, Júlio e Sofia estavam a subir as escadas do prédio onde Samuel tinha o seu consultório. Sofia seguia à frente a uma distância que na opinião de Diogo devia ser a que ela achava mais segura em relação a ele. Desde o combate que Sofia não voltara a olhar para Diogo, mantendo-se em silêncio o tempo todo. Júlio, por sua vez, caminhava ao lado de Diogo, mas lançava sempre olhares estranhos à adaga que Diogo levava na mão, como que para se certificar que não estava a imaginar nada. Diogo resolveu deixar as perguntas para Samuel, visto que tanto Júlio como Sofia achavam que ele tinha as respostas para tudo o que estava a acontecer. Subiram as escadas até ao quarto andar. Diogo viu Sofia parar em frente à porta do consultório. Passou pela sua cabeça que muito provavelmente Samuel não estaria ainda no consultório àquela hora, mas Sofia não tinha cara de quem estava dispostas a ouvir a sua opinião. Para sua surpresa a porta abriu-se, mesmo antes de Sofia tocar à campainha, e viu Samuel aparecer envergando o mesmo fato cinzento com que aparecia sempre nas suas consultas. “Afinal não é assim tão cedo para consultas” concluiu Diogo para si mesmo. Ninguém trocou qualquer palavra. Samuel desviou-se dando espaço para que todos entrassem. Diogo foi o último a entrar e viu o olhar de Samuel cravado nas armas que trazia em cada uma das mãos. No entanto também Samuel não teceu qualquer comentário. Dirigiram-se todos em fila para a sala de consultas de Samuel com Sofia a liderar e aquele a finalizar o grupo, fechando a porta atrás de si quando já estavam todos dentro da sala. Mal o fez, Sofia começou a “disparar” em todas as direcções.
- O que raio é que se passa com este rapaz? – perguntou Sofia fora de si – Como é que ele consegue invocar a espada não de um anjo, mas do Anjo? – continuou tirando da mão de Diogo a espada e pousando-a com força em cima da secretária de Samuel. A espada ficou ali imóvel, como qualquer outra espada e por isso Diogo não percebia o porquê de tanta importância dada à mesma – E como é que logo de seguida ele invoca a adaga não de um demónio, mas do Demónio? – disse apontando para a adaga de forma ameaçadora como se a quisesse arrancar das mãos de Diogo, mas não se atrevendo a tocar-lhe, ou sequer aproximar-se mais. – E os olhos dele! – lembrou quase sem fôlego, voltando a olhar para Diogo pela primeira vez desde que tivera a ideia de irem falar com Samuel – Ele não é quem pensamos, ele…
- Ariel – interrompeu-a Samuel num tom autoritário apesar de calmo, um tom que Diogo nunca esperara ouvir vindo de Samuel, fazendo com que Sofia não voltasse a pronunciar qualquer palavra, coisa que também não esperava vindo dela. No entanto Sofia calou-se como se fosse obrigada a obedecer e Samuel continuou – “A paciência é a arte de esperar” Como bem dizia Luc de Clapiers – citou Samuel para surpresa de Sofia e de Júlio.
- Ele é mesmo assim…do nada começa a citar frases, é uma mania estranha, mas acabam por se habituar – explicou Diogo como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo e sentando-se despreocupado no sofá onde estivera na tarde anterior. – E por falar em olhos, caso não tenham reparado os meus voltaram a ser azuis – disse apontando para si mesmo com alguma arrogância estampada no rosto.
- Podem explicar-me agora com mais calma o que aconteceu? – pediu Samuel sentando-se na sua secretária e fazendo um gesto para que todos se sentassem no sofá se fosse essa a vontade. Sofia manteve-se de pé indo encostar-se à estante de livros de braços cruzados ao peito e Júlio preferiu sentar-se numa cadeira que se encontrava encostada à parede o mais longe possível de todos os outros olhando de forma curiosa para a sala em seu redor. Assim sendo Diogo pousou a adaga ao lado da espada e foi ocupar o sofá como costumava fazer sempre.
- Parece que tive direito a uma festa de aniversário surpresa – comentou Diogo cruzando os braços atrás da cabeça – e com tudo aquilo a que se tem direito! – acrescentou.
- Miúdo insolente! – protestou Sofia com desdém
- Não sou eu quem tem os comportamentos infantis – disparou Diogo com o seu ar petulante.
- Vamos acalmar-nos - apressou-se a pedir Samuel ao perceber que Sofia não ia levar aquela afronta de ânimo leve – Sofia queres explicar-me o que se passou esta noite? – perguntou olhando directamente para ela. Sofia pareceu acalmar-se desviando o olhar de Diogo para Samuel.
Sofia respirou fundo e começou a contar tudo o que tinha acontecido. Começou por fazer referência ao facto de o odor a enxofre ter aumentado cada vez mais a partir da meia-noite e esse cheiro ter-se concentrado perto da residência de Diogo. De nessa altura ter resolvido ir ver se havia algo fora do normal a acontecer. Explicou que quando estava a passar por uma das janelas viu o demónio que tinha visto aquela manhã perto da rapariga universitária com as suas três cabeças. E que foi nessa altura que optara por ir ao quarto onde dormiam Júlio e Diogo. Que tentara acordar Diogo sem fazer barulho, mas que mesmo antes de lhe tocar, este acordou, ao mesmo tempo que gritava como uma menina assustada. Ao ouvir isto Diogo preparava-se para protestar, mas recebeu um olhar severo de Samuel e ficou calado. De seguida Sofia descreveu o ataque dos demónios e Diogo ficou a saber que Aaba, a rapariga de dentes afiados e cabelo cor-de-rosa era um demónio fêmea de uma beleza irresistível que usava a seu belo prazer para seduzir quem bem desejasse. Diogo mexeu-se desconfortável ao lembrar-se de como aquele demónio o deixara realmente fascinado com a sua aparência. Já o rapaz de olhos brancos e de sorriso estampado na cara era conhecido por Abassay e afinal não era um demónio, mas sim um diabrete. Sofia fez questão de frisar que não era dos mais fortes, só para diminuir a proeza de Diogo ter sido capaz de se desenvencilhar dele sozinho. Balaam era o nome do demónio de três cabeças que Diogo vencera em primeiro lugar e quanto aos outros dois Sofia referiu-se a eles apenas como demónios inferiores. De seguida Sofia informou Samuel sobre as armas. Explicou que Diogo invocara em primeiro lugar uma espada, A Espada, que usou para derrotar Balaam e que mais tarde no combate com Abassay invocara uma adaga, A Adaga, como fez questão de evidenciar. Explicou, ainda, que no momento em que Diogo usara a adaga para ferir o diabrete, surpresa e assombro espalharam-se na cara deste e, também, na de Aaba que se evaporou em segundos.
- Com que então não venceste o teu demónio – provocou Diogo divertido e Sofia lançou-lhe um olhar furioso como se o quisesse fuzilar. No entanto apenas o ignorou e apontou novamente para as armas em cima da secretária.
Antes de dizer qualquer coisa Samuel observou atentamente as armas. Pegou na espada e viu nela reflectido os símbolos estranhos, nos quais Diogo também repara quando a sentiu pela primeira vez nas suas mãos. Sem pronunciar qualquer palavra pouso-a com todo o cuidado e as suas mãos precipitaram-se para a adaga. Diogo sentiu Sofia suster a respiração e no momento em que Samuel pegou na arma Sofia pareceu engasgar-se, mas não saiu do seu lugar. Isso não perturbou Samuel que passava as mãos delicadamente primeiro pelo punho da arma e depois ainda com mais cuidado pela lâmina. Parecia quase nem respirar e Diogo pareceu distinguir, nos olhos de Samuel, uma intensidade que antes não estava lá. No entanto ninguém pareceu reparar naquilo. Samuel despertou dos seus pensamentos e tal como fizera com a espada, pousou também a adaga onde Diogo a deixara.
O silêncio prolongou-se por alguns minutos, até que de repente, Samuel olhou directamente para Diogo. Diogo já tinha visto aquele olhar antes, era sinal de que agora sim é que a conversa séria ia começar e por isso endireitou-se no sofá.
- Calculo que tenhas várias perguntas a incomodarem-te – Samuel pronunciou aquela frase num tom que lembrou a Diogo aqueles senhores já de certa idade que pronunciavam cada palavra com um cansaço resultante de uma vida cheia de experiências. No entanto, Samuel parecia estar sempre no auge dos trinta e cinco anos e levava uma vida pacata a ouvir os problemas dos outros, ou pelo menos assim pensava Diogo.
Era verdade, após a decisão de Sofia e de Júlio em irem procurar Samuel, Diogo foi invadido por um turbilhão de perguntas. Queria saber quem eram os seus atacantes, porque é que pareciam vir atrás dele, quem era Sofia, porque é que ela tinha asas nas costas. Queria perceber o que tinha de errado ter invocado aquelas armas, ou até mesmo como é que era possível invocar armas só por pensar nelas. Mas principalmente queria saber quem era ele no meio de tudo aquilo. Nunca se metera em grandes confusões, tirando as alturas em que tinha aqueles ataques de raiva, mas que aprendera a controlar com a ajuda de Samuel, tornara-se um bom aluno a partir do momento em que Samuel lhe ensinara uns bons truques de concentração. É verdade que nunca fizera muitas amizades, aliás à excepção de Júlio e Samuel, nunca sentira qualquer necessidade de ter amigos próximos, mas era um rapaz simpático e prestável. Tinha o hábito de ver coisas onde elas não existiam, mas também Samuel o ajudara a tentar perceber o significado daquilo… e foi então que Diogo reparou no elo de ligação que sempre existira em toda a sua vida…Samuel. E por isso mesmo, em vez de qualquer outra pergunta:
- Quem é o Samuel? – ao ouvir a pergunta de Diogo a reacção de Samuel foi sorrir-lhe. Não parecia chateado nem surpreso com aquela questão, mas o seu olhar continuava sempre preso ao de Diogo
- É uma pergunta muito inteligente – comentou Samuel sem que o seu sorriso desaparecesse – No entanto, a resposta terá de ficar para uma outra altura!
Com esta resposta Diogo percebeu que não valia a pena insistir com Samuel, mas também tinha certeza que mais cedo ou mais tarde iriam voltar aquele assunto. E algo que Diogo sabia, era esperar pela altura certa para obter o que queria. Assim optou por outro caminho.
- Quem sou eu no meio disto tudo que está a acontecer? – perguntou com mais brutidão do que a que esperava - Como é que do nada eu sou capaz de invocar armas, de manusear uma espada e com ela começar a matar demónios? E desde quando é que existe este tipo de criaturas a vaguear pela cidade? – continuou sem fôlego. Fez-se silêncio. – Eu não me reconheci – desabafou lembrando-se do momento em que percebeu que conseguia controlar a espada e o momento em que se sentiu capaz de fazer tudo, momentos antes de a espada parecer começar a abandoná-lo – Eu quis fazer coisas que…
Diogo parou de falar ao lembrar-se que não estava sozinho com Samuel e que tanto Sofia como Júlio lhe prestavam toda a sua atenção. Viu Samuel perder o sorriso como se não pudesse adiar por mais tempo algo que já estava tentado a dizer há muito tempo. Mas antes de falar, Samuel encostou-se na sua cadeira e olhou para a tela onde estava desenhado aquele anjo de olhar triste e que ambos tinham estado a observar a apenas umas horas atrás. Por fim encarou Diogo de frente.
- “Um único evento pode despertar dentro de nós um estranho totalmente desconhecido” Saint Exupery – citou Samuel muito pensativo e depois quando voltou a ter a atenção de Diogo continuou – Diogo, tu consegues invocar armas tanto de anjos, como de demónios…porque tu és filho de um anjo e de um demónio.
Quando Samuel proferiu aquela frase, Diogo sentiu vontade de rir. Nada lhe parecia mais certo do que pensar que tudo aquilo não passada de uma brincadeira, talvez uma partida de aniversário preparada pelo seu pai que sempre fora muito espirituoso. Mas viu a cara de Sofia. Toda ela era espanto, assombro, perturbação.
- Isto não é nenhuma brincadeira Diogo – disse-lhe Samuel como se estivesse a ler os seus pensamentos – Tu és filho de um Anjo Serafim! – revelou-lhe e Diogo ouviu Sofia a murmurar a palavra “filho” como se fosse algo fora do normal, ao mesmo tempo que sentiu Júlio mexer-se desconfortavelmente no seu lugar.
- Um Anjo Serafim? – questionou Diogo ainda sem que nada daquilo lhe fizesse sentido.
- Um dos anjos mais poderosos e bondosos que conheci em toda a minha existência – acrescentou Samuel como se se tivesse lembrado de alguma coisa.
- Não, nada disto faz qualquer sentido! Os anjos não existem…fazem apenas parte das histórias que os nossos pais nos contam quando somos crianças para nos darem bons exemplos a seguirmos – disse Diogo negando a existência de tais seres
- Estás então a dizer que eu não existo? – perguntou de repente uma voz atrás de si. Era a voz de Sofia. Diogo olhou para ela, parecia-lhe uma rapariga tão normal como qualquer outra da sua idade. Tinha-se aproximado um pouco mais do sofá em que Diogo estava sentado.
- A Sofia, cujo verdadeiro nome é Ariel, é um Anjo Virtude – esclareceu Samuel – E foi destacada, a meu pedido, para te proteger.
- Para me proteger? – a cabeça de Diogo parecia andar à roda. Tudo aquilo lhe parecia inacreditável, no entanto, estavam todos a dar-se a um enorme trabalho para o fazer acreditar. Primeiro os demónios e agora anjos virtudes e anjos serafins. Algo não estava a bater certo – Sendo assim, ela não tem tido um grande trabalho, pois até hoje a minha vida tem sido muito sossegada – disse de repente farto de tudo aquilo.
- Um obrigado era suficiente – escarneceu Sofia
- Na verdade não tem acontecido até agora porque tanto a Sofia como o Júlio têm intervindo sempre a tempo – informou Samuel. Diogo olhou para trás em busca de Júlio que continuava em silêncio a um canto. Tentou descobrir na cara do amigo algum indício de que aquilo era uma grande partida, mas Júlio nem sequer pestanejou.
- Só esta noite é que fiquei a saber o nome dela – lembrou apontando para Sofia – E só conheci o Júlio quando tínhamos quinze anos.
- Quanto ao Júlio tens razão. Foi só aos quinze anos que Júlio teve autorização do seu povo para aceitar a missão de te manter sob protecção – disse Samuel olhando para Júlio com respeito – Apesar de muito novo, sempre mostrou uma grande coragem e um enorme coração. – Júlio manteve-se em silêncio. – Já quanto à Sofia, como tu a conheces, se pensares muito bem, ela sempre esteve por perto desde os teus seis anos.
Diogo sabia que Samuel tinha razão. Não tinha exactamente certeza se fora aos seis anos que a vira pela primeira vez, mas lembrava-se muito bem de Sofia. Sofia na mesma escola primária, Sofia na mesma escola secundária, Sofia na mesma livraria, Sofia no mesmo Vídeo Club, Sofia no mesmo bairro, Sofia na mesma Faculdade, Sofia no mesmo curso…Sofia Sofia Sofia…era estranho saber o seu nome, pois para ele era apenas a rapariga dos cabelos negros e olhos cinzentos que estava sempre em todo o lado. Mas na verdade, parecia nem ser aquele o seu verdadeiro nome.
- Muito bem, talvez isso seja verdade. – admitiu Diogo com alguma relutância – Mas e quanto aos demónios, ou do que quer que eles quisessem proteger-me, nunca vi nenhum deles por perto.
- Nem todos os demónios costumam andar por aí na sua forma normal – esclareceu Samuel – Muitos deles disfarçam-se de humanos, para conseguirem aproximar-se deles e sugar-lhes a alma. Quanto mais o fazem, quantos mais humanos matam, mais fortes eles ficam. E adquirem também cada vez mais sabedoria e inteligência. Quanto mais matam, mais querem matar.
- Mas então isso seria um massacre – lembrou Diogo
- É por isso que eles gostam tanto de guerras, catástrofes naturais, vírus mortais, doenças incuráveis… - exemplificou Samuel
- Suponhamos que eu acredito nisso. Nesse caso são os demónios que estão por trás de todas essas desgraças? – perguntou Diogo
- Algumas sim, existe um demónio que é por exemplo capaz de criar todo o tipo de catástrofes naturais…
- Batsaum-Rasha… - murmurou Sofia – Tem-nos provocado muitas dores de cabeça! - comentou
- Imagina então o que não provoca nas suas vítimas – atirou-lhe Diogo que viu Sofia perder repentinamente a cabeça
- NÃO FALES DO QUE NÃO SABES – gritou-lhe Sofia apontando-lhe o dedo ameaçadoramente e avançando na sua direcção
- Ariel, por favor… - interveio novamente Samuel e mais uma vez, para surpresa de Diogo, apesar de relutante, Sofia obedeceu voltando para o lugar onde estava.
- Tu não fazes ideia do que é estar sempre a vigiar, sempre a tentar descobrir o que o demónio pretende fazer a seguir, onde e quando…e principalmente não sabes o que é falhar e as consequências disso – disse Sofia fuzilando Diogo com o olhar, mas controlando a sua fúria.
- O que a Sofia está a tentar dizer, Diogo, é que os demónios são capazes de tudo. Agem guiados por um qualquer pecado e não lhes interessa quem atingem ou quem usam para os seus fins. A única coisa que eles querem é destruir, aniquilar…ceifar o maior número de vidas que puderem. – disse Samuel num tom lúgubre – É assim que eles aumentam a sua força e agradam os seus príncipes. E é aqui que nós entramos…os anjos são criados para intercederem em defesa dos humanos, impedindo os demónios de se aproximarem e conseguirem atingir os seus fins mais malévolos…
- Resumindo, acabamos com eles! – interrompeu Sofia com um brilho no olhar.
- Ou pelo menos tentamos – corrigiu Samuel
- Estás sempre a falar no plural – reparou Diogo fitando Samuel – Isso quer dizer que… - deixou o resto da sua ideia ficar no ar.
- Sim, eu também sou um anjo…mas ao contrário da Sofia, eu sou um Anjo Potência – disse Samuel
- Afinal quantas categorias de anjos existem? – perguntou Diogo sem conseguir conter-se mais
- Tudo a seu tempo Diogo – refreou Samuel
- Então porque é que só agora é que os demónios resolveram aparecer à minha frente? – perguntou Diogo já a ficar farto das evasivas de Samuel.
- Acabaste de fazer 19 anos…é nessa idade que os anjos atingem a maioridade – começou a explicar Samuel
- Bem que estranhava o facto de tanto o Dr. Samuel como o Júlio estarem tão obcecados com este aniversário – lembrou-se Diogo voltando a lançar um olhar a Júlio que lhe mostrou um ténue sorriso como que a pedir desculpa.
– E é ao atingirem a maioridade que deixam de ter a protecção que lhes é dada no momento da sua criação – continuou Samuel – Até então os demónios não têm conhecimento da existência de novos anjos. Sentem a sua presença, mas nada podem fazer contra os recém criados. E aquilo pelo qual os demónios mais anseiam é extinguir a luz de um anjo. – disse perdido nos seus pensamentos - A tua luz era demasiado forte para resistirem – murmurou.
- Quanto mais falam, mais perguntas surgem na minha cabeça – confidenciou Diogo esfregando o rosto com ambas as mãos e dando-se conta de que estava mais cansado do que julgava.
- O melhor é começar do início – disse por fim Samuel.VII - UMA HISTÓRIA SOBRE ANJOS
Samuel endireitou-se na cadeira e aclarou a voz. Todos lhe prestavam atenção, principalmente Diogo que tinha os olhos fixos no seu psicólogo.
- Quer acredites ou não Diogo, nem sempre existiu o inferno, nem sempre existiram seres perversos, hoje denominados demónios…houve um tempo em que não existiu o Diabo, conhecido também por Lúcifer ou Satanás – começou Samuel – Deus criou apenas os anjos. Assim surgiram os Anjos Serafins, também conhecidos como os anjos do amor. Estão ao lado de Deus e têm a missão de transmitir a bondade divina. Personificam a caridade e a inteligência. – Samuel fez uma pequena pausa antes de prosseguir - De seguida Deus criou os Anjos Querubins. São os mensageiros da sabedoria divina. Representam a inocência da criança e vêm a verdade em cada um. Têm um temperamento muito jovial e são óptimos a encontrar a palavra certa para ajudar a solucionar os problemas por mais difíceis que sejam – sorriu como se estivesse a lembrar-se de algum momento em particular – Depois apareceram os Anjos Tronos. Trazem a mensagem de Deus através da arte, especialmente a música. Têm a capacidade de mostrar sempre o lado bom das coisas, o lado positivo de tudo. E a sua principal missão é ajudar os anjos mais inferiores e aqueles que acabam de ser criados. Sucederam-lhes os Anjos Dominações que têm a rapidez do raciocínio e ajudam nas emergências. Estão encarregues, ainda, de verificarem e avaliarem as missões dos restantes anjos. – Diogo ouviu neste momento Sofia suspirar profundamente como se se tivesse lembrado de algo que a arreliava, mas que ao mesmo tempo a parecia divertir pois os seus lábios mostravam um sorriso de través, mas Samuel nem pareceu dar conta e Sofia voltou a ficar novamente atenta – Posteriormente foram criados os Anjos Potências, categoria em que eu estou inserido – disse Samuel apontando para si mesmo – protegemos tudo o que tem vida, mais exactamente o que diz respeito à natureza e aos animais, e procuramos promover a harmonia vigiando as infiltrações diabólicas na terra. Além disso, também são os Anjos Potências que são responsáveis por contar a história dos anjos às novas gerações.
- E é aqui que entram os Anjos Virtudes – interveio de repente Sofia sorridente muito orgulhosa de si mesma. Diogo viu Samuel revirar os olhos algo divertido, mas logo de seguida continuou.
- Os Anjos Virtudes tentam a todo o custo eliminar os obstáculos que se opõem a Deus, como é o caso dos Demónios. São eles quem aparecem quando o medo começa a alastrar-se, dando coragem e promovendo os milagres da cura – Diogo percebia agora porque é que a lesão causada no braço de Sofia por Aaba desaparecera tão rapidamente – Seguem-se os Anjos Principados que são aqueles que tomam as decisões mais importantes no nosso mundo. São eles que atribuem missões, são eles que decidem quais os novos anjos a serem criados, são eles que julgam os anjos considerados traidores, são eles que mantém tudo organizado. São considerados os anjos mais justos. – Quanto aos Anjos Arcanjos são enviados para viver entre os humanos para que possam transmitir o conhecimento entre o Divino e o Humano. São também aqueles que têm menos sorte – acrescentou Samuel num tom de apoio aos Anjos Arcanjos – pois quando as suas palavras são mal interpretadas devido a intervenções demoníacas, acabam por ver-se a braços com vários problemas. Por fim foram criados os Anjos da Guarda que trabalham directamente com a Humanidade, tentando ajudar as pessoas desde o seu nascimento até ao fim dos seus dias. No entanto, a partir do momento em que as crianças atingem os treze anos, só podem ajudar se e quando as pessoas pedirem a sua ajuda, nunca interferirão se não forem desejados – terminou Samuel – Alguns dos Anjos foram criados apenas e porque Deus deu origem aos humanos e portanto nem todos interferem na vida terrena ou se aproximam dos humanos.
- Por isso é que quando eu me dava conta daquelas silhuetas tinha impressão que eram diferentes, que só algumas pareciam aproximar-se das pessoas – lembrou-se Diogo, situação essa que confidenciara com Samuel na tarde anterior.
- Exactamente – assentiu Samuel sorrindo-lhe – Mas continuando, Deus criou vários anjos, como podes ter percebido, e entre eles criou o anjo mais poderoso de todos…Lúcifer!
- Lúcifer foi um anjo? O Diabo foi um anjo? – perguntou incrédulo Diogo
- Ouve… - pediu-lhe apenas Samuel com paciência e Diogo voltou a ficar em silêncio – Deus criou Lúcifer como o mais poderoso de todos os anjos. – continuou Samuel - Lúcifer era considerado o portador da luz, o filho da manhã, o dragão do amanhecer. Deus nomeou-o o príncipe do poder do ar, sendo escolhido para ser o maior entre os anjos e o favorito de Deus, Pai Senhor da Luz. Assim Lúcifer serviu a Deus com a maior dedicação que lhe era possível. – Samuel fez uma pausa antes de continuar – No entanto Lúcifer é enlouquecido pelo ciúme quando Deus-Pai proclama o irmão de Lúcifer, aquele que foi criado ao mesmo tempo que Lúcifer, seu nome Jesual, o Filho, o Anjo dos Anjos. Em consequência, da sua cabeça Lúcifer deu luz ao pecado e conspirou contra o seu Pai, tramando a sua morte para poder substituir Deus no universo.
Diogo acreditava que Sofia já devia ter ouvido aquela história centenas de vezes, mas continuava a demonstrar uma expressão chocada à medida que a história ia avançando. Até mesmo Júlio parecia suster a respiração.
- Assim, Lúcifer conseguiu persuadir um terço dos anjos de Deus a juntar-se a ele nessa rebelião. Uns juntaram-se por medo, mas outros porque acreditavam devotamente em cada palavra que Lúcifer lhes dizia. – Samuel viu a incredulidade estampada na cara de Diogo e por isso acrescentou – Lúcifer consegue ser muito persuasivo quando quer Diogo, consegue dar a volta à cabeça do mais crente de todos fazendo-o acreditar que não é Lúcifer quem está errado e que não há qualquer maldade nos seus actos. Muito pelo contrário, diz as coisas de uma maneira em que é impossível arranjares forma de discordar com o seu discurso. Podes achar que só mentes mais fracas caiem nas suas palavras…talvez…mas só o poderás afirmar quando estiveres frente a frente com ele. Não que eu esteja a desculpar os anjos que o seguiram – apressou-se a dizer ao ver a cara de Sofia – Só que existe sempre dois lados da mesma moeda.
Sofia sentou-se no sofá ao lado de Diogo, na opinião deste, sem que ela estivesse realmente a aperceber-se do seu movimento.
- Continuando…No momento da rebelião, Deus amaldiçoou Lúcifer, expulsando-o do Paraíso, pois podem calcular que tendo em conta as circunstâncias que hoje conhecem, Lúcifer não conseguiu apoderar-se do lugar de Deus. Foi aí que Lúcifer se tornou Satanás, o Adversário e surgiu o Inferno.
Á medida que Samuel avançava na história, o ambiente ia ficando cada vez mais pesado. Diogo sentia algo estranho, como se começasse a ter certeza de que toda aquela história ia acabar de uma forma que não lhe ia agradar.
- Deus também amaldiçoou os anjos que participaram na rebelião e eles foram transfigurados de belos anjos para demónios horríveis. – prosseguia Samuel – Entre nós são conhecidos por Anjos Caídos, mas eles próprios gostam de auto denominar-se Demónios. Com o passar dos séculos conseguiram voltar à sua forma original, mesmo que por apenas algumas horas, o suficiente para conseguirem infiltrar-se entre os humanos sem suscitar desconfianças. Todos eles criaram um ódio profundo a Deus e tudo o que ele cria, neste caso anjos e humanos. E é aqui que entra a história de Adão e Eva, como a deves conhecer.
- Então Adão e Eva existiram mesmo? – perguntou Diogo e Samuel assentiu com a cabeça
- Magoado com os anjos que o traíram, Deus resolveu depositar toda a sua esperança em novos seres, os humanos. Deus criou Adão do barro e Eva a partir da costela de Adão. Deixou-os livres no Paraíso, com a única condição de nunca comerem o fruto que crescia da árvore localizada no centro do Paraíso. Eva interpretou aquele aviso como se ao comerem aquela fruta morreriam. É então que surge Satanás disfarçado de serpente e mais uma vez usando o seu dom para as palavras consegue convencer Eva de que esta interpretara mal as palavras de Deus e que comer aquele fruto não a mataria. Que muito pelo contrário, aquele fruto iria oferecer-lhe a sabedoria igualando-se a Deus. Satanás conseguiu deste modo induzir Eva a pecar e esta persuadiu Adão a acompanhá-la, o que levou à expulsão dos dois do Paraíso.
- A primeira vitória de Satanás – murmurou Sofia
- Mas apenas temporária – afirmou Samuel – Deus não desistiu da raça humana e é assim que chegamos aos dias de hoje. Desde então, anjos lutam contra demónios para proteger os humanos e os demónios fazem de tudo para destruir a criação de Deus e a fé que este deposita nos humanos.
- Reproduzem-se entre si para aumentarem o seu número e têm aperfeiçoado a criação de novas espécies como é o caso dos diabretes e dos espíritos diabólicos – lembrou Sofia.
- Mas há uma coisa que não faz sentido – interveio de repente Diogo e todos olharam para ele – Se os anjos e demónios se odeiam desde há séculos procurando destruir-se mutuamente…como é que é possível eu ser filho de um anjo e de um demónio? – perguntou por fim.
- Há coisas que nem eu mesmo sei explicar ou encontrar uma razão – disse Samuel cujo olhar voltara a ficar triste
- Mas então como sabe que é verdade? Como é que tem tanta certeza de que eu realmente sou filho de um anjo e de um demónio? – perguntou Diogo falando tão rápido que parecia estar a ficar sem fôlego - Isto de invocar a arma de um demónio pode ter acontecido por mil e uma razões… - tentou justificar.
- Poderia realmente ser assim… - começou Samuel olhando com ternura para Diogo - …se eu não tivesse conhecido a tua mãe e assistido ao teu nascimento – concluiu.
Diogo não sabia o que dizer. Continuava a olhar para Samuel como se não estivesse a ouvi-lo bem. Mas antes que pudesse dizer alguma coisa, Sofia foi a primeira a colocar uma questão. Parecia estar a escolher as palavras adequadas antes de abrir a boca, no entanto a única coisa que disse foi:
- Nascimento? Quando fala em nascimento, está a referir-se a um parto normal?
Diogo achou aquela pergunta muito estranha, mas como naquele momento nada lhe parecia normal, limitou-se a olhar de Sofia para Samuel.
- Sim – confirmou Samuel
- Certamente não é então um anjo. Deixou de o ser quando se envolveu com um demónio – concluiu apenas Sofia
- Estás enganada Sofia, nunca em momento algum ela deixou de ser um anjo – corrigiu-a Samuel.
- Mas isso é proibido – lembrou Sofia levantando-se bruscamente sem tirar os olhos de Samuel – Podia ser um anjo, mas a partir do momento em que foi corrompida por um demónio, deixou de o ser. Isso já aconteceu, passaram a ser anjos caídos, também conhecidos por demónios como explicou há pouco.
- Nunca conheci um anjo mais puro do que ela – atestou Samuel – Nunca em momento algum foi corrompida, nunca perdeu os seus ideais.
- Então foi enganada, seduzida – continuou Sofia à procura de uma justificação – Talvez pensasse que ele era um humano.
- Seduzida sim, mas nunca enganada, ela sabia quem ele era e do que ele era capaz – garantiu Samuel – E além disso Sofia, qualquer anjo reconhece um demónio ao longe.
- Eu não reconheci o Diogo – lembrou Sofia olhando para Diogo como se só agora se tivesse lembrado dele
- Isso porque nunca antes existiu um filho descendente de um anjo e de um demónio em simultâneo – tentou Samuel fazer Sofia entender.
- Não faz sentido…nada disso faz sentido! – repetia constantemente Sofia sem acreditar nas palavras de Samuel - Isso nunca aconteceu! O que é que podia fazer um anjo ter um filho com um demónio?
- Amor? – sugeriu Samuel
- Por um demónio? – disse Sofia incrédula – Sem ser corrompida? Nenhum anjo verdadeiramente puro se envolveria com um demónio, não sem se tornar um anjo caído, um deles. – acrescentou - Mesmo por amor, como diz, nunca será um amor sem pecado
- Tens uma certa razão, pois afinal de contas o Diogo foi gerado por dois seres e não criado ou originado pela luz divina, como acontece com os anjos – concordou em parte Samuel - Mas nunca em momento algum ela deixou corromper-se ou influenciar-se pela maldade e crueldade do demónio.
- Disse que conheceu a minha mãe – interrompeu Diogo que apenas tinha uma coisa na sua cabeça – Isso quer dizer que sabe dizer-me quem ela é? – exprimiu-se Diogo de forma esperançosa.
- Lamento muito Diogo – disse Samuel com pesar na voz e uma tristeza genuína - A tua mãe faleceu pouco antes de fazeres dois anos de idade.
Aquela informação atingiu de forma mais assombrosa do que Diogo alguma vez imaginara. É certo que a sua mãe seria sempre quem o criara e nada nem ninguém a iria substituir. Mas toda aquela história mexera com ele e por momentos quis saber quem era a sua verdadeira mãe e quem sabe encontrá-la. Agora sabia que isso nunca seria possível. Não conseguia perceber porque é que isso estava a perturbá-lo tanto, mas não conseguia evitar ser invadido por uma enorme tristeza.
- Mas tu já a viste – informou de repente Diogo para surpresa deste e curiosidade dos restantes – E sabes perfeitamente como ela é – acrescentou com um sorriso e sem mais palavras Diogo viu os olhos de Samuel, dirigirem-se como tantas outras vezes para a tela presa na parede. A mesma que Diogo sempre gostara de ficar a observar em todas as suas sessões desde o momento em que se deitava naquele sofá até se ir embora. Diogo seguiu o olhar de Samuel e percebeu que os outros faziam o mesmo. Lá estava aquele rosto terno, meigo e ao mesmo tempo tão triste. Aqueles olhos tornavam-se agora familiares, quentes. De repente uma imagem apoderou-se de Diogo. Viu-a à sua frente, rodeada por árvores, uma floresta talvez, tinha uma arma nas mãos e olhava para ele com uns grandes olhos azuis. Parecia muito alta, como se estivesse a vê-la de baixo para cima. Toda ela era uma mistura de tristeza e coragem. Olhava para ele como se estivesse preocupada, parecia querer sorrir-lhe, mas porque será que não o fazia?
- Mas ela é… – disse de repente uma voz lá bem distante despertando Diogo para a realidade. Teria sido aquilo uma memória escondida da sua mãe? Perguntou Diogo a si mesmo. Não podia ser concluiu. Segundo Samuel, a mãe tinha morrido antes de ele completar dois anos de idade, nessa idade as crianças ainda não têm memória. – Esta é a Luz – ouviu novamente Sofia agora de forma mais perceptível. Ela parecia surpreendida.
- Sabes quem é? – perguntou Diogo fitando Sofia
- Todos os anjos sabem quem é Luz – informou Sofia com uma calma que Diogo ainda não assistira e sem desviar os olhos da tela – Ela foi dos primeiros Anjos Serafins a ser criado, antes da rebelião, antes de Deus-Pai ter criado Lúcifer…ela presenciou a rebelião, lutou contra todos os que se viraram contra Deus, manteve-se ao seu lado sem nunca se deixar corromper, sem nunca acreditar nas palavras enganadoras e mentirosas dos anjos caídos. – Era a primeira vez que Diogo absorvia cada palavra que Sofia dizia, como se quisesse que ela continuasse a falar mais e mais – Até que um dia chegou a notícia… - a voz de Sofia falhou.
- Que notícia? – perguntou Diogo impaciente.
- Que a luz do Anjo Serafim mais leal em toda a história dos anjos tinha sido extinta – disse Sofia num tom repleto de tristeza
- Por quem? – perguntou Diogo sentindo a fúria começar a invadi-lo e percebendo que tinha os punhos cerrados com tanta força que os nós dos dedos já estavam a ficar brancos.
- Ninguém sabe – informou Sofia baixando o olhar sem conseguir encarar Diogo de frente. – Foi um grande choque…mas de qualquer maneira só pode ter sido um demónio, são os únicos que sabem como matar um anjo e que têm poder suficiente para isso. No caso de Luz teria de ser um demónio muito poderoso. – esclareceu Sofia.
- Não têm qualquer ideia do demónio que possa ser? – perguntou Diogo tentando disfarçar a sua raiva.
- Não são muitos os demónios capazes de matar um anjo da qualidade de Luz, mas mesmo assim, existem alguns capazes de o fazer – respondeu Sofia – E qualquer deles teria todo o prazer e faria questão em reivindicar o seu assassínio - comentou perdendo-se nos seus pensamentos – E é isso que se revela o mais estranho, nunca ninguém veio reclamar o seu feito e a sua glória.
Ficaram em silêncio, mas de repente Sofia endireitou-se muito.
- Claro!!! – disse de repente como se tivesse tido uma ideia - Agora faz todo o sentido! Se és filho do Anjo Serafim Luz deves poder invocar a espada de Metraton, o Príncipe dos Serafins – fez uma pausa como se estivesse a tentar lembrar-se de algo - Não sabia que isso podia acontecer, não consigo lembrar-me de nenhum caso, mas só pode ser por isso – olharam todos para a Espada. Estava imóvel em cima da mesa imune a tudo o que se passava ali naquela sala. Parecia nunca ter sido usada numa luta, mantinha o mesmo brilho igual àquele que tinha no momento em que surgiu na mão de Diogo, nem sequer estava machada daquele líquido verde do demónio que perfurara.
De seguida os olhos azuis de Diogo pousaram na Adaga e nesse momento sentiu um enorme aperto no peito. Se aquela espada vinha dos anjos devido ao estatuto ocupado pela sua mãe entre eles, nesse caso a Adaga proveniente de um demónio e que tanto atormentara Sofia, devia pertencer ao seu pai.
- Dr. Samuel – Diogo pronunciou o nome do seu psicólogo de forma ponderada. Olhou para ele e viu nos olhos de Samuel que este estava a adivinhar a pergunta que se seguiria. Diogo percebeu que estava com medo do que poderia ser-lhe revelado, mas mesmo assim tinha de saber – Quem é o meu pai? – fez a pergunta automaticamente, como se quisesse despachar aquilo. Samuel respirou fundo antes de dar qualquer resposta.
- O teu pai Diogo…é um dos quatro Príncipes do Inferno! – disse por fim Samuel sem desviar o olhar de Diogo.VIII - PRÍNCIPES DO INFERNO
Diogo ouviu muito bem o que Samuel acabara de lhe dizer. Ele era filho de um dos quatro Príncipes do Inferno. No entanto, aquela informação não teve o impacto que Diogo esperara que teria em si. Na verdade nem sequer a estava a perceber muito bem. Para quem acreditasse, no Inferno existia o Diabo e os restantes demónios que se submetiam às suas ordens. Nunca ouvira falar em príncipes do Inferno. Mas calculava que aquilo não podia ser nada de bom, pois Sofia levou as mãos à boca como que a impedir que um grito escapasse. Tinha os olhos muito abertos e parecia estar prestes a ter um colapso de tão branca que ficara. E Júlio chamou a atenção sobre si ao cair da cadeira onde estava sentado e ao embater com a cabeça na parede. Sofia voltou a sentar-se no sofá ainda com as mãos em frente à boca e Júlio levantou-se apressadamente e endireitou a cadeira voltando a sentar-se, ao mesmo tempo que massajava a cabeça.
- Por isso é que ele conseguiu invocar A Adaga – lembrou Sofia ainda completamente incrédula – Todos os quatro príncipes do Inferno possuem uma Adaga igual a esta – todos olharam para a arma imóvel em cima da secretária.
- Príncipes do Inferno? – foi a pergunta de Diogo. Sofia olhou para ele como se ele estivesse a fazer a pergunta mais parva de todos os tempos, mas Samuel apenas se levantou e com as mãos nos bolsos rodeou a mesa, encostando-se à parte da frente da mesma e ficando de frente para Diogo a cerca de dois passos de distância deste. Estava pronto a começar uma nova história.
- Existem quatro príncipes coroados no Inferno…Sammael, Lúcifer, Belial e Leviathan e cada um deles governa um dos quatro pontos cardeais do Inferno – expôs Samuel – Belial governa o Norte do Inferno. É o mais imoral de todos, a sua intenção é proliferar a perversidade e a culpa. Diverte-se a destruir casamentos, negócios, saúde, felicidade em geral com o único intuito de levar as suas vítimas à loucura. Todo ele esbanja arrogância e só responde correctamente a uma pergunta se lhe oferecerem algum sacrifício em troca. E todos aqueles que aceitam presenteá-lo com um sacrifício acabam por sair a perder porque Belial consegue ludibriar de forma a ser o único a sair a ganhar.
- Pensar que em tempos ele foi um Anjo Virtude… - ouviu-se Sofia murmurar com um profundo desprezo no tom de voz.
- A Sul do Inferno encontra-se Sammael. – prosseguiu Samuel - É descrito como o anjo da morte, pois vai em pessoa reclamar as suas almas quando estas ainda se encontram no purgatório. Brinca com as suas presas como se fossem marionetas até conseguir o que quer. Consegue descobrir o mais profundo dos medos, temores, receios de cada um e usa isso a seu favor para atingir os seus objectivos. É, inclusive, considerado o pior deles todos, apesar de a linha ser muito ténue entre eles. Todo ele é veneno e destruição. É o maior mentiroso que alguma vez existiu usando palavras inteligentes e racionais para enganar e atraiçoar. Nega a existência de Deus e de qualquer ser acima do “Eu”.
No lado Este do Inferno a chefia cabe a Lúcifer. A sua história já sabes – lembrou Samuel – Mas é bom acrescentar para que retenhas sempre na tua mente que ele é o mais sábio e mais poderoso de todos os quatro. É o mais calculista, o mais frio e o mais orgulhoso…afinal de contas foi ele quem da sua própria cabeça deu origem ao pecado e convenceu centenas de anjos a seguirem-no. E se ele conseguiu essa proeza, o que mais poderá conseguir.
Por fim, mas não menos cruel e atroz, a liderar o lado Oeste do Inferno encontra-se Leviathan, outrora também um Anjo Serafim. É o maior causador de catástrofes em massa, principalmente as relacionadas com a água. Consegue mudar de aspecto físico como bem lhe agrada e sempre para satisfazer os seus próprios desejos e necessidades. – terminou Samuel.
Ficaram todos em silêncio por momentos até que Diogo começou a perceber que todo aquele silêncio era por sua causa.
- Bem, qual deles o melhor – brincou Diogo apesar de não ter qualquer vontade de rir ou de se divertir – É mesmo caso para dizer…venha o Diabo e escolha!
- Não têm nenhuma ideia de qual deles pode ser o pai do Diogo? – foi Júlio quem fez aquela pergunta. Visto que tinha estado sempre em silêncio, teve de aclarar a voz quando percebeu, ao falar, que esta lhe falhava.
- Apesar de ter insistido com Luz para que me contasse, ela nunca me revelou quem era o teu pai, Diogo – informou-o Samuel voltando a olhar para ele – Só me dizia que precisava fugir para te manter protegido e que a tua importância no nosso mundo era muito maior do que alguém podia imaginar.
- Como assim? – perguntou Diogo – Que importância posso eu ter?
- Ela também não me confiou esse segredo – disse Samuel com alguma tristeza – Luz pediu-me apenas para que continuasse a confiar nela como sempre confiara e que a ajudasse a proteger-te tanto dos anjos como dos demónios.
- Dos anjos também? – perguntou Sofia confusa – A única coisa que poderia acontecer-lhe era ser julgada e como consequência deixar de ser um Anjo. Ninguém lhe faria mal. Foram tantos séculos de lealdade!
- A preocupação de Luz não era com ela mesma ou com o que lhe poderia acontecer, mas sim com o seu filho e com o que pudessem fazer-te – clarificou Samuel.
- Como é que eu passei a ser o Diogo Soares, o filho da Clarissa e do Rafael Soares? – perguntou Diogo fitando Samuel.
- No dia anterior à morte de Luz… - a voz de Samuel tremeu ao pronunciar aquela frase, olhou para a tela onde agora, Diogo, sabia retratar a sua mãe Luz, e continuou sempre com os olhos postos na pintura - …ela obrigou-me a prometer que nunca, mas nunca revelaria a ninguém a tua existência. Tentei chamá-la à razão. Pedi-lhe para que me dissesse de quem é que tinha medo, de quem é que queria fugir. Disse-lhe que todos os anjos, apesar de tudo, estariam dispostos a lutar em sua defesa. A protegê-la. Ofereci-me para a proteger com a minha vida se fosse preciso. Mas a única coisa que Luz fazia contra os meus argumentos era abanar a cabeça em sinal negativo. Nunca a vira chorar até àquela altura. – Diogo reparou que Samuel tinha lágrimas nos olhos – E antes de nos separarmos naquele dia, pediu-me para, no caso de ser impossível para vocês os dois ficarem juntos, levar-te para o mundo dos humanos de modo a que fosses criado por uma boa família que nada tivesse a ver com o nosso mundo. Prometi-lhe, claro. Pouco depois, despedimo-nos sem nunca desconfiar que aquela seria a última vez que a veria com vida. Umas horas depois recebi uma oração de protecção vinda de Luz, não para ela, mas para ti. Quando lá cheguei a sua luz já tinha sido extinta, apenas vi o seu brilho ser levado pela noite escura. E tu ali estavas com mantas à tua volta e a olhar na direcção em que a tua mãe desaparecera. Assim que te peguei aninhaste-te no meu colo e adormeceste. – lembrou Samuel e Diogo percebeu que também ele tinha os seus olhos com lágrimas.
- Mas se chegou lá na altura em que ela desaparecia deve ter visto alguém, alguma coisa – pensou em tom alto Júlio
- Lamento, mas estava muito escuro quando lá cheguei e não vi ninguém – apressou-se Samuel a dizer e voltando repentinamente para o seu cadeirão – Cumpri então o seu último desejo – continuou - Procurei um casal que ansiasse por dar todo o seu amor a uma criança e que quisesse educar-te com bons ideais e exemplos. Que pudessem vir a fazer de ti um homem honesto e justo. Mesmo nessa noite fui até casa deles e expliquei-lhes toda a situação.
- Os meus pais sabem a verdade? – perguntou incrédulo Diogo. Mas nem esperou pela resposta, lembrou-se da sua mãe a insistir para que fossem à Igreja todos os Domingos, o seu pai a perguntar o que sentira e em que pensara quando lhes contava que o professor o tinha posto de castigo porque tinha andado à luta com um colega qualquer, o grande problema de cada vez que se vestia todo de preto, o facto de nunca o deixarem faltar a uma consulta com o Dr. Samuel, mesmo que estivesse doente ou fosse véspera de exame…
- Fui sincero com eles desde o primeiro minuto, mas eles nem pensaram duas vezes. Estavam ansiosos por cuidarem de ti e amarem-te sem sequer se lembrarem que não eras filho deles, mas sim filho de um dos príncipes do Inferno. – disse Samuel já confortavelmente sentado na sua cadeira – Claro que fiquei sempre por perto, primeiro de longe e a partir dos teus seis anos como teu psicólogo.
- Foi assim que inventou o Dr. Samuel… - murmurou Diogo que olhava para a palma das suas mãos – Durante este tempo todo… - o seu tom de voz era quase inaudível e Diogo começou a perceber que estava a tremer.
- Diogo? – chamou-o Samuel percebendo que algo de errado estava a passar-se.
Diogo começou a levantar-se calmamente e de repente olhou para Samuel vendo-o como nunca antes o tinha visto…como um traidor. Os olhos de Diogo estavam novamente encarnados. Tinha lágrimas nos olhos, mas desta vez era de raiva. Os punhos estavam novamente cerrados e Diogo sentia uma fúria incontrolável crescer dentro dele. Quis atacar Samuel ali mesmo, quis descontar em cima dele tudo o que estava a sentir naquele momento. Percebia que todos eles estavam a falar, mas não conseguia ouvir uma única palavra, os seus ouvidos pareciam apenas captar um zumbido.
- Diogo! – ouviu Samuel pronunciar com os olhos muito abertos como se houvesse algo de errado ao mesmo tempo que se levantava – Diogo estás bem?
- CLARO QUE NÃO ESTOU BEM!!! – gritou Diogo furioso. Diogo sentia a raiva apoderar-se de todo o seu corpo, da sua mente – MENTISTE-ME…TODOS ME MENTIRAM…O DR. SAMUEL, OS MEUS PAIS, O JÚLIO…NÃO SE APROXIMEM! – gritou-lhes ao ver Samuel dirigir-se a ele e Júlio aparecer à sua frente com um ar assustado. Ao dizer isto, a adaga que estivera aquele tempo todo em cima da secretária de Samuel estava agora na sua mão. Não se lembrava de ter pensado em qualquer arma, mas ali estava ela na sua mão e Diogo estava disposto a usá-la. Eles conseguiam perceber isso. Viu as espadas de duas lâminas surgirem em cada uma das mãos de Sofia. Viu Júlio levar a mão à sua mochila onde Diogo sabia lá estar o machado. Era Samuel quem estava mais perto dele, mas era também o único que não tinha qualquer arma para se proteger. Diogo não ouvia o que ele dizia, mas percebeu que ele gritava o seu nome repetidamente. Diogo sentiu um movimento à sua esquerda, acreditou ser Sofia pronta a atacar, mas ao invés disso não olhou para Sofia, mas sim para a tela onde estava desenhada a sua mãe. Lembrou-se novamente daquela memória dela a sorrir na sua direcção. Desviou o olhar e voltou a observar todos à sua volta, percebeu que estava mesmo disposto a atacá-los…a todos. Era isso que queria, era isso que desejava…atacá-los!
“Este não sou eu” – pensou Diogo para consigo – “Eu não sou assim” – Diogo olhava para a arma que tinha na mão. A própria arma parecia incentivá-lo a usá-la, por mais estranho que isso lhe soasse na sua cabeça – “É SÓ UMA ARMA” – gritou dentro da sua cabeça. No entanto o seu braço começou a subir como se estivesse a preparar-se para investir – “És tu que a controlas e não ela a ti” – obrigou-se Diogo a pensar, mas era cada vez mais difícil dominar-se, ele queria usá-la. Por isso…teve de o fazer.
Diogo saiu disparado pela porta do consultório. Respirava com alguma dificuldade, mas isso não o impediu de continuar a descer as escadas do prédio a grande velocidade. Quando chegou à rua, a luz do sol ofuscou-o. A pouca luz na sala do Dr. Samuel fizera-o esquecer que a manhã já ia adiantada. Continuou a correr pela rua abaixo. Percebeu de imediato que vinham atrás dele. Tanto Sofia, como Júlio, como o Dr. Samuel gritavam pelo seu nome. Por isso mesmo aumentou a velocidade. Ocorreu-lhe o que pensariam as pessoas por quem passava a correr sem sequer se preocupar com quem chocava e que o viam a ser seguido por outros dois jovens e um homem mais velho a gritarem por ele. Além disso, ele transportava uma arma, esperava que a qualquer momento também a polícia fosse atrás dele. No entanto isso não aconteceu e Diogo não só conseguiu ganhar avanço relativamente aos seus perseguidores, como também os despistou. Meteu-se por atalhos que havia descoberto quando se perdera por aquelas bandas logo no primeiro mês em que tinha entrado para a faculdade. O seu atalho foi dar a uma ponte de pedra que passava por cima de um rio. Apressou-se a descer até ao rio escondendo-se debaixo da ponte. Conseguiu acalmar-se e controlar a respiração. Baixou-se e viu o seu reflexo no rio. Tinha os olhos encarnados. Fechou-os e respirou fundo. Lembrou-se de quando os pais o levaram pela primeira vez a um parque de diversões e uma outra vez ao jardim zoológico, lembrou-se do pai a ensiná-lo a andar de bicicleta, da mãe a deitar-se na sua cama a ler-lhe uma história para adormecer. Da alegria dos dois quando teve a sua primeira boa nota na escola, dos beijos da mãe, das lutas com o pai pelo comando da televisão…abriu os olhos e suspirou com alívio ao ver que estes tinham voltado ao seu azul original. Diogo pousou a adaga ao seu lado e deitou-se estendido na relva ali mesmo por baixo da ponte.
- Não devias baixar a tua guarda sem te certificares primeiro que não há nenhum inimigo por perto – disse uma voz algo familiar e que sobressaltou Diogo fazendo-o agarrar de imediato na Adaga e levantar-se.
Ali estava à sua frente, Aaba, o demónio que lutara com Sofia. Mais uma vez Diogo deixou-se impressionar pela sua beleza. Percebia muito bem o que Sofia queria dizer com a capacidade que Aaba tinha para seduzir. O seu próprio nome podia ser sedução que ninguém teria nada a apontar. Caminhava a passos lentos na sua direcção. Mexia-se como uma felina, tudo nela o atraia, era como se estivesse hipnotizado pelo seu corpo, pelo seu rosto, pelos seus movimentos, pela sua voz.
“Era assim que ela conquistava as suas presas” – pensou Diogo que não conseguia tirar os olhos dela…até o seu perfume era enlouquecedor.
- Mas de qualquer maneira és um demónio tal como eu, portanto não precisas ter medo de mim – disse Aaba na sua voz sedutora. No entanto foi aqui que cometeu os dois primeiros erros. Diogo pareceu despertar daquele transe provocado por Aaba e sorriu-lhe. Não era um sorriso a que Aaba estava habituada, era-lhe estranho, no entanto também lhe retribuiu o mais sedutor dos seus sorrisos.
- Em primeiro lugar, eu não tenho medo de ti – começou Diogo prendendo a Adaga no seu cinto. Os olhos de Aaba semi-cerraram. Começava a perceber que não estava a surtir o efeito desejado em Diogo – Em segundo lugar, eu não sou um demónio tal como tu – Diogo carregou bem nas suas últimas palavras e na sua mão apareceu a espada do Anjo Metatron, tal como acontecera na noite anterior. Nem precisou olhar para ela, sentia-a e sabia que era ela. Mas viu o choque estampado no rosto de Aaba e os seus olhos presos na espada – E em terceiro lugar…esses dentes afiados tiram-te o encanto todo.
Sem mais palavras, Diogo empunhou a espada e correu na direcção de Aaba. Esta só teve tempo de invocar a sua arma, o bastão com uma lâmina em cada ponta, e defender-se da investida de Diogo. A sua sedução acabara, tinha a cara transfigurada numa expressão de puro ódio e mostrava agora os seus quatro dentes afiados.
Aaba não era como os demónios que Diogo vencera algumas horas atrás. Ela era muito mais rápida e forte, tinha bons reflexos e parecia antecipar cada investida de Diogo. Os seus olhos faiscavam a cada embate das suas armas. Não fugia dos golpes de Diogo e bloqueava-os com inteligência, pois fazia-o de forma a impedir que Diogo conseguisse encontrar alguma falha nas suas defesas. Mas Diogo também percebia que essa estratégia era a única na qual Aaba estava a conseguir ter algum sucesso. Pois um contra-ataque estava a mostrar-se completamente impossível e a qualquer momento o cansaço iria apoderar-se dela. Diogo voltou a investir agora com mais força. Mais uma vez a sua força e a sua energia pareciam aumentar à medida que o combate se ia desenrolando. Não percebia como isso era possível, mas o certo é que a sua destreza com a espada aumentava a cada novo golpe e o seu corpo vibrava como se ele e a espada fossem um som. O combate era feroz, quase selvagem. Os rugidos emitidos da garganta de Aaba assemelhavam-se a trovões. Apesar da sua forma elegante e notável agilidade, parecia-se cada vez mais com um demónio. Aaba já se encontrava dentro do rio, numa zona que lhe dava pelos joelhos, evitando cada um dos golpes de Diogo. A expressão do seu rosto já não mostrava apenas ódio, Diogo conseguia ver dentro dele algo mais, algo semelhante a medo. Ao decifrar o novo sentimento que provinha dos olhos de Aaba, algo despertou dentro de Diogo, mas em vez de ser algo que o fizesse recuar, o que realmente quis foi atacar, derrubar, destruir...abater Aaba. E com um rugido Diogo atirou-se ao demónio. O impacto fez estremecer o chão. Nuvens escuras formaram-se por cima das suas cabeças. A força que emanava do corpo de Diogo fez a água do rio agitar-se violentamente criando ondulações que embatiam contra a ponte como se quisessem deitá-la abaixo. Aaba estava dentro do rio tal como Diogo e para sua surpresa a água não lhes tocava criando um círculo à volta dos dois, como se estivesse a ser segurada por um muro invisível. Quando Diogo olhou directamente para Aaba esta estava de joelhos e tinha uma expressão de pânico ao fitar Diogo. O sangue escorria-lhe por baixo daquela cabeleira cor-de-rosa. Já só tinha metade da sua arma, a outra metade tinha desaparecido. Diogo conseguira destrui-la por completo. Só lhe restava uma das lâminas da espada e sem qualquer protecção para as mãos, era àquela que tinha de se agarrar, o que fazia com que da sua mão ferida escorresse sangue com a cor verde típica dos demónios, a que Diogo já se habituara. Este olhava para Aaba com ódio e aversão. A sua espada parecia novamente mais pesada, mas não o suficiente para ficar inutilizada.
- Quem és tu? – murmurou Aaba. Havia terror no seu tom de voz.
- Sou aquele que te vai mandar de volta para o Inferno – respondeu-lhe Diogo não reconhecendo a sua própria voz que se tornara mais rouca. E sem mais demora, sem qualquer ponta de piedade voltou a erguer a espada e arremeteu-a contra Aaba.
- ASSIM NUNCA SABERÁS QUEM LEVOU AQUELES A QUEM CHAMAS DE PAIS! – gritou em plenos pulmões Aaba. A espada parou a escassos milímetros da cabeça desta. Os olhos encarnados de Diogo fitavam-na desconfiados. Um sorriso surgiu no canto da boca do demónio, apesar de Diogo ainda não ter desviado a espada um único milímetro.
- O que é que disseste? – aquilo foi apenas um sussurro, mas Aaba ouvi-o muito bem.
- Tomaste a decisão certa – disse-lhe ela
O movimento de Diogo foi muito rápido. Baixou a espada, agarrou Aaba pelo pescoço e atirou-a para fora do rio, fazendo com que ela embatesse a seco no chão duro. Diogo saiu também do rio e o muro invisível desapareceu fazendo com que a água tombasse com violência, molhando-os aos dois, mas sem que qualquer deles desse importância a isso. Aaba não se atreveu a levantar-se, mas sentou-se fitando Diogo com uma expressão de curiosidade e atrevimento.
- O que foi que fizeste aos meus pais? – perguntou Diogo como se estivesse só a sibilar e sentindo a raiva crescer dentro dele. – Diz-me imediatamente! – ordenou avançando dois passos na direcção de Aaba.
- Porque é que não vamos com calma – propôs Aaba desfrutando do seu trunfo
- A única coisa que vai ser feita aqui com calma, é o momento em que eu te cortar ao meio com esta espada se não me disseres o que fizeste com os meus pais – ameaçou Diogo voltando a caminhar na direcção dela e fazendo com que Aaba se arrastasse para trás na tentativa de manter a distância.
- Não fui eu quem fez alguma coisa com eles – esclareceu Aaba apesar de o seu sorriso já não ser tão perceptível.
- ENTÃO QUEM FOI? – gritou-lhe Diogo.
E foi então que Diogo ouviu aquela gargalhada. A mesma gargalhada que o acordava vezes sem conta à noite, provocando-lhe tremores e suores frios. A mesma gargalhada que ouvia nos seus pesadelos e que o assombrava desde sempre.
O seu reflexo foi virar-se, procurar a origem daquela gargalhada que invadia os seus ouvidos e que parecia petrificá-lo. E foi esse o seu erro, pois sem perder a oportunidade, Aaba saltou sobre ele e mordeu-o no pescoço com os seus dentes afiados. A dor que Diogo sentiu foi de enlouquecer. Gritou a plenos pulmões. Tentou livrar-se daqueles dentes, mas quanto mais se mexia, maior era a dor e mais depressa ela parecia alastrar-se pelo seu corpo. Finalmente começou a sentir os dentes abandonarem o seu pescoço. Pareciam rasgá-lo à medida que voltavam à superfície. A sua visão ficou turva e caiu pesadamente no chão. Ouviu vozes à sua volta, mas não as distinguiu. Percebeu que algo se passava, mas era difícil demais conseguir concentrar-se. A gargalhada que ouvira tinha parado, mas alguém se aproximou dele. Esse alguém entrou de repente no seu campo de visão. Ele viu-a. Viu aquela mesma cara que vira nos seus pesadelos durante tantos anos, mas de quem sempre se esquecia quando acordava. Era de uma beleza estonteante, com os seus cabelos loiros e olhos cor de avelã. No entanto toda a sua expressão emanava ódio, raiva, cobiça, inveja…toda ela era pura maldade. Diogo, não pensou duas vezes, atacou-a. As suas mãos lançaram-se ao seu pescoço, envolvendo-o com uma força sobrenatural. Conseguiu rebolar sobre ela com as mãos bem firmes no seu pescoço. Estava agora presa debaixo de si. Sentiu-a fazer força para se soltar, mas Diogo não ia permitir, os seus esforços seriam inúteis. Sentiu mãos a agarrarem-no, a puxarem-no com força, a tentarem fazê-lo largar o pescoço da sua presa. Sentiu uma pancada forte na cabeça e isso fez com que perdesse algumas das suas forças, o suficiente para que conseguissem agarrá-lo pelos braços e separá-lo daquele demónio com cara de anjo. Diogo ainda lutava para que o libertassem quando sentiu uma dor alucinante no seu pescoço. Mas não era a mesma dor que sentira quando os dentes de Aaba se tinham cravado ali. Era diferente. No entanto, Diogo achou que teria tempo para pensar nisso mais tarde. O que não podia era deixar escapar o demónio. Ainda a via ali deitada no chão a levar as mãos ao pescoço e a respirar com dificuldade enquanto os seus cabelos loiros esvoaçavam ao vento. Com um forte empurrão em quem o estava a impedir de acabar o que tinha começado, conseguiu libertar-se e atirou-se novamente à sua vítima. Conseguiu chegar novamente a ela e apesar das suas tentativas para se proteger, Diogo levou novamente a melhor e conseguiu, mais uma vez, chegar-lhe ao pescoço. Mas foi então que algo de muito estranho aconteceu. Quando Diogo voltou a olhar para a sua cara, já não era a mesma pessoa. Os cabelos loiros já não eram loiros, mas sim negros, os olhos cor de avelã eram agora cinzentos e toda aquela expressão de ódio no seu rosto desaparecera dando lugar ao desespero e aflição. Diogo percebeu que não estava a atacar a mulher dos seus pesadelos, mas sim…Sofia.
Largou-a de imediato. Estava agora em pé a olhar para Sofia com horror. Ela continuava no chão, agora de costas para ele e de joelhos, com as mãos agarradas ao pescoço e a tossir violentamente. Diogo não conseguia acreditar nos seus olhos. Não fora Sofia quem ele atacara. “Eu nunca faria mal a Sofia”, pensou perturbado. Sentiu novamente mãos a agarrá-lo, mas desta vez com menos força. E de repente Diogo sentiu a sua consciência e depois o seu corpo abandoná-lo. A única coisa que viu antes de sucumbir à escuridão foi Sofia, ainda na mesma posição, mas agora a olhar para ele com o medo estampado no seu olhar.IX - DROWS E GUARDAS
Diogo começava agora a abrir os olhos. Sentia-se muito sonolento, as pálpebras pareciam pesar toneladas. Percebeu que estava deitado sobre algo macio, talvez uma cama. Esforçou-se por abrir os olhos. Ao início tudo lhe parecia desfocado. Depois começou a distinguir objectos que lhe eram familiares e os seus olhos foram cair sobre a tela com a pintura a carvão que retratava a sua mãe. Observou-a, por momentos, com ternura. Concluiu que estava então de volta ao consultório do Dr. Samuel e deitado no sofá. Tentou levantar a cabeça, mas o esforço que fez foi o suficiente para o deixar tonto. Voltou a fechar os olhos durante uns segundos e fez nova tentativa. A cadeira da secretária de Samuel estava vazia e o silêncio ocupava a sala. Conseguiu finalmente, com algum esforço, elevar o tronco, com altura suficiente para ver para lá das costas do sofá, onde estava deitado, e onde sabia que estava a única janela do consultório. Afinal não estava sozinho como pensou. Ali encostada ao parapeito da janela, com os tons de laranja do pôr-do-sol a reflectirem nos seus cabelos negros e a iluminarem a sua face branca, estava Sofia. Olhava para o horizonte, envolvida nos seus pensamentos. Parecia um verdadeiro anjo, pensou Diogo. Apesar de se lembrar sempre dela, nunca a observara verdadeiramente. Tinha de reconhecer que ela era extremamente bela. Era fácil de perceber porque é que os rapazes viravam sempre a cabeça na sua direcção quando passavam por ela. No entanto algo lhe dizia que Sofia nem se apercebia do fascínio que exercia sobre eles. Parecia viver num mundo totalmente à parte. Naquele momento a sua expressão era tranquila, mas percebia-se que algo a incomodava. Viu-a respirar fundo enquanto fechava os olhos e depois voltar-se. Se ficou surpreendida por ver Diogo a olhar para ela não o demonstrou. Os seus olhos cruzaram-se com os de Diogo e assim ficaram por momentos, sem que ele conseguisse perceber o que estaria a passar pela cabeça de Sofia cuja expressão se mantinha imperscrutável. Diogo não sabe por quanto tempo ficaram a fitar-se mutuamente, percebeu apenas que o sol já se tinha posto, quando, sem palavras, Sofia desviou o olhar e se encaminhou para a porta. No momento em que esta se virou viu as marcas no seu pescoço, distinguiu os seus dedos ali marcados. Tais marcas pareciam estar a desaparecer, mas ainda eram bem visíveis os sinais da sua tentativa em estrangular Sofia. A porta fechou-se atrás dela sem qualquer ruído e ainda estava Diogo a sentar-se de forma mais confortável no sofá quando a porta voltou a abrir-se. Viu novamente Sofia entrar, mas desta vez acompanhada de Samuel e Júlio. Este último quase correu na direcção de Diogo dando-lhe um apertado abraço, cuja consequência foi deixar Diogo mais tonto.
- Pregaste-nos um valente susto – queixou-se Júlio sentando-se ao seu lado muito mais animado do que quando tinham estado anteriormente naquela sala.
- Como te sentes Diogo? – perguntou Samuel num tom preocupado ao mesmo tempo que se aproximava um pouco mais de Diogo observando-o atentamente, como se fosse um médico.
- Um pouco tonto – informou-o Diogo piscando os olhos de forma a obter imagens mais nítidas.
- É uma reacção normal ao antídoto que te dei – disse Samuel mais para si do que propriamente para Diogo
- Antídoto? – Diogo continuava confuso.
- Os dentes de Aaba possuem um veneno mortal para os humanos e alucinatório para os anjos e demónios. Uma reacção que pode levá-los à loucura – explicou Samuel.
E foi então que Diogo se lembrou de tudo. Da dor lacerante que sentiu quando Aaba o mordeu no pescoço, daquele demónio de cabelos loiros e olhos cor de avelã que pareciam divertidos e diabólicos. A gargalhada…no entanto Diogo tinha quase a certeza de que ouvira a gargalhada momentos antes de Aaba o atacar. Provavelmente estava a fazer confusão, pensou para consigo mesmo. E depois o medo estampado nos olhos de Sofia quando se apercebeu que não atacara nenhum demónio mas sim a própria Sofia. Voltou a olhar para ela. Sofia não olhava para ele, tinha uma das suas espadas de duas lâminas na mão e parecia estar a examiná-la. Diogo tentou dizer-lhe algo, pedir-lhe desculpa, mas não conseguiu pronunciar uma única palavra. Em vez disso olhou para Júlio. Ele parecia estar bem. Sorria-lhe divertido o que fez Diogo lembrar-se do dia em que o conheceu e da insistência daquele em como viriam a ser óptimos amigos. E esse pensamento levou-o a outra lembrança que o fez entrar em pânico.
- Os meus pais! – Diogo quis gritar, mas a única coisa que conseguiu foi fazer a sua voz sair mais rouca. Levantou-se subitamente e sentiu a sua cabeça andar à volta. Quase voltava a cair se Samuel não o tivesse segurado.
- Tens de ter calma Diogo, o antídoto ainda está a fazer o seu efeito – informou-o Samuel obrigando-o a sentar-se de volta no sofá.
- Não! – tentou gritar Diogo mas mais uma vez com a voz fraca, ao mesmo tempo que tentava empurrar Samuel, sem grande sucesso – Os meus pais estão a correr perigo!
- Como assim? – perguntou Júlio já sem sorrir.
- A Aaba disse-me isso quando estava prestes a matá-la – explicou Diogo – disse-me que alguém os tinha levado.
- Podia estar a mentir – tentou acalmá-lo Júlio – Podia estar apenas a querer safar a pele. Seria bem típico dela.
- Não vou ficar aqui a pensar se o que ela disse era ou não verdade – informou Diogo já com o seu tom de voz a voltar ao normal. Apesar de continuar um pouco tonto conseguiu levantar-se a contra gosto de Samuel. Percebeu que ainda tinha a adaga à cintura. A espada tinha desaparecido. Não havia problema, agora sabia que podia invocá-la quando quisesse. Olhou em frente, como que a ganhar coragem, e viu Sofia a olhar também para a adaga que ele trazia consigo. Desviou o olhar dela. – Tenho de ir a casa dos meus pais imediatamente.
- Nesse caso vamos contigo – disse-lhe subitamente Sofia. Diogo voltou a olhar para Sofia. Esta não olhava para ele. A espada já tinha desaparecido das suas mãos e encaminhava-se para a porta. Diogo quis dizer-lhe qualquer coisa simpática, mas não percebia porque é que isso estava a custar-lhe tanto. Por isso mesmo a única coisa que lhe saiu pela boca foi:
- Eu posso ir sozinho! Sei cuidar de mim!
- Tendo em conta a tua última aventura, não fiquei com a impressão de que consigas safar-te muito bem sozinho! – atirou-lhe Sofia sem sequer olhar para ele e saindo de seguida da sala. Com este comentário, Diogo percebeu porque é que lhe era tão difícil ser simpático para Sofia. Ela era insuportável.
Diogo fez um esgar de raiva ao mesmo tempo que revirava os olhos. Voltou a olhar para Júlio que para sua surpresa parecia divertido. Sem perceber porque é que aquela reacção de Júlio o enervara virou-lhe as costas com intenção de sair da sala. No entanto, para seu azar, uma vez que ainda se encontrava algo desorientado, tropeçou na carpete de Samuel e estatelou-se ao comprido no chão. Sentiu que tanto Júlio como Samuel pareciam estar a conter o riso, por isso levantou-se rapidamente, sem ligar à dor que agora sentia no braço devido à queda, chutou a carpete que se tinha enrolado nos seus pés e muito altivo saiu porta fora.
- “Pressa: a celeridade dos trapalhões” sábias palavras de Ambrose Bierce – ainda ouviu Samuel citar antes de sair da sala a passo largo.
Uma vez que nenhum deles possuía carro e ninguém sugeriu qualquer outra forma de chegarem a casa dos pais de Diogo, este ocupou a dianteira do grupo. Levou-os a apanharem primeiro o metro e depois o autocarro. Levaram quase três horas nos transportes. Diogo estava irritado e rabugento. Talvez fosse por ainda se sentir tonto e enjoado devido ao antídoto que Samuel lhe dera para acabar com as alucinações criadas pelo veneno de Aaba. No entanto, Diogo não queria acreditar que os anjos não tivessem uma forma de deslocação mais rápida e achava que só estavam a perder tempo precioso. Nenhum deles fez qualquer referência a uma forma mais rápida de viajar e por isso Diogo limitou-se a um silêncio amuado durante grande parte da viagem. Sofia também não pronunciou qualquer palavra durante todo o percurso mantendo sempre os olhos presos em algo que mais ninguém conseguia ver. Samuel também estava perdido nos seus pensamentos e Júlio ia agarrado à sua mochila tira colo. Foi então que Diogo começou a pensar melhor em Júlio. Ao contrário de Sofia e dele próprio, Júlio não invocava armas, muito pelo contrário, ele transportava-as sempre consigo. Tirando o seu porte atlético, Júlio não tinha quase nada a ver nem com Sofia nem com Samuel e além disso, durante toda a narrativa de Samuel sobre anjos e demónios, nunca em momento algum fizeram qualquer referência a Júlio ou a uma qualquer categoria em que estivesse inserido. Samuel era um Anjo Potência e Sofia um Anjo Virtude. Mas onde é que se enquadrava Júlio naquilo tudo? Perguntava-se Diogo. Por isso, quando entraram no autocarro, decidido a descobrir o mistério à volta de Júlio, viu Sofia sentar-se logo num dos lugares da frente e Samuel no banco vazio atrás desta e assim, conduziu Júlio até aos últimos lugares na parte de trás do autocarro, longe de ouvidos curiosos ou de interrupções sarcásticas por parte de Sofia.
- Tenho certeza de que os teus pais estão bem Diogo – disse-lhe Júlio interpretando o silêncio de Diogo como sinal de preocupação – De certeza que a Aaba só disse aquilo para que a poupasses.
- Assim espero – foi a resposta de Diogo ao mesmo tempo que sentia outro aperto no peito ao pensar nos seus pais. Ninguém atendera o telefone em casa, nem os telemóveis. Diogo só conseguia pensar no pior – Ainda temos uma hora e meia de estrada pela frente – começou Diogo decidido a pensar noutra coisa – Porque é que não me contas, afinal, em que categoria dos anjos é que estás inserido? – propôs-lhe Diogo – Ao contrário da Sofia e do Samuel não te ouvi dizer muita coisa acerca disso.
Júlio parecia subitamente algo desconfortável. Olhou para Diogo várias vezes antes de dizer qualquer coisa, até que suspirou fundo e olhou directamente para o amigo.
- Eu não sou nenhum anjo, nem algo parecido – disse por fim Júlio num tom quase inaudível – Eu sou um Drow!
- Um Drow? – perguntou Diogo confuso, mas mantendo também o seu tom quase num murmúrio para que só Júlio conseguisse ouvi-lo.
- Os Drows descendem dos elfos, mas a nossa força só atinge o seu máximo durante a noite, por isso somos mais uma espécie de elfos nocturnos – explicou Júlio – O meu povo não costuma surgir muito em público, preferimos manter-nos afastados quer dos anjos, quer dos demónios, é uma guerra que não nos diz respeito. Nem sequer nos aproximamos dos humanos. Mas existimos há tanto tempo como os humanos, apesar de nos termos desenvolvido muito mais depressa em todos os sentidos.
- Então o que fazes aqui a lutar ao lado de anjos contra demónios? – perguntou Diogo.
- Não o faço por eles ou pela sua causa – continuou Júlio – Faço-o pela tua mãe, pela Luz – revelou desviando os olhos de Diogo e observando a paisagem lá fora.
- Pela minha mãe? – murmurou Diogo.
- Há alguns séculos, os demónios conseguiram influenciar quer os humanos, quer os anjos de que o meu povo era também ele demoníaco, praticante de rituais satânicos e de artes mágicas impuras. - explicou Júlio olhando agora para as suas mãos negras – Sempre praticámos magia e por isso foi fácil convencer os humanos de que nós éramos perigosos. O desconhecido sempre deixou os humanos nervosos e por isso começaram a perseguir-nos como se fossemos monstros, um vírus, uma doença. Não somos maus como queriam todos acreditar, por isso em vez de entrarmos numa guerra com os humanos da qual sairiam derrotados, resolvemos escondermo-nos e cair no esquecimento. Isso deu resultado durante algum tempo. No entanto os demónios voltaram a encontrar-nos e desta vez não queriam apenas arreliar-nos, queriam a nossa magia, queriam-nos do lado deles na sua guerra contra os anjos. – Júlio fez uma pausa antes de continuar e Diogo deu-lhe todo o seu tempo mantendo-se em silêncio – Claro que o meu povo se recusou a compactuar com as crueldades, atrocidades e todos os actos de impiedade praticados pelos demónios. Isso foi quase o nosso fim. Muitos Drows foram mortos em combate, outros foram cruelmente assassinados, centenas de famílias mortas, crianças roubadas dos seus pais, aldeias completamente extintas. Tivemos direito, inclusive, à visita dos famosos Príncipes do Inferno, quando perceberam que nem assim nós iríamos ceder. – voltou a fazer uma pausa antes de prosseguir – Foi aqui que resolvemos pedir ajuda aos anjos – havia amargura no tom de voz de Júlio e Diogo percebeu que os olhos do amigo estavam mais brilhantes.
- Eles não ajudaram o teu povo? – perguntou Diogo
- Mais ou menos – informou Júlio – Tudo isto coincidiu com uma altura em que foram enviados do céu aqueles que se intitulavam “Os Guardas”. Eram considerados os Filhos de Deus que tinham sido enviados do céu para ensinar os humanos.
- Ensinar? – questionou Diogo
- Ensinar várias artes aos humanos para que pudessem sobreviver sozinhos, como a arte da escrita, a arte da cura, o uso das várias matérias-primas, a prática da caça. – exemplificou Júlio – E juntamente com tudo isso tinham a missão de descobrir o que se passava entre os Drows e os demónios por forma a que os anjos pudessem vir em nosso auxílio. No entanto, a maior parte destes Filhos de Deus ou Guardas foram influenciados pelos demónios e sucumbiram à sedução e ao pecado da luxúria. E aqueles que não cederam foram mortos durante as rebeliões que se sucederam. Assim, em vez de ensinarem aos humanos apenas o indispensável à sua sobrevivência, revelaram-lhes todo o tipo de segredos como a arte de fabricar armas de guerra, a arte da troca de metais preciosos, a arte da sedução, os prazeres da gula, incitaram-nos juntamente com os demónios ao orgulho, à avareza, à vaidade – Diogo nunca ouvira Júlio falar de forma tão triste – E claro, juntamente com os demónios conseguiram convencer os demais anjos de que nós éramos o inimigo. Até perceberem que os Guardas tinham sucumbido aos prazeres humanos, os anjos não tinham o porquê de duvidar dos seus iguais e assim fomos novamente quase devastados por completo. – De repente para surpresa de Diogo, Júlio olhou para ele e sorriu-lhe antes de continuar – Só não fomos completamente extintos graças à tua mãe. – Revelou – Ela foi a primeira a achar tudo demasiado estranho e por isso sem saber em quem podia confiar, foi sozinha ter com os Drows que tinham conseguido escapar. Conseguiu encontra-los e percebeu de imediato o que estava a acontecer. Nunca duvidou do que o meu povo lhe contou e fez de tudo para nos proteger. Sozinha conseguiu convencer muitos outros anjos da nossa inocência e da nossa luta contra os demónios. – Diogo sentiu um arrepio de orgulho e ficou surpreendido quando percebeu que também estava a sorrir – Foi graças a ela que conseguimos, depois de tanto tempo, ser vistos como um povo leal e honesto, incapaz de fazer mal a inocentes. – nova pausa acompanhada de um suspiro amargo - Mas foram muitas as cicatrizes deixadas, o meu povo estava destroçado. Por isso apesar de até hoje estarmos muito agradecidos pelo que a tua mãe fez por nós, quisemos distanciar-nos de tudo o que tinha a ver com a guerra entre os anjos e demónios e resolvemos continuar a viver pacificamente apenas entre nós.
- Mas então porque é que estás aqui? – voltou a insistir Diogo – É uma guerra que nada te diz respeito! Porque é que decidiste vir em minha defesa? Não tinhas qualquer obrigação.
- É verdade, mas isto é diferente. Eu não estou aqui para lutar ao lado dos anjos, mas sim para lutar ao teu lado, para te proteger, para te manter em segurança – revelou Júlio e antes que Diogo pudesse dizer qualquer coisa, continuou – O meu povo deve muito à tua mãe e ela nunca será esquecida. Estamos em divida para com ela e um Drow honra sempre as suas dívidas. Choramos a morte da tua mãe – o tom de Júlio era quase lúgubre – E ouvimos a sua oração momentos antes de a sua luz ser extinta. Prometemos que também nós iríamos manter-te sob vigilância e em segurança. No que dependesse de nós, nunca nenhum demónio te faria mal. – ficaram os dois em silêncio durante alguma tempo, ambos a olharem pela janela.
O autocarro estava parado no meio do trânsito e passava, naquele momento, por uma localidade. Havia várias pessoas na rua e Diogo observou-as. Era cada vez mais perceptível para si a presença de outros anjos e apesar de serem tão rápidos como a luz, conseguia acompanhá-los sem qualquer dificuldade. Via aqueles que deviam ser os Anjos Potências que Samuel referira como serem os que estão entre o céu e a terra vigiando qualquer tipo de infiltração diabólica. Distinguia também aqueles que deviam ser os Anjos da Guarda, pois eram os que se encontravam mais próximos das pessoas, soprando-lhes algo ao ouvido. Viu alguns anjos passarem a grande velocidade e tendo em conta que Sofia, na frente do autocarro, também os seguia atentamente com o olhar, acreditou serem Anjos Virtudes que corriam em direcção a algum ataque de demónios que conseguira infiltrar-se entre os humanos. Era estranho pensar que tudo aquilo acontecia há séculos e que quase ninguém parecia dar-se conta do que realmente se passava à sua volta e das forças que estavam envolvidas. E agora ali estava Diogo, no meio de tudo aquilo, e, segundo os relatos mais recentes, como o centro de várias atenções. Júlio estava disposto a protegê-lo de qualquer coisa, mas Diogo não conseguia perceber qual era o verdadeiro perigo. Tinha a sensação de que ainda havia muitas histórias por revelar.
- Em que é que estás a pensar Diogo? – perguntou-lhe Júlio fazendo-o despertar dos seus pensamentos.
- Porquê Júlio? – perguntou Diogo repentinamente e percebeu que Júlio não estava a perceber a pergunta. – O Samuel disse que te ofereceste para me protegeres, mas porquê? Nem sequer conheceste a minha mãe.
- Bem… - Júlio corou subitamente para surpresa de Diogo – A obrigação de te manter debaixo de olho caiu sobre a família real. – explicou, mas vendo que Diogo não manifestava qualquer reacção continuou - O meu povo também é regido por hierarquias. Temos um rei e uma rainha Drow e… bem eu sou filho dos actuais rei e rainha – revelou por fim apanhando Diogo completamente de surpresa.
- Isso quer dizer… - começou Diogo divertido
- Sim…quer dizer que eu sou um Príncipe Drow – disse Júlio muito rápido e mexendo as mãos muito nervosamente.
- Uau – disse por fim Diogo a sorrir – Durante estes últimos quatro anos tenho tido a honra de ter um príncipe como meu melhor amigo. - Júlio fez-lhe uma careta, mas Diogo percebeu que o amigo ficara feliz ao ouvi-lo tratá-lo por melhor amigo.
- Então e os teus pais deixaram-te vir assim sem mais nem menos? – perguntou-lhe Diogo curioso.
- Mesmo que fossem contra, a partir do momento em que nós, Drows, completamos 15 anos temos direito a fazer as nossas próprias escolhas – explicou Júlio – Mas na verdade eles não se opuseram, aliás até ficaram bastante contentes, acharam que era um verdadeiro acto de bravura – Júlio riu-se – Eu nunca tinha demonstrado ser realmente bom em algo e por isso quando tomei esta decisão, os meus pais desataram, literalmente, a pular de alegria.
- E não há qualquer problema em abandonares o teu reino? Afinal és um descendente, o futuro rei, não é assim?
- Não exactamente! Entre o meu povo quem governa são as mulheres, pois são elas que têm mais força e possuem mais poderes mágicos – explicou Júlio – Assim sendo, quando chegar a altura, será a minha irmã quem assumirá o trono, será ela a governar e a tomar todas as decisões mais importantes.
- A sério? – murmurou Diogo com uma expressão interrogativa – Então nesse caso, não és lá de grande valia – disse por fim e ao ver a cara de alarme de Júlio desatou a rir às gargalhadas, o que lhe valeu um murro no braço da parte do amigo que se mostrava carrancudo, mas sem esconder um leve sorriso. Isto chamou a atenção de Sofia que desviou o olhar para eles, mas sem demonstrar algo mais do que apenas um olhar sério. Por sua vez Samuel continuava a olhar pela janela sem se mexer e, na opinião de Diogo, demasiado direito e estático. “Talvez fosse uma coisa de anjos” pensou Diogo voltando a fitar Júlio que olhava atentamente para os carros que passavam lá fora em sentido contrário.
- Foi por causa do que aconteceu com o teu povo que nunca quiseste acompanhar-me a uma consulta com o Dr. Samuel não é assim? – lembrou-se de perguntar Júlio
- Sim, enquanto fosse possível manter-te em segurança sem ter de me envolver com os anjos, era isso que iria fazer. Há coisas demasiado enraizadas e apesar de já terem passado muitos séculos o meu povo ainda recorda tudo com demasiada dor – esclareceu Júlio – Se bem que a Sofia andava sempre por perto para o caso de eu não conseguir manter-te debaixo de olho e por isso era inevitável não trocar informações com ela.
- Para um anjo a Sofia é demasiado metediça, arrogante e emproada! – resumiu rapidamente Diogo olhando de lado para Sofia.
- Os anjos virtudes vivem muito entre os humanos para os conseguirem proteger dos ataques dos demónios, é normal que alguns se tornem mais duros e resmungões – defendeu Júlio – Afinal de contas ela é um anjo guerreiro!
- Chamas aquilo apenas de dura e resmungona? – voltou a implicar Diogo.
- Devias dar-lhe um desconto – sugeriu Júlio - Se não fosse ela a encontrar-te e a afastar a Aaba de ti no tempo certo, não sabemos o que poderia ter acontecido…as alucinações podiam ser irreversíveis – informou e Diogo sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha ao pensar que poderia ficar a ouvir aquela gargalhada para sempre - A Sofia fez de tudo para impedir que algo te acontecesse até eu e o Samuel chegarmos!
Diogo olhou para Sofia que continuava a seguir vários anjos com o olhar, alheia a tudo o resto. Sentiu subitamente mais um grande peso no estômago e desta vez sabia que nada tinha a ver com os pais. “Ela salva-me a vida e em troca eu tento tirar-lhe a dela” pensou para consigo ao mesmo tempo que olhava para as suas mãos, as mesmas com que tentara estrangular Sofia. Cada vez mais desconfortável, Diogo resolveu mudar de assunto.
- Com que então podes fazer magia? – perguntou a Júlio.
- Na verdade ela só é suficientemente forte durante a noite…
- Aquilo dos olhos vermelhos tem alguma coisa a ver?
- Sim, durante a noite ficam sempre encarnados…
- Como é que eu nunca reparei nisso?
- Bem eu sempre fugi a saídas nocturnas, se bem te lembras, e eles só ficam vermelho sangue após as duas da manhã até ao raiar do sol. É durante esse espaço de tempo que a minha magia se torna mais poderosa – explicou como se estivesse a lembrar-se de alguma coisa que o deixasse orgulhoso de si mesmo.
- Se bem que a magia de que a tua irmã é capaz supera a tua não é assim? – Atiçou-o Diogo divertido o que lhe valeu um novo encontrão da parte de Júlio.
Já estava uma noite escura quando de repente o autocarro parou e Diogo viu Sofia e Samuel levantarem-se. Percebeu que já tinham chegado. Ficou subitamente sério e saiu do autocarro seguido por Júlio. Estavam no bairro onde tinha crescido. Continuava tal e qual como o deixara dois meses antes ao regressar à faculdade depois de umas férias de Verão na companhia dos pais. Diogo olhou para o relógio que marcava 22h. Àquela hora quase toda a gente se encontrava em casa. À excepção de um velhote que regava o seu jardim e de uma senhora que acabava de chegar a casa, não havia mais nenhum movimento. A sua casa ficava no cimo daquela rua, portanto, sem mais demoras, começou a andar. Os restantes ocuparam as suas posições. Júlio ocupou a posição à sua direita e Sofia, para surpresa de Diogo, manteve-se sempre do seu lado esquerdo. Já Samuel ultrapassou-os e liderou o grupo. Diogo conseguia perceber que algo de errado se tinha passado, pois Samuel abrandou o passo quando já estavam a avistar a casa, Sofia fez surgir nas suas mãos as suas armas preferidas, as espadas de duas lâminas, e Júlio pôs a mão dentro da sua mochila, onde tinha guardado o seu machado. Diogo certificou-se que tinha ainda a Adaga à sua cintura e preparou-se para a qualquer momento invocar a Espada.
Estavam agora em frente à sua casa. Esta encontrava-se completamente às escuras. Apenas a luz do candeeiro da rua em frente à sua casa permitia alguma claridade. Diogo sentiu subitamente um cheiro pérfido vindo do interior e sentiu o seu coração bater cada vez com mais velocidade ao reparar que a porta se encontrava entreaberta. Não aguentou esperar mais e ultrapassando Samuel correu a entrar em casa.
X - INTRUSO DE PALMO E MEIO
Diogo entrou dentro de casa de rompante sem conseguir controlar-se. Sentiu o medo invadi-lo cada vez com mais força quando percebeu que as luzes não se acendiam ao carregar no interruptor com essa intenção. A espada já se encontrava na sua mão quando Sofia, Júlio e Samuel entraram atrás de si. Com eles entrou a luz que iluminou todo o compartimento onde se encontravam. Diogo pensou que algum deles trouxera uma lanterna, mas ao olhar para o seu lado direito percebeu que a luz não vinha de uma lanterna ou de qualquer outro aparelho, mas sim de Sofia. As asas de anjo de um branco delicado despontavam das suas costas e uma auréola pairava sobre a sua cabeça. Era uma luz quente e que parecia ter um efeito tranquilizante. Diogo teve de esforçar-se a desviar o olhar daquele anjo. Controlando melhor as suas emoções, atravessou o hall de entrada e entrou na primeira porta à sua esquerda. Na sala onde tantas vezes jantara com os seus pais parecia ter passado um furacão. Havia cortinas arrancadas, quadros desfeitos no chão, jarras de flores partidas, a mesa de jantar virada ao contrário e o sofá no canto oposto onde costumava estar. Não havia dúvidas de que naquela sala tinha ocorrido uma luta. O pânico cresceu-lhe dentro do peito e apeteceu-lhe gritar pelos pais como quando fazia aos cinco anos e estava com medo de algo. Correu pelas escadas acima que levavam aos quartos. Dirigiu-se de imediato ao quarto dos pais. Ainda tinha uma réstia de esperança quando abriu a porta deles. Queria com todas as suas forças que eles estivessem ali apenas a dormir e que acordassem rabugentos a perguntarem porque é que ele não estava na faculdade a levar uma vida normal como todos os outros. Que lhe dissessem que tudo estava bem e que aquilo não passara de um mau pesadelo, ao mesmo tempo que o pai o tentava fazer rir e mãe decidia que ele precisava de um bom lanche porque tinha emagrecido muito desde a última vez que o vira. Mas a cama dos pais encontrava-se vazia. Nem sequer tinha sido desfeita. “Há quanto tempo é que poderia ter ocorrido aquele ataque?” questionou-se Diogo “O que lhes teria acontecido?”. Havia agora um novo sentimento a invadi-lo, a culpa. “Se tivesse vindo para casa em vez de andar a brincar às guerras!” martirizou-se, sem sequer se aperceber que Samuel estava atrás de si, até sentir a mão deste no seu ombro. Sacudiu-a de imediato com um puxão. Samuel não pareceu ficar ofendido, mas isso também não interessava a Diogo, naquele momento precisava odiar alguém.
- Os outros quartos também estão assim – disse subitamente Samuel despertando a atenção de Diogo. Mais atento Diogo começou a reparar que as gavetas da cómoda, as portas dos armários se encontravam todas escancaradas e o seu interior completamente revolvido – Estão todos revirados como se alguém estivesse à procura de alguma coisa!
- E como não encontraram, levaram os meus pais – Diogo disse aquilo num tom de voz controlado, mas sentia a raiva crescer dentro dele. Virou-se para sair do quarto e deparou-se com Sofia, toda ela era luz, apesar do seu olhar duro.
- O teu quarto está no pior estado comparativamente com os outros – informou ela – Parece-me que alguém queria algo que fosse teu!
Diogo não lhe disse nada, passou por ela em direcção ao seu quarto que ficava ao fundo do corredor e como a porta já estava aberta entrou. Sofia tinha razão, nem reconhecia o seu próprio quarto de tão revirado que este se encontrava. A sua cama tinha sido arrastada, o colchão levantado, os lençóis atirados ao acaso, as almofadas rasgadas, o armário revolvido, o espelho do seu guarda-fatos completamente estilhaçado como se alguém tivesse atirado alguma coisa de encontro a ele. Diogo estava a olhar para o espelho quando de repente voltou a vê-la. Os mesmos cabelos loiros, os mesmos olhos cor de avelã, a mesma expressão trocista. Sentiu de repente uma tontura levando a mão à cabeça.
- Estás bem Diogo? – perguntou Júlio à entrada do quarto.
Diogo não respondeu logo. Abriu os olhos e voltou a olhar para o espelho. Não havia lá nada a não ser o seu próprio reflexo a segurar a espada de Metatron e com a Adaga presa no seu cinto.
- Sim está tudo bem – respondeu por fim Diogo ainda fitando o espelho e a perguntar-se se ainda havia vestígios do veneno de Aaba no seu corpo que continuassem a provocar-lhe alucinações. No entanto não quis partilhar tais pensamentos com Júlio, não queria que além de si mesmo, o seu melhor amigo pensasse que ele estava a enlouquecer.
Ao olhar para o espelho, através do que restava dele, Diogo viu uma moldura no chão. Virou-se para trás e apanhou-a. O vidro, tal como o espelho, também tinha sido partido, de forma a tirarem a fotografia sem se darem ao trabalho de abrirem a moldura.
- Que fotografia é que estava nessa moldura? – perguntou Júlio curioso.
- Uma foto minha – murmurou Diogo – Do dia em que acabei o liceu. A minha mãe tinha-a na sala, nem sei o que faz aqui em cima – lembrou-se - Porque é que a levariam? – perguntou mais a si mesmo do que a Júlio.
- É melhor descermos – propôs-lhe Júlio – O Samuel e a Sofia estão lá em baixo, precisamos pensar no que vamos fazer.
- Eu sei exactamente o que vou fazer – disse repentinamente Diogo, com mais rispidez do que a que queria – Eu vou procurar os meus pais, nem que tenha de ir até ao Inferno! – E com isto saiu do quarto e começou a descer as escadas que levavam até ao andar debaixo.
- Eles podem estar em qualquer lugar Diogo, nós não temos qualquer pista – lembrou-lhe Júlio seguindo o amigo.
- Eu não vou ficar aqui parado sem fazer nada – quase gritou Diogo já no fundo das escadas onde encontrou Sofia e Samuel. Sofia já não tinha nem as asas nem a aureola e por isso a casa voltara a ficar às escuras – E não se atrevam a tentar impedir-me!
- Lá voltamos nós ao drama! – atirou-lhe Sofia cruzando os braços.
- Não te metas, ninguém te pediu para vires comigo – lembrou-lhe Diogo colérico.
- Pois acredita que eu só estou aqui porque me comprometi a proteger-te! – Sofia estava agora furiosa.
- Se é assim, podes ir-te embora, não preciso que me protejas de nada – exasperado Diogo avançou um passo na direcção dela de forma ameaçadora.
- Faço isso e o mais provável é acabares morto por um demónio qualquer – atiçou-o com os braços estendidos ao lado do corpo, mas com os punhos cada vez mais cerrados.
- Antes isso do que ter de te aturar sempre ao meu lado – Diogo tinha agora também os punhos cerrados de raiva e olhava bem para os olhos enfurecidos de Sofia que pareciam cada vez mais escuros como as nuvens cinzentas de um dia de tempestade.
- Calem-se os dois imediatamente! – ordenou-lhes Júlio num tom ríspido, mas sem olhar directamente para eles, tendo a sua atenção presa em algo que vinha do outro lado do corredor.
- Foi ele/ela quem começou – disseram Diogo e Sofia ao mesmo tempo olhando incrédulos para Júlio como se não acreditassem que ele os tinha mandado calar como se fossem crianças.
- Silêncio! – murmurou agora Samuel também muito atento a algo que Diogo e muito provavelmente Sofia, ainda não tinham captado. – O que há ali? – perguntou ele apontando.
- A cozinha – murmurou Diogo e de repente ouviu também algo. Algo que parecia estar a ser arrastado – Está alguém na cozinha – concluiu Diogo e viu Sofia revirar os olhos como que a dizer-lhe que até ai já tinham todos chegado.
- Os demónios não sentem o meu cheiro – disse de repente Júlio – Eu vou à frente. Diogo quis protestar, mas Júlio já lhe tinha virado as costas. Por isso apressou-se a seguir o amigo sentindo que Samuel e Sofia seguiam logo atrás de si.
Entraram na cozinha que tal como as outras divisões, além de se encontrar às escuras, também estava toda ela num grande rebuliço com electrodomésticos estilhaçados no chão, gavetas e portas de armários abertas e todo o seu interior espalhado pela cozinha. E foi então que Diogo viu algo que o deixou perplexo. Ali no chão da cozinha, entre pratos partidos e panelas atiradas ao acaso para o chão, estava uma criança. Pelo seu tamanho devia ter cerca de sete ou oito anos. Estava de olhos fechados e não se mexia. Diogo pensou o pior ao ver Júlio aproximar-se dela com todo o cuidado e com o mínimo de barulho. “O que raio é que estava ali a fazer uma criança?” Sentiu a respiração apressada de Sofia ao seu lado e viu Samuel aproximar-se mais, com intenção de seguir Júlio. Este estava agora a baixar-se na direcção da criança, quando muito de repente ela abriu os olhos e gritou a plenos pulmões ao ver a cara de Júlio. Com o susto Júlio gritou também. Desequilibrando-se, caiu em cima de uns estilhaços de loiça partida o que fez com que gritasse ainda mais. Ao ouvir aquilo a criança resolveu gritar o dobro ao mesmo tempo que se levantava muito depressa e recuava o mais que podia na direcção oposta à de Júlio que continuava a contorcer-se com dores na mão onde espetara os estilhaços afiados de um copo. Quando ele se levantou, o que fez com que ficasse com mais do que o dobro da altura da criança, esta desatou outra vez aos berros e a atirar-lhe tudo aquilo a que conseguia chegar com as suas pequenas mãos. Júlio começou assim a ser bombardeado com mais loiça partida, com tachos, frigideiras, colheres de pau. Ainda atordoado com aquele ataque inesperado, conseguiu desviar-se de grande parte dos objectos arremessados na sua direcção, no entanto, um tacho acertou-lhe em cheio na cabeça fazendo-o desequilibrar-se novamente e estatelar-se no chão. Aquilo pareceu animar a sua adversária, que mais confiante, começou a pegar em garfos e facas pronta para voltar ao ataque. Recompostos da surpresa, Diogo, Samuel e Sofia fizeram tensões de se aproximarem e foi aí que a criança reparou neles. Com o susto deixou cair as suas armas. Quando percebeu isso, não se acobardou, muito pelo contrário.
- NÃO SE APROXIMEM! – gritou numa voz de criança algo esganiçada – EU… - pensou por momentos – Eu sei karaté! – disse repentinamente ao mesmo tempo que adoptava uma postura de combate que consistia mais numa posição típica de karaté que se via na televisão, com os braços magricelas esticados.
Diogo teve vontade de se rir, mas não o fez, respeitava a coragem demonstrada pela criança. Mas observou-a com mais atenção quando esta se atreveu a dar um passo em frente fazendo com que a luz que vinha lá de fora a iluminasse. Era uma rapariga. Aparentava realmente ter uns sete ou oito anos como pensara inicialmente Diogo. Tinha vestido umas jardineiras de ganga azul com alguns remendos nos joelhos e por baixo delas, uma t-shirt verde. O seu cabelo de um ruivo quase fogo, chegava-lhe um pouco abaixo das orelhas, todo ele completamente indomável. A franja quase que lhe tapava os olhos que se encontravam agora semi-cerrados como se estivesse a avaliar quem teria mais hipóteses de vencer com um dos seus golpes. Diogo reparou ainda, algo divertido, que apesar daquele cabelo que parecia ter andado no meio de uma tempestade, trazia preso nele um laço verde igual à cor da t-shirt.
- Quem quer ser o primeiro? – perguntou a rapariga ainda em posição de combate – Eu não tenho medo de demónios, já matei montes deles!
- A quem é que estás a chamar demónio? – atirou-lhe Júlio voltando a levantar-se, com a mão a sangrar, seguido sempre pelo olhar atento da pequena guerreira.
- Ei o teu sangue não é verde – reparou ela agora com uma expressão de perturbação no rosto.
- Pois claro que não é verde! – atirou-lhe furioso Júlio – Eu não sou nenhum demónio!
- Então és o quê? Um espírito diabólico? – continuou ela
- Eu já te digo quem é que é diabólico! – Júlio tentou apanhá-la, mas a rapariga foi mais rápida que ele e aproveitando a sua altura passou-lhe por baixo das pernas deixando-o furioso. No entanto esqueceu-se que do outro lado de Júlio se encontravam os outros três. Ainda de gatas, olhou para cima e sorriu-lhes algo nervosa, mostrando alguns dentes em falta na sua boca, típico da sua idade. Mas de repente reparou melhor em Sofia e a sua expressão mudou imediatamente de nervosismo para surpresa e espanto. Os seus olhos abriram-se muito revelando a sua forte cor verde e Diogo reparou que ela também tinha algumas sardas nas bochechas.
- Eu sei quem tu és! – disse de repente a rapariga na sua voz esganiçada ao mesmo tempo que se levantava já despreocupada – Tu és a Ariel, tu és aquela que desistiu de… - subitamente para surpresa de Diogo, Sofia precipitou-se na direcção da criança tapando-lhe a boca para impedir que esta continuasse a falar.
- É melhor irmos todos para a sala! – propôs Sofia encaminhando a rapariga sem lhe tirar a mão da boca. Os restantes seguiram-nas.
Samuel levantou uma cadeira e Sofia fez a rapariga sentar-se nela. Os seus pés não chegavam ao chão e por isso balançava-os para a frente e para trás. Tinha as mãos em cima das pernas e não parava de olhar para Sofia com os seus grandes olhos cheios de vida. Sofia sentou-se noutra cadeira e o mesmo fez Samuel. Diogo manteve-se de pé e Júlio apareceu de seguida na sala com a mão ainda a deitar sangue. Sofia olhou para ele e sem palavras, levantou-se, agarrou-lhe na mão e de repente o corte que Júlio tinha na mão fechou-se sem deixar uma única cicatriz a não ser o sangue que já escorrera. A criança observava aquilo maravilhada, mas na opinião de Diogo, nada surpreendida com aquele dom de Sofia.
- Então vamos lá saber quem és tu – começou Sofia que já se tinha afastado de Júlio e voltado a sentar na cadeira em frente à criança.
- Eu sou um Anjo Querubim! – Apresentou-se ela sempre sorridente mostrando os poucos dentes que tinha na boca. Diogo lembrou-se do que Samuel lhe explicara sobre os Querubins, eram os mensageiros de Deus e representavam a inocência da criança. – E eu sei quem tu és! – voltou ela a repetir na direcção de Sofia sempre animada.
- Como é que te chamas? – perguntou-lhe apressadamente Sofia.
- Eu sempre quis chamar-me Matilde – disse subitamente radiante – Posso chamar-me Matilde posso, posso?
- Sim claro, podes ter o nome humano que quiseres, mas o que eu queria saber era… - começou Sofia mantendo a calma.
- Que bom! – Matilde era a alegria em pessoa. Diogo nunca vira ninguém tão feliz e aquilo estava realmente a diverti-lo – Olá o meu nome é Matilde! – começou ela a dizer para ninguém em particular, como se estivesse a imaginar uma situação – Eu chamo-me Matilde! Sim o meu nome é Matilde! Muito prazer eu sou a Matilde! Matilde! Matilde! Matilde! - cantarolou
- Ela tem um parafuso a menos! – constatou Júlio a olhar para ela de olhos muito abertos como se não acreditasse no que estava a assistir.
- Muito bem Matilde… - voltou Sofia a tentar e ao ouvir ser chamada de Matilde a rapariga só faltou saltar de alegria – O que é que estás a fazer aqui nesta casa a esta hora da noite? – perguntou-lhe e Diogo olhou para o seu relógio de pulso que marcavam 23:30. Para surpresa de todos, Matilde pareceu corar e começou a remexer nervosamente as mãos. Diogo reconhecia aquela expressão, era sinal de que tinha feito asneira e não sabia como esquivar-se à verdade.
- Matilde, podes confiar em nós – interveio Samuel e os olhos grandes da menina viraram-se para ele. Conseguia-se perceber o dilema na cabeça dela, confiar e ser castigada ou mentir e ficar com a consciência pesada. Samuel não desviou o olhar dela durante o tempo todo em que ela levou a decidir-se e isso pareceu dar-lhe confiança. Respirou fundo e disparou:
- Eu sei que não devia estar aqui mas eu queria muito uma missão eu já estava preparada mas ninguém acreditava por isso quando percebi que outro anjo querubim ia receber uma missão eu roubei-a para mim e vim no lugar dele eu sei como é que funciona a entrega de mensagens estive muito atenta nem sequer fiz barulho nessas aulas – Matilde disse isto tudo sem parar para respirar e sem perder o fôlego.
- Como é que ela conseguiu dizer isto tudo num único fôlego? – Júlio estava verdadeiramente espantado.
- Sabes que não devias ter feito isso – começou Samuel e Matilde baixou os olhar com a culpa estampada na cara dela – mas o que foi que aconteceu quando chegaste aqui?
- A casa já estava toda assim, não fui eu! – apressou-se a dizer Matilde algo aflita novamente. Diogo tinha a leve suspeita de que “Sarilhos” seria um nome muito mais apropriado àquele anjo querubim – Quando cheguei, encontrei a sala e a cozinha assim e de repente ouvi vozes que vinham lá de cima e escondi-me na cozinha. Ouvi alguém discutir e tentei aproveitar isso para fugir, mas tropecei num alguidar e de repente ficou tudo em silêncio. Achei melhor fingir que estava morta, mas depois pensei que ele me ia comer e isso eu não queria – revelou apontando o dedo para Júlio.
- Aposto que és intragável! – atirou-lhe Júlio ofendido.
- Se chegaste depois de nós, então não viste nada nem ninguém! – murmurou Diogo encostando-se a uma parede, a criança tinha sido a sua última esperança de descobrir o que se passara com os seus pais – Voltamos à estaca zero! – Ficaram todos em silêncio. O único som provinha de Matilde que continuava a abanar as pernas para trás e para a frente.
- Estou metida em sarilhos? – perguntou por fim Matilde não aguentando mais continuar em silêncio.
- Se dependesse de mim estarias tramada – disse-lhe Júlio e Matilde atirou-lhe simplesmente a língua de fora como se aquilo resolvesse todos os seus problemas – Só as crianças é que resolvem tudo a atirar a língua de fora…afinal que idade é que tens?
- Oito anos! – disse sorridente sempre a abanar as pernas.
- Não, o que eu quero saber é que idade é que realmente tens – voltou a insistir Júlio.
- Oito anos! – repetiu Matilde no mesmo tom e com a mesma expressão sorridente.
- Vamos lá ver se nos entendemos – Júlio tentava manter a calma – Não me interessa a idade que aparentas ter, eu estava a perguntar-te era a tua idade de anjo.
- Oito anos! – foi a resposta automática de Matilde com a mesma expressão e movimentos inalteráveis.
- Estás a dizer-me que tens… - insistiu Júlio
- Oito anos! – completou Matilde exactamente como antes
- Mas ela está programada para dizer aquilo?!!! – perguntou Júlio subitamente exasperado olhando para Sofia e Samuel em busca de auxílio.
- Quer-me parecer que ela tem mesmo oito anos! – disse em voz alta Sofia ficando agora com um tom preocupado – E isso sim vai deixar-te em verdadeiros sarilhos!
- Mas eu já sou crescida! – protestou Matilde
- Matilde tu ainda nem sequer atingiste a maioridade, tu ainda agora foste criada – Sofia tentou fazer-lhe ver a realidade
- Fui criada há oito anos, já não sou nenhum bebé! – Matilde disse isto num tom amuado cruzando os braços à frente do peito.
- Vê-se! – murmurou ironicamente Júlio revirando os olhos.
- Vocês não me vão denunciar pois não? – Matilde tentou manter uma expressão de cachorrinho abandonado. – O meu pai vai voltar a pôr-me de castigo! – desabafou ela.
- Quem é o teu pai? – perguntou Sofia
- Raziel! – respondeu prontamente Matilde novamente sorridente e voltando a abanar as pernas
- Sim, és um Querubim, por isso claro que o teu pai é o Príncipe dos Querubins, Raziel – disse Sofia com muita paciência - Mas o que eu queria mesmo saber era quem é que te criou – explicou Sofia
- Raziel! – repetiu Matilde imperturbável.
- Estás a dizer que o teu pai, aquele que te criou directamente, é…
- Raziel!
- Eu não digo que ela está programada para estas respostas! - voltou a dizer Júlio perdendo novamente a paciência olhando incrédulo para os outros, mas Sofia e Samuel levantaram-se subitamente como se as suas cadeiras de repente tivessem começado a queimar e olhavam para a rapariga com incredulidade e ao mesmo tempo respeito.
- Tens de voltar imediatamente para casa – disseram em uníssono Sofia e Samuel – Ou não serás apenas tu a ficar em sarilhos!
- Não isso não! Eu quero mesmo ir com vocês! Por favor! – implorou-lhes Matilde
- Ir connosco onde? – perguntou Samuel confuso
- Ao Inferno! - disse Matilde no seu tom mais natural como se estivesse a falar numa ida ao jardim zoológico. Todos se endireitaram. Diogo sentiu, inesperadamente, um calafrio estranho percorrer-lhe o corpo.
- Porque é que havíamos de ir ao Inferno? – perguntou Diogo aproximando-se mais dos restantes e olhando bem nos olhos de Matilde que virara a cabeça na sua direcção.
- Porque foi para lá que levaram os teus pais! – respondeu Matilde, desta vez muito séria e sem nunca desviar o olhar de Diogo.XI - A CARTA
Diogo sentiu o seu mundo desmoronar e sentou-se abruptamente numa cadeira que estava perto de si. Tinha a cabeça a andar à roda e desta vez não era devido a qualquer tipo de veneno ou antídoto. Se não fosse por aquele estranho dia de aniversário que estava a ter, Diogo bem podia desatar a rir quando Matilde lhe revelou que os seus pais tinham sido levados para o Inferno. No entanto depois daquele dia, ali a palavra “Inferno” não era nenhuma metáfora, os seus pais tinham sido literalmente levados para o Inferno, um lugar repleto de demónios, comandados por príncipes cuja única preocupação era escolher a sua próxima vítima e apoderar-se da sua alma escravizando-a eternamente. Não podia deixar que isso acontecesse com os seus pais. Eles não tinham culpa por terem criado e amado o filho de um dos príncipes do Inferno.
- A culpa é minha! – disse de repente Diogo não se contendo mais. Percebeu que todos olhavam para ele, mas não os encarou, mantendo sempre o olhar fixo nos seus punhos cerrados e pousados em cima dos seus joelhos – Eles não os teriam levado se me tivessem a mim! – acrescentou e o silêncio foi total, até que ele se levantou e ainda de punhos bem fechados olhou para todos eles – Eu preciso ir buscá-los! – disse por fim
- Boa! – disse Matilde levantando-se num pulo da sua cadeira e esfregando as mãos como se estivesse pronta para uma aventura – Vamos embora! – aquilo deixou, por momentos, os restantes algo desorientados. Samuel foi o primeiro a voltar á sua postura séria depois de se esforçar a desviar o olhar de Matilde.
- Vamos ter mais calma! – pediu Samuel virando-se para Diogo e antes que este pudesse protestar voltou-se para a entusiasmada Matilde - Matilde como é que sabes que os pais do Diogo foram levados para o Inferno? – perguntou-lhe e Matilde voltou novamente a corar, desta vez mexendo os pés nervosamente.
- Ouvi atrás da porta – revelou Matilde corando até à raiz dos cabelos.
- E o que é que ouviste exactamente e entre quem? – insistiu Samuel deixando a reprimenda para depois, mas percebendo pela cara de Matilde que ela ainda tinha mais para revelar.
- Bem…eu ouvi os príncipes…do Conselho! – disse por fim e recuou um passo perante o ar incrédulo de Samuel e de Sofia que perdera por completo a sua postura séria.
- Estás a dizer… - Sofia engoliu em seco – …que estiveste a ouvir atrás da porta na altura em que decorria uma reunião de Conselho dos nove Príncipes Angelicais? – a voz de Sofia falhou por completo.
- Príncipes Angelicais? – questionou Diogo
- Existem nove príncipes angelicais, cada um deles representante de uma das categorias de anjos e que se reúnem em conselho para discutirem os assuntos mais importantes – esclareceu rapidamente Sofia voltando a concentrar-se em Matilde.
- Foi sem querer, eu só queria falar com o meu pai, não sabia… - ia começar Matilde a defender-se, mas perante o olhar de Samuel desistiu – Pronto está bem, eu estava curiosa! – confessou.
- Bem o mal está feito, terás de te entender depois com o teu pai! – disse Samuel ainda chocado com a audácia de Matilde. Agora foi a vez de Matilde engolir em seco provavelmente ao imaginar que castigo podia esperá-la. – Diz-me o que foi que ouviste?
- Eles estavam todos muito nervosos – começou Matilde - Acho que nunca vi o meu pai tão preocupado, nem mesmo quando eu levei a espada dele para a escola no dia em que íamos falar de armas e ele pensou que tinha sido roubada e mandou…
- Matilde… - Samuel obrigou-se a interromper a divagação de Matilde com toda a calma, mas Diogo tinha a impressão que Samuel estava a pensar no mesmo que ele, que aquele anjo querubim devia andar a deixar muitos anjos de cabelos brancos.
- Ah sim claro…na verdade acho que eles não estavam a dizer coisa com coisa – claro que Matilde tinha de dar a sua opinião – estavam sempre a falar de água e fogo e coisas assim e depois Haniel, Príncipe dos Anjos Principados levantou-se furioso e perguntou como é que era possível só terem tido conhecimento do rapaz - chamaram-no de Diogo Soares - há tão pouco tempo e disse também que ele podia ser uma ameaça para todos. – Matilde estava cada vez mais entusiasmada e desfrutava radiante de toda aquela atenção - Foi quando Metatron, Príncipe dos Serafins, se levantou e disse que o rapaz nunca iria ser uma ameaça, que o filho de Luz ia honrar a mãe que tinha. – Matilde tinha os olhos muito abertos de entusiasmo – Raziel, o meu pai, disse que seria muito difícil conseguir controlá-lo se ele entrasse no Inferno para ir atrás dos pais. Que era isso que algum dos príncipes do Inferno pretendiam para levar avante o seu plano.
- Que plano? – perguntou Diogo
- Não sei, não disseram mais nada sobre isso – Matilde parecia ansiosa para poder ser útil nas perguntas – Mas falaram muito sobre os Príncipes do Inferno e sobre como é que tal coisa podia ter acontecido.
Diogo tinha certeza que os anjos estariam a questionar-se sobre o facto de Luz ter tido um filho com um dos Príncipes do Inferno sem nunca se ter deixado corromper ou influenciar pelos seus ideais, continuando a ser um anjo puro.
- Alguns estavam sempre a dizer que tudo não passava de um mito, que não era possível ser verdade e outros diziam que tinham de impedir que o rapaz encontrasse o seu pai – acrescentou Matilde.
- Eles referiram-se a algum dos Príncipes em particular? – perguntou Júlio
- Não, falaram de todos de forma igual, aliás Raphael, o Príncipe das Virtudes, estava sempre a perguntar se algum deles tinha ideia de qual dos Príncipes seria o pai. – Diogo viu Sofia baixar o olhar tristemente ao ouvir o nome do seu Príncipe - Nenhum deles tinha qualquer ideia! – Matilde abanava negativamente a cabeça naquilo que achava ser uma postura muito séria e preocupada. – Concluindo, não percebi nada do que estavam a falar – continuou Matilde voltando ao seu ar despreocupado, que lhe era tão característico – Mas ouvi Camael, Príncipe dos Anjos Potências, dizer que precisavam tomar uma decisão sobre como iriam lidar com tudo.
- E qual foi a decisão? – perguntaram quase todos em uníssono.
- Não sei – respondeu simplesmente Matilde – Comecei a ficar farta de ali estar e resolvi ir embora – ao ver a cara de desilusão da sua assistência continuou – Mas foi aí que tive uma ideia – toda ela era orgulho – Resolvi vir à procura do tal Diogo Soares para lhe dizer que os pais tinham sido levados para o Inferno e que eu estava disposta a ajudá-lo na sua missão – voltaram todos a sentar-se de forma lamentável sem compartilharem da alegria de Matilde.
- E quanto aos meus pais…eles sabem qual dos Príncipes os levou? – perguntou Diogo esperançoso.
- Disseram que devia ter sido o teu verdadeiro pai – respondeu Matilde pensativa.
- Mas se nenhum sabe qual deles é o pai do Diogo, isso não nos serve de muito – disse Júlio e Matilde fez-lhe uma careta que Júlio retribuiu.
- Como é que soubeste onde encontrar o Diogo? – perguntou Samuel curioso.
- Oh isso foi sorte – revelou Matilde – Eu sempre quis entregar uma mensagem tal como todos os Anjos Querubins e por isso fui vê-los a receberem as suas missões para entrega de mensagens! Estava a passar perto de um anjo que tinha no seu cesto uma carta-mensagem para Diogo Soares e resolvi ajudar – disse com um grande sorriso.
- Tu roubaste uma mensagem? – Sofia estava chocada
- Ei não foi roubar, eu só quis ajudar e assim seria mais fácil para poder voluntariar-me para a vossa missão! – Matilde cruzou os braços sentindo-se ofendida – Mas perdi-me pelo caminho e só consegui chegar agora!
- Disseste que havia uma mensagem para mim – lembrou de repente Diogo. Matilde pareceu lembrar-se e levou a mão ao bolso detrás das suas jardineiras. De lá tirou um pequeno envelope de cor azul clara que entregou a Diogo.
Diogo pegou no envelope e abriu-o. Lá dentro estava uma folha dobrada em duas. Tirou-a reparando que também era da mesma cor do envelope e desdobrou-a. Encontrou uma bonita e agradável caligrafia.
- É da Luz… - murmurou ele para os outros que pareciam tão surpreendidos como ele. Diogo ficou a olhar para a carta que tinha na mão, sem se aperceber que todos saiam da sala para lhe darem alguma privacidade. Começou a ler a carta, sentindo-se mais emocionado do que esperava.
“Querido Filho,
Estou a escrever-te esta carta enquanto estás a dormir. Tens um sono tão tranquilo, tão pacífico, tão indiferente a tudo o que se passa à tua volta, a todo este sofrimento. Não posso culpar mais ninguém a não ser a mim mesma por tudo o que está a acontecer. Amo-te mais do que tudo e é por isso que continuamos a fugir, a correr da nossa própria sombra, a escondermo-nos de todos aqueles que desconfiam de quem possas ser. Não me canso de olhar para ti, és tão lindo. Parte-me o coração pensar na possibilidade de não poder ver-te crescer, de não poder estar sempre ao teu lado. Mas se estás a ler esta carta é porque o meu pior receio se concretizou e espero que me perdoes por não estar contigo neste dia tão especial. Hoje completas 19 anos, atingiste a maioridade e o meu maior desejo é que sejas feliz, num mundo onde ninguém queira fazer-te mal ou usar-te por aquilo que és e pelo que podes fazer. Aposto as minhas asas em como continuas lindo. Se o Samuel cumprir a promessa que me fez, deves ter uma família que te ama e que tem feito de tudo para te passar bons valores, para que nada te falte e para que nunca te sintas sozinho. Tenho certeza que o Samuel nunca te abandonará e que fará de tudo para te manter em segurança. Confia nele meu querido, o Samuel é o único em quem deposito toda a minha fé.
Por esta altura já deves saber uma boa parte da tua história, do teu passado. Deves sentir-te revoltado e até mesmo atraiçoado por aqueles em quem confiavas, mas mais uma vez a culpa também é minha. Eu obriguei o Samuel a prometer-me que só te contaria a verdade quando atingisses a maioridade e tenho certeza de que ele cumpriu todas as suas promessas. Sei que não tenho direito em pedir-te nada, mas, por favor, nunca vás atrás do teu pai, nunca tentes saber quem ele é. Ele não sabe da tua existência. Só assim é possível manteres-te em segurança e longe de todos os planos que ele tinha para ti e que só tarde demais eu vim a descobrir. Lamento muito a dor que possa estar a causar-te e se precisares de odiar alguém odeia-me a mim e não te afastes de ninguém.
A tua família, os teus amigos e o Samuel só querem o teu bem e tenho certeza de que farão de tudo para que sejas feliz. Não te afastes de nenhum deles. Acredito que tens uns pais maravilhosos que te proporcionaram uma infância feliz fazendo de tudo para que te tornasses naquilo que és hoje. Nunca deixes de ter orgulho neles e de querer que eles também sejam felizes. Se não tiveres muitos amigos, não te preocupes, os que tens sãos os que realmente importam. São aqueles que se mantêm firmes ao teu lado seja qual for a dificuldade a ultrapassar, o problema a enfrentar ou a luta a travar. Podem discutir, zangar-se, arreliar até à exaustão, mas se permanecerem sempre leais, dispostos a defender-te e a acompanhar-te no teu caminho, podes acreditar que tens os melhores amigos do mundo. E o Samuel nunca te decepcionará ou te deixará desistir mesmo quando achares que essa é a tua única saída.
Lembra-te, meu querido, as coisas mais importantes na vida são saber para onde queres ir e quem desejas que te acompanhe nessa jornada. É impossível ser feliz sozinho. Por isso, apesar de toda a raiva e cólera que possas sentir, lembra-te que és um Anjo e que tens quem cuide de ti e que fará de tudo para que atinjas os teus fins.
Foste a melhor coisa que me aconteceu, amo-te muito.
Com todo o amor da tua mãe,
Luz”
- Mãe – murmurou Diogo ao terminar de ler a carta. Percebeu que estava a chorar e que sentia saudades daquela mãe de quem não se lembrava, mas que sentia conhecer, agora mais do que nunca.
Diogo limpou as lágrimas com as costas da sua mão e foi até à cozinha onde sabia que iria encontrar Samuel, Júlio, Sofia e a entusiasta Matilde. Quando chegou à cozinha ninguém pareceu reparar na sua presença. Samuel e Sofia pareciam verdadeiramente divertidos com algo e depressa Diogo percebeu do que se tratava. Júlio e Matilde pareciam estar prestes a atacarem-se mutuamente. Estavam os dois de frente um para o outro, com Júlio dobrado para que a sua cara estivesse bem perto da de Matilde, que por sua vez, com as mãos na cintura, lhe atirava com o seu olhar mais mortífero.
- Eu já disse que não abri de propósito a carta do Diogo – quase gritou Matilde – Eu só quis assegurar-me de que estava tudo bem com a carta.
- E para isso tiveste de lê-la? – atirou-lhe Júlio furioso – Sabes o que significa privacidade?
- Eu não li a carta! – teimou Matilde muito revoltada
- Ah não? Então como é que sabes que a mãe do Diogo falava muito do Samuel?
- Ora porque, porque… - Matilde tentava pensar numa desculpa credível, mas parecia estar a ter dificuldades, até que: - Tu tas é com inveja porque ela nunca fala de ti! – atirou-lhe Matilde achando que estava a ter um óptimo argumento.
Por fim Diogo resolveu fazer-se ouvir e tossiu para que se apercebessem da sua presença. Foi automático, todos se viraram para ele subitamente muito sérios. Sem qualquer aviso, Matilde correu, repentinamente para ele, abraçando-o pela cintura e desatou a chorar.
- Eu juro que não fiz por mal – dizia ela entre soluços – Eu não queria invadir a tua pri…priva…aquilo que o Júlio disse! – continuava ela tirando uma das mãos da cintura de Diogo e esticando o braço para trás na direcção de Júlio mas sem se virar. – Eu…eu…
- Ei Matilde, está tudo bem – disse-lhe Diogo pondo-lhe uma mão na sua cabeça ruiva de forma carinhosa e ao mesmo tempo brincalhona – Eu não estou zangado.
- Não? – perguntou Matilde agora a olhar para ele com os olhos cheios de lágrimas e também repletos de suspeitas
- Não é correcto leres cartas que não são para ti, mas eu não vou zangar-me, se prometeres que nunca mais voltarás a fazê-lo – propôs-lhe ele
- Prometo! – disse prontamente Matilde muito sorridente e sem mais demoras virou-se para Júlio e atirou-lhe a língua de fora.
- Vocês viram bem o que ela fez? – perguntou Júlio verdadeiramente chocado a apontar para Matilde que se escondera atrás de Diogo, fazendo com que todos desatassem a rir
- De todos os presentes da natureza, o que será mais doce para o Homem do que as crianças? Como dizia Ernest Hemingway – citou Samuel entre gargalhadas ao mesmo tempo que Matilde lhe lançava um ar inquisidor, como que a perguntar-se se ele estaria a gozar com ela.
Parecia que já passara uma eternidade, a Diogo, desde a última vez que rira com vontade. No entanto estava na altura de tomar decisões sérias. Foi o primeiro a parar de rir e os outros seguiram-lhe o exemplo. Até Matilde ficou imóvel a olhar para Diogo. Todos esperavam uma decisão da sua parte.
- Eu vou ao Inferno buscar os meus pais – anunciou ele. Durante alguns segundos o silêncio foi total. Mas claro que havia ali alguém na sala pronto a quebrá-lo.
- Óptima decisão! – disse Matilde radiante – Então quando partimos?
- Matilde tu não irás connosco – informou-a Diogo e a expressão dela começou a alterar-se imediatamente – É demasiado perigoso, não posso correr o risco de te magoares ou de que algo pior aconteça – apressou-se a explicar Diogo ao ver que ela ia começar a protestar – Lamento muito Matilde, não irás connosco! – disse-lhe deixando-a perceber pelo seu tom que nada do que ela pudesse dizer o faria mudar de ideias.
- Quando dizes “connosco”… - começou Júlio a perguntar com algum receio
- Não posso obrigar-vos a vir comigo – revelou Diogo algo desconfortável devido à atenção de que estava a ser alvo – Mas sei muito bem que não conseguirei fazer isto sozinho – Júlio estava radiante com aquelas palavras e pela primeira vez Diogo viu Sofia sorrir-lhe, apesar de tal sorriso desaparecer logo de seguida.
- Isso não é justo – queixou-se Matilde
- Podes contar comigo! – informou-o Júlio radiante
- E comigo – abreviou Sofia
Samuel foi o único que não se manifestou de nenhuma maneira. Estava sério e, na opinião de Diogo, parecia mesmo com algum receio, mas talvez fosse impressão sua.
- Diogo, o Inferno não se compara com nada que já tenhas visto ou ouvido ao longo da tua vida - começou Samuel. O silêncio era total entre os restantes. Até Matilde olhava muito séria para Samuel absorvendo todas as suas palavras – Lá vais encontrar o sofrimento jamais visto. Os horrores, a dor, as angústias e a punição são sentidas por todos os que lá entram. A partir do momento que passares os portões do inferno não haverá volta a dar, não há esperança de fuga. Foram muito poucos aqueles que conseguiram sair de lá e muito menos aqueles que saíram sem qualquer sequela. Não há comida nem água para saciares as tuas necessidades. E se os teus pais foram realmente levados por um dos Príncipes do Inferno, terás de revelar a tua presença e enfrentá-los. Eles não conhecem a piedade ou a compaixão, eles vão querer a tua alma a qualquer custo. Usarão de todos os truques para te enlouquecer, enganar e virar-te contra tudo aquilo em que acreditas. Vão fazer-te esquecer a razão que te levou ali, vão fingir dar-te o que queres, vão entrar na tua cabeça, vão descobrir os teus piores receios e brincar contigo como se fosses uma marioneta. – ninguém parecia respirar à medida que Samuel avançava no seu discurso e Diogo sentiu a mão de Matilde procurar a sua como forma de segurança – Vais encontrar armadilhas e cair em ciladas. Vais desejar nunca lá ter entrado, vais querer que tudo não passe de um pesadelo, mas vais abrir os olhos e desesperar ao ver que não podes fugir e que a única saída implica deixares algo teu para trás.
Ninguém conseguiu falar ou mexer-se. Tinham todos os olhos fixos em Samuel e o único som provinha da garganta de Matilde que engolia em seco. Samuel não tirava os olhos de Diogo que também tinha os seus presos nele. Diogo não podia negar que estava com medo, muito mais do que isso, estava apavorado, aterrorizado.
- Bem nesse caso não tenho muita escolha não é? – disse por fim Diogo surpreendentemente com uma expressão de audácia estampada na cara – Não vou deixar os meus pais desfrutarem sozinhos dessa estadia de cinco estrelas!
- Nesse caso, onde combate um, combatem dois! – interveio Júlio com cumplicidade
- Já não sabes contar Júlio? – interpôs-se Sofia no seu tom destemido que lhe era tão característico – Sem mim por perto já vimos que o Diogo não vai muito longe! – disse com o seu habitual desdém relativamente às capacidades de combate de Diogo.
Diogo teria respondido à letra numa outra altura, mas sabia que Sofia estava disposta a levar a sua missão de protegê-lo até ao fim e Diogo tinha de reconhecer que sem ela era impossível ter sucesso naquela missão suicida em que estavam prestes a entrar. De seguida fez-se silêncio e todos olharam para Samuel que permanecera em silêncio.
- Porque é que estão a olhar para mim? – perguntou ele abrindo um grande sorriso – Não sou eu quem vai ficar de fora!
- Mas pensei que…depois do que disseste… - lembrou Diogo que ficara realmente surpreso com a concordância de Samuel em juntar-se ao grupo.
- Eu sei o que disse – Samuel ficou subitamente sério – Tinha de o dizer, era preciso saberes o que te espera, mas não duvidei um só segundo de que esta seria a tua escolha. A tua mãe teria feito exactamente a mesma opção que tu – finalizou ele provocando uma enorme emoção em Diogo que lhe sorriu.
- A Luz tinha razão relativamente ao Samuel - disse subitamente Diogo e deste vez foi Samuel quem se deixou emocionar – Na carta ela diz que o Samuel nunca irá abandonar-me.
- Ora nesse caso, desde que o meu pai não descubra, podem contar comigo para conquistar o Inferno – disse subitamente Matilde mostrando um punho fechado e semi cerrando os olhos como se estivesse a imaginar-se dona do mundo.
- Em primeiro lugar aqui ninguém quer conquistar nada – interveio Júlio depois de se refazer de mais uma das intervenções de Matilde – E como é que podes ter mais medo de que o teu pai descubra que queres ir para o Inferno, do que propriamente ires atirar-te de cabeça para o Inferno? – Júlio parecia verdadeiramente chocado – Precisas rever seriamente as tuas preocupações!
- Matilde já falamos sobre isto – lembrou Diogo – Não posso deixar-te vir connosco. Ouviste o que o Samuel disse, é demasiado perigoso.
- Mas eu sou corajosa, eu posso com eles! – insistiu Matilde
- Eu não duvido – assentiu Diogo fazendo um olhar reprovador a Júlio que revirava os olhos perante as palavras de Matilde – Mas não posso permitir Matilde, terás de voltar para o lado do teu pai.
- Não é justo! – protestou Matilde cruzando novamente os braços em forma de desacordo e virando a cara para o lado para não ter de olhar para Diogo que se encontrava à sua altura.
- Só temos um pequeno problema – disse de repente Sofia num tom preocupado. Todos olharam para ela – Só Deus e aqueles que já lá estiveram e que conseguiram sair de lá vivos é que sabem onde fica o Inferno – explicou ela – Ora, eu não conheço ninguém que tenha conseguido essa proeza ou pelo menos que tenha regressado do Inferno com o seu estado mental intacto e capaz de nos fornecer as direcções de que necessitamos. E, além disso, se resolvermos ir pedir ajuda superior, os Príncipes Angelicais vão querer intervir e de acordo com o que a Matilde nos disse há alguns que não estão de acordo com esta ida do Diogo ao Inferno – lembrou.
Diogo não contava com esta informação e isso abalou a sua confiança e fê-lo temer pela vida dos seus pais. Como conseguiriam então ir resgatá-los? Não podia abandoná-los. Estava disposto a enfrentar todos os príncipes angelicais, teria de convencê-los a ajudarem-no. Mas isso demoraria demasiado tempo, como Sofia bem disse. Quanto tempo mais teriam os seus pais? Não podia arriscar deixá-los lá sozinhos e por muito mais tempo. Diogo estava neste dilema entrando cada vez mais em pânico quando de repente ouviu Samuel pigarrear prendendo-lhes a atenção.
- Quanto a isso eu tenho a solução – revelou Samuel e olharam todos para ele como se não acreditassem no que estavam a ouvir – Eu sei de uma pessoa que já esteve no Inferno e que conseguiu voltar em condições para vos indicar o caminho.
- Quem? – perguntaram em uníssono todos os outros
- Eu! – confessou surpreendentemente Samuel sendo alvo de olhares interrogativos e de grande surpresa.XII - OS PORTÕES DO INFERNO
Continuavam todos a olhar para Samuel como se não tivessem ouvido bem o que este acabara de revelar. Sofia não conseguia desviar o olhar de Samuel. Tentou por várias vezes dizer alguma coisa, mas a sua boca voltava sempre a fechar-se sem pronunciar qualquer palavra. Júlio tinha os olhos muito arregalados e parecia estar a começar a sentir-se enjoado, pois viu-se forçado a sentar-se numa cadeira. Até mesmo Matilde ficara sem palavras, o que era algo único vindo dela. Para Diogo, que só se encontrava há cerca de 24 horas a fazer parte daquele mundo de anjos e demónios, aquela revelação ainda não tinha em si o mesmo impacto que para os restantes, por isso foi o primeiro a falar.
- Isso é óptimo certo? – perguntou algo a medo – Assim será muito mais fácil e podemos deixar de fora os Príncipes Angelicais – ninguém parecia prestar-lhe muita atenção.
- Só se conhecem algumas histórias sobre anjos que regressaram do Inferno, mas é uma pior que a outra – murmurou Sofia.
- O meu pai falou-me de um anjo que entrou no inferno e que conseguiu regressar – começou Matilde com os olhos ainda mais abertos que o normal e murmurando num tom que ela era capaz de descrever como muito assustador – Mas esse anjo estava completamente descontrolado, não dizia coisa com coisa e parecia estar sempre com medo de alguma coisa. Os anjos virtudes que têm o poder da cura, fizeram de tudo para tentar tratá-lo. Mas ele nunca melhorou, nunca recuperou a sanidade mental e um dia… - o silêncio era absoluto - …um dia…bem sei que aconteceu alguma coisa… – disse por fim e Diogo teve de se controlar para não desatar a rir. Parecia ser típico de Matilde não saber como acabavam as histórias. No entanto mais ninguém estava com vontade de rir.
- Um dia esse anjo abriu as asas e tinha uma asa de cada cor – completou subitamente Sofia – Uma asa branca e uma asa negra. Foi quando perceberam que ele travava diariamente uma luta interior para impedir que o lado negro se sobrepusesse. Vivia constantemente em alerta, tinha alucinações o tempo inteiro como se estivesse constantemente a imaginar ou a lembrar-se de algo demasiado perturbador e que o fazia enlouquecer dia após dia.
- Diziam que esse anjo tinha deixado no Inferno algo essencial à sua existência angelical – foi Júlio quem falou – Que foi forçado a fazer um pacto para conseguir sair do Inferno e que isso lhe custou algo que o levou à loucura. E um dia, simplesmente desapareceu!
- Desapareceu, inexplicavelmente, de um quarto vigiado por Anjos Potências que nunca deixaram o seu posto e que não viram ou ouviram nada de suspeito – acrescentou Sofia – Nunca foi encontrado em todo o reino celestial e até hoje…
- …até hoje, uns pensam que a sua luz se extinguiu depois de tanto tempo a lutar consigo mesmo e a tentar livrar-se dos seus demónios, outros acreditam que voltou ao Inferno e há, ainda, quem diga que ele está escondido entre os humanos por ser incapaz de escolher o seu lado negro ou o seu lado angelical – finalizou Samuel.
- Eu teria contado muito melhor a história! – desaprovou Matilde cruzando os braços.
- Para isso terias de lembrar-te da história! – escarneceu Júlio, o que lhe valeu um olhar furioso daquele querubim.
- Houve mais histórias dessas sobre anjos que voltaram do Inferno? – perguntou Diogo
- Sim – foi Sofia quem respondeu – Correram histórias de um anjo que conseguiu sair do Inferno, mas que ainda não tinha percorrido metade do caminho de volta ao reino celestial, quando desistiu e voltou para trás, abandonando para sempre os seus ideais. Outro que até hoje permanece adormecido por sua própria vontade. Pôs-se a dormir a si próprio ao descobrir que era através dele que os demónios conseguiam descobrir os planos e missões dos anjos, era como se partilhassem a sua consciência, como se conseguissem ver através dos seus olhos e ouvir através dos seus ouvidos.
- E a Luz, a tua mãe! – disse de repente Samuel olhando para Diogo – Foi graças a ela que consegui livrar-me do Inferno – revelou – Sem ela nunca teria conseguido.
Diogo não estava surpreendido. Se a sua mãe se apaixonara por um Príncipe do Inferno é normal que tenha entrado no Inferno e se fugira com Diogo nos braços é porque arranjara maneira de voltar sem sequelas. Quanto a Samuel conhecia o segredo de Luz, por isso, é normal que tenha entrado no Inferno para a ajudar e tenha conseguido sair com a ajuda dela.
- Porque é que nunca ouvimos falar do Samuel? – perguntou Sofia – Alguém que consegue voltar do Inferno e regressar sem sequelas ficaria na história dos anjos.
- É uma longa história para a qual de momento não temos tempo se queremos salvar os pais do Diogo – lembrou Samuel e Diogo acenou em sinal afirmativo. Ninguém voltou a interromper.
- No entanto segundo a carta da minha mãe, nem o meu pai sabe da minha existência – isto surpreendeu os restantes – Pelo menos naquela altura. Isso não quer dizer que ele não tenha descoberto recentemente.
- Mas então porque é que não veio atrás de ti pessoalmente? – perguntou Júlio pensativo.
- Vá-se lá saber o que passa na cabeça de um Príncipe do Inferno! – comentou Diogo apesar de ter uma ideia das atrocidades que poderiam ocorrer aos governantes do Inferno. – Mas isto significa que não sabemos qual o príncipe certo a procurar, pode ser qualquer um deles.
- Mesmo que soubesses qual deles procurar, nunca poderias fazê-lo por ti mesmo – explicou Samuel - A partir do momento que passares os portões do Inferno, tu serás levado por caminhos que não são escolhidos por ti, mas sim pelos próprios Príncipes. Eles vão sentir a nossa presença e o primeiro a sentir irá reivindicar-nos para ele. Nenhum dos outros poderá intervir a não ser que algum de nós por mero acaso consiga escapar das garras daquele Príncipe, ou consiga derrotá-lo…o que nunca aconteceu! – acrescentou muito sério – Mas se, por algum milagre, tal acontecer, outro Príncipe irá atrair-te, guiando-o até ele.
- Os portões são vigiados? – perguntou Diogo tentando ignorar o medo que voltava a invadi-lo.
- Não – respondeu Samuel – Os humanos que são condenados ao Inferno não entram por esses portões, estes são usados apenas por algumas criaturas demoníacas de hierarquia mais elevada e, ainda, pelos Príncipes do Inferno. Quem quiser entrar sem estar morto tem toda a liberdade para o fazer. Aliás todos eles anseiam por anjos que tenham a audácia de lá entrar. E quanto a proteger a saída, nenhum deles considera isso necessário, pois todos têm a arrogância e insolência suficientes para acreditarem que ninguém sai de lá com vida. Apesar de haver alguns exemplos de anjos que escaparam do Inferno, os Príncipes consideram isso insignificante. E temos de concordar que se contam por uma mão os anjos que saíram do Inferno com a sua sanidade intacta.
- Ou seja, apenas a Luz e o Samuel – lembrou Júlio.
- E nós! – disse de repente Matilde com um grande sorriso ao mesmo tempo que levantava os braços vitoriosa. Diogo olhou para ela impaciente – Sim já sei, eu não posso ir! – resmungou ao fitar Diogo.
- Então e como é que chegamos lá? – perguntou Júlio
- Quem já descobriu uma vez os portões consegue sempre voltar a encontrá-los – informou Samuel – No entanto, ninguém quer voltar a repetir a visita, por livre e espontânea vontade.
- A não ser a minha mãe! – recordou Diogo com amargura na sua voz
- Sim, a Luz voltou várias vezes ao Inferno – corroborou Samuel.
Fez-se silêncio durante um momento. Diogo tinha certeza que, tanto Sofia como Júlio e, provavelmente, até mesmo Matilde se perguntavam como tal vontade de voltar ao Inferno era possível e principalmente como é que era possível continuar a manter os ideais. O próprio Samuel havia dito que para conseguirmos sair do Inferno teríamos de deixar algo nosso para trás. O que teria a sua mãe deixado tantas vezes no Inferno em troca da sua saída? questionou-se Diogo. Não fazia sentido. Depois olhou para Samuel. Ele também tinha saído do Inferno, o que teria ele deixado lá, o que teria ele perdido? Pensaria nisso noutra altura, agora Diogo só queria pensar nos seus pais, Clarissa e Rafael. Não se importava com a condição de deixar algo para trás ou com a possibilidade de nunca conseguir sair do Inferno. Alguma coisa tinha de fazer por eles, ou então morrer a tentar.
- Como é que podemos então lá chegar? – perguntou Diogo e ficou satisfeito por perceber que o seu tom de voz era decidido.
- Como já lá estive, eu só preciso de trazer à minha mente a imagem dos portões do inferno e após a imagem se apoderar por completo do meu pensamento e do meu corpo, transporto-nos para lá – explicou Samuel – Vocês só têm de tocar em mim para que possam ir comigo – acrescentou.
- É assim tão fácil? – murmurou Sofia
- É como vos digo, todos os que quiserem entrar no Inferno, serão sempre bem-vindos – lembrou Samuel - O problema está em sair de lá!
- Mas nesse caso podemos levar um exército de anjos e atacar os demónios e os Príncipes do Inferno, quanto mais formos, mais hipóteses teremos – lembrou Sofia – Como é que nunca ninguém se lembrou disso?
- Porque na verdade só conseguem atravessar aqueles portões, os que tiverem outra intenção que não seja a destruição do Inferno – contou Samuel – Um exército nunca encontraria sequer os portões mesmo que guiados por alguém que já lá tivesse estado. No nosso caso, conseguimos todos entrar porque a nossa intenção é apenas trazer os pais de Diogo de volta a este mundo.
- Bem nesse caso é melhor despacharmo-nos – disse por fim Diogo – Preciso encontrar os meus pais.
Samuel acenou afirmativamente, mas virou-se primeiro para Matilde.
- Matilde, quero que voltes para o reino, só lá estarás em segurança – começou Samuel
- Mas não vou estar livre de apuros quando o meu pai descobrir o que fiz! – interrompeu Matilde – Deixem-me ir com vocês por favor! – voltou a insistir e Júlio levantou as mãos ao ar em sinal de desespero.
- Não Matilde, vais fazer exactamente o que eu te digo – desta vez Samuel foi inflexível – E se não tiveres notícias nossas até daqui a três dias, vais dizer ao teu pai tudo o que ouviste aqui, percebeste? – Não havia forma de retorquir e por isso Matilde viu-se obrigada a abanar a cabeça em sinal afirmativo.
- Quero ouvir-te a dizer que prometes – aquilo era uma ordem. Matilde cerrou os lábios como se aquilo a impedisse de falar, mas perante o olhar intimidador de Samuel, por fim, não teve outra alternativa.
- Prometo – disse-o num murmúrio tão baixo que seria impossível de ouvir se não fosse o absoluto silêncio à volta deles.
- Vá agora vai – ordenou Samuel
Matilde fez o ar mais triste e desgostoso que conseguiu. Parecia que estavam a impedi-la de concretizar o seu maior sonho. Diogo tinha de concordar com Júlio, aquele Anjo Querubim tinha de organizar melhor a hierarquia das suas preocupações. Tristemente, Matilde fez surgir as suas asas. Diogo não se cansava de admirar as asas dos anjos, aquele branco que fazia lembrar algodão doce e de uma delicadeza que lembrava a flor mais delicada de todas. As asas eram proporcionais ao tamanho de Matilde, mas Diogo tinha noção de que elas continuariam a crescer à medida que Matilde fosse também crescendo. No entanto, ou era impressão sua, ou as asas pareciam tão tristes quanto Matilde, pois as penas pareciam murchas. Com um último olhar a todos, Matilde saiu por uma das portas da cozinha que dava para o quintal e levantou voo, desaparecendo logo de seguida.
Estava na hora. Diogo olhou para os restantes que também lhe devolviam o olhar.
- Encham garrafas de água e tragam o maior número que conseguirem porque no Inferno não vão encontrar água potável para beber – lembrou Samuel dirigindo-se a Diogo e Júlio, ao mesmo tempo que encontrava bolachas e chocolates num armário e os punhas numa mochila que fizera surgir do nada. Diogo deu-se subitamente conta que já não comia há várias horas, mas optou por ficar calado, não tinham tempo. Mais tarde comeria um chocolate. Viu Samuel sair da cozinha em direcção á sala onde havia mais luz provinda dos candeeiros da rua. Diogo foi buscar garrafas de água à dispensa e pegou em tudo o que podia servir-lhes de alimento. Já com as mochilas cheias, dirigiram-se para a sala, cada um com uma mochila às costas, e viram Samuel posicionado no centro da sala e virado de frente para eles.
- Vamos, dêem as mãos. – pediu Samuel estendendo as suas na direcção deles.
- O quê? – disseram os três ao mesmo tempo sem se mexerem
- A melhor forma de nos assegurarmos que vamos realmente todos juntos e que nenhum fica para trás ou se perde a meio do caminho é estarmos de mãos dadas – explicou Samuel visto que todos eles continuavam sem se mexer, mas com cara de quem achava aquele esclarecimento completamente desnecessário.
Como continuavam todos parados, sem paciência, Samuel revirou os olhos e apanhou uma mão de Júlio e outra de Diogo, que se encontravam mais próximos. Diogo ficou subitamente nervoso quando percebeu que teria de segurar a mão de Sofia. Sofia não manifestou qualquer reacção, mas também não se aproximou de Diogo.
- Conseguem matar demónios, mas ficam todos atrapalhados por terem de dar as mãos?! – Samuel parecia incrédulo – Ainda acham que é só a Matilde que tem de rever algumas das suas preocupações? – Esta comparação pareceu despertá-los. Sofia caminhou até ao círculo e deu primeiro a mão a Júlio e depois lançou um olhar, indecifrável, a Diogo. As suas mãos levantaram-se simultaneamente em direcção uma à outra. Diogo sentiu os dedos de Sofia tocarem nos seus e de repente estavam de mãos dadas. A pele de Sofia parecia seda de tão macia que era. Comparativamente com a sua mão e com a de Samuel, a de Sofia estava fria, mas ao olhar para o seu braço nu, Diogo não vislumbrou qualquer sinal de que ela estivesse com frio. Não olhou mais para Sofia, apesar de sentir bem presente a sua mão envolvida pela dele. Por isso mesmo fixou os seus olhos em Júlio que estava á sua frente, mas que, ao contrário de Diogo, parecia estar a prestar muito mais atenção a Samuel. Só podia estar a ser estúpido, pensou Diogo para consigo, porque é que dar a mão à Sofia podia estar a perturbá-lo tanto? E porque raio é que apesar de não estar a olhar para ela, era só o seu rosto que lhe vinha à memória?
- Agora esvaziem a vossa mente, não pensem em nada – disse Samuel. Diogo quase fez uma careta. Isso era fácil dizer, o problema era realmente controlar tudo o que teimava em vir-lhe à memória naquele momento. No entanto fez um esforço – Deixem-se levar e principalmente nunca larguem as mãos
“Muito obrigado” – pensou Diogo – “Ele tinha mesmo de voltar a falar em mãos!” – ironizou dando graças por nenhum deles conseguir ler-lhe os pensamentos.
- Fechem os olhos – pediu Samuel num murmúrio e Diogo viu Júlio obedecer. De seguida fechou também os seus. Segundos depois sentiu algo estranho no estômago. Parecia estar a descer a uma velocidade vertiginosa, como se não tivesse fim e o seu estômago estava a sentir os efeitos daquilo. A tentação de abrir os olhos era enorme, mas esforçou-se para não o fazer. Subitamente sentiu Sofia fazer pressão sobre a sua mão, como se quisesse ter certeza de que ele ainda ali estava. Sem pensar, Diogo apertou-lhe mais a mão e sentiu-a sossegar. A descida continuou e Diogo pediu para que ainda não faltasse muito para acabar, pois a sensação do estômago a chegar à garganta era cada vez mais evidente. Foi então que sentiu os seus pés pousarem sobre terra firme com uma suavidade inacreditável depois daquela descida alucinante. Sentiu um baque ao seu lado, mas ninguém pareceu queixar-se e por isso manteve ainda os olhos fechados. Quando o seu estômago voltava ao normal abriu os olhos. Viu que Júlio começava a fazer o mesmo. Olhou para Samuel que olhava atentamente para os três e depois para Sofia que continuava com os olhos fechados e respirava lentamente regularizando a sua respiração. Por fim abriu os olhos e estes depararam-se de imediato com os de Diogo.
- Nunca gostei de montanhas russas! – queixou-se de repente Júlio e Sofia desviou imediatamente o olhar. Samuel largou-lhes as mãos o que fez com que Júlio levasse as suas mãos à barriga como forma de acalmar o enjoo que parecia estar a sentir. Diogo e Sofia eram os únicos ainda de mão dada.
- Se não quiseres arrancar-me a mão, podes devolver-ma – disse bruscamente Sofia voltando ao seu tom depreciativo.
- Não fui eu quem quis apertar a mão a meio da descida – atacou de imediato Diogo libertando-lhe instantaneamente.
- Não passou de um acto reflexo – atirou-lhe altivamente Sofia – Caso não te lembres eu estou aqui para te proteger. É a minha missão!
- Pois para a próxima devias pensar melhor antes de aceitar uma missão…pode acontecer não estares á altura! – Diogo tinha consciência de que aquilo fora um golpe baixo, mas Sofia tinha a capacidade de irritá-lo e de fazer com que ele quisesse dizer-lhe tudo o que sabia poder atingi-la. Viu os olhos de Sofia abrirem cada vez mais á medida que o choque provindo das palavras de Diogo ia crescendo dentro de si.
- Já vai ser difícil passarmos despercebidos durante o maior tempo possível, mas se vocês os dois quiserem que todos os Príncipes apareçam já para despacharmos isto estejam à vontade – repreendeu-os Samuel. Sofia calou-se contrariada, mas fulminou Diogo com o olhar. Diogo ficou com a impressão que para ela, aquela discussão não estava terminada.
- Olhem bem para estes portões! – exclamou Júlio que olhava em frente e ia subindo o olhar cada vez mais.
Diogo seguiu-lhe o olhar e deparou-se com aqueles que eram definitivamente os Portões do Inferno. Não só estavam ornamentados com rostos de demónios como também com rostos de humanos em plena agonia, alguns deles de boca aberta como se estivessem envolvidos por um grito silencioso. O portão era composto por ferros negros ligados entre si por aqueles rostos aterrorizados ou de uma monstruosidade sedenta de mais almas. Diogo contemplou aqueles portões, acompanhando-o em toda a sua altura, mas verificou ser impossível conseguir alcançar, visualmente, o cimo dos mesmos. Eles continuavam, em todo a sua magnificência, a subir cada vez mais alto até desaparecerem naquela escuridão sem fim. Era uma visão majestosa e sombria. Diogo achava que devia sentir-se assustado ou pelo menos intimidado, mas por alguma razão não era isso que estava a acontecer. Os portões representavam a maldade, a crueldade e a impiedade de todos aqueles que eram condenados ao Inferno e ainda de todos os demónios que ali eram criados. Devia sentir-se medo só de olhar para os portões, no entanto, Diogo, parecia sentir-se quase em casa. Este pensamento assustou-o e começou a sentir-se cada vez mais enjoado. Como é que era possível pensar no Inferno como uma casa, pensar naqueles portões como um sinal de boas vindas? Devia estar a ficar louco! Muito provavelmente era já influência daquele lugar. Tentou convencer-se. No entanto, Diogo não ficou assim tão convencido, pois ao olhar para os restantes, nenhum deles pareciam estar com ar de quem estava prestes a deitar as entranhas todas cá para fora. Felizmente não tinha nada no estômago, caso contrário daria mais uma razão a Sofia para acreditar que ele era um fraco.
- Estão prontos? – perguntou Samuel. Olharam todos para ele com uma expressão determinada e decida – Está então na hora – ao dizer isto os portões pareceram ouvi-lo. De forma bastante sonora e de arrepiar, começaram a abrir-se, deslizando para fora na direcção dos visitantes.
Diogo não conseguiu ver nada para além deles. A entrada parecia envolvida por um nevoeiro muito espesso que teriam de atravessar se queriam entrar naquele mundo demoníaco. Diogo perguntou-se se os outros também estariam a questionar-se sobre o que encontrariam do outro lado. Porém, se estavam nenhum deles fez qualquer comentário. Aproximaram-se todos mais um pouco, alinhando-se lado a lado. Diogo entre Sofia e Júlio e Samuel do outro lado de Sofia.
- Ainda é possível voltar atrás? – perguntou subitamente Diogo e todos se viraram para ele surpreendidos.
- Enquanto não passares os portões, isso é possível sim. – respondeu Samuel – Queres desistir? Ninguém te vai recriminar ou julgar por essa decisão Diogo.
- Eu não quero desistir – disse Diogo num tom resoluto, ainda sem olhar para eles – Mas nenhum de vocês tem de sacrificar as vossas vidas por minha causa.
- O que é que estás para aí a dizer? – Júlio parecia verdadeiramente indignado – Se te oiço dizer mais uma palavra eu prometo que quem te mata sou eu!
- E eu terei todo o prazer em ser tua cúmplice! – atirou Sofia sem olhar para Diogo
- Pensei que os anjos não cometiam crimes desta natureza – gozou Diogo, apesar de aquela conversa dos amigos estar a acalmá-lo.
- No teu caso posso abrir uma excepção – foram as palavras de Sofia.
- Ora ainda bem que voltámos a estar todos em sintonia – interveio Samuel sorrindo-lhes – Começo a achar que prefiro enfrentar um Príncipe do Inferno do que ficar a ouvir-vos a discutir o dia todo.
Tinha chegado a hora. Encaminharam-se os quatro na direcção dos portões. Diogo respirou fundo e ganhando coragem, juntamente com os outros, atravessou o nevoeiro espesso. Mas não sem antes ouvir Samuel citar em voz alta a famosa frase de Winston Churchill:
“Se está a atravessar o Inferno…continue a andar.”XIII - MEMÓRIAS
Aquilo que Diogo viu ao passar os Portões do Inferno nada tinha a ver com o que imaginara vir a encontrar. À medida que avançava tudo lhe parecia ainda mais estranho. Ele estava, por mais incrível que parecesse, a caminhar à luz do dia, na sua rua. A rua onde ficava a casa dos seus pais, onde crescera e que acabara de deixar para trás minutos antes. Caminhava ao longo da rua tendo certeza de que iria encontrar ao fundo da mesma a casa dos seus pais. E a rua já não se encontrava deserta como naquela noite. Os moradores estavam dentro dos seus quintais, a cuidar dos seus jardins, a estender a roupa, a apanhar sol. As crianças estavam por todo o lado, a jogar à bola, a andar de bicicleta, a correr umas atrás das outras. Uma criança com cerca de cinco anos, que Diogo reconheceu como sendo filho de um dos seus vizinhos e que ajudara a aprender a andar no seu triciclo, passou por ele parecendo sorrir-lhe. Parecia tudo tão perfeito, tão certo…mas era impossível, Diogo sabia estar no Inferno…mas, então, como é que o Inferno poderia ter a aparência da sua rua? Como é que aquelas pessoas que ele sabia estarem vivas, podiam estar agora ali tão confortavelmente instaladas, tão…felizes? Poderia afinal aquilo ter mesmo sido apenas um pesadelo? Finalmente acordara e estava onde sempre devia estar? Os seus pais estavam bem e seguros na sua casa? E foi então que a viu. Ao mesmo tempo que via surgir a sua casa, viu também a sua mãe. Estava a varrer o quintal com os seus cabelos ruivos a esvoaçar com a pequena brisa que corria naquele dia de sol. Cantarolava qualquer coisa. Diogo aproximou-se um pouco mais, o suficiente para reconhecer a música. Era a mesma música que a sua mãe lhe cantava para que ele adormecesse quando era pequeno e que o ajudava a esquecer os pesadelos que tivera durante a noite. A sua mãe estava ali a dois metros dele, tudo voltara ao normal. Diogo acelerou o passo com um enorme sorriso a abrir-se de tanta felicidade. Não passara de um pesadelo. Apenas um pesadelo. Estendeu a mão para abrir o portão da sua casa. A sua mãe ia ficar surpresa por vê-lo ali. Estava quase. No entanto quando estava prestes a tocar no portão, uma mão impediu-o de fazê-lo. Diogo tento livrar-se daquela mão que se envolvera no seu pulso com tamanha força, mas não conseguiu. Queria atacar quem o impediu de entrar na sua casa, quem o impediu de abraçar a sua mãe.
- DIOGO! DIOGO! – Diogo ouviu por fim alguém gritar o seu nome e despertou fixando melhor o seu olhar em quem o agarrava com tal força. O seu olhar focou-se no olhar de Samuel que o fitava apreensivo.
- Samuel? – ao ouvir Diogo pronunciar o seu nome Samuel pareceu ficar mais aliviado e atenuou a força com que segurava no pulso de Diogo
- Ainda bem que saíste do transe – disse Samuel respirando fundo – Pensei que não ia conseguir chegar a tempo. Tive de concentrar-me primeiro no Júlio e depois na Sofia. – Diogo estava confuso, não conseguia perceber onde Samuel queria chegar com aquela conversa
- Transe? – foi a única coisa que conseguiu perguntar
- A culpa foi minha, eu devia ter-vos prevenido que esta era a primeira coisa que veriam quando passassem os portões do Inferno – começou Samuel – Mas já passou tanto tempo desde que aqui estive… - lamentou-se.
- O que é que se passa? – perguntou Diogo voltando a olhar para a sua casa e para a sua mãe que continuava a varrer o quintal sem sequer dar-se conta da sua presença apesar de ele e Samuel estarem a menos de um metro de distância dela. – Porque é que a minha mãe não olha para mim? Porque é que me impediste de entrar na minha casa?
- Esta não é a tua casa – disse-lhe Samuel – É apenas uma memória que te foi extraída no momento em que passaste pelos portões. Não podes tocar em nada ou denunciarás de imediato a nossa presença. – explicou – Trata-se de uma armadilha para apanhar mais rapidamente os intrusos. Aquele nevoeiro pelo qual passaste não é um nevoeiro qualquer. Está ali para retirar da tua memória o local mais desejado por ti neste momento. O local, pelo qual farias de tudo para voltar. No teu caso, a tua rua, a casa dos teus pais. Se tocares em alguma coisa retirada dessa memória, o Príncipe do Inferno, que sentir primeiro esse contacto, não vem apenas ter contigo para te matar, ele fica a conhecer cada memória que te pertence, mesmo aquelas que tu nem acreditas possuir e usará isso contra ti, sem sequer te aperceberes de que nada é real. – Samuel retirou por fim a mão que prendia o pulso de Diogo.
Diogo voltou a olhar para a sua casa e para a sua mãe que parecia tão feliz e tão descontraída a fazer as suas tarefas. Afinal o pesadelo não terminara. Na verdade, apenas se tornara pior. Parecia uma brincadeira de muito mau gosto em que mostram aquilo que alguém mais quer, ao mesmo tempo que dizem “Olha bem porque nunca poderás voltar a desfrutar deste prazer”. Diogo teve de fazer um esforço enorme para conseguir desviar o olhar. Por fim, contemplou o que se encontrava à sua volta e desta vez reparou em algo mais. Não era só a sua rua que ali se encontrava. Por trás das casas que lhe eram familiares, levantava-se uma imensa floresta, repleta de árvores gigantes e cheias de verdura. Distinguia, ainda, vários tipos de plantas, algumas que só vira em livros. E perto do local onde agora via Júlio, encontrava-se uma clareira rodeada por aquelas árvores e plantas. Júlio olhava de forma muito intensa e até mesmo saudosa. Diogo afastou-se de Samuel e caminhou em direcção ao amigo que parecia estar a fazer um esforço tremendo para conseguir manter o controlo. Nem sequer se apercebeu quando Diogo se posicionou ao seu lado e lhe tocou ao de leve no ombro. No entanto pouco depois, Diogo sentiu o amigo respirar fundo e desviar o olhar na sua direcção.
- Aquele é o meu lar, a minha família… - murmurou Júlio voltando a olhar para aquela clareira. Diogo seguiu-lhe o olhar e encontrou várias pessoas com o mesmo tom de pele escura de Júlio, com os mesmos cabelos brancos, apesar de muitos deles apresentarem cabelos de um tom prata e brilhante. Reparou que esses eram mulheres e não homens. Todos usavam o cabelo comprido, no entanto, os das mulheres brilhavam de uma forma hipnotizante. Diogo lembrou-se de quando Júlio lhe contara que lá eram as mulheres que governavam por serem mais poderosas. No entanto, não parecia encontrar ali grandes diferenças, pareciam todos ajudar-se mutuamente, como iguais. Alguns estavam a cultivar, outros a apanhar frutas ou plantas, alguns estavam sentados a rir divertidos, havia crianças a correr e mais velhos a ralhar com elas, como se não pudessem estar ali. Usavam todos trajes em tons de verde, a cor preferida de Júlio, as mulheres vestidos e os homens camisa e calças apertadas um pouco mais abaixo dos joelhos. Pareciam fundir-se com o verde e o castanho da floresta tornando tudo ainda mais mágico devido aos seus cabelos.
- Por pouco não desatei a correr na direcção deles – informou Júlio numa voz fraca ainda de olhos fitos na clareira – Pensei que tudo não tinha passado de um pesadelo, mas depois senti o Samuel agarrar-me…
- Onde está a Sofia? – perguntou subitamente Diogo nervoso, olhando em seu redor. Mas não precisou que lhe respondessem. Ao virar-se para trás encontrou Sofia de costas a observar algo maravilhosamente belo.
Um palácio enorme estendia-se em toda a sua plenitude. Todo ele era branco, um branco que fazia lembrar as penas das asas de Sofia. À sua volta havia apenas água, ou assim parecia ser. Era difícil ter certeza pois as águas não se mexiam. Todo ele parecia iluminar-se a si mesmo irradiando uma luz quente e acolhedora. Parecia uma pintura perfeita, mas com vida própria. O esplendor daquele palácio era contagiante. Diogo tinha certeza de que conseguia ficar ali a olhar para a sua beleza eternamente. Mas algo lhe chamou a atenção. Uma música. Uma melodia. Vinha de um instrumento de sopro, talvez uma flauta. Alguém que estava naquele palácio parecia tocar uma flauta. Era uma melodia que Diogo não reconhecia. Mas nunca, Diogo, tinha ouvido nada tão bonito, tão agradável, tão harmonioso. Se fechasse os olhos era capaz de ficar a ouvir aquela melodia sem que nada mais perturbasse a sua memória, como se aquela melodia afastasse todos os medos e receios. Diogo estava quase a fazê-lo quando algo no rosto de Sofia o chamou à atenção. Sofia estava a chorar. Aquilo assustou-o verdadeiramente. Não pelas lágrimas que deslizavam suavemente pelo rosto perfeito de Sofia, mas sim aquela tristeza, aquela dor que transbordava no seu olhar. Aquela música devia fazê-la sentir-se calma, feliz, mas só parecia estar a atormentá-la ainda mais.
- Sofia… - murmurou Diogo, mas não obteve qualquer resposta. – Sofia… - voltou ele a repetir não se atrevendo, estupidamente, a levantar a voz, com medo de arruinar aquela melodia. Ao mesmo tempo que pronunciou o seu nome, Diogo tocou-lhe ao de leve, com os seus dedos, no braço de Sofia. Para sua enorme surpresa, Sofia não protestou, não o acusou de nada, não emitiu qualquer som, simplesmente precipitou-se para Diogo e abraçou-o colocando os braços à volta do pescoço deste, ao mesmo tempo que enterrava o seu rosto no ombro de Diogo e chorava. Surpreendido a única coisa de que Diogo se lembrou foi abraça-la também e deixá-la chorar.
Diogo só agora se dava conta de como Sofia cheirava bem, parecia-lhe uma mistura de vários aromas e perfumes, que juntos formavam o cheiro mais agradável que alguma vez sentira na vida. Era uma sensação demasiado agradável. E aquela melodia…Sentiu Sofia voltar a soluçar.
- Sofia… - murmurou novamente o seu nome sem saber muito bem o que mais dizer ou fazer.
- Eu nunca mais vou voltar a vê-lo…nunca mais… - murmurou subitamente Sofia entre soluços ainda com o rosto enterrado no ombro de Diogo. Diogo olhou para o palácio.
- Claro que vais – disse-lhe Diogo mostrando mais confiança do que aquela que sabia realmente sentir - Viemos aqui só acabar com uns quantos príncipes e depois voltamos para as nossas casas, para as nossas vidas – assegurou-lhe.
- Tu nunca vais perceber – disse-lhe simplesmente Sofia olhando agora directamente para os olhos de Diogo. Diogo não conseguia lidar com aquele olhar. Havia tanta tristeza, como se quisesse muito voltar a ter algo que sabia nunca mais estar ao seu alcance.
Sofia parou subitamente de chorar e de repente Diogo sentiu-a ficar mais tensa. Ela endireitou-se imediatamente afastando-se dos braços de Diogo e secou apressadamente as lágrimas. Aquele olhar Diogo conhecia. Voltara a ser a Sofia a que ele estava habituado.
- Não penses que isto vai voltar a acontecer – atirou-lhe ela rispidamente – Eu sou uma guerreira. Fui apenas apanhada desprevenida. Não vai voltar a repetir-se! – assegurou-lhe. E com isto passou por Diogo e caminhou até Júlio que se encontrava mais acima. Mas ao passar por ele, Diogo ouviu-a repetir num murmúrio muito baixo “Nunca vais perceber!”
- Mas o que é que eu nunca vou perceber? – perguntou alto Diogo, mas Sofia já ia longe.
- A Sofia abdicou de muita coisa – disse de repente Samuel atrás de Diogo apanhando-o algo desprevenido – Puniu-se a si mesma afastando-se do que a fazia mais feliz!
- Porquê? – perguntou Diogo algo chocado – Porque é que ela havia de se punir a si mesma?
- Essa é uma história que terá de ser a Sofia a contar-te… - murmurou ao mesmo tempo que passava por Diogo e se juntava aos outros dois. Diogo ficou pensativo. Que segredo poderia esconder Sofia? – Diogo voltou a olhar para o palácio e deixou-se encantar mais uma vez por aquela melodia. Depois virou-se para os seus três amigos. Viu Sofia de braços cruzados como se estivesse farta de esperar por ele e Diogo riu-se.
- Pelo menos com esta Sofia eu sei lidar! – congratulou-se Diogo encolhendo os ombros.
Preparava-se para ir ter com os restantes quando reparou naquilo que devia ser uma outra memória. Era também uma floresta e possuía, tal como a floresta de Júlio, uma clareira. Mas ao invés, esta era escura, sombria e encontrava-se completamente deserta. Uma vez que já tinha visto a memória de Júlio e a de Sofia, aquela só podia pertencer a Samuel. Mas o que quereria aquilo dizer? Porque é que alguém quereria estar num sítio daqueles? Um arrepio percorreu, subitamente, a coluna de Diogo e a única coisa que ele desejou foi ir ter com os outros. Quando chegou perto deles, teve certeza de que aquela era mesmo a memória de Samuel, pois ele olhava para aquela floresta negra, como se quisesse alcançá-la. No entanto, ao perceber que Diogo o fitava, desviou o seu olhar e encarou o grupo.
Porém algo chamou a atenção de Samuel. Diogo, Júlio e Sofia estavam de frente para ele, por isso não viam para onde Samuel olhava. No entanto, o que quer que ele estivesse a ver devia estar a perturbá-lo bastante. Aliás parecia estar a deixá-lo confuso, até mesmo verdadeiramente surpreso. Diogo estava prestes a seguir-lhe o olhar quando ele falou.
- Quem é que gostaria de estar neste preciso momento num parque de diversões? – perguntou Samuel deixando os restantes perplexos como se não o tivessem ouvido bem.
Diogo, em simultâneo com Sofia e Júlio olharam para trás de si. Diogo não queria acreditar no que estava a ver. Além de uma enorme montanha russa no centro daquele parque de diversões, havia ainda carrosséis, carrinhos de choque, barracas com todo o tipo de jogos, palhaços, gritos, gargalhadas, conversas animadas, vendedores de algodão doce, de balões…e foi então que Diogo a viu…ali, pronta a aceitar um balão de um vendedor ambulante e com um enorme sorriso nos lábios estava…Matilde.
- NÃO!!! – gritou Samuel com o pânico a voz passando por eles a correr em direcção a Matilde que não lhes prestava qualquer atenção, como se estivesse no mesmo transe que Diogo sabia ter estado no momento em que quis ir abraçar a sua mãe.
Samuel estava prestes a agarrar Matilde, impedindo-a de tocar naquele balão quando algo aconteceu. Matilde agarrou no balão que lhe estava a ser oferecido e de repente levantou-se uma enorme tempestade de areia. Diogo não percebia de onde tinha vindo toda aquela areia, mas sentia-a picar-lhe a pele, os olhos e obrigando-o a recuar vários passos até conseguir manter algum equilíbrio. Era forte demais. Diogo segurou-se a algo. Não sabia o que era, mas parecia ter força suficiente para aguentar os puxões de que Diogo era vítima. Diogo não conseguia perceber se os outros estavam bem. Não conseguia ouvir mais nada a não ser aquele tornado de areia. E foi então que o vento começou a abrandar. A intensidade com que era atingido pela areia diminuiu e algum tempo depois o vento ou mesmo qualquer tipo de brisa deixou de existir. A primeira coisa que Diogo sentiu foi um calor descomunal. Não era um calor normal. Parecia entranhar-se em toda a sua pele. Mas isso não era o pior. Aquele cheiro…a única palavra que surgia na cabeça de Diogo era “medo”. Um cheiro que lhe invadia as narinas e que punha o seu estômago às voltas. Uma mistura de putrefacção e podridão, misturado com aquele calor fora do normal. Diogo abriu os olhos e sentiu o seu coração acelerar freneticamente. Bem à frente dos seus olhos estava a estátua de um demónio horrível. Monstruoso e com a boca aberta como se estivesse a preparar-se para engolir Diogo de uma só vez. A estátua era toda negra, mas os seus olhos eram de um vermelho rubi e pareciam vivos, prontos a sugar toda a felicidade ou esperança que ainda pudesse restar dentro das suas vítimas, antes de as matar. Era a essa estátua que Diogo se conseguira agarrar no momento em que foram atingidos pela tempestade de areia. Largou-a de imediato indo embater em algo duro que parecia estar a estilhaçar-se com o seu peso. Diogo olhou para baixo e o seu coração recomeçou a acelerar ecoando nos seus ouvidos. Diogo estava em cima dos ossos de um esqueleto humano ou assim julgava. Mas não era o único esqueleto. O chão estava repleto deles. Não parecia sobrar espaço para mais nenhum. Parecia uma carpete feita de ossos e caveiras. Mas não eram caveiras normais, todas elas mesmo depois de separadas do corpo que as envolvia pareciam moldadas num grito silencioso, como aquelas que encontrara ao avistar os portões do inferno. Todas. Nenhuma delas parecia em paz, se é que essa palavra podia ser usada ali.
Diogo ouviu subitamente um grito de medo e sabia a quem ele pertencia. Era de Matilde. Levantou o olhar em busca de Matilde e encontrou-a agarrada a Samuel e com o pânico no seu olhar. Viu Sofia tentar afastar os esqueletos que estavam por todo o lado e viu Júlio afastar-se rapidamente de uma daquelas estátuas monstruosas e a deparar-se de imediato com outra fazendo com que se desequilibrasse e caísse em cima daqueles ossos e caveiras. Percebeu que estavam todos bem, na medida do possível, apesar de assustados e cobertos de areia. Olhou em seu redor e viu mais para além daquilo que já considerava aterrador. Eles estavam rodeados de lava como se estivessem bem no centro de um vulcão. Pareciam estar numa ilha rodeada por lava que não tinha fim. Não se avistava mais nada para além daquele pedaço de terra onde se encontravam agora. E dentro daquele rio de lava não havia apenas fogo. Diogo conseguia distinguir sombras. Eram algo indistintas, mas Diogo podia jurar que tinham forma humana. Depois de se refazer da surpresa Diogo apressou-se a ir ter com os outros. Quando chegou perto deles Samuel olhava incrédulo para Matilde.
- Matilde – disse quase furioso – Desobedeceste-me! – Matilde encolheu-se verdadeiramente assustada com o olhar que Samuel lhe lançava.
- E pior…quebraste uma promessa! – lembrou-lhe Sofia – Um anjo nunca quebra uma promessa!
- Na verdade, eu não quebrei uma promessa – disse Matilde algo a medo.
- Tu prometeste-me que ias para casa – lembrou-lhe Samuel chocado com a insolência de Matilde.
- É verdade que prometi, mas não foi na parte de ir para casa – atreveu-se Matilde a dizer e todos olharam confusos para ela. Sentindo-se encorajada explicou – Só me pediram para prometer que enviaria uma mensagem aos nove príncipes angelicais daqui a três dias.
- Isso não é verdade! – quase gritou Samuel e Matilde voltou a encolher-se. No entanto ganhou coragem para continuar com a sua argumentação.
- Só pediste para prometer depois de me pedires para entregar a mensagem e nunca depois de me dizeres para não vir com vocês… - Samuel olhava incrédulo para Matilde. Abriu a boca para dizer algo, mas voltou a fechá-la.
- E não achas que estava implícito? – perguntou Júlio a Matilde que pela primeira vez não lhe respondeu fixando o olhar nos seus próprios ténis verdes e repletos de areia.
- E agora que atravessaste os portões é completamente impossível mandar-te de volta! – Samuel estava cada vez mais desesperado.
- Eu não fiz por mal – murmurou Matilde num tom de quem ia começar a chorar – Eu queria muito vir com vocês, eu queria mostrar que sou capaz de cumprir uma missão.
- Matilde isto não é uma missão – interrompeu-a Diogo de forma carinhosa – Isto é…
- …um suicídio colectivo! – completou Júlio olhando incrédulo para Matilde – Tu tens noção que podes nunca mais voltar a ver o teu pai, os outros anjos, os teus amigos? Podes nunca mais conseguir sair daqui! – Júlio parecia descontrolado – Tu não tens nada nessa cabeça? Como é que podes trocar tudo para estar num sítio destes? – Matilde estava agora a fazer um esforço enorme para não chorar, mas sem sucesso. Lágrimas grossas caiam-lhe pela cara.
- Eu só queria ser útil… - murmurou
- Pois fica a saber que não foste, muito pelo contrário. Tocaste na tua memória e neste momento um dos Príncipes do Inferno sabe tudo sobre ti, tem em seu poder cada uma das tuas memórias, inclusive toda a conversa que ouviste entre os Príncipes Angelicais…
- Calma Júlio, ela é só uma criança… - tentou acalmá-lo Diogo, ao mesmo tempo que Sofia pousava uma mão no ombro de Matilde.
- NÃO – gritou-lhe Júlio – Ela tem de perceber que não pode fazer tudo o que quer. Tem de perceber que tudo tem as suas consequências e que ela terá de arcar com elas…Que não vai ter sempre alguém a passar-lhe a mão na cabeça ou a limpar todas as suas asneiras! Tens de crescer Matilde, és um Anjo!
- Eu sei que sou um Anjo, e é por isso que queria ajudar-vos, eu pensei que…
- FOSTE EGOISTA! – atirou-lhe Júlio – Não pensaste em nós ou em como nós ficaríamos se te acontecesse alguma coisa! – E foi naquele momento que todos perceberam, incluindo Matilde, que Júlio não estava a dizer-lhe tudo aquilo por raiva ou porque ela merecia ouvi-lo, ele estava a revelar-lhe o quanto ela já se tornara importante e querida para eles, até mesmo para Júlio que implicara com ela desde o início, e o que lhes custaria se algo acontecesse à pequena querubim.
Matilde levantou o olhar para Júlio. Apesar de ter o rosto todo molhado devido às lágrimas, desta vez estava, também, iluminado por um enorme sorriso. A falta de alguns dentes, o brilho no olhar e as sardas nas bochechas, faziam dela o anjo mais traquina que se pudesse imaginar. Mas desta vez demonstrava uma tamanha admiração por Júlio que era impossível continuar a atacar as suas más decisões.
- Porque é que estão todos a sorrir? – perguntou Júlio verdadeiramente confuso e Diogo deu-se conta que estavam realmente todos a sorrir divertidos – Tu és demasiadamente estranha! – disse ele a Matilde que lhe oferecia o seu maior sorriso e que devido à sua falta de dentes e ao seu cabelo completamente desgrenhado lhe dava o ar angelical mais invulgar que se podia imaginar.
Todavia, antes que qualquer um pudesse dizer ou fazer alguma coisa, o chão abriu-se debaixo deles e foram instantaneamente sugados para um buraco negro. Diogo ouviu-os a todos gritar e tinha certeza que também ele estava a gritar a plenos pulmões, ao mesmo tempo que os seus braços e pernas se mexiam inutilmente. O seu coração parecia martelar dentro dos ouvidos e antes que pudesse sequer pensar onde aquele buraco iria acabar, sentiu-se mergulhar dentro de água com um baque sonoro e aparatoso.XIV - LEVIATHAN
Diogo encontrava-se dentro de água a debater-se para chegar à superfície, mas com sérias dificuldades devido à mochila que transportava nas costas. A água era escura o que lhe dificultava a visão, mas estava morna, de uma forma que Diogo, não considerou normal. Por fim, com esforço conseguiu atingir a superfície sem ter de se ver livre da mochila. Procurou imediatamente os outros. Viu Júlio já fora de água a ajudar Sofia a sair da mesma e a mostrar-se satisfeito ao avistar o amigo. Samuel e Matilde também estavam ali perto já em terra seca. Matilde olhava para si mesma com ar enojado e Samuel observava a água como se estivesse a ver algo muito estranho. Por fim, Diogo atingiu a margem e Samuel apressou-se a ir ajudá-lo sem nunca tirar os olhos da água. Diogo deixou cair a mochila no chão e olhou à sua volta. A luz que ali existia provinha de algumas tochas que se encontravam dispersas pelas paredes rochosas. Onde devia existir fogo a queimar as tochas, surpreendentemente, havia água…água de um tom azul claro a arder. Era dali que vinha a luz, uma luz que naquele espaço escuro fazia tudo tornar-se ainda mais sombrio e fantasmagórico, formando sombras dançantes por todo o lado. No entanto, Diogo reparou que mais ninguém estava a prestar atenção às tochas e àquele fogo feito de água, mas sim ao lago onde tinham todos mergulhado. Diogo seguiu o olhar deles e a sua surpresa misturou-se com nojo, repugnância e repulsa. Diogo, tal como os outros tinham caído dentro de água, mas não uma água normal. Era da cor do sangue, de um vermelho vivo e peganhento. Diogo sentiu o seu estômago contrair como se quisesse vomitar perante a memória de ter estado dentro daquele sangue todo. Olhou imediatamente para si como se estivesse à espera de encontrar as suas roupas e corpo repleto daquele líquido pegajoso e viscoso como devia ser o sangue, mas para sua surpresa a água que encontrou a escorrer das mesmas era transparente, da cor de qualquer outro tipo de água. Visto que no lugar do tecto se encontrava apenas um grande buraco negro, Diogo imaginou o que poderia estar ali enterrado por baixo daquela água toda para reflectir aquele vermelho sangue. Abanou a cabeça, já bastava pensar naquilo pelo que os seus pais estariam a passar, não precisava de mais coisas para o assombrar. Voltou a olhar à sua volta. Aquela espécie de lago estava rodeado por rochas sobrepostas umas nas outras formando verdadeiros penhascos. Entre essas rochas viam-se ramos de árvores completamente secos e mirrados. Faziam lembrar mãos esqueléticas que tornavam aqueles rochedos ainda mais intimidantes, como se estivessem ali para velar por aquelas águas de uma quietude arrepiante.
- Afinal no Inferno também há água – murmurou Júlio sem tirar os olhos do lago.
- Eu não disse que não havia água – murmurou também Samuel que segurava na mão de Matilde – O que eu disse é que não iriam encontrar água potável!
- Onde é que estamos? – perguntou Sofia para ninguém em particular
- Ah isso eu sei! – disse de repente Matilde com os olhos muito abertos, como se estivesse muito orgulhosa de algo e todos olharam para ela verdadeiramente surpreendidos.
- E como raio é que tu sabes? – perguntou-lhe Júlio incrédulo.
- Estive atenta na aula sobre os Príncipes do Inferno – disse com um grande sorriso ao mesmo tempo que abanava freneticamente a cabeça de forma afirmativa – A sério! – disse logo de seguida muito séria ao ver que Júlio continuava a olhar para ela desconfiado – Eu posso provar! – Júlio cruzou os braços à espera – Estamos rodeados de água. Tochas de água, um enorme lago de água…
- Claro! – disse subitamente Sofia – Este é o território do Príncipe que governa o lado Oeste do Inferno…o seu elemento é a água!
- Leviathan – murmuraram todos ao mesmo tempo o nome daquele Príncipe do Inferno, incluindo Diogo que recordava aquilo que Samuel lhe tinha explicado “É o maior causador de catástrofes em massa, principalmente as relacionadas com a água”.
- Isto está tudo demasiado calmo – disse Samuel – Não está a agradar-me nada!
- Como se alguma coisa o agradasse! – disse bruscamente Diogo para surpresa de todos e também para sua própria surpresa. Não pensara em dizer nada daquilo, aquilo simplesmente saíra da sua boca de rompante.
- Diogo, tens de parar de ser um miúdo mimado! – a resposta de Samuel a Diogo deixou-os ainda mais chocados – Estamos todos aqui por tua causa, podias mostrar um pouco mais de agradecimento!
- Peço desculpa se vir ao Inferno salvar os meus pais, estragou o seu perfeito quotidiano – ironizou Diogo de uma forma agressiva – Imagino a quantidade de pacientes que deixou desolados pela sua súbita ausência!
- Se não fossem as minhas consultas, muito provavelmente hoje serias um rapaz problemático e …
- Se o Samuel nunca tivesse existido muito provavelmente eu estaria a ter uma vida normal e não andaria aqui a tentar adivinhar qual o próximo príncipe que me quer matar – interrompeu-o Diogo com a raiva a crescer dentro de si.
- Estás a ser injusto e mimado…se não fosse o Samuel nem sequer estarias aqui hoje para te armares em herói de guerra – foi Sofia quem interveio num tom desprezível.
- Se pensas que podes sair por ai a falar nesse tom para o Diogo estás muito enganada – foi Júlio quem enfrentou Sofia de forma ameaçadora
- Ah sim! E o que pensas tu fazer quanto a isso? – atiçou-o Sofia com frieza.
- Que tal dar-te uma lição! – subitamente Júlio tinha o seu machado preferido nas mãos e as espadas de duas lâminas de Sofia surgiam também envolvidas pelos seus punhos cerrados.
- Mal posso esperar! – sem sequer pestanejar Sofia atirou-se a Júlio e as suas armas chocaram com uma violência furiosa.
Pareciam dois guerreiros prontos a lutar até à morte, como se mais nada existisse à volta deles. Tinham ambos uma força extraordinária. Apesar de Júlio ser muito mais entroncado e mais alto que Sofia parecia movimentar-se com tanta leveza e perspicácia como ela. Sorriam um para o outro como que a desafiarem-se a irem mais longe. Atacavam-se sem remorsos e sem vacilar. Era como se realmente quisessem ferir-se, atacar-se, penetrar nas defesas do outro e saírem vitoriosos nem que isso lhes custasse a vida. Era impressionante de ver, arrebatador. Faziam tremer as rochas a cada investida. No entanto como bem reparou Diogo, a água parecia nem sequer ser influenciada por toda aquela movimentação. Sofia investia num novo ataque que Júlio bloqueava e atacava pronto a cortar tudo onde o seu machado tocasse. Sofia defendia-se e assim continuavam os dois, com um olhar de desafio no rosto e um sorriso provocador.
- Eu não preciso que ninguém me defenda! – disse Diogo num tom bem audível e com isto invocou uma espada. Mas desta vez, não foi a espada de Metatron que surgiu nas suas mãos. Aquela era uma espada muito diferente. Toda ela era negra decorada com linhas vermelhas ao longo da lâmina que faziam lembrar o corpo das serpentes, toda ela muito bem afiada e com um protector de mãos igualmente negro e decorado com as mesmas linhas encarnadas mas que continha também duas lâminas bem aguçadas que se estendiam ao lado da lâmina principal em cerca de quinze centímetros. O punho era igualmente negro, mas na sua ponta encontrava-se uma pequena caveira que parecia sorrir de forma instigadora, como se fosse ela que incitasse o seu possuidor a usá-la para matar.
Diogo não perdeu tempo, correu na direcção de Júlio e Sofia. No entanto mesmo antes de chegar a eles foi interceptado por Samuel que olhava para Diogo de forma ameaçadora e pela primeira vez empunhando uma arma que apontava ao pescoço daquele. Tinha a forma de uma foice, mas com um tamanho gigante, quase da altura de Samuel que já era bastante alto. O cabo também era diferente de uma foice normal, pois em vez de recto, fazia uma curva. Toda a arma lembrava um ponto de interrogação. A lâmina, tal como a de uma foice normal era grande e bastante afiada. Além disso, a distância percorrida entre a aquela e o cabo, era constituída por uma fileira de finos cordéis todos em paralelo uns com os outros, tal e qual os de uma harpa, mas que Diogo desconfiava serem tão letais quanto a própria lâmina. E como decoração, no cimo do cabo, antes de começar a lâmina, encontrava-se uma pequena e única asa branca de anjo, branco esse que contrastava com o azul muito escuro do cabo. Diogo tinha aquela arma apontada ao seu pescoço de forma ameaçadora. Sentia a ponta da lâmina tocar na sua pele. Mais um milímetro e estaria a jorrar sangue. Olhou bem nos olhos de Samuel e sentiu a raiva aumentar cada vez mais. Com a lâmina grossa da arma de Samuel conseguiu ver nela reflectidos os seus olhos que agora estavam encarnados. Diogo sentia-se pronto a atacar Samuel, pronto a começar um combate que só acabaria com a morte de um deles. E sem perder tempo, desviou a arma do seu psicólogo com um golpe da sua nova espada. Samuel sorriu divertido, também ele pronto para o combate. E assim começou. Diogo e Samuel atacaram-se de forma violenta. Diogo estava verdadeiramente impressionado com a agilidade de Samuel e a sua forma de manobrar aquela misteriosa arma. Diogo viu novamente a arma quase atingi-lo, mas desviou-se a tempo permitindo a Samuel que lhe cortasse apenas alguns cabelos. Atacou, obrigando Samuel a recuar alguns passos, mas este deu balanço numa das rochas e atirou-se novamente ao seu adversário. Samuel era incansável nos seus avanços, não dando sequer tempo a Diogo de pensar no que fazer a seguir. No entanto, também conseguia perceber nos seus olhos que estava surpreendido com a técnica de Diogo e o à vontade que ele ia ganhando com a sua nova espada à medida que a sua velocidade e força aumentavam. Diogo conseguia perceber que Sofia e Júlio se encontravam muito perto deles, pois ouvia as suas armas a colidirem umas nas outras. Estavam tão perto que subitamente as armas dos quatro se encontraram. Chocarem umas com as outras. Diogo travou o machado de Júlio que por pouco não lhe cortava o braço, enquanto a sua própria arma ficava presa na de Samuel que, por sua vez, se encontrava enfaixada no intervalo das duas lâminas de uma das espadas de Sofia, enquanto a outra tinha ido embater no machado de Júlio. Ficaram, durante alguns segundos, ali os quatro, a fitarem-se, como se estivessem só à espera de um sinal para voltarem a atacar. Mas não foi preciso qualquer sinal. Pareciam estar todos em sintonia. Em simultâneo, todos puxaram as suas armas para si e atacaram quem se encontrava mais próximo. Isso implicava agora uma luta a quatro. Diogo tanto tinha de bloquear os ataques de Samuel, como evitar os de Sofia e desviar-se dos de Júlio. Atacavam-se todos como animais a defender o seu território. Diogo só queria atacar quem quer que estivesse mais perto, nem que para isso tivesse de eliminá-los a todos. Toda a sua raiva estava à flor da pele. Queria mostrar a Júlio que não precisava que o defendessem. Queria fazer ver a Sofia que sabia manusear uma arma como qualquer um deles e queria atacar Samuel por lhe ter escondido durante tanto tempo tudo o que sabia sobre os seus verdadeiros pais e o mundo a que pertencia. No meio daquele combate a quatro, algo chamou a atenção de Diogo, parecia que alguém gritava por eles, no entanto não prestou mais atenção do que se fosse apenas uma mosca e voltou a investir contra Sofia que bloqueava o seu ataque e arremetia a sua lâmina afiada na direcção de Samuel.
Mas foi então que uma força enorme os abalroou inesperadamente atirando-os aos quatro contra as rochas. Por momentos ficaram todos desorientados. Diogo abriu os olhos e viu Júlio cair à sua frente ao afastar-se das rochas. Olharam um para o outro e Diogo sentiu novamente aquela vontade de atacar, de competir com ele. Viu o mesmo nos olhos de Júlio. Estavam prestes a lançar-se na direcção um do outro quando uma flecha passou entre os dois, não os acertando por milímetros e indo cravar-se na rocha. Olharam para o lado, de onde tinha vindo a flecha e viram uma luz que os ofuscava. Depois de se habituarem a toda aquela luz conseguiram distinguir Matilde em todo o seu esplendor. Tinha as asas de um branco perfeito abertas e por cima da cabeça pairava uma pequena auréola. Tinha um olhar destemido e nas suas mãos segurava uma besta, pronta a lançar mais uma daquelas setas mortais a quem pensasse sequer em mexer-se. Apesar de algumas diferenças decorativas, era uma besta muito parecida com a que Sofia usara para matar o primeiro demónio que Diogo vira cair à sua frente com sangue verde a sair-lhe do peito e a evaporar-se à frente dos seus olhos.
- Não vou ter problemas em usar esta arma contra qualquer um de vocês se não me ouvirem – atirou-lhes Matilde. Diogo nunca a vira tão séria. Nem parecia a pequena Matilde que conhecia. À sua frente tinha um Anjo Querubim em todo o seu esplendor e de olhar ameaçador. Aproveitando o facto de os ter apanhado de surpresa, sem baixar a sua arma, Matilde olhou para todos eles como se estivesse prestes a dar-lhes um raspanete – Vocês estão todos a ser manipulados! – disse-lhes ela – Estão a deixar-se contagiar pelo principal poder do Príncipe Leviathan…a discórdia misturada com a competição desmedida! - informou-os Matilde num tom muito seguro – Vocês não querem magoar-se, nunca se virariam uns contra os outros…ele está a entrar dentro da vossa cabeça e a fazer sobressair a necessidade que existe em cada um de querer ser melhor que o outro, de querer provar que pode fazer mais e melhor em detrimento do que possa acontecer aos amigos e àqueles que realmente importam!
Diogo sentia as palavras de Matilde entrarem dentro de si. No entanto a sua cabeça estava agora a entrar num conflito. Estava cada vez mais confuso. Queria sim mostrar aos outros do que era capaz e principalmente de que era melhor sem eles do que com eles. Mas ao mesmo tempo algo lhe dizia que não era para isso que estava ali. Que havia algo mais importante a fazer. Mas o quê? Diogo levou as mãos à cabeça e apesar da sua visão estar um pouco turva, conseguiu perceber que os outros deviam estar a passar pelo mesmo dilema. Tinham o olhar vazio, como que a tentarem decidir o que deviam fazer a seguir. E depois ouviu Matilde.
- Diogo, tu estás aqui para encontrar os teus pais e voltar para casa com eles! – gritou-lhe Matilde sem nunca baixar a arma e mantendo-os sempre sob mira – Júlio tu estás disposto a defender e a ajudar o Diogo na sua missão independentemente do que possa acontecer, ele é o teu melhor amigo. Sofia, a tua missão é proteger o Diogo custe o que custar e não lutar contra ele ou tentar matá-lo. Estás aqui porque queres remediar o teu passado e ajudar o Diogo – Matilde virou-se por fim para Samuel – E tu Samuel, estás disposto a quebrar a promessa que fizeste à Luz, à mãe do Diogo? – Diogo parecia sentir naquela pergunta um duplo sentido perante o olhar intenso que Matilde lançava a Samuel, mas talvez estivesse a imaginar coisas. No entanto Matilde tinha razão. Ele estava ali para salvar os seus pais. Aqueles que minutos atrás atacara sem remorsos eram os seus melhores amigos, os únicos que estavam dispostos a sacrificar-se para que ele atingisse os seus fins, tal como a mãe lhe dissera na sua carta. Como é que fora capaz de querer feri-los, até matá-los.
- NÃO!!! – gritou Diogo e percebeu que não fora o único a gritar, não só por ter visto Matilde baixar a arma e revelar o seu enorme sorriso, aquele a que Diogo se habituara a ver constantemente iluminar o seu rosto de anjo, mas também porque viu o olhar dos outros cruzar-se com o seu, desta vez bem focados e demonstrando a lealdade que ele lhe tinham dedicado desde o primeiro momento.
- “O maior inimigo que podemos encontrar está dentro de nós mesmos” Nietzsche – citou Samuel olhando para a sua própria arma como se naquele momento a temesse.
As armas desapareceram de imediato das mãos de cada um deles, como se tivessem medo de se sentirem forçados a usá-las novamente, como se não confiassem no seu próprio discernimento. Não precisavam falar uns com os outros. Diogo viu no olhar de cada um o arrependimento e a vergonha de se terem atacado mutuamente. Matilde correu até eles contagiando-os subitamente com a sua alegria, ao mesmo tempo que as suas asas e a sua auréola desapareciam.
- Estava a ver que nunca mais me prestavam atenção! – repreendeu-os ela apesar do seu tom cordial – Por momentos pensei que teria de acertar mesmo em algum de vocês para que saíssem do transe em que se encontravam.
- Onde é que aprendeste a atirar de forma tão certeira? – perguntou-lhe Júlio e Diogo percebeu que ele também estava a lembrar-se da flecha que passara entre os dois a milímetros de distância.
- No que toca a armas eu sou a melhor da minha turma – vangloriou-se Matilde pondo-se muito direita, ao mesmo tempo que apresentava uma expressão bastante orgulhosa de si mesma. Sofia sorriu divertida.
- Mas porque é que tu não foste influenciada? – perguntou-lhe Diogo.
- Ora porque eu sou um Anjo Querubim! – respondeu Matilde como se estivesse a falar de algo muito óbvio e com o seu enorme sorriso tão característico.
- Os Anjos Querubins têm a capacidade de ver apenas a verdade – explicou Samuel – Isso, juntamente com a sua eterna inocência de criança protege-os contra qualquer influência demoníaca.
- Quem é que agora ainda vai dizer que não foi bom eu ter vindo com vocês? – atirou-lhes ela verdadeiramente feliz.
- Não penses que isto te livrou de um valente castigo! – desanimou-a imediatamente Júlio, apesar de o seu tom não ser tão duro como antes.
- Ei eu vi o que fazias com o teu machado, foi espectacular! – disse-lhe subitamente Matilde novamente contente, como se não tivesse ficado totalmente infeliz segundos antes – Podes ensinar-me? Os meus amigos vão ficar cheios de inveja! – afirmou-lhe radiante olhando para Júlio como se ele se tivesse tornado no seu novo ídolo.
- Nem penses! – disse-lhe Júlio virando-lhe as costas
- Oh vá lá, vá lá…por favor, por favor! – implorou Matilde saltitando à volta de Júlio.
- Já disse que não! – continuou a negar-lhe Júlio impaciente.
- Podíamos formar uma equipa…”Matilde e Júlio, os destemidos guerreiros dos machados!” – imaginou Matilde muito séria gesticulando em câmara lenta enquanto dizia o seu slogan.
- Mais piroso impossível! – atirou-lhe Júlio chocado – E porque raio é que o teu nome teria de vir em primeiro lugar?
- Ahaaaaaa…isso quer dizer que vais pensar nisso?! – quase gritou Matilde de tão excitada que estava.
- O quê? Claro que não! – apressou-se Júlio a assegurar-lhe, mas Matilde continuava aos pulos feliz à volta dele – Não, espera, não foi isso que eu quis dizer! – Júlio parecia estar prestes a perder a paciência e aquilo despoletou várias gargalhadas em Diogo, Sofia e Samuel, a quem ele lançou olhares aborrecidos.
Mas foi então que de repente começaram a ouvir algo que os chamou à atenção. Era um bater de palmas lento, mas sonoro, que ecoava por todo aquele espaço. Parecia que alguém estava a aplaudir, mas não como se estivesse feliz ou verdadeiramente satisfeito com o que via. Parecia um bater de palmas desprezível e desprovido de qualquer coisa boa.
O som parecia vir do outro lado do lago. Olharam todos para lá, mas não conseguiram ver nada para além de uma imensa escuridão. As tochas não iam suficientemente longe para iluminar aquela zona. O bater de palmas parou, mas quem quer que estivesse do outro lado parecia estar a aproximar-se. Mais um pouco e Diogo tinha certeza de que conseguiriam ver alguém. E foi isso mesmo que aconteceu. Subitamente das sombras para aquela claridade sombria imposta pelas tochas de água que continuavam a arder como se fosse fogo, surgiu uma figura. Era um homem, todo ele vestido de preto dos pés ao pescoço, envolvido por uma enorme capa que lhe chegava aos pés e que no pescoço se abria como as pétalas de uma flor com pontas bem afiadas. Todo o seu corpo estava coberto por roupas pretas, incluído as mãos. O cabelo também ele preto chegava-lhe ao pescoço de uma forma desordenada, mas ao mesmo tempo bastante elegante. A franja puxada ao lado caia-lhe sob a cara tapando-lhe por completo metade do seu rosto incluindo um dos olhos. Tinha um nariz fino e muito bem feito, tal como a sua boca cujos lábios finos não mostravam qualquer tipo de sorriso. A cara era de um branco quase pálido, que em contraste com aquelas roupas pretas, parecia ter sido esculpida com as mãos. O único olho que conseguiam ver não demonstrava qualquer tipo de sentimento. Era como se por trás daquele rosto de porcelana não existisse nada, apenas o vazio. No entanto, apesar de estar ainda longe deles, havia uma coisa que destoava e que lhe dava vida. Era aquele olho de um azul tão forte como a cor daquelas tochas que o iluminavam. Aquele homem não parecia ser mais velho que Samuel, muito pelo contrário, na verdade parecia ter apenas mais uns anos que Diogo. Mas Diogo não podia fiar-se no que os seus olhos viam. Como Samuel avisara, os demónios podiam adquirir a forma humana que quisessem, a forma humana que lhe permitisse ter mais vantagens diante das suas vítimas ou adversários. Nem eles, nem o homem misterioso que tinham à sua frente pronunciaram qualquer palavra. Aquele silêncio estava a incomodar Diogo, a deixá-lo cada vez mais nervoso, mas foi então que ouviu Samuel, Sofia e Matilde murmurarem:
- Leviathan…
- É bom saber que ainda ensinam os anjos a reconhecerem um Príncipe do Inferno – a voz que saiu daqueles lábios finos assustou Diogo. Ele esperava uma voz jovial e até mesmo algo dramática, tendo em conta as suas feições tão teatrais, mas o que ouviu foi um tom de voz arrastado, pesado, rouco e dissimulado. Todos os alarmes dispararam dentro da cabeça de Diogo. Ele sentia a falsidade, a degradação e tudo misturado com a pura vaidade, a mais perversa das vaidades. Um fino sorriso surgiu nos lábios de Leviathan, um sorriso que lhe desfigurou o rosto de porcelana revelando pura maldade e um prazer perverso e corrompido. Aquele que antes fora um Anjo Serafim tal como Sofia, tornara-se num dos mais temidos Príncipes do Inferno…Leviathan, governante do lado Oeste do Inferno e capaz de controlar tudo o que tivesse a ver com o elemento água.XV - EM MINORIA
O sorriso frio de Leviathan não desaparecia. Fitava-os a todos como se estivesse a apreciar um espectáculo e Diogo sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Tinha a impressão de estar a ser avaliado, pois era fácil de perceber que ele estava a ser o principal objecto de observação por parte daquele homem com cara de anjo.
- Gostei muito de receber as tuas memórias, pequena Querubim! – disse Leviathan, cujo olhar caiu subitamente sobre Matilde com uma intensidade que faria recuar qualquer um, mas que Matilde aguentou sem vacilar apesar de a sua mão procurar de imediato a de Júlio que era quem estava mais perto dela. – Descobri coisas muito interessantes! – o seu olhar regressou a Diogo que o encarou com a mesma intensidade, apesar de não se sentir assim tão corajoso, e o Príncipe do Inferno sorriu ainda com mais prazer. Sorriso esse que depressa se alastrou para o seu olhar quando viu a Adaga que Diogo transportava à cintura. – Só o verdadeiro descendente de um Príncipe do Inferno seria capaz de invocar essa Adaga.
- A quem pertence esta Adaga? – atreveu-se Diogo a perguntar, surpreso por sentir a sua voz controlada e satisfeito por isso.
- Tens atrevimento, uma qualidade que aprecio muito num demónio! – foi o comentário de Leviathan sem nunca perder o seu sorriso.
- Eu não sou nenhum demónio! – atirou-lhe Diogo sem nunca desviar o olhar
- Tens toda a razão – o tom de voz de Leviathan continuava a ser bastante calmo – És filho de um Príncipe do Inferno, logo és tu também um Príncipe do Inferno e não um demónio qualquer – Leviathan viu com prazer a cor dos olhos de Diogo começar a alterar-se para vermelho sangue.
Diogo sentia a raiva crescer dentro de si. As palavras de Leviathan começavam a atingi-lo de uma forma que ele não esperava.
- É uma pena não seres meu filho – disse ele subitamente, ao mesmo tempo que fazia surgir numa das suas mãos cobertas por luvas pretas uma Adaga igual à de Diogo – Mas se o mito for verdadeiro, tu serás de uma grande valia!
- Do que é que estás a falar? – perguntou-lhe Diogo cerrando os punhos.
- Não sabes mesmo do que és capaz? Do que podes fazer com as devidas orientações? – Leviathan parecia cada vez mais deliciado com aquela conversa.
- Eu só quero saber onde estão os meus pais – informou-o Diogo ainda com algum controlo na voz.
- Os teus pais… - sibilou Leviathan pensativo – Segundo as memórias do Querubim, chamas de pais a meros e desprezíveis humanos…
- NÃO ADMITO QUE FALES ASSIM DOS MEUS PAIS! – desta vez Diogo não se controlou, mas Leviathan continuava imperturbável.
- Admiro a tua lealdade, mas um Príncipe do Inferno não precisa de humanos para nada…tu és filho, pelo que percebi, de um dos mais poderosos Anjos Serafins…é difícil de acreditar que um anjo sucumba aos encantos de um de nós e continue tão genuíno como antes, principalmente se esse Anjo era…a Luz – Diogo sentiu ainda mais raiva ao ouvir o nome da sua mãe ser pronunciado por aquele ser cheio de crueldade – Sim eu conheci-a – disse ao perceber a reacção de Diogo – Não sei se sabes, mas eu também fui um Anjo Serafim – Diogo viu surgir-lhe no rosto um sorriso escarnecedor – Lembro-me muito bem dela, sempre foi considerada um dos Anjos mais leais e cumpridores. Nunca deu ouvidos a qualquer um de nós na altura da rebelião, mas parece que até os mais leais têm o seu preço!
- NÃO FALES ASSIM DA LUZ! – interveio repentinamente Samuel, mas Leviathan nem sequer se deu ao trabalho de olhar para ele. Continuou a fitar Diogo como se ele tivesse passado a ser o seu brinquedo preferido.
- Se és realmente filho de um Príncipe do Inferno e de um Anjo como a Luz que nunca terá perdido a sua genuinidade e ideais, se esse mito realmente se concretizou, o mundo que conhecemos está prestes a mudar…TU estás prestes a poder fazer coisas com que nós, os Príncipes, apenas sonhamos poder fazer! – o olho azul de Leviathan estava cada vez mais aberto, como se estivesse a imaginar algo lhe daria imenso prazer.
- O que é que estás para aí a dizer? – desta vez foi Sofia quem falou e a reacção de Leviathan foi apenas uma forte e rouca gargalhada
– Com este rapaz…todos os mundos estão ameaçados! - revelou
- Eu não sou nenhuma ameaça…Eu só quero encontrar os meus pais e voltar para casa! – anunciou Diogo.
- Desde o dia em que nasceste que o destino dos humanos, dos anjos e dos demónios foi colocado nas tuas mãos… - Leviathan demonstrava um olhar cada vez mais esgazeado, mais obcecado por algo que nenhum deles tinha ainda atingido – Eu posso ajudar-te, terei todo o prazer em aconselhar-te, em dar-te orientações, o teu verdadeiro pai nunca precisará saber da tua existência. – fez uma pausa, pensativo, e Diogo temeu pela sanidade mental daquele Príncipe - Parece-me que nem tu, nem os teus amigos, ou até mesmo os nove Príncipes Angelicais sabem quem é o teu verdadeiro pai, o que é uma pena, no que me toca a mim…um dos meus irmãos fez um excelente trabalho, mas terei todo o prazer em continuar a mantê-lo na ignorância quanto ao teu paradeiro.
- Bem…adorava ficar a conversar, mas eu estou aqui para encontrar os meus pais, por isso se este momento de insanidade já deu no que tinha de dar, está na hora de passar ao que interessa – a insolência de Diogo apanhou Leviathan desprevenido, mas apenas o tempo suficiente para Diogo dar um passo em frente.
- Onde pensas que vais rapaz? – o tom de voz tinha mudado, era mais possessivo e irritado – Agora que te descobri, não posso deixar-te ir assim sem mais nem menos. Tu serás uma excelente arma contra os meus irmãos e qualquer outro mundo que queira impor-se.
- Eu não pretendo ser um elemento de conflito entre irmãos, por isso o melhor é…
O descaramento de Diogo foi bruscamente interrompido por uma espécie de chicotear que fez tremer tudo ao redor deles. Não viram nada e Leviathan também não pareceu mexer-se apesar de a sua capa preta começar a esvoaçar atrás de si. As rochas à volta deles tremiam com cada vez maior violência, tornando-se um perigo para quem se encontrasse perto delas, o que, infelizmente, era o caso dos cinco. Algumas pedras mais pequenas já começavam a rolar pelos penhascos abaixo e não devia faltar muito tempo até as maiores lhes seguirem o exemplo. Diogo já estava a ter dificuldade em manter o equilíbrio e o mesmo se passava com os restantes. Pela primeira vez, Diogo viu o lago estremecer. Algo lhe dizia que aquilo não era um bom presságio. Apenas Leviathan parecia não estar a ser afectado por aquele repentino tremor de terra. No entanto de repente tudo parou. O chão parou de tremer e a água estava novamente sem qualquer vestígio de movimento. Estava tudo demasiado calmo. Diogo trocou um olhar com os restantes. Matilde continuava agarrada ao braço de Júlio, Sofia que se tinha desequilibrado estava agora mais perto do lago e fitava a água com alguma preocupação e Samuel não tirava os olhos de Leviathan, como se estivesse simplesmente à espera de algo. Diogo voltou a sua atenção para Leviathan. Ali estava de volta aquele sorriso de través que juntamente com um olhar cerrado não adivinhava nada de bom.
Havia ali algo de errado, pensava Diogo constantemente para si mesmo. Leviathan parecia prender a atenção de todos só com a luz azul do seu único olho a descoberto, no entanto, não parecia ter qualquer intenção de fazer um movimento ou de voltar a convencê-los de algo com palavras. Na verdade, como descobriu Diogo tarde demais, parecia estar simplesmente à espera de algo. E foi então que Diogo ouviu uma confusão de gritos que o apavorou. Virou-se para trás e viu, nesse momento, Sofia cair no chão ao mesmo tempo que tentava livrar-se desesperadamente de raízes que se enrolavam à volta de todo o seu corpo e a puxavam na direcção do lago. O mesmo acontecia com Matilde, que se agarrava fortemente a Júlio, que, por sua vez, tentava a todo o custo livrá-la daqueles braços esqueléticos feitos de ramos molhados e cobertos de musgos. Samuel corria agora na direcção de Sofia que estava já dentro de água e Diogo optou por ir tentar ajudar Matilde que se esperneava inutilmente. Diogo agarrou na Adaga e começou a cortar as raízes. Elas estavam por todo o lado, mas felizmente, ao sentirem o corte da Adaga pareciam estar a perder terreno e a pensar duas vezes antes de voltarem a enrolar-se à volta de Matilde. Diogo olhou para trás na direcção de Sofia. Samuel, invocara um punhal de prata e parecia estar também a conseguir alguma vantagem sobre as raízes que envolviam Sofia. No entanto, para espanto de Diogo, esta parecia estar a perder forças, pois estava a deixar Samuel fazer quase tudo sozinho. Percebia que os dois conversavam, mas não conseguia ouvir o que diziam. Diogo voltou a concentrar-se em Matilde que já estava praticamente solta. A última raiz foi cortada e Matilde agarrou-se num abraço apertado a Diogo como se temesse voltar a ser atacada.
- Aquelas raízes estavam a sugar a minha energia – disse-lhe Matilde nervosamente – Quanto mais eu me mexia, mais fraca começava a sentir-me. Era como se estivessem a roubar todas as minhas forças.
Diogo percebia agora o porquê de ter visto Sofia tão passiva enquanto Samuel tentava livrá-la das raízes. Ia voltar a olhar na direcção de Sofia quando ouviu um grito ao seu lado vindo de Júlio. Diogo foi rápido nos seus reflexos, mas estes revelaram-se completamente inúteis. Júlio foi subitamente arrastado para o lago com uma rapidez impressionante. Sem conseguir reagir, o elfo foi engolido pelas águas vermelhas do lago. Diogo sentiu o pânico crescer dentro de si ao perceber que as águas voltavam a acalmar depois de desaparecerem com o seu amigo, sem qualquer sinal deste. Estava prestes a mergulhar atrás de Júlio, quando da água começaram a surgir cabeças, seguidas de ombros largos e o resto de corpos humanos. Eram homens e mulheres, todos eles vestidos com uma espécie de armadura feita do que pareciam ser escamas que lhes cobria o corpo e parte da cara. As suas mãos, cujos dedos eram unidos por membranas, seguravam o mais diverso número de armas, desde espadas, lanças, punhais, flechas, machados, redes. Tinham um olhar ameaçador e desprovido de qualquer emoção. Era como olhar para rostos esculpidos em pedra. Já fora de água, todos tinham várias guelras espalhadas pelo corpo e os dedos dos pés igualmente unidos por uma membrana. Tinham, a pele cinzenta e os cabelos dourados, uns mais curtos e outros mais compridos. Não paravam de andar na direcção deles num passo lento mas determinado. Um daqueles seres que saía da água atacou sem pestanejar Samuel, que para se defender viu-se obrigado a largar as raízes que prendiam Sofia. Foi o suficiente para, com uma rapidez estonteante, novas raízes cercarem Sofia envolvendo-a de forma a impedir qualquer movimento e sem mais demoras, arrastarem a sua vítima para dentro do lago.
- NÃO! – gritou Diogo preparando-se para correr na direcção de Sofia, mas vendo-se imediatamente rodeado por vários seres demoníacos que o ameaçavam com as suas armas.
Samuel, foi forçado a recuar alguns passos na direcção de Diogo, perante a violência do ataque que sofrera.
- O que são estas coisas? – perguntou-lhe Diogo
- São os demónios de Leviathan – explicou-lhe Samuel muito rápido – Almas das quais Leviathan conseguiu apoderar-se através das suas tempestades em alto mar, transformando-os em seus guerreiros. Não têm nada dentro deles, agem apenas através da raiva e ira que lhes é incutida pelo seu mestre. Por isso a razão daquele olhar sem qualquer tipo de expressão, eles acatam apenas ordens, não sabem o que fazem ou quem atacam, simplesmente…obedecem.
- A Sofia e o Júlio! – Diogo estava desesperado. Nenhum deles tinha até agora dado sinal de si na superfície da água e o tempo ia passando. Estavam completamente bloqueados por aquelas criaturas, Diogo tinha de fazer alguma coisa rapidamente.
- Tenta ajudá-los, eu e a Matilde, safamo-nos! – disse-lhe Samuel fazendo surgir nas suas mãos a arma com que atacara anteriormente Diogo e olhando para Matilde com um sorriso encorajador ao mesmo tempo que esta abria as suas asas e revelava a sua auréola, pronta a disparar as flechas da sua besta que já surgira também nas suas pequenas mãos.
- Nós tratamos deles! – assegurou-lhe Matilde com um olhar confiante e com a sua tão característica rebeldia evidente no seu rosto.
Diogo olhava para eles num impasse. Tinha de ir ajudar Júlio e Sofia, mas ao mesmo tempo sabia que deixar Matilde e Samuel ali sozinhos a enfrentar aquele exército de criaturas aquáticas era impensável.
- VAI DIOGO, AGORA! – gritou-lhe Samuel atraindo algumas criaturas na sua direcção, ao mesmo tempo que se defendia dos ataques e infligia outros.
- DIOGO, TENTA AJUDAR PRIMEIRO O JÚLIO – gritou-lhe Matilde já a disparar flechas em todas as direcções – A SOFIA É UM ANJO, NÃO PRECISA DE TANTO AR COMO O JÚLIO! VAI AGORA!
Diogo arrependeu-se muito, mas correu em direcção ao lago. A espada de Metatron já estava na sua mão. Era com ela que se defendia dos ataques daqueles demónios que tentavam impedir que ele se dirigisse para a água e que da sua garganta emitiam ruídos estranhos. Com um forte encontrão numa das criaturas, Diogo, mergulhou dentro do lago. A água continuava morna, mas desta vez Diogo só tinha uma coisa em mente, encontrar os seus amigos, que só estavam ali naquela situação por causa dele. Mas a sua tarefa estava muito difícil. O tom encarnado da água dificultava em muito a sua visão e quanto mais fundo tentava ir, mais escura ela se tornava. Diogo estava a desesperar cada vez mais, quando de repente embateu contra algo. Estava tão perto daquilo em que embatera que conseguiu distinguir a silhueta de Sofia envolta pelos seus cabelos negros e compridos. Parecia estar presa a uma rocha por aquelas raízes esqueléticas. Sofia não olhava para ele, a sua cabeça parecia estar sempre a tombar quando ele a levantava. Diogo abanou-a e Sofia pareceu abrir os olhos. Diogo lembrou-se da Adaga, tirou-a do seu cinto e cortou uma das raízes que prendia a mão direita de Sofia. Apesar de muito fraca Sofia apressou-se a apontar para trás de si. Diogo percebeu de imediato que ela devia estar a indicar-lhe a localização de Júlio. Não queria abandoná-la, mas lembrou-se do que Matilde lhe dissera, sobre Sofia não precisar de tanto ar como Júlio. Diogo pensou que o mesmo devia acontecer com ele, pois ainda não voltara a ter necessidade de encher os pulmões de ar. Começou a nadar contornando a rocha onde Sofia estava presa e para seu grande alivio encontrou Júlio que estava preso à mesma rocha que Sofia apesar de ser no lado oposto. Viu que Júlio não se mexia, mas não perdeu tempo. Com a Adaga apressou-se a cortar todas as raízes. Algumas pareciam querer agarrar Diogo, mas sempre que a Adaga se dirigia na direcção destas, pareciam recuar inesperadamente. Isso facilitou o trabalho de Diogo que conseguiu soltar Júlio apressando-se a levá-lo para a superfície. Demorou menos tempo do que pensava a transportar Júlio até à superfície, mas este continuava sempre sem reagir. Quando chegou à superfície viu Matilde e Samuel completamente cercados. No entanto, subitamente Matilde estava ao seu lado e Samuel lutava sozinho contra os demónios.
- Deixa-o comigo, ele vai ficar bem – disse-lhe Matilde depois de pousar uma mão no peito de Júlio…confia em mim – insistiu ao ver a expressão de pânico na cara de Diogo – A Sofia, rápido!
Diogo não teve outra escolha senão confiar em Matilde e voltar a mergulhar. Felizmente conseguiu encontrar rapidamente a rocha onde estava Sofia, mas no momento em que se preparava para voltar a usar a sua Adaga, viu duas espadas serem apontadas ao pescoço de Sofia. Estava mais escuro ali, mas Diogo conseguiu distinguir duas criaturas iguais às que estavam a lutar fora do lago, a cercarem Sofia e mais umas cinco a rodearem-na. Diogo não sabia o que fazer. Invocou a espada de Metatron, mas lutar dentro de água era muito mais difícil para ele e aqueles seres estavam no seu ambiente. Mas de repente Diogo viu-a. Sofia levantou a cabeça e olhou directamente para ele como que a tentar dizer-lhe algo que Diogo não conseguiu perceber. Voltou a fechar os olhos e segundos depois uma enorme força atingiu-o. Diogo foi arremessado alguns metros para longe, numa espécie de remoinho. Ele conhecia aquela força. Provinha de Sofia. O medo apoderou-se dele ao pensar se seria capaz de voltar a encontrar o caminho até Sofia. Mas sentiu-se invadir pelo alívio ao ver uma luz ao longe. Sabia ser de Sofia. Nadou até lá e encontrou-a agora sozinha. Sofia tinha usado as suas últimas forças para acabar com os demónios que se tinham colocado em seu redor. Agora, tinha as asas abertas e a auréola em cima da sua cabeça. A sua luz quente começava a desaparecer cada vez mais depressa. Diogo apressou-se, novamente, a cortar as raízes com a Adaga, o mais rápido que conseguia. Por fim cortou a última e Sofia tombou para a frente, começando a afundar-se. Diogo precipitou-se na direcção de Sofia e conseguiu agarrá-la puxando-a para si. Virou-a e os olhos de Sofia encontraram-se com os seus. Diogo viu um pequeno sorriso surgir no canto da boca de Sofia. Contudo, logo a seguir ela soltou a sua última golfada de ar e estremeceu nos seus braços. Sem pensar em mais nada, Diogo levou a sua boca aos lábios de Sofia e expirou, partilhando com ela o oxigénio que ainda possuía. Ficaram ali alguns segundos, afundando-se cada vez mais para o fundo do lago, até que por fim Diogo sentiu Sofia despertar e inspirar o oxigénio que ele tentava passar-lhe ao mesmo tempo que se agarrava a ele. Sentiu-a ganhar cada vez mais forças. Afastou-se dos seus lábios e abriu os olhos. A luz de Sofia voltara e aqueles olhos grandes e cinzentos olhavam directamente para ele. Conseguia vê-los nitidamente, por mais incrível que isso fosse, e sabia que Sofia também estava a vê-lo muito bem. Ao mesmo tempo começaram a nadar para a superfície. Diogo deu a mão a Sofia e puxou-a enquanto voltavam à tona da água. Por fim conseguiram voltar a respirar ar e arrastaram-se para fora do lago. Encharcados e cansados caíram no chão ao lado um do outro de barriga para cima.
- Já começávamos a ficar preocupados – disse de repente uma voz que encheu Diogo de alívio e alegria. Júlio surgiu no seu ângulo de visão com um sorriso enorme e a segurar o seu fiel machado. Diogo também lhe sorriu.
- Tu estás bem! – confirmou Diogo que lhe sorria satisfeito e aliviado
- A Matilde passou para mim alguma da sua energia angelical e eu despertei sem quaisquer restos de água no meu organismo – apressou-se a explicar Júlio – Vocês estão a perder o melhor da festa! – disse-lhe voltando a desaparecer.
Diogo conseguiu sentar-se e olhou na direcção em que vira Júlio desaparecer. Encontrou Samuel, Matilde e Júlio a lutarem contra as tais criaturas agora em menor número. Samuel era extremamente rápido com a sua arma em forma de foice e Júlio e Matilde pareciam estar a formar uma equipa, pois estavam costas com costas. Enquanto um distribuía machadadas, outro disparava flechas certeiras em todas as direcções.
- Vais ficar aí deitado o dia todo? – perguntou-lhe inesperadamente Sofia ao seu lado já em pé e pronta para voltar à luta. Lançou-lhe um olhar rápido e partiu na direcção dos outros embrenhando-se também ela na batalha.
- Obrigado Diogo, por teres arriscado a tua vida para me salvares! – ironizou Diogo tentando imitar a voz de Sofia mas de uma forma muito mais floreada – De nada Sofia, sempre às ordens! – completou abanado a cabeça ao mesmo tempo que revirava os olhos em sinal de desagrado.
Mas sem mais demoras, Diogo levantou-se e novamente com a espada de Metatron na mão precipitou-se para a área onde decorria o ataque. No entanto, uma forte rajada de vento misturada com água empurrou Diogo para o chão com grande violência. Ainda no chão Diogo virou-se para trás, na direcção do lago. Viu começar a formar-se uma enorme tromba de água cor de sangue, uma espécie de tornado dentro daquele lago. Começou a chover água por cima de todos eles, encharcando-os ainda mais. As rajadas de vento aumentavam a uma velocidade arrebatadora. De repente um relâmpago iluminou tudo à volta deles cegando-os por momentos, seguido de um estrondo ensurdecedor que fez tremer tudo à volta deles. O tornado de água crescia rapidamente, aumentando em tamanho e em volume. Nuvens negras tornavam-se cada vez mais ameaçadoras por cima dele dando-lhe ainda mais força para varrer tudo à sua volta. Pareciam estar no meio de um furacão que começava a formar-se cada vez mais depressa. O vento empurrava-os, fazendo-os perder o equilíbrio e a água que os atingia, fazia com que as suas roupas se tornassem mais pesadas e criava dificuldades na visão. No meio de tudo aquilo, Diogo começou a ver formar-se bem no centro do lago um remoinho que ia aumentando na sua largura. As águas deslocavam-se a uma velocidade vertiginosa, rodavam sobre si mesmas puxando tudo para o fundo desde pedras a armas perdidas na batalha, sendo auxiliadas pelo vento que não parava de crescer em intensidade. E de repente bem no centro daquelas águas encarnadas Diogo viu reflectida a imagem de uma enorme caveira e nos buracos onde deviam estar os olhos duas luzes intensas brilhavam encadeando-os. Diogo, que já se levantara do chão, protegeu os olhos, mas viu bem o que começava a surgir à sua frente. De dentro de água, do cimo das rochas, do chão, começavam a surgir mais e mais criaturas aquáticas, eram dezenas, centenas. Um enorme exército de demónios marinhos, carregados de armas mortíferas e armaduras fortes que faziam lembrar as escamas dos peixes, caminhavam na direcção deles. Eram um número assustadoramente grande que não parava de aumentar.
Eles não tinham hipótese, como bem pensou Diogo. Eram apenas cinco contra um exército inteiro de demónios marinhos que agiam e atacavam sem qualquer outra motivação que não o ódio e a ira. Eles eram apenas dois anjos adultos e outro ainda uma criança, um elfo nocturno e ele, Diogo, que ainda não conseguira perceber o que era. Não tinham qualquer vantagem ou sequer um plano. Iria ser um massacre. Era o seu fim. Iriam todos morrer por sua causa e ele nunca mais voltaria a ver os seus pais. Sentiu os outros perto de si a assistirem ao espectáculo que os esperava. Ali estavam os cinco ao lado uns dos outros com as suas armas nas mãos e olhar vidrado naquela imagem demoníaca.
- Vocês foram os melhores amigos que eu já tive – disse subitamente Matilde engolindo em seco. O seu cabelo rebelde e indisciplinado estava agora colado à sua cara redonda tornando-a ainda mais pequena do que já era.
- Os meus pais agora já não podem dizer que nunca demonstrei qualquer tipo de acto de coragem – pronunciou-se Júlio com um sorriso fraco.
- És igual à tua mãe Diogo, em tudo! – assegurou-lhe Samuel sem olhar para ele, mas com um sorriso na cara e preparando a sua arma para atacar – És corajoso, leal e sempre pronto para uma boa batalha.
- Obrigado! – murmurou simplesmente Sofia ao seu lado.
Diogo olhou para todos eles. Não conseguiu dizer-lhes nada. Estavam todos concentrados naqueles inimigos que se encontravam cada vez mais próximos. Estavam todos preparados para lutar e morrer se fosse caso disso. E tudo isso por Diogo e pela sua tentativa suicida em ir ao inferno buscar os seus pais. Não vacilaram um único momento quando decidiram acompanhá-lo e continuavam sem vacilar ali, onde sabiam ser impossível saírem vitoriosos. Diogo tinha orgulho em tê-los como amigos. Olhou em frente pronto para o combate. Esperou, tal como os restantes. Em simultâneo todos levantaram as suas armas e correram na direcção dos seus adversários. Mas foi então que Diogo ouviu uma gargalhada que o fez parar. A mesma gargalhada dos seus pesadelos, a mesma gargalhada que ouvira antes de atacar Sofia perto daquela ponte em que lutara com Aaba. Era a mesma, ele tinha certeza. Procurou em todas as direcções. A gargalhada parecia ecoar nos seus ouvidos, mas não conseguia perceber de onde vinha. E nesse momento, sentiu-as. Sentiu aquelas raízes esqueléticas e cheias de musgo agarrarem-no pelos calcanhares e puxarem-no com violência. Foi embater de costas no chão. Tentou agarrar-se a algo, até mesmo a algumas das criaturas que passavam por ele, inexplicavelmente sem parecerem reparar nele ou terem intenção de o atacar, mas as raízes eram demasiado fortes e rápidas. Não conseguia perceber se algum dos amigos estava sequer a dar-se conta do que estava a acontecer-lhe e de repente já estava a ser envolvido por aquelas águas encarnadas e revoltas. Sentiu as raízes largarem-no, mas Diogo não tinha forças para lutar contra aquele remoinho enorme que o puxava a toda a velocidade cada vez mais para baixo. Diogo esperneava e tentava nadar para cima, mas as suas tentativas eram completamente infrutíferas. Estava a afundar-se e estava sozinho…completamente sozinho.XVI - O VERDADEIRO LEVIATHAN
Diogo começava a desesperar. Estava sozinho e lutava incansavelmente para voltar à superfície, mas as águas revoltas faziam-no rodopiar violentamente sobre si mesmo. Era impossível. Mas de repente, como se tivesse sido com um estalar de dedos, tudo parou. O remoinho desapareceu, as águas acalmaram e tudo parecia calmo, demasiado calmo, na opinião de Diogo. Apesar de achar que tudo aquilo lhe parecia estranho demais, optou por pensar mais tarde, no que poderia ter acontecido, de preferência, quando estivesse em terra seca. Por isso mesmo começou a nadar para a superfície. Estava quase a chegar à superfície. Mais um metro e estava fora de água. Mas foi então que, para sua surpresa, no momento em que estava quase a emergir, a sua cabeça bateu violentamente em algo muito duro. Diogo levou as mãos à cabeça massajando-a freneticamente para aliviar a dor. Já menos dolorido, levou as mãos à superfície da água e o seu coração começou a acelerar compulsivamente em pânico. Era impossível sair dali, uma forte camada de gelo cobria toda a superfície do lago. Diogo esmurrou, tentou partir o gelo com os punhos, com os ombros, até mesmo cortá-lo com a Adaga, mas nada parecia resultar. Diogo via sombras por cima do gelo, percebia que a batalha já se tinha alastrado para cima do lago. Tentou gritar, mas só perdeu mais do seu precioso ar. De repente viu Júlio bem à sua frente. O amigo também parecia verdadeiramente em pânico e parecia gritar á sua volta. Tentou tal como Diogo usar a sua arma, o machado, para quebrar o gelo, mas a única coisa que conseguiu foi desequilibrar-se e sair do ângulo de visão de Diogo. Quando finalmente o viu regressar, o amigo gritava-lhe alguma coisa, mas nesse momento foi simultaneamente abalroado por várias criaturas. Diogo deixou de ver Júlio e não viu mais nenhuma cara conhecida aproximar-se. Estava novamente sozinho e os seus quatro amigos estavam lá em cima a lutarem contra o inevitável.
E foi então que Diogo o viu. Ali mesmo, a cerca de uns dez metros de distância, estava Leviathan, todo ele vestido de preto. Os seus cabelos continuavam intactos, tal como as suas roupas, ao contrário do cabelo e roupas de Diogo que estavam sujeitos à movimentação da água. Nada parecia afectar aquele anjo caído que olhava para Diogo com um sorriso trocista formado por aqueles lábios finos. E foi isso que perturbou Diogo. Diogo conseguia ver nitidamente tudo à sua volta, até mesmo um pequeno pendente em forma de lágrima e de um azul brilhante que Leviathan trazia agora ao seu pescoço e que se encontrava bem visível contra as suas roupas escuras. Mas como podia aquilo ser possível, pensou Diogo para consigo. Diogo estava debaixo de água, ainda sem necessidade de ar e sem ter qualquer problema de visão. Já não via tudo turvo à sua volta e o tom vermelho da água parecia estar a desaparecer gradualmente. O pânico ainda o envolvia, mas o facto de conseguir ter todos os seus sentidos em alerta, acalmava-o um pouco. Ficou de frente para Leviathan. Enquanto Diogo precisava manter-se em movimento para não afundar, já Leviathan, mantinha-se no mesmo sítio completamente estático sem pestanejar ou desviar o olhar de Diogo.
“Tens duas escolhas filho de Luz” – ouviu de repente Diogo dentro da sua cabeça. Era aquela mesma voz rouca e repleta de crueldade de Leviathan. Mas o mesmo não mexera os lábios, nem sequer desmanchara o seu sorriso. Diogo já tinha passado antes pela mesma experiência com o diabrete de olhos brancos e sorriso perverso, por isso calculou que todos os demónios e neste caso anjos caídos teriam a mesma habilidade. Diogo continuou a fitá-lo à espera. “Ou te juntas a mim e usas os teus poderes para me tornares no único e invencível Rei do Inferno e do Paraíso, ou podes dizer adeus à tua vida”.
Ele só podia estar louco, pensou para consigo Diogo. Ele mal conseguia manter-se vivo, quanto mais ajudar um Príncipe do Inferno a tornar-se o único Rei do Inferno e ainda do Paraíso.
“Tens poderes que nem tu próprio conheces” – voltou a ouvir a voz de Leviathan dentro da sua cabeça. Ele estava a responder aos seus pensamentos. Isso queria dizer que também conseguia ler a sua mente? Questionava-se Diogo.
“SAI DA MINHA CABEÇA” – gritou-lhe Diogo em pensamento e apesar de Leviathan se manter com a mesma expressão na cara, ouviu-o dar uma gargalhada.
“Enquanto não aprenderes a bloquear a tua mente, posso continuar a ler os teus pensamentos e a entrar nela sem qualquer problema” – respondeu telepáticamente.
Diogo tentou fechar a sua mente. Não sabia como fazê-lo, por isso a única coisa que conseguiu foi ficar muito encarnado.
“És demasiado fraco. Ainda me custa a acreditar que possuis esse imenso poder”
“Eu não tenho poder nenhum!” – atirou-lhe Diogo furioso
“Também não quis acreditar ao início, mas olha para ti agora, sem precisares ainda de ar e a ver de baixo de água como se este fosse realmente o teu mundo”
Diogo não podia deixar de lhe dar razão. Tudo aquilo era muito estranho, para não dizer impossível.
“Estou muito curioso para saber o que poderás fazer perto dos meus irmãos” – disse Leviathan
Diogo voltou a olhar para o pendente em forma de lágrima que Leviathan trazia ao pescoço. Já não era a primeira vez que se via forçado a olhar para ele. Parecia estar constantemente a chamar-lhe a atenção mesmo quando Diogo olhava directamente para outro lado. Era um pendente bonito sim, mas Diogo nunca tinha tido queda para pendentes e aquele era tão normal como qualquer outro. Aliás tão normal como o que trazia ao seu próprio pescoço coberto pela t-shirt preta que vestia. Era um pendente que tinha desde sempre. Era também em forma de lágrima, mas o seu era muito pequeno e de prata.
“Vejo que estás muito interessado no meu pendente” – ouviu novamente a voz na sua cabeça, mas desta vez Leviathan mexeu a sua mão direita para segurar o pequeno objecto entre o dedo indicador e o polegar. – “Percebo que o queiras” – agora sorria com prazer – “Posso dar-to!” – informou e para sua própria surpresa, Diogo, naquele momento, percebeu que era tudo o que mais queria. Queria aquele pendente para si. Tinha de o ter. Mas porquê? Nunca o vira em toda a sua vida. Como era possível querer tanto algo que além de ser insignificante, não tinha qualquer importância para si. Mas queria-o…mais do que qualquer coisa. Para sua surpresa e incredulidade, aquela tornara-se a sua principal prioridade, naquele momento queria-o mais do que até…ir atrás dos seus pais!
“NÃO!” – gritou Diogo dentro da sua cabeça. Era horrível, como é que aquele pedaço de vidro poderia ser mais importante? Não fazia sentido, o que é que estava a passar-se? Era uma loucura, uma insanidade.
“É irresistível não é?” – perguntou-lhe Leviathan deliciado – “Essa tua necessidade de o ter, só prova quem tu realmente és”
“Eu quero-o!” – ouviu-se subitamente Diogo dentro da sua cabeça. Não conseguia pensar noutra coisa.
“E eu posso dar-to! Mas para isso terás de me prestar…vassalagem” – o seu sorriso irradiava algo parecido com obsessão.
“NUNCA!” – gritou-lhe Diogo satisfeito por perceber que, apesar de querer tanto aquele pendente, não estava disposto a compactuar com aquele anjo caído.
“Nesse caso só te resta uma solução…”
“Lutar por ele!” – completou Diogo e com isto fez surgir na sua mão a espada de Metatron.
Leviathan ficou por momentos surpreso com a espada que Diogo fez surgir na sua mão, mas depressa se recompôs como se tudo fizesse sentido.
“Claro” – foi a única coisa que Diogo ouviu dentro da sua cabeça vindo de Leviathan – “Contigo, tudo será meu, apenas meu!”
“NUNCA!” – atirou-lhe Diogo pronto para o que viesse a seguir.
“Nesse caso terei de te MATAR…se não me prestas a mim vassalagem, não irás prestar a mais ninguém” – aquelas palavras pareciam gelo. Havia uma mistura de inveja, raiva e desumanidade que arrepiou Diogo.
Fitaram-se por momentos e de repente à volta de Leviathan surgiu um remoinho que parecia engoli-lo. As águas estavam novamente em fúria, mas uma vez que a sua força se concentrava apenas à volta do seu adversário, Diogo conseguiu manter o equilíbrio. E subitamente sentiu uma enorme força. Não viu nada, mas algo lhe dizia que não estava sozinho e que a companhia não era nada agradável. Sentiu um forte arrepio quando sentiu o remoinho dissipar-se e passar por ele. Diogo conseguiu continuar a manter-se estável mas com grande dificuldade. Viu-se forçado a proteger a cara e quando voltou a olhar em frente, já não estava lá o anjo caído com quem estivera a ter uma conversa telepática. À sua frente tinha…um monstro! No lugar de Leviathan encontrava-se agora uma criatura com um comprido e forte tronco de serpente, fazendo lembrar uma anaconda, mas a cabeça era a de um dragão, com uma enorme boca, cheia de dentes afiados e mortíferos. Tinha uns enormes cornos a sair-lhe do alto da cabeça e no sítio onde deviam encontrar-se orelhas, cresciam uma enormes membranas, uma de cada lado que terminavam naquilo que parecia ser a ponta de uma lança bastante afiada. Ao longo do seu corpo de serpente viam-se, igualmente várias pontas afiadas e a sua cauda fazia lembrar um chicote bastante ameaçador. Todo o seu corpo era uma mistura entre azul e encarnado, mas as enormes asas de morcego que despontavam do seu tronco, eram pretas com pontas tão afiadas como a lâmina da espada de Metatron que Diogo segurava com todas as suas forças. Aquilo equivalia a ter de enfrentar um monstro com mais dez espadas do que ele, vários dentes mortíferos e um chicote em forma de cauda pronto a investir mortalmente. Diogo engoliu em seco ao ver as duas rachas onde deviam estar os olhos e que mostravam uma forte luz azul que parecia arder tal como as tochas que vira a iluminar o lago. Aquela era a verdadeira forma de Leviathan, o anjo caído, Príncipe do Inferno.
“Mudaste de ideias?” – perguntou a voz grossa dentro da sua cabeça.
Apesar de estar tudo menos seguro, Diogo viu o pendente azul pendurado no pescoço daquele monstro e aquilo fez com que se endireitasse mais, pronto para uma batalha. Sentia-se estúpido por querer tanto aquele objecto, mas se essa ideia lhe desse coragem, então teria de aproveitá-la e preocupar-se-ia mais tarde com uma obsessão doentia por um pendente. Isso se houvesse um mais tarde, pensou voltando a engolir em seco.
Diogo, não se sentia nada preparado para atacar aquele monstro, quanto mais para o derrotar, mas sentia as suas mãos firmes envoltas no punho da sua fiel espada. Encarou o monstro que com a boca aberta parecia sorrir-lhe de uma forma diabólica. A qualquer instante Diogo teria de lutar pela sua vida e também por aquele pendente que lhe atraia tanto a sua atenção.
Sem qualquer sinal aparente o monstro precipitou-se na sua direcção a uma velocidade alucinante e com um movimento violento chicoteou a sua cauda contra Diogo. Este conseguiu desviar-se por uma questão de milímetros e ficou surpreso por conseguir movimentar-se com facilidade debaixo de água. Esperava que os seus movimentos fossem lentos e pesados, mas não foi isso que aconteceu e mais uma vez Diogo pensou que pelo menos poderia conseguir evitar alguns golpes. O monstro Leviathan fez uma nova investida, mas desta vez, pronto a atacar Diogo com aquela boca cheia de dentes afiados. O horrendo rugido que emitia e aquela enorme boca iam directos a Diogo. Este conseguiu novamente desviar-se, mas uma vez que a sua atenção estava toda concentrada na zona da cabeça de dragão, Diogo não prestou atenção à cauda e sofreu uma valente chicoteada nas costas que o arremessou para bem longe. Diogo gritou, mas isso só o fez sentir-se pior, pois ao libertar o ar que tinha dentro de si, além de sentir ainda mais a dor aguda nas costas, fez com que os seus pulmões também reclamassem. Sentiu-se forçado a tossir, mas procurou controlar-se, não podia dar-se ao luxo de perder mais ar. Tinha as costas todas doridas e sentia-se ficar cada vez mais enjoado. A cabeça parecia andar à roda quando sentiu algo enrolar-se à sua volta. Concentrou-se e viu os olhos flamejantes de Leviathan mesmo à sua frente. No entanto desta vez não foi aquilo que o assustou. Sentia agora todo o tronco do monstro enrolar-se à sua volta como uma verdadeira serpente. Diogo lembrou-se dos documentários sobre animais que o seu pai gostava de ver ao fim de semana, mais especificamente de um sobre anacondas, onde explicavam como elas envolviam as suas presas com o seu corpo, apertando-as fortemente até ouvirem os seus ossos estalarem. Era assim que imobilizavam as suas presas, antes de as ingerirem. Diogo não queria ser ingerido por aquele monstro e muito menos sentir os seus ossos estalarem. No entanto, aquele corpo escamoso envolvia-o com uma força impressionante. Diogo deu-se subitamente conta que já não tinha a espada nas mãos. Pensou que devia tê-la deixado cair no momento em que foi atingido pela cauda daquele monstro que o apertava cada vez mais. Sentiu os seus pulmões protestarem. Todo o seu corpo estava a ser envolvido por uma dor alucinante. Fechou os olhos, tinha de pensar em algo rapidamente. Mas como é que era possível alguém se concentrar, quando tinha uma boca enorme cheia de dentes perto da sua cara e um corpo de serpente a enrolar-se com uma força tremenda à volta das suas pernas, da sua cintura, dos seus braços…
“A CINTURA É ISSO…” - pensou Diogo e antes que Leviathan lesse todos os seus pensamentos, esforçou-se por fazer com que a sua mão chegasse à Adaga que tinha presa à sua cintura. Esforçou-se. Concentrou todos os seus movimentos naquela única esperança. Era impossível. Não conseguia lá chegar. Estava tudo a ficar demasiado apertado. Mas então, para sua sorte, algo estrondoso aconteceu na superfície fazendo estremecer o gelo que cobria o lago. Aquilo foi o suficiente para, por momentos, captar a atenção do monstro marinho que reduziu um pouco a força que estava a exercer sobre Diogo. Aproveitando a oportunidade, Diogo conseguiu agarrar na Adaga. De seguida usou todas as forças que tinha para soltar o seu braço e cravou a Adaga no tronco da criatura que emitiu um som doloroso e arrepiante. Soltou Diogo que, com rapidez, voltou a atacar Leviathan, mas, este, já recomposto, foi mais rápido e aquilo que estava no lugar das orelhas da cabeça de dragão, enrolou-se à volta do pescoço de Diogo apertando-o com força e sustendo-o em todo o seu peso. Diogo teve de deixar cair a sua Adaga para poder levar as mãos ao pescoço tentando, sem sucesso, aliviar a pressão a que estava a ser sujeito. Diogo não podia dar-se ao luxo de expirar mais ar, conseguia sentir os seus pulmões a fazerem um derradeiro esforço. Há quanto tempo já estaria debaixo de água?
Foi então que viu. Leviathan preparava-se para atacar novamente Diogo, mas desta vez com a outra membrana comprida que terminava numa lâmina bem afiada e pronta a perfurar qualquer parte do seu corpo, que estava completamente à mercê de qualquer ataque. Era o fim. Diogo sabia não ter qualquer hipótese. Estava quase a soltar todo o ar que ainda tinha dentro dos pulmões, não tinha forças e muito menos uma arma. À sua frente tinha a cabeça monstruosa de um dragão. E ao pescoço deste, o pendente.
“O pendente…” – pensou Diogo. Sentiu uma descomunal necessidade de agarrar nele. Estava tão perto. Queria-o. E assim, quando a lança estava prestes a atravessar o seu peito, Diogo, largou a membrana que envolvia o seu pescoço e lançou as suas mãos ao pendente. Conseguiu tocar-lhe mesmo que só com a ponta dos dedos e algo aconteceu. Sentiu uma força colossal apoderar-se de si. Não percebeu o que aconteceu, mas sentiu a membrana largar-lhe o pescoço e quando abriu os olhos percebeu que estava longe de Leviathan. Diogo sentia as suas forças novamente restabelecidas e a vontade de respirar oxigénio voltara a adormecer dentro de si. Encontravam-se agora a alguns metros de distância. O monstro olhava na sua direcção, mas não se mexia. O pendente que continuava ao seu pescoço brilhava com maior intensidade.
“Ninguém, mas ninguém toca no meu pendente” – rosnou a voz de Leviathan na sua cabeça – “Vou matar-te! E a seguir vou matar todos os teus amigos e os teus pais! Mas antes vou fazê-los sofrer, vão arrepender-se de alguma vez terem escolhido lutarem ao teu lado, de alguma vez terem sentido por ti afeição, dedicação, amizade ou amor…” – a forma como Leviathan dizia estas palavras demonstrava repugnância, nojo, aversão e incompreensão.
“Como é que alguém pode viver sem aqueles sentimentos?” - Pensou Diogo. E sem sequer se lembrar de ter voltado a invocar a espada de Metatron, sentiu-a nas suas mãos. – “Como é que alguém pode desejar não ter família?” - Pensou lembrando-se dos seus pais, no sorriso alegre da sua mãe e no abraço forte do seu pai ao recebê-lo em casa. – “Como é que alguém pode desprezar assim tanto a amizade e a lealdade?” – Pensou lembrando-se de Júlio com as suas intermináveis preocupações, de Samuel nas suas consultas como psicólogo, das discussões com Sofia e do rosto destemido e rebelde de Matilde. Aquilo, sim, era tudo para Diogo.
“Tudo isso não passam de fraquezas, distracções e perda de tempo” – atirou-lhe Leviathan e Diogo percebeu que ele estivera a ler-lhe os pensamentos.
“É tudo para mim” – disse-lhe Diogo e com isto encarou o monstro que tinha à sua frente. Diogo tinha medo, sim, mas não ia deixar que a sua família e os seus amigos sofressem nas mãos de um monstro como Leviathan.
Diogo apontou a arma a Leviathan. Como se aquilo fosse uma espécie de sinal, este avançou na sua direcção, lançando-se contra Diogo, primeiro tentou chicoteá-lo, mas Diogo já estava preparado, desviou-se da enorme cauda e depois dos dentes mortíferos que avançaram na sua direcção. Cortou a membrana de ponta afiada que investia contra ele o que levou a um rugido agoniante da parte daquele ser. Sem perder mais tempo cravou a espada de Metatron no local onde Diogo pensou que devia existir um coração e empurrou ainda mais a espada para dentro. O som que o monstro soltou invadiu os tímpanos de Diogo que se esforçou por não levar as mãos aos ouvidos. Era horrível, Leviathan contorcia-se como louco e soltava sons agudos de dor que arrepiavam Diogo. No meio de toda aquela agonia, sem intenção, a cauda daquele dragão com corpo de serpente, atingiu Diogo em cheio fazendo com que este fosse arremessado fortemente para trás. Diogo segurou bem a espada para não a perder novamente e por isso sentiu-a voltar à superfície, saindo do corpo de Leviathan que continuava a contorcer-se e a rugir de dores. Com esse puxão Diogo viu a sua espada cortar o fio que segurava o pendente à volta do pescoço do dragão. Quis agarrá-lo, mas subitamente, levantou-se um novo remoinho à volta da criatura e logo de seguida Diogo sentiu-se ser projectado para o fundo do lago com uma força descomunal, ao mesmo tempo que um enorme clarão envolvia todo o lago e ouvia algo ser quebrado. Diogo bateu no fundo do lago e a escuridão começou a envolvê-lo. Quis levantar-se, nadar para a superfície, mas sentiu as forças começar a abandoná-lo, tal como todo o ar que tinha dentro de si. Pensou que era o seu fim. Não tinha forças para se levantar e a única coisa que queria era fechar os olhos. Em breve os seus pulmões iam protestar, exigir mais ar e Diogo preferia ficar inconsciente antes de ser invadido pela angústia e o tormento. A sua mão tocou em algo que reconheceu de imediato. Era a Adaga que tinha deixado cair. Agarrou-se a ela sentindo-se confortável por tê-la ali consigo. Voltou a olhar para cima, para onde devia estar a dirigir-se, mas não se sentia com forças suficientes. Pensou que estava a alucinar quando viu algo a descer na sua direcção. Era uma luz de um tom azul, muito brilhante. Estava cada vez mais perto. Por fim percebeu o que era. Tratava-se do pendente que estivera sempre à volta do pescoço de Leviathan. O pendente em forma de uma lágrima azul que tanto ambicionara ter, pelo qual desejara lutar. Conseguiu com algum esforço estender a mão com a intenção de o agarrar, mas ele passou a milímetros da sua mão. Viu-o deslizar até ao seu peito e inesperadamente com um forte clarão desapareceu. O que sentiu à sua volta foi um grande estremecimento, como se fosse o forte pulsar de um coração. Percebeu que já não estava assim tão escuro, que o encarnado tão característico do lago não se via ali onde ele se encontrava. Sentiu um calor invadi-lo e de seguida novas sombras aproximarem-se. Não as distinguiu, nem reconheceu, mas de repente estavam ao pé dele puxando-lhe os braços e encarregando-se de levá-lo até à superfície.
Diogo sentia-se cansado e antes mesmo de sentir o ar da superfície a escuridão abateu-se finalmente sobre ele.XVII - UMA SURPRESA INESPERADA
Diogo começava a despertar. Sentia o seu corpo e cabeça pesados, mas fora isso, ainda de olhos fechados, conseguia perceber que sentia tanto as pernas como os braços. Respirou de alívio dando-se conta que estava deitado no chão duro, mas felizmente, seco. A água tinha desaparecido e os seus pulmões inspiravam e expiravam oxigénio de forma descontraída. Uma vez que respirava, não podia estar morto, portanto resolveu abrir os olhos. Fê-lo devagar, com medo do que pudesse ver à sua frente. Mas o que viu, não só o encheu de alegria, como também o fez ter vontade de rir. Ali, bem de frente para ele, estava uma cara redonda, de olhos verdes e sardas flamejantes. Sem alguns dentes e com um cabelo ruivo indomável, estava Matilde. Toda ela era um enorme sorriso.
- ELE ESTÁ VIVO, ELE ESTÁ VIVO! – ouviu-a gritar ao mesmo tempo que a sua cara desaparecia de vista.
Diogo levantou a cabeça e depois o tronco. Permanecendo sentado olhou à sua volta. Estava tudo como quando ali entrara pela primeira vez. As tochas de um fogo azul continuavam a arder, as águas do lago continuavam encarnadas e completamente paradas e as rochas sobrepostas umas sobre as outras, formando altos penhascos. Mas não havia demónios aquáticos em lado nenhum e Diogo também não sentia a presença de Leviathan. Teria imaginado aquilo tudo? Continuou a olhar em volta e deu de caras com Júlio, Sofia e Samuel. Estavam os três a cerca de três metros dele, sentados em cima de algumas rochas e olhavam para ele. Júlio sorria-lhe e a grande cicatriz que tinha na face esquerda e o sangue encarnado que cobria todo o seu braço, fez Diogo ter certeza que não andara a imaginar coisas. Samuel olhava de uma forma algo preocupada, mas ao mesmo tempo aliviada. Parecia não ter qualquer sequela, mas massajava várias vezes o ombro como se lhe doesse. Sofia estava como sempre. Linda, imperturbável e sem qualquer arranhão. Era como se nada a pudesse atingir. Matilde voltara a aparecer à frente de Diogo com o seu enorme sorriso desdentado, tão criança e despreocupada como lhe era próprio. Tinha a sua roupa numa mistura de sangue seco verde e vermelho, mas parecia bem.
- Eles pensaram que já tinhas ido desta para melhor! – revelou-lhe ela apontando para os restantes, como se estivesse simplesmente a falar do tempo – Mas eu sabia que tu estavas bem! – garantiu-lhe – Talvez com um braço partido, ou até mesmo sem cabeça, mas vivo!
- Obrigado…acho eu! – disse-lhe Diogo achando que Matilde não trabalhava mesmo com todos os parafusos. Tentou levantar-se.
- Não devias levantar-te tão rapidamente – disse-lhe subitamente Sofia - Estiveste quase uma hora debaixo de água.
“Uma hora?” - pensou Diogo surpreso. Seria aquilo possível? E de repente lembrou-se do pendente de Leviathan. Levou de imediato a mão ao peito, mas só encontrou o pendente que usava deste pequeno. No entanto havia algo diferente no seu aspecto. Ele sempre fora todo prateado e agora, numa das pontas brilhava uma luz azul. “O que quereria aquilo dizer?” Questionou-se Diogo.
- O que aconteceu lá em baixo? – perguntou Samuel despertando-o dos seus pensamentos. Diogo voltou a olhar para eles. As suas memórias vieram num rompante. Leviathan a falar com ele por telepatia, a sua verdadeira forma numa mistura entre dragão e serpente, os seus fortes golpes, os ossos a estalarem, a Adaga a perfurá-lo, o pescoço a ser apertado, o toque no pendente, a investida com a espada de Metatron, o forte golpe, o rugido agoniante e depois a queda…e finalmente, novamente o pendente que parecia entrar dentro do seu peito.
Diogo pensou muito bem naquilo tudo antes de responder. Estava confuso e sentiu vergonha ao lembrar-se de como tinha desejado tanto possuir aquele pendente, de como teria feito de tudo para o ter e do que estava disposto a abdicar para ficar com ele. Diogo teve de se controlar para não gritar. Com medo da reacção dos amigos e principalmente de Samuel, optou por não lhes mencionar o pendente.
- Resumindo, o que aconteceu, na realidade, é que devo ter tido muita sorte! – disse Diogo.
- Com sorte ou não, revelaste uma verdadeira coragem – disse-lhe Samuel sem desviar o olhar. Diogo sentiu uma enorme necessidade de desviar o seu olhar da intensidade dos olhos de Samuel. Sabia que mesmo que Samuel lhe pudesse ler os pensamentos, não o faria, mas não tinha assim tanta certeza sobre se o facto de Samuel o conhecer tão bem, não o levaria a perceber que Diogo estava a esconder mais do que o que acabara de lhes contar.
- Ficámos deveras preocupados, quando percebemos que o gelo era inquebrável – revelou-lhe Júlio agora descontraído – Fizemos de tudo para tentar parti-lo, mas o exército de criaturas demoníacas que tínhamos a atacar-nos não nos deixava muita margem de manobra para fazer alguma coisa.
- Até unimos todas as nossas forças angelicais e a magia do Júlio para tentar quebrar o gelo, mas mesmo assim a única coisa que conseguimos foi provocar um enorme tremor de terra – revelou Matilde feliz da vida.
- Foi isso que me salvou a vida lá em baixo! – disse-lhe Diogo lembrando-se do momento em que ele e Leviathan ouviram um enorme estrondo que distraiu este último permitindo a Diogo chegar à adaga – Mas o que aconteceu a todas essas criaturas? – perguntou curioso.
- Tinham uma força e uma destreza com as armas que por pouco não se tornou no nosso pior pesadelo – explicou Júlio – Tivemos de trabalhar em equipa para conseguirmos pelo menos manter-nos vivos.
- Conseguimos atrasá-los e aquele tremor de terra que provocamos foi uma grande ajuda porque as rochas rebolaram todas para cima deles e bloquearam-lhes o caminho na nossa direcção – continuou Matilde sempre radiante – Se não fosse esse muro de rochas, duvido que estivéssemos aqui agora a falar contigo! – continuou Matilde no mesmo tom.
- Pouco antes de o gelo se quebrar por si mesmo, as criaturas simplesmente desapareceram todas, evaporaram-se – informou Samuel – eram centenas e de repente já não tínhamos nada à nossa frente.
- Quisemos ir de imediato atrás de ti, mas, de repente vimos um grande clarão dentro da água e ouvimos uma espécie de pulsar vindo também do lago que foi logo de seguida invadido por uma onda gigantesca – Matilde abria muito os braços para retratar a imagem da onda – Fomos completamente arrastados pela água contra as rochas…Eu bati com a cabeça! - completou como se aquilo fosse, de alguma forma, divertido.
- E de seguida ficou tudo demasiado calmo, como se nunca tivesse ocorrido uma batalha, como se as águas nunca se tivessem agitado… - murmurou Samuel.
- Foi quando a Sofia se atirou para a água, com o Samuel logo atrás dela e uns minutos depois traziam-te para a superfície sem sentidos – concluiu Matilde – Foi aí que pensaram que estavas morto – precipitou-se a acrescentar para o caso de Diogo não ter percebido – E enquanto dormias a Sofia curou as tuas feridas e as nossas – finalizou.
Diogo olhou de relance para Sofia que se punha agora de pé a olhar para o lago. Estava constantemente a salvar-lhe a vida ou pelo menos a tentar, mas nunca demonstrava qualquer tipo de emoção quando ele estava por perto. Era assim tão difícil comportar-se como alguém normal? Pensava Diogo. Afinal de contas ela era um anjo, não era suposto os anjos serem todos eles no mínimo afáveis?
- Continua tudo demasiado calmo – ouviu-a murmurar. Diogo seguiu-lhe o olhar. Realmente parecia que nunca tinha acontecido nada e que eram os únicos ali naquele sítio.
- Isso é porque o Diogo matou o Leviathan – disse Matilde mostrando uma expressão interrogativa, como se fossem todos parvos por não pensarem na resposta mais óbvia.
- Não é assim tão simples matar um Príncipe do Inferno! – foi o comentário de Sofia.
- Só existe uma forma de matar o Leviathan – disse Samuel muito sério – Só alguém que usasse uma das armas angelicais de maior poder, como é o caso das armas dos Príncipes Angelicais, e ao mesmo tempo apenas tivesse em mente a adoração, a devoção e a lealdade a outro que não a si próprio poderia ter hipóteses contra um Príncipe como o Leviathan. Teria de ser alguém que no momento do ataque nunca pensasse na sua própria vida, mas sim noutra vida, alguém que não temesse por si, mas por outro. Tudo de forma voluntária e espontânea, como se nada mais importasse, como se a própria pessoa que inflige o ataque não fosse importante para si mesma. Isso misturado com alguma sorte, claro. – completou Samuel e todos olharam para Diogo à espera de uma resposta.
Diogo lembrou-se de como usara a espada de Metatron, Príncipe Angelical dos Anjos Serafins, para atacar Leviathan e como naquele momento a única coisa que importava para si eram os seus pais e os seus amigos que agora estavam ali sentados perto de si. E depois a sorte…lembrava-se de ter tocado no pendente quando estava prestes a ser perfurado pela membrana afiada do monstro marinho e como esse pequeno toque tinha enfraquecido Leviathan…a isso podia chamar-se sorte.
- Não me recordo muito bem – disse apenas Diogo, sem perceber muito bem porque é que não lhes contava que tudo o que Samuel acabara de descrever, tinha acontecido com ele. Olhou para Sofia que o fitava com aqueles enormes olhos cinzentos. Dizer-lhe que naquele momento também pensara nela, era rebaixar-se, humilhar-se perante alguém que o irritava tanto. Não! Pensou para consigo desviando o olhar de Sofia e continuando sem perceber porque é que ela o exasperava tanto e ao mesmo tempo o impelia a desviar o olhar sempre na sua direcção – Lembro-me de o ver desaparecer, só isso! O mais provável é ter tido muita sorte…
- Como diz um certeiro ditado popular “A sorte tem o hábito peculiar de favorecer aqueles que não dependem dela” – citou Samuel sem tirar os olhos de Diogo, como se soubesse mais do que o que Diogo lhes revelava - Mais tarde ou mais cedo iremos descobrir se ele continua vivo ou não – continuou Samuel agora descontraído – De qualquer maneira, alguma coisa deves ter feito, pois, desde que te tiramos do lago, estiveste a dormir durante mais de uma hora e até agora não apareceu qualquer criatura ou o próprio Leviathan.
- O que é que isto significa então? – perguntou Sofia
- Só seremos invocados por outro Príncipe do Inferno quando sairmos do território deste, logo a não ser que Leviathan surja novamente à nossa frente, não voltaremos a ser atacados por qualquer demónio do seu reino, eles só obedecem às suas ordens ou de quem o tenha derrotado – explicou Samuel e todos olharam novamente para Diogo.
- Talvez tu consigas mandar neles – disse Matilde esperançosa.
- Eu não quero ter demónio nenhum às minhas ordens – apressou-se a dizer Diogo sentindo repugnância perante o pensamento de poder mandar naquelas criaturas repletas de crueldade e do pior que pudesse existir dentro de um coração, se é que elas o tinham. Diogo tentou levantar-se mas sentiu-se imediatamente tonto, sendo forçado a deitar-se novamente. A fraqueza juntamente com a fome que estava a sentir apoderar-se de si naquele momento, impedia-o de se levantar.
- Uma vez que não parece haver demónios por perto prontos a atacar-nos é melhor ficarmos aqui a descansar. E tu e o Júlio deviam comer alguma coisa – aconselhou Samuel.
- E os meus pais? – perguntou rapidamente Diogo
- Pelo que deu para perceber, quem os levou, quer alguma coisa de ti Diogo – disse-lhe Samuel calmamente – Eles não vão fazer-lhes mal até tu os teres encontrado.
Diogo não sabia se aquilo devia deixá-lo aliviado ou assustado, mas achou que Samuel devia ter razão. E se não comesse alguma coisa, não ia ter forças suficientes para conseguir enfrentar outro Príncipe do Inferno.
Júlio e Matilde aproximaram-se das mochilas que estavam a um canto e tiraram algumas porções do que ele e Júlio conseguiram encontrar na sua cozinha para trazerem consigo nas suas mochilas. Viu bolachas, pão, queijo e garrafas de água. Diogo percebeu que estava esfomeado e aceitou de bom grado a sandes de queijo que Matilde agora lhe estendia, ao mesmo tempo que ela olhava para a sandes com uma enorme e estranha curiosidade. Reparou que só ele e Júlio é que comiam e bebiam.
- Vocês não têm fome? – perguntou-lhes
- Os anjos não precisam de comer – explicou-lhe Samuel
- Mas eu vi a Sofia comer muitas vezes – lembrou-se Diogo, apesar de já não ter assim tanta certeza depois de o dizer. Não costumava ver Sofia à hora das refeições e quando a via ela normalmente só bebericava alguma bebida.
- Os humanos são muito distraídos – foi o comentário de Sofia.
- Esperem lá, eu também não sou humano – lembrou-se de repente Diogo – Mas tenho imensa fome neste preciso momento.
- Isso é porque o teu organismo foi habituado a comer – explicou-lhe Samuel – Na verdade o que tu tens é apenas um reflexo humano. Não tens qualquer necessidade de ingerir comida, mas como o fizeste durante 19 anos, o teu cérebro vai continuar a exigi-lo até tu o negares.
- Nesse caso entro em negação numa outra altura – resolveu Diogo olhando para a sua sandes apetitosa e dando-lhe uma valente dentada. Viu Júlio rir-se, tal como Matilde. Samuel sorria-lhe e para sua surpresa até Sofia revelava um pequeno sorriso antes de se virar de costas.
Apesar de tudo, estavam todos bem e isso era o suficiente para deixar Diogo mais calmo e relaxado. Tinham chegado ali juntos e estavam ali igualmente juntos depois de, aparentemente, terem vencido um Príncipe do Inferno. Ainda não tinha os pais consigo, mas sabia que Samuel estava certo, queriam algo dele e até o conseguirem, não lhes fariam qualquer mal. Viraria o Inferno ao contrário se fosse preciso para os encontrar e enfrentaria qualquer Príncipe do Inferno, inclusive, o seu verdadeiro pai, fosse ele qual fosse.
Diogo estava envolvido nos seus pensamentos, quando, subitamente, viu surgir nas mãos de Sofia, as suas espadas. Estava totalmente alerta e agora o mesmo se passava com os restantes. Júlio levantou-se num salto e Diogo seguiu-lhe o exemplo. Ficaram à espera. Algo ou alguém se aproximava vindo do outro lado do lago. Era uma pessoa e vinha a correr na direcção deles. Pareceu tropeçar, mas depressa se endireitou. A luz caiu então sobre essa pessoa e agora a uns escassos cinco metros deles, parou e com um ar aflito o seu olhar encontrou o de Diogo. Era uma rapariga, provavelmente da idade de Diogo, de pele clara e cabelos compridos de um castanho muito vivo. A franja caia-lhe sobre a testa realçando ainda mais os seus olhos cor de caramelo e muito brilhantes, no entanto tristes. Tinha um vestido preto de alças que lhe caia até aos joelhos e estava descalça. Mas para além da sua beleza evidente, o que sobressaía mesmo nela eram as enormes asas negras que despontavam das suas costas. Diogo teve de imediato certeza de que se tratava de um demónio e apontou-lhe também a adaga. Os olhos da rapariga saltaram do rosto de Diogo para a Adaga que este tinha na mão, mas não pareceu demonstrar surpresa e voltou a dirigir o seu olhar para Diogo. Parecia desesperada e atormentada.
- Vocês precisam ajudar-me – disse de repente a rapariga. A sua voz era melodiosa e agradável, apesar de demonstrar algum receio e tremor – Eu não aguento mais este sítio, levem-me com vocês, por favor!
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
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