Este blog não cumpre o novo acordo ortográfico!

domingo, 8 de janeiro de 2012

2º Volume - Capítulo 10 - Promessa de Vingança

- É ELA! – gritou Tânia verdadeiramente apavorada e já completamente desperta.
- Tens a certeza? – perguntou-lhe Diogo sem saber muito bem o que pensar.
- Sim…eu sou uma renegada, lembras-te? – perguntou a Diogo sem, no entanto, estar à espera de uma resposta – Nós, os renegados, pressentimentos sempre a chegada de um Príncipe ou da Lady Lilith para não nos atrevermos a atravessar-nos no caminho deles. Por favor, ela não pode encontrar-me aqui! – Tânia mostrava-se cada vez mais amedrontada, os seus olhos não revelavam mais nada para além de um grande temor. Continuava a agarrar o braço de Diogo com toda a sua força, como se ele fosse a sua única salvação.
- Nós protegemos-te, não vou deixar que ela te faça mal… - assegurou-lhe Diogo sem desviar o olhar de Tânia para lhe tentar passar alguma segurança.
- Tu não percebes…por favor…ela não pode ver-me! – Ao dizer isto Tânia abraçou Diogo com tanta força que este pensou que ia sufocar. – Por favor…
Diogo estava verdadeiramente surpreso com todo aquele medo de Tânia. Esta tinha lutado com tanta coragem e enfrentado Belial e o seu exército sem pestanejar, mas agora ali estava ela, como uma criança com medo da própria sombra depositando toda a sua confiança na protecção que ele pudesse fornecer-lhe.
- Está quase… - soluçou Tânia sempre abraçada a Diogo.
Sem pensar mais no significado de todo aquele medo relacionado com o demónio que matara a sua mãe e que estava por trás de tudo aquilo, Diogo, sempre com Tânia agarrada a si, estendeu uma mão e como se tivesse feito aquilo toda a sua vida, fez aparecer do chão enormes rochedos que formaram uma pequena gruta. Tânia deve ter percebido a sua intenção, pois sem sequer olhar para ele correu na direcção da gruta, entrando na mesma no preciso momento em que Diogo sentiu uma força repleta de malícia surgir do nada.
Assegurando-se que Tânia estava fora de vista Diogo virou-se para trás e antes mesmo de a ver, sentiu toda a sua força maligna, toda a sua perversidade, como se todo o mal estivesse encarnado naquele corpo que se aproximava a passos lentos e confiantes.
Ela vinha sozinha. Trajada com um vestido negro e emoldurado por umas asas ainda mais negras, ali estava Lady Lilith, com os seus caracóis de um loiro cor de mel a esvoaçarem atrás de si, apesar de Diogo não sentir qualquer brisa. Se Diogo não soubesse que aquela mulher era a assassina da sua mãe, teria admirado toda aquela beleza. Era estonteante. Os olhos, da mesma cor do cabelo, eram ousados. Os lábios, carnudos e de um vermelho quase sangue, mostravam um sorriso desafiador. As suas formas fariam inveja a qualquer mulher e a forma como caminhava revelava poder e confiança.
Todos olhavam para Lady Lilith que se aproximava como se estivesse apenas a comparecer a uma pequena reunião de amigos. Diogo sentia a tensão que provinha de todos os outros. Até mesmo Matilde estava apreensiva.
Lilith parou a cerca de três metros do grupo, numa pose que em qualquer altura Diogo teria considerado muito sensual, pois nada daquilo era propositado, o charme e a sedução pareciam ter nascido com ela. Observou-os a todos individualmente tendo demorado mais tempo em Sofia e em Samuel. Sorriu aos dois, acompanhado por um pequeno inclinar de cabeça, como se estivesse a cumprimentar velhos amigos. Samuel permaneceu calmo e tranquilo, porém Sofia apertou ainda com mais força as suas espadas que fizera surgir mal Lilith aparecera. Diogo lembrou-se que Lilith fora um dos demónios a quem Sofia prestara vassalagem quando se tornara num anjo caído. Lilith ignorou Júlio assim que os seus olhos passaram por ele e parecia avaliar Matilde com alguma atenção. No entanto, foi ao ver Diogo que toda a sua postura revelou estar ali somente por ele. À medida que o seu olhar de mel o observava atentamente, Diogo conseguiu perceber que ela estava à procura de semelhanças ou com Luz ou com aquele que era o seu pai.
- A tua mãe jurou-me que tinhas morrido…aquela cabra afinal era mais esperta do que eu pensava! – atirou-lhe Lilith num tom de voz aveludado mas impregnado de desprezo – Cometi um erro ao pensar que ela nunca se atreveria a mentir, a quebrar o juramento que todos os anjos fazem e que a tua mãe sempre se recusara a desrespeitar.
Diogo sentia a raiva e a vontade de a atacar a crescer dentro de si, mas conseguiu manter-se lúcido e controlar-se. Não ganharia nada com isso, precisava de informações sobre os seus pais e o combate anterior com Belial fizera-o perceber que isso era o mais importante, a vingança ficaria para depois, mais cedo ou mais tarde teria o seu combate com Lilith, a assassina da sua mãe.
- Lembro-me muito bem dela… - continuou Lilith sem deixar de olhar para Diogo – Foi criada pouco tempo depois de eu sair do Paraíso…toda ela era perfeita, adorada por todos, leal, cumpridora de todas as regras dos anjos, integra… - ao fazer esta lista, Lilith revelou todo o seu desprezo pelas qualidades enumeradas. – A idiota sentia-se superior a todos, até mesmo superior a mim…eu que fui a primeira mulher a ser criada… - este acontecimento parecia ser motivo de orgulho para Lilith que por momentos pareceu dispersar-se, mas por pouco tempo - Porém, não fui eu quem cometeu o pior dos pecados…foi a querida Luz…quando todos pensavam que ela se mantinha pura e fiel aos ideais dos anjos, o que é que ela andava a fazer? – o tom de voz de Lilith aumentou denunciando todo o ódio que ainda sentia por Luz, mesmo depois de tanto tempo – Andava a pôr-se debaixo do MEU Príncipe! E com aquela cara de inocente…NÃO ERA DIFERENTE DE MIM!
- ERA SIM! – gritou-lhe Diogo sem conseguir conter-se mais – Ela apaixonou-se! – atirou Diogo apesar de ele mesmo ter dificuldade em acreditar ser possível um anjo com a reputação de Luz poder amar um Príncipe do Inferno.
- Paixão?! – desdenhou Lilith – Eu saí do Paraíso por me ter apaixonado pelo Sammael e fui renegada e considerada uma traidora do mais alto nível, mas a querida Luz não, a coitadinha da Luz apaixonou-se, entregou-se aos prazeres carnais e mesmo assim continua a ser idolatrada e a ser considerada uma mártir…ELA NÃO FOI DIFERENTE DE MIM EM NENHUM MOMENTO, ELA FEZ EXACTAMENTE O MESMO QUE EU!
- Tu entregaste-te ao pecado, tu geraste demónios atrás de demónios por belo prazer, usaste magia negra para te tornares na primeira bruxa da humanidade… - atirou-lhe subitamente Sofia – A luz pode ter cometido um erro, mas nunca houve um anjo mais leal e fiel do que ela…
- De erros percebes tu, não é Ariel? – atirou-lhe Lilith com um sorriso – Tu também te deixaste seduzir…
- Eu fui enganada… - defendeu-se Sofia.
- E não é por causa disso que te arrependes da tua escolha, pois não? – continuou Lilith satisfeita com o silêncio de Sofia.
- A Luz era tão pecadora quanto eu, mas ao contrário de mim era uma sonsa, eu não escondia nada, mas ela conseguiu durante dois anos inteiros esconder o seu segredo mais precioso…MAS EU DESMASCAREI-A…como é que ela se atreveu a aproximar-se dele, a tocar-lhe, a beijá-lo – o olhar de Lilith revelava apenas ódio puro, mas parecia falar apenas para si própria – Ele andava diferente, andava a esconder-me algo, eu não podia suportar que tivesse outra, mas quando descobri que era a Luz, não podia deixar aquilo impune…
- E por isso mataste-a! – concluiu Diogo com a voz a tremer. Lilith voltou a encará-lo.
- Não quis acreditar no que os meus olhos viam…ela beijava-o como se ele lhe pertencesse, como se ela fosse a única na sua vida…não podia deixar que continuasse a pensar assim, ele podia ter outras, mas eu era a única para quem ele sempre voltava…não admitia que ela acreditasse no mesmo!
- Então mataste-a apenas por ciúmes? – perguntou-lhe Diogo com desdém.
- Não era uma questão de ciúmes, mas sim de pô-la no seu devido lugar…seguia-a nessa noite para a matar, mas para minha surpresa ela voltou ao céu…aquilo baralhou-me, ela era agora um anjo caído, era impossível regressar, no entanto eu vira-o com os meus próprios olhos. – explicou Lilith como se estivesse a falar pela primeira vez de tudo aquilo – Comecei a ficar atenta aos seus passos, seguia-a para todo o lado, via-a continuar com as suas funções de Anjo Serafim, via-a continuar a conviver com os outros anjos, a ser idolatrada por todos eles, via-a esconder durante semanas o seu segredo, sem nunca ser descoberta, sem nunca sofrer as consequências que eu fui obrigada a amargar…não era justo…por isso uma noite decidi confrontá-la…sabia onde é que eles se encontravam e esperei lá por ela…viu-o a andar de um lado para o outro, sempre a olhar para o relógio de parede, a estranhar o atraso da Luz tal como eu. – recordou – Pensei que ela devia estar numa das suas missões e o mesmo deve ele ter pensado porque quando a noite começava a tornar-se dia, desistiu de esperar e voltou para casa. Fiquei a observá-lo partir e quando percebi que já o tinha feito, preparei-me também para ir embora, mas quando me voltei para trás vi a Luz. Ela não conseguia ver-me, mas eu vi-a muito bem a fitar o ponto onde ele tinha desaparecido. Parecia confusa e várias lágrimas escorriam-lhe pela face…por breves instantes pensei que ela me tinha visto, mas quando a vi pousar a mão no ventre com tamanha delicadeza e protecção percebi de imediato…nunca senti tanta raiva, nunca me senti tão traída…não era suposto um anjo conceber, não era suposto um anjo gerar uma criança, mas naquele momento eu percebi que a Luz estava grávida…aquela maldita estava a gerar um bebé dele…eu não ia admitir isso NUNCA!
Todos ouviam atentamente o relato de uma história que tantas perguntas sem resposta tinha suscitado. A morte de Luz sempre permanecera envolta num mistério que era agora deslindado sem dó nem piedade pela sua própria assassina. Samuel bebia cada palavra de Lilith, quase parecia nem respirar não fosse ela desistir de continuar a deslindar todo aquele mistério à volta da sua preciosa Luz. Diogo sentia a tensão que emanava do seu antigo psicólogo e a curiosidade estampada na face de Sofia. Matilde mantinha a boca aberta como se estivesse a ouvir uma história de terror e Júlio apertava com força o machado que segurava na mão. Diogo queria atacar Lilith, mas a curiosidade falava mais alto e por isso, tal como os outros, ouvia com atenção.
- Ela viu-me nesse preciso momento e deve ter visto na minha expressão que eu percebera tudo…tentou fugir, mas eu fui mais rápida, segurei-a num braço e apontei a minha lâmina afiada ao seu ventre…aquilo deixou-a aterrada – Lilith mostrava agora satisfação. – Eu ia matá-la ali mesmo, a ela e à criatura que estava a crescer dentro dela, nem todos os anjos juntos conseguiriam impedir-me! Mas foi nesse momento que ele voltou e a Luz não perdeu essa oportunidade, chamou-o e eu não tive outro remédio senão desaparecer, mas não sem antes lhe dar o devido recado…ela percebeu que eu falava a sério quando lhe disse que ia persegui-la até conseguir matá-la a ela e ao filho…nada nem ninguém iria impedir-me. Ela correu para os braços dele pela última vez e tal como prometido quase três anos mais tarde…
- MATASTE-A! – gritou Samuel enraivecido ao mesmo tempo que com a sua enorme foice investia contra Lilith. Esta fez surgir com a rapidez de um relâmpago um bastão negro de duas lâminas costas com costas e defendeu-se sem qualquer dificuldade atirando Samuel ao chão.
- Sempre tão dramático... – disse-lhe Lilith divertida ao mesmo tempo que lhe apontava ao coração a lâmina afiada da sua arma – Lembro-me de ti bem mais divertido… - disse piscando-lhe o olho com malícia – Mas desde que ficaste maluquinho por aquela oferecida…
-NÃO FALES ASSIM DA LUZ…NUNCA SERÁS NEM UM TERÇO DAQUILO QUE ELA FOI – gritou-lhe Samuel de forma desafiadora, mas Lilith apenas revirou os olhos endireitando-se e devolvendo toda a sua atenção novamente a Diogo.
- E tu, não vais tentar vingar-te? – perguntou a Diogo
- Quero saber onde estão os meus pais – disse-lhe apenas Diogo controlando a sua raiva.
- Estou a ver que o drama abunda por aqui…foste buscar isso à tua preciosa mãe… - disse como se aquilo a enjoasse – Para que é que queres aqueles humanos? Não te servem de nada…
-São os meus pais…diz-me onde eles estão…
- E o que acontece se eu não disser? – Atiçou-o ela.
- Nesse caso eu vou acabar aquilo que a Luz começou… - disse-lhe Diogo desafiadoramente o que provocou uma gargalhada sonora em Lilith – Podes ser parecido com a tua mãe, mas a insolência do teu pai é notória…tal como esse olhar… - completou adoptando uma postura mais séria ao ver o tom encarnado a substituir o azul cristalino dos olhos de Diogo. – Isto vai ser divertido…
Atacaram-se mutuamente. A velocidade era estonteante, a força era avassaladora e a destreza no manuseio das armas verdadeiramente impressionante. No entanto, Diogo conseguia perceber que apesar de ele estar a dar o seu máximo, o mesmo não acontecia com Lilith. Para ela aquilo parecia não passar de uma simples brincadeira.
- Tens bons reflexos – elogiou-o Lilith olhando de seguida para a espada negra de Diogo – Manuseias bem a tua espada e sabes mexer-te…no entanto para filho de um Príncipe esperava mais, principalmente sendo ele quem é…
- Quem é ele? – perguntou por fim Diogo.
- Não te vou facilitar a vida meu querido – negou-se Lilith fazendo a sua arma desaparecer. Ao ver a expressão de Diogo completou – Não te preocupes, vamos voltar a encontrar-nos…até lá vai treinando, nem sequer me fizeste suar! – atirou-lhe e depois virou-se para Sofia – Sempre gostei de ti Ariel…devias pensar seriamente em voltar a prestar-me vassalagem – riu-se perante a expressão repulsiva de Sofia. Atirou um beijo a Samuel e piscou o olho a Matilde.
- Vamos voltar a encontrar-nos! – assegurou-lhe Diogo antes que Lilith desaparecesse – E quando chegar esse momento eu vou vingar a Luz!
- Vou ficar a aguardar…até lá, eu tomo conta dos teus queridos pais… - disse num tom malicioso desaparecendo logo de seguida à frente de todos eles com um pequeno estalo sonoro.
- Diogo… - murmurou Júlio colocando-se ao lado do amigo que continuava a olhar para o local onde Lilith tinha desaparecido – O que é que estás a pensar?
- Só me faltam dois pendentes… - disse subitamente Diogo com determinação – Vou buscá-los e depois vou ter com Lady Lilith para vingar a Luz e para levar os meus pais de volta a casa. – concluiu decidido.
- Ela está a preparar alguma… - disse Sofia - …ela nunca deixou alguém vivo quando podia simplesmente eliminá-lo…existe um interesse por trás de tudo isto, desta visita…
- Mais cedo ou mais tarde vamos descobrir. “Paciência e tempo podem mais que força e raiva” Jean de la Fontaine – interveio Samuel fitando igualmente o lugar onde Lilith tinha desaparecido - Mas sabes que para obteres os pendentes que faltam terás de matar aquele que é o teu pai… - lembrou-lhe.
- O meu pai é aquele que me criou…nenhum Príncipe do Inferno vai impedir-me de voltar a encontrar a Lilith e vingar o assassínio da Luz e recuperar os meus pais – Diogo sentia a raiva dentro de si, mas começava a conseguir controlá-la, focar-se num objectivo ajudava-o e era isso que ia continuar a perseguir. – Compreendo se não quiserem continuar comigo… - o seu olhar passou por Sofia que não o fitava - …a partir de agora tratar-se-á de uma caça aos pendentes…não sei porque é que eles têm este efeito em mim, mas são a única forma para conseguir chegar ao nível de Lilith e ter alguma hipótese num confronto…
- Nem penses que vou perder a continuação desta visita guiada ao Inferno! – disse-lhe Júlio com sorriso travesso.
- Onde estiver a Lady Lilith estará a Aaba – disse simplesmente Sofia – Não és só tu que tem umas contas para ajustar!
- Fiz uma promessa à Luz e tenciono cumpri-la! – disse Samuel piscando o olho a Diogo que sentiu um calor familiar invadi-lo.
- Acham que quando eu crescer vou ficar com um cabelo tão bonito como o da Lady Lilith? – perguntou subitamente Matilde surpreendendo todos ao ponto de desatarem a rir às gargalhadas.
- Matilde, o teu cabelo será mais invejado do que o da Lady Lilith! – respondeu-lhe Diogo dando origem a um enorme sorriso no rosto de Matilde.
- Tu por acaso estavas a ouvir alguma coisa do que estávamos a dizer? – perguntou-lhe Júlio, mas antes que Matilde respondesse, ouviram passos vindos de trás. Viraram-se todos em simultâneo, mas apenas encontraram Tânia que se aproximava timidamente. Sofia virou de imediato as costas pondo-se a examinar as suas espadas de duas lâminas.
- Lamento não poder ter estado aqui com vocês, eu…Bem, quero que saibas que podes contar comigo, farei de tudo para te levar novamente à Lady Lilith se esse for o teu desejo – informou-o decidida. Diogo sorriu-lhe agradecido.
- Para onde vamos agora? – perguntou Júlio ao mesmo tempo que guardava o seu machado na mochila junto com os restantes.
- O reino mais próximo é o de Sammael… - murmurou Tânia. Sofia sobressaltou-se por momentos, mas ao sentir o olhar de Diogo voltou a ficar impassível.
Diogo sabia que para ela aquilo era voltar a reencontrar o Príncipe a quem jurara vassalagem. Mas para Diogo era a possibilidade de estar cara a cara com aquele que casara com Lady Lilith…seu pai ou não, era uma fonte de informações sobre a assassina da sua mãe.
- Então é para lá que vamos! – Disse. Ao ouvir isto Tânia encaminhou-se na direcção que os levaria para o reino de Sammael, para o reino do Príncipe do Fogo.
- Irá demorar muito tempo a passarmos a fronteira? – perguntou Júlio.
- Menos de uma hora – respondeu-lhe Tânia e todos a seguiram.
- O que podes dizer-me sobre este Príncipe? – perguntou Diogo aproximando-se de Tânia, assumindo assim, juntamente com ela, a liderança da caminhada que terminava em Sofia.
- Bem como sabes ele controla o elemento fogo…
- Nesse caso podemos contar com um lugar bem quente! – brincou Diogo, mas Tânia manteve-se séria.
- O nome deste príncipe significa veneno - descreveu Tânia – Por aqui já podes perceber que as suas intenções são as mais perversas, malignas e corruptas. É também conhecido como o anjo da morte, pois é aquele que consegue fazer mais vítimas entre os humanos e também aquele que extinguiu mais anjos – aqui a voz de Tânia tornou-se num murmúrio, como se tivesse medo que Samuel ou Sofia a ouvissem. – Foi ele quem ajudou Lady Lilith a fugir do Paraíso e foi também ele quem lhe apresentou o mundo da bruxaria e da sabedoria mística. Ela era completamente apaixonada por ele, casaram, mas isso não os impediu de manterem outras relações e é assim até hoje. Sozinhos aterrorizam tanto demónios, como anjos ou humanos, mas juntos são o pesadelo de qualquer um. Dizem, também, que ele era a serpente encarregada de tentar a Eva no Paraíso, mas nunca nenhum dos Príncipes confirmou ou desmentiu a suspeita. – Tânia ficou pensativa antes de continuar – Nega por completo a existência de Deus e de qualquer ser acima do “EU” – Tânia imitou o sinal das aspas ao dizer a dizer a última palavra.
- Temos então um egocêntrico!
- É cheio de artimanhas, muito inteligente e racional…tudo o que faz é premeditado ao pormenor, até mesmo cada suspiro, cada pausa, cada expressão…
- Já percebi que nunca foi o teu preferido – brincou Diogo, conseguindo arrancar um sorriso a Tânia.
- Só quero ter a certeza que sabes tudo sobre ele, tens de estar preparado, Sammael não é como Leviathan ou Belial…ele é…demoníaco! – concluiu Tânia ansiosa – Ok, os outros dois também eram, mas Sammael é…
- Tânia acalma-te! – pediu-lhe Diogo fazendo-a parar e virando-a de frente para si – Vai correr tudo bem! – garantiu-lhe olhando-a bem nos olhos para lhe passar confiança.
- Pensei que estávamos com pressa! – disse de repente Sofia passando por eles. Diogo olhou à sua volta e só aí percebeu que já todos os tinham ultrapassado sem se ter dado conta. Olhou novamente para Tânia que continuava a olhar para ele muito atentamente.
- É melhor irmos andando… - disse algo atrapalhado. Tânia seguiu-o sem proferir nenhuma palavra.
O resto da caminhada passou-se em silêncio. O grupo estava agora mais próximo, incluindo Sofia.
- Estamos a chegar… - disse subitamente Tânia e todos pararam.
Tal como tinha acontecido na fronteira entre o reino de Leviathan e de Belial, todos ficaram lado a lado a observar uma planície igual àquela em que se encontravam.
- Basta dar um passo, não é assim? – lembrou Júlio que parecia engolir em seco.
- Um passo! – assegurou Tânia a olhar em frente tal como os outros.
- Bom…caso volte a ficar inconsciente, tentem resolver tudo antes de eu voltar a acordar! – brincou Júlio apesar de o nervosismo estar patente na sua voz.
- É agora… - murmurou Samuel e como se aquilo fosse um sinal, todos levantaram um pé dando um passo em frente.
Tudo mudou drasticamente. O cheiro a enxofre entrou pelas narinas de Diogo como se tivesse levado um murro. Sentiu a sua cabeça a ficar zonza e os olhos a queimarem devido ao fumo que os rodeava. À sua volta tudo era fogo, havia poças de algo que faziam lembrar lava borbulhante. Apesar do fumo conseguia vislumbrar ao longe aquilo que lhe parecia vulcões activos. O calor era abrasador. Diogo ainda estava a tentar habituar-se ao ambiente, quando percebeu que alguém se aproximava. Não conseguia distinguir o vulto, mas era de certeza um homem. De repente o fumo dissipou-se e Diogo conseguiu deixar de pestanejar ao mesmo tempo que tentava evitar as lágrimas devido ao ardor que sentia na vista. Assim que conseguiu focar a imagem, o que viu deixou-o de boca aberta.
“É impossível…” – pensou Diogo olhando de imediato para Samuel que se encontrava ao seu lado também de olhar fixo no homem que estava à frente deles. Viu os restantes reagirem da mesma maneira, todas as cabeças se viraram para Samuel alternando entre este e o outro homem.
Diogo viu a expressão de Samuel. Havia ali uma mistura de medo e de incredulidade. Desviou o olhar do anjo potência e dirigiu a sua atenção ao outro homem. Se a sua visão não o estava a enganar, Diogo tinha à sua frente outro Samuel. O cabelo podia ser curto e as roupas mais escuras, mas era Samuel que também os fitava do outro lado. Algo de muito estranho estava a passar-se. Seria um truque do Príncipe do Fogo? Diogo viu a foice gigante de Samuel aparecer na mão deste. Preparava-se, também, para invocar a espada de Metatron, quando as palavras proferidas por aquele homem idêntico a Samuel lhe toldaram por completo os seus pensamentos.
- Então Shemjaza, isso são modos de cumprimentar o teu irmão Azazel?
Aqueles nomes não significavam nada para Diogo, mas ao ver as expressões chocadas dos seus amigos e o facto de Sofia, Júlio e inclusive Matilde se afastarem de Samuel como se tivessem sido electrocutados, deixou-o mais aterrorizado que ter de enfrentar todos os Príncipes do inferno ao mesmo tempo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

2º Volume: Capítulo 9 - O Pendente

Diogo olhava chocado para o cenário à sua volta. O seu olhar prendeu-se em Sofia. Algo de estranho se passava com ela. Não se mexia, mas era fácil de perceber que a sua mente estava em batalha, numa tentativa infrutífera de se libertar daquela prisão. Diogo sentiu a sua mão levantar-se na direcção daquele anjo. Uma enorme necessidade de a segurar nos seus braços apoderou-se de si. Queria protegê-la, retirá-la daquele lugar escuro em que se encontrava. Desviou o olhar para Tânia. Mesmo com as suas asas negras e a sua roupa igualmente escura, ela sempre brilhara. Mas agora, nenhuma luz irradiava dela. A dor de Diogo tornou-se ainda maior ao ver a pequena Matilde deitada perto de Júlio. Ambos completamente imobilizados e a alegria contagiante de Matilde roubada da forma mais cruel. Ali aos seus pés, o rosto inexpressivo de Samuel, incapaz de pronunciar as palavras que Diogo tanto desejava ou vir naquele momento. Mas foi então que a dor de Diogo, perante aquele cenário, começou a alterar-se. Sentiu o ódio tomar conta de todo o seu ser. Sabia que naquele momento os seus olhos estavam do vermelho mais sanguíneo possível. Desviou o seu olhar dos amigos imobilizados concentrando-se por breves segundos no pendente em forma de lágrima pendurado ao pescoço de Belial e logo de seguida encarou o olhar gelado e vingativo do demónio. Belial sorria não só com os lábios, mas também com os olhos sem os desviar de Diogo. Acariciou o pendente com os seus dedos compridos, cobertos por luvas pretas, como que a desafiar Diogo. Este fez exactamente o mesmo gesto no seu pendente, sentindo a espada negra que viera substituir a adaga, aquecer nas suas mãos. Subitamente esqueceu-se dos amigos, da família, do objectivo que o trouxera ali. Era como se apenas ele e Belial, ambos com os seus pendentes, se encontrassem ali para um duelo, cujo prémio final ambos desejavam mais do que qualquer outra coisa. Belial sorriu e viu o mesmo sorriso na expressão de Diogo. Estava deliciado com aquilo e Diogo sentiu o mesmo prazer percorrê-lo como um arrepio.
Partiram um na direcção do outro. O corno negro e afiado de Belial que parecia fazer parte do seu próprio braço esquerdo chocou com uma força avassaladora contra a espada de Diogo. Este quase vacilou com o embate, mas no último momento conseguiu empurrar Belial que fez um pequeno trejeito com os lábios como se visse naquilo uma espécie de satisfação pessoal. Diogo voltou a atacar. Sempre que o fazia, os seus olhos vislumbravam o pendente do seu adversário, mas ao contrário do que acontecera na luta contra Leviathan, em vez de sentir as suas forças rejuvenescerem, sentia uma dor latejante na cabeça que o desconcentrava por alguns segundos. Olhou directamente para Belial que sorria parecendo cada vez mais satisfeito. Endireitaram-se, sempre sem perderem o outro de vista. Levantando a sua mão direita, Belial mostrou o seu dedo indicador. Com o mesmo fez um círculo no ar em direcção ao céu. Diogo percebeu imediatamente o que iria passar-se de seguida e sorriu ao ver uma pequena tempestade de areia começar a envolvê-los formando um remoinho e prejudicando a sua visão. No entanto, sem sequer pestanejar, Diogo, invocou a água que sabia existir ali debaixo daquele terreno seco e arenoso, tal como já fizera antes para não morrer sufocado. Ao fazê-lo, sentiu o chão estremecer e logo de seguida a água invocada envolveu a areia, acabando por formar-se um novo combate entre aqueles elementos que rodeavam os seus mestres provocando um gigante remoinho de água e areia. Belial não esperou mais tempo, atacou Diogo que ripostou. O vento agressivo provocado pela água gelada e mortífera e pela areia cortante e fatal fustigava-lhes os rostos, fazia-lhes rasgões nas roupas e por mais que Diogo se concentrasse no pendente de Belial e no seu desejo obsessivo por tê-lo só para si, não estava a ajudar. Sentia as suas forças abandonarem-no. Quase que podia jurar que a água estava a regredir frente à areia de Belial. As investidas do príncipe do inferno eram cada vez mais violentas e sempre que Diogo tentava um dos seus truques, Belial parecia adivinhar cada pensamento, cada nova jogada. Diogo tentou ripostar, romper a linha defensiva de Belial, mas cada investida, cada gesto, cada tentativa de ataque parecia levá-lo à exaustão. Belial apenas se desviava dos golpes, como se aquilo o divertisse cada vez mais. Pouco mais fazia do que esperar a próxima investida de Diogo, dando-se ao descaramento de apenas se desviar alguns passos ora para a direita, ora para a esquerda.
Foi nesse momento que Diogo caiu de joelhos. Mal sentia os braços, e as pernas já não aguentavam o peso do seu corpo. Nunca se sentira tão esgotado, mal conseguia manter a espada bem segura. Algo de estranho se estava a passar. A sua visão estava a ficar turva, sentia o seu corpo tremer e até a respiração parecia demasiado complexa de executar.
- O que está a acontecer-me? – murmurou Diogo não conseguindo mais segurar a espada que caiu no chão com um baque surdo. Fixou a sua visão na espada e o medo alastrou-se quando viu a espada a triplicar. Abanou a cabeça, tentando concentrar-se, mas parecia impossível de o conseguir.
Diogo tentou captar o rosto de Belial, mas sem sucesso, não conseguia ver nada mais para além de um palmo. Esfregou a cara e o este simples gesto deixou-o sem forças. Numa última tentativa, ainda de joelhos e á mercê de qualquer ataque do seu adversário, concentrou todos os seus pensamentos no pendente, mas nesse preciso momento, todas as forças o abandonaram. O seu corpo abateu-se por completo no chão duro e coberto de grãos de areia que lhe feriram o rosto sem conseguir impedir. A espada que caíra da sua mão estava a escassos centímetros da sua mão, mas só de pensar naquele simples movimento para a agarrar parecia sugar-lhe ainda mais energia.
- Foi mais fácil do que esperava… - confessou subitamente Belial num tom triunfante – És demasiado previsível! – congratulou-se ao mesmo tempo que fazia surgir na sua mão direita a adaga que pouco antes entregara nas mãos de Diogo para ganhar a sua confiança. – Mas não te preocupes, vais morrer mais rapidamente que os teus amiguinhos. – Informou-o ao mesmo tempo que afiava a adaga na arma em forma de corno presa ao seu braço.
Diogo ouvia as palavras de Belial. Percebia que era o fim, mas nem assim conseguia deixar de pensar que iria perder a oportunidade de ficar com o pendente de Belial. Aquele brilho esverdeado era a única coisa que os seus olhos ainda conseguiam distinguir. No entanto, nem o corpo nem a mente conseguiam fazer algo para o alcançar e obter só para si.
- “Diogo…” – na sua mente Diogo ouviu chamarem por si. O tom de voz era fraco e muito distante, mas mesmo assim tinha certeza de que não estava a imaginar coisas. Se estivesse também não se importava, pelo menos podia fingir que não estava completamente só. – “Diogo…” – voltou a ouvir o seu nome e apesar de o tom de voz ser quase um murmúrio, ela tinha a certeza de que conhecia aquela voz.
- “Tânia…” – pensou para consigo Diogo.
- “Não tenho muito tempo…por isso ouve apenas o que eu te digo…” – o esforço e o sacrifício sentiam-se em cada palavra de Tânia. Diogo assentiu com a cabeça antes de se lembrar que ela provavelmente não estava a vê-lo, mas apenas a comunicar de uma forma possível entre demónios tal como já outros demónios que enfrentara o tinham feito. No entanto Tânia também não esperou por uma resposta e no seu tom debilitado prosseguiu. – “Lembras-te do que te disse sobre Belial? Ele entra no coração de qualquer um…consegue perceber o que mais se deseja…e usa isso como arma…as obsessões são a sua paixão e consegue enfraquecer o adversário fazendo-o desejar tanto algo que é capaz de morrer por isso…ele aproveita-se desse sentimento e leva-os mesmo até á morte…” – o tom de voz de Tânia passara quase a um murmúrio, o esforço usado para comunicar com Diogo estava a ser demasiado para ela, mas mesmo assim continuou – “A força que despendes para focar toda a tua atenção em algo, só o alimenta…dá-lhe forças…forças que são tuas…” – o silêncio instalou-se subitamente.
- “Tãnia? Tânia?” – Diogo ficou surpreso por sentir que implorava por continuar a ouvir a voz de Tânia. Não queria ficar ali sozinho – “Por favor volta…não me deixes sozinho…”
- “Não estás sozinho Diogo… - voltou Tânia a murmurar, mas quase num último fôlego – Nunca vais estar sozinho…Lembra-te…reconhece os teus erros, lamenta os teus pecados…renuncia a eles…Diogo…”
Nesse momento Diogo percebeu que Tânia fizera o seu último esforço para o ajudar. Diogo nem sequer estava a pensar no significado das palavras de Tânia, só queria que ela voltasse a falar com ele, que ficasse ali com ele até tudo ter acabado. Subitamente sentiu um pé obrigá-lo a virar-se de costas para o chão. O seu corpo resignou-se, mas Diogo nem se deu ao trabalho de abrir os olhos. Não queria ver o rosto de Belial momentos antes de este lhe dar o golpe final, preferia memorizar a voz de Tânia e lembrar-se do seu rosto pálido em contrates com as suas asas negras e olhos cor de mel.
Belial soltou uma gargalhada e Diogo sentiu-o aproximar-se de si.
- Não esperava que fosses chorar… - ouviu-o dizer de forma divertida - …chega a ser algo embaraçoso…também vais começar a implorar para que não te mate?
Ao princípio Diogo não percebeu a que é que Belial estava a referir-se, mas foi então que sentiu um sabor a sal entrar-lhe pelos lábios. Era uma lágrima. Percebeu que estava a chorar. Chorar não o fazia sentir qualquer dor, chegava mesmo a ser reconfortante. Outra lágrima chegou-lhe aos lábios e aquilo fê-lo lembrar-se do seu próprio pendente em forma de lágrima, a única recordação que tinha da sua verdadeira mãe, da sua mãe que para o proteger fora assassinada por Lady Lilith. Agora eram os seus pais adoptivos que tinham a sua vida ameaçada. Mas não só. Também, Sofia, Matilde, Júlio, Samuel e Tânia estavam a dar as suas vidas por ele. E a única coisa em que conseguira pensar fora no estúpido pendente. A Tânia tinha razão. Diogo sentia a raiva por si mesmo crescer dentro dele. Pusera à frente de tudo e de todos algo que não lhe trouxera bem nenhum, algo que não podia substituir os seus pais e os seus amigos. Lembrou-se dos Domingos passados com os seus pais a comer gelados até enjoarem, lembrou-se de Júlio a segui-lo para todo o lado até Diogo o aceitar como seu amigo, lembrou-se de Samuel a recebê-lo aos 6 anos no seu consultório para a primeira de muitas consultas, lembrou-se de Tânia a caminhar lado a lado com ele e a sorrir-lhe como se percebesse pelo que Diogo estava a passar e lembrou-se de Sofia, da sua testa junto á dele, pronta a revelar o seu maior segredo. Todos confiavam em si…todos dependiam de si…
- Adeus rapaz! – disse Belial no preciso momento em que Diogo abriu os olhos. A Adaga vinha na sua direcção e tudo acabou numa questão de segundos.
Os olhos negros de Belial e os olhos encarnados de Diogo fitavam-se, ambos sem expressão. Diogo continuava deitado de costa no chão e Belial estava com um joelho no chão a servir de apoio. A cabeça de Belial inclinou-se para a direita no seu gesto tão característico e logo de seguida olhou para baixo encontrando o brilho de uma espada angelical sobre a qual escorria um liquido negro. Sorriu voltando a devolver o olhar a Diogo.
- Tu existes mesmo! – murmurou Belial.
- Manda cumprimentos meus ao Leviathan no Poço sem fundo! – murmurou-lhe Diogo enterrando mais fundo a espada de Metatron no peito de Belial.
A última expressão que viu no rosto de Belial antes de este se evaporar como areia, foi puro medo.
O silêncio abateu-se naquele espaço. Diogo largou a espada que depressa desapareceu. Respirou fundo e começou a levantar-se. No preciso momento em que o fez os seus olhos depararam-se com uma luz esverdeada no chão. Fitou atentamente o pendente que tanto desejara. Baixou-se e no preciso momento em que as pontas dos seus dedos tocaram nele, uma intensa luz verde deixou-o completamente encandeado. Quando conseguiu voltar a focar o seu olhar o pendente já lá não estava. Tirou o seu pela cabeça e quando o colocou á frente dos olhos percebeu que o pendente em forma de lágrima além do tom azulado que assumira após o desaparecimento de Leviathan, agora numa outra ponta apresentava uma cor esverdeada. Fitou o objecto durante alguns segundos e lembrou-se de como passara a controlar a água. O seu olhar seguiu até ao chão coberto por areia. Voltou a colocar o pendente ao pescoço e estendendo uma mão com a palma aberta para baixo, deixou-se inundar pela energia que provinha do seu pendente. Fechou os olhos tentando concentrar-se, mas sabia que isso não era necessário, pois assim que voltou a abri-los viu o que conseguira fazer só apelando à sua vontade. Um remoinho de areia girava à sua volta e desta vez nada o magoava. Misturou um remoinho de água controlando as duas forças da natureza como se de um brinquedo se tratasse.
Subitamente ouviu um estalido e parou com a brincadeira fazendo a água e a areia caírem no chão de forma desajeitada ficando encharcado e cheio de lama.
- Parece-me que precisas controlar melhor a aterragem! - disse uma voz divertida atrás de si.
Diogo virou-se e viu Sofia ali de pé, tão perto de si que quase conseguia ouvir a sua respiração. Deixara-se distrair novamente pelo pendente. Precisava aprender a controlar-se. No entanto, aquilo que sentiu ao encontrar o pendente, nem se comparava com o turbilhão de sentimentos que despertara dentro de si ao ver Sofia com a sua luz de volta, com o seu ar trocista e com aqueles olhos cinzentos prontos para uma tempestade. Diogo tentou dizer algo divertido, inteligente, mas nada lhe veio à cabeça. A imagem de Sofia toldava-lhe os pensamentos. Sem pensar e seguindo apenas o seu impulso deu um passo em frente, pôs a mão direita à volta da cintura de Sofia, a mão esquerda no seu rosto e puxou-a para si envolvendo-a primeiro com um leve beijo para logo depois tornar o beijo mais intenso e cheio de desejo. Pensou que Sofia iria empurrá-lo e provavelmente desafiá-lo para um duelo, mas para sua surpresa não só correspondeu ao seu beijo como também revelou urgência no mesmo. Sentiu as mãos de Sofia deslizarem pelos seus braços acima, envolverem os seus ombros e puxá-lo mais para ela. Apertou-a tanto contra si que tinha medo de estar a magoá-la tal era a ânsia de tê-la nos seus braços. As suas mãos perderam-se nos seus longos cabelos negros e beijou-a sem nunca desejar parar. O sabor de Sofia era estonteante e o seu toque fazia-o sentir-se flutuar.
- DIOGO! SOFIA! – gritou uma vozinha num tom algo alarmado. Diogo abriu os olhos e percebeu que o tinha feito ao mesmo tempo que Sofia. Esta largou-o imediatamente o que resultou numa queda de cerca de um metro. Massajando a perna Diogo olhou para cima e viu Sofia em todo o seu esplendor angelical. Além de ter as asas abertas, toda ela emanava uma luz quente e reconfortante e naquele momento olhava para Diogo algo divertida. Agora ele percebia que estivera realmente a flutuar. – DIOGOOOOO! – voltou a ouvir. Forçou-se a desviar o olhar de Sofia na direcção da voz de Matilde. Viu-a ao longe a gesticular os braços com força e com alguma urgência. Observando mais atentamente viu Júlio de pé, mas virado de costas para Matilde como se estivesse concentrado noutra coisa qualquer. Mas foi só quando viu Samuel debruçado sobre Tânia é que percebeu que algo muito sério se passava.
Diogo correu o mais rápido que conseguiu na direcção dos outros. Quando lá chegou os seus maiores receios confirmaram-se. Ao contrário dos outros, Tânia continuava adormecida, sem qualquer sinal de estar a despertar.
- O que se passa? – perguntou Matilde e uma vez que ninguém respondeu, Diogo calculou que nem Samuel nem Júlio tinham uma resposta para aquilo. – Nós todos despertámos…porque é que ela não acorda?
Diogo lembrou-se subitamente do momento em que estivera quase inconsciente, da voz fraca e trémula de Tânia ajudando-o a perceber como derrotar Belial. Poderia aquele esforço todo ter feito com que ela nunca mais pudesse voltar a acordar? Teria ela dado a sua vida para dar uma oportunidade a Diogo de vencer o Príncipe do Inferno?
- Ela não respira, não sinto qualquer sinal de vida vindo dela! – informou Samuel num tom cada vez mais triste.
- NÃO! – gritou Diogo deixando-se cair de joelhos junto de Tânia – TÂNIA ACORDA! – ordenou-lhe de forma desesperada ao mesmo tempo que lhe abanava os ombros.
- Diogo ela… - começou Júlio num tom triste.
- NÃO! – voltou a gritar Diogo desta vez amparando Tânia nos seus braços – ELA DEU A VIDA POR MIM, PARA ME DAR UMA OPORTUNIDADE DE DERROTAR O BELIAL…
- Do que é que estás a falar Diogo? – perguntou-lhe Júlio.
- Quando o Belial estava prestes a matar-me, eu ouvi a voz da Tânia…ela conseguiu comunicar comigo de alguma forma, ajudou-me a perceber porque é que eu estava cada vez mais fraco e o Belial cada vez mais forte – explicou Diogo atropelando as palavras – A voz dela era quase um murmúrio…ela podia ter guardado as suas forças, mas em vez disso tentou ajudar-me… - Diogo olhava agora para uma pessoa, Sofia.
- Não me peças isso Diogo! – a voz de Sofia era quase um murmúrio.
- Por favor Sofia…tenta apenas!
- Ela é um demónio! – Sofia não percebia porque é que Diogo não estava a ver ali um grande problema – Sabes o que acontecerá se eu tentar curá-la?
- Ela é nossa amiga! – atirou-lhe Diogo.
- ELA É UM DEMÓNIO! – gritou Sofia.
- E TU TAMBÉM JÁ FOSTE UM! – Diogo arrependeu-se mal acabou de proferir aquelas palavras. Mas agora não podia voltar atrás e percebeu isso na expressão de Sofia. Não havia raiva, mas uma grande mágoa. – Desculpa Sofia, eu não queria dizer…
- Mas disseste… - o tom de voz de Sofia era agora completamente neutro. Uma nova barreira acabara de ser formada entre eles. A cor cinzenta dos olhos de Sofia nunca parecera a Diogo tão escura como naquele momento.
- Sabes que nunca te magoaria…a Tânia ela… - o olhar de Sofia cortou-lhe a fala.
Sem olhar para Diogo, Sofia concentrou-se apenas em Tânia. Baixou-se, estendeu as mãos por cima desta sem lhe tocar e fechou os olhos. Uma luz começou a emanar de todo o seu corpo libertando-se pela ponta dos seus dedos e envolvendo o demónio adormecido. Uma ruga surgiu na testa de Sofia. Seria tarde demais? Pensou Diogo percebendo que estava a ser mais demorado e mais difícil para Sofia do que das outras vezes em que a vira fazer o mesmo. Quando começou a acreditar que era tarde demais, Tânia mexeu os olhos como se estivesse a despertar. Sofia parou o que estava a fazer, mas manteve-se de olhos fechados e na mesma posição durante mais um minuto, como se ela própria estivesse a recuperar forças. De seguida abriu por fim os olhos. Olhou para Tânia observando-a com atenção e murmurou para ninguém em particular.
- Ela está bem… - sem mais nenhuma palavra levantou-se lentamente, virou costas a Diogo que continuava a segurar Tânia nos braços e começou a afastar-se. De repente pareceu desequilibrar-se, mas Samuel segurou-lhe no braço amparando-a. Murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido e em resposta Sofia afastou-o com um movimento brusco. Esse movimento foi o suficiente para nesse preciso momento Diogo ver a mudança que acontecera com as asas de Sofia. Bem nas omoplatas onde começavam as asas de Sofia, o branco translúcido de cerca de meia dúzia de penas, mudara para um negro igual ao das asas de Tânia. O cabelo de Sofia voltara a cobrir aquela zona, mas a imagem do contraste entre a cor daquelas penas e o resto das asas cravara-se, a ferro e fogo, na mente de Diogo.
Tânia mexeu-se e abriu os olhos. Viu Diogo e sorriu-lhe, voltando logo a seguir a fechar novamente os olhos, caindo num sono profundo. Tânia estava bem e isso deixava Diogo aliviado, mas sabia que o que pedira a Sofia tinha sido demasiado. Continuou a vê-la afastar-se sempre de costas voltadas. Lembrou-se do que acontecera entre eles momentos antes. Aquele beijo parecia ter sido à uma eternidade, numa outra vida. O que implorara a Sofia para fazer tinha-a fechado novamente e sabia que com aquilo havia criado uma muralha entre eles.
- Lilith… - murmurou subitamente Tânia.
Diogo olhou para ela. Continuava de olhos fechados, mas parecia ansiosa, nervosa.
- Tânia?! O que foi que disseste? – perguntou-lhe Diogo quase num murmúrio. Nesse preciso momento Tânia abriu os olhos. Não olhava para Diogo nem para nada em específico, mas o que Diogo viu no seu olhar deixou-o apreensivo e com um mau pressentimento.
Pouco a pouco o olhar de Tânia focou-se no de Diogo.
- Lilith…Lady Lilith vem a caminho… - disse de forma verdadeiramente alarmada, ao mesmo tempo que apertava o braço de Diogo com uma força sobre-humana – Está quase a chegar!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Infinitas Desculpas!

Lamento informar que não tenho mais nenhum capítulo terminado...o tempo tem sido escasso, mas prometo que publicarei o próximo capítulo o mais rapidamente possível! Espero que estejam a gostar! Até breve e boas leituras!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

2º Volume: Capítulo 8 - Um Novo Exército

Diogo, juntamente com Sofia, bem agarrada à sua mão, impulsionou a saída de ambos. Atirando lama para todo o lado, assim que chegou à superfície, largou a mão do anjo, vislumbrou Belial e atirou-se a ele. Apanhado de surpresa, Belial não teve tempo de reagir e subitamente tinha uma arma apontada ao seu coração, ou pelo menos onde Diogo julgava poder encontrar um. Se os seus amigos mostraram surpresa pelo seu regresso à superfície, Diogo não reparou. Naquele momento tinha apenas olhos para Belial que além da surpresa, mostrava receio ao encarar o olhar e a espada empunhada por Diogo.
- Essa é a espada de Metatron! – reparou Belial de olhos arregalados – Tu és capaz de…. – Diogo não o deixou terminar a frase ao mesmo tempo que lhe fazia um buraco com a ponta afiada da espada nas roupas negras de demónio.
- Agora liberta os meus amigos! – o tom usado por Diogo não revelava nada mais além de uma ordem impossível de regatear. – Um anjo caído pode ser morto por um demónio ou um anjo portador de uma arma angelical…como podes ver eu reúno todas os requisitos e não tenho medo de usar esta espada…já a usei uma vez e se tiver de mandar mais um para o Poço Sem Fundo…é isso que farei – ameaçou Diogo lembrando-se do local que Belial referenciara quando Diogo lhe revelara que fizera Leviathan desaparecer.
- Calma rapaz, podemos conversar… - tentou Belial, mas apenas sentiu a espada de Metatron penetrar mais nas suas roupas.
Sem outra alternativa Belial estalou novamente os dedos. Diogo desviou o seu olhar apenas o suficiente para se certificar que as jaulas e os soldados que aprisionavam os seus amigos tinham desaparecido. Assim que viu Samuel no seu anglo de visão toda a sua atenção voltou para Belial.
- Como é que conseguiste? – perguntou-lhe Belial, observando Diogo que se encontrava todo coberto de lama, e como se ele fosse um fantasma.
- Surpreso? – perguntou enquanto um sorriso muito parecido como o de Belial surgia nos seus lábios – Não posso dizer que também não tenha ficado algo surpreendido quando percebi que a água me obedecia. – Estas palavras chocaram mais Belial do que a espada apontada ao seu coração.
- Então é verdade… - murmurou e o medo passou-lhe pela luz dos olhos – Tu realmente existes…a lenda é verdadeira! Não é possível…jamais…
- E lá estão vocês a dar-lhe com a lenda! – comentou Diogo aborrecido.
- Tu não conheces a lenda? – pela primeira vez Belial mostrava-se verdadeiramente surpreendido. – Não sabes nada sobre aquele que terá o destino do Céu e do Inferno totalmente nas suas mãos? – o olhar interrogativo de Diogo deu-lhe a resposta. – Inacreditável! - Belial parecia já nem ligar à espada que Diogo lhe apontava apesar de continuar sem se mexer um único milímetro. Para surpresa do seu adversário, Belial sorria. Diogo recordou aquele mesmo sorriso de Leviathan, tão misterioso e ao mesmo tempo tão revelador de algo que Diogo não conseguia atingir.
- Porque é que ris? – perguntou-lhe.
- Eu posso explicar-te… - propôs-lhe Belial – Basta deixares-me mostrar-te uma coisa… - Belial revelou a sua intenção de querer, com a sua mão direita, ir buscar qualquer coisa que estava coberta pela sua camisa. Para que Diogo percebesse que não era um truque fê-lo muito lentamente e sem desviar o olhar.
Diogo deixou-o prosseguir. Não percebeu porque o estava a permitir, mas havia algo mais forte do que a sua própria vontade, que o impelia a querer ver o que estava escondido por baixo daquela camisa. Sentiu a espada de Metatron começar a ficar mais pesada, mas não lhe deu importância. Queria, subitamente com todo o seu ser, com todas as suas forças, ver o que Belial estava prestes a mostrar-lhe. O que viu fez o seu coração acelerar loucamente. Sentiu novamente aquele desejo, aquela necessidade, aquela urgência de possuir o objecto que o príncipe lhe mostrava com um sorriso triunfante. Preso por um fio ao pescoço de Belial, estava um pendente igual ao seu e ao de Leviathan, com a única diferença de que o deste demónio da terra apresentava uma cor esverdeada. Diogo queria aquilo mais do que qualquer outra coisa. Era a mesma ambição, a mesma cobiça desenfreada, que sentira pelo pendente de Leviathan. Tinha de ser seu. Tinha de o ter, nem que para isso fosse necessário esquecer tudo o resto. Subitamente o seu próprio pendente surgiu à vista de Belial. Como se tivesse vontade própria, libertou-se da t-shirt de Diogo e revelou-se perante o outro pendente em forma de lágrima. Era como se, tal como Diogo, também almejasse aquele outro pendente que não largava o fio preso ao pescoço do seu príncipe.
Diogo apercebeu-se mais tarde do que Belial que já não tinha nas mãos a espada de Metatron, mas sim a Adaga que pertencia àquele que seria o seu verdadeiro pai.
- Então é ele o teu verdadeiro pai! – murmurou Belial olhando de uma forma ensandecida para a Adaga nas mãos de Diogo. – Ele conseguiu…
Diogo ainda olhou de forma interrogativa para Belial, mas a sua obsessão pelo pendente era tão grande que o impedia de pensar como um verdadeiro adversário. Quando o percebeu, já Belial voltara a esconder o pendente por entre as suas vestes e estalara novamente os dedos. Diogo sentiu todo o chão começar a tremer. O tremor de terra era tão forte que se viu obrigado a largar a Adaga que caiu no chão desaparecendo de imediato enquanto sem qualquer equilíbrio tentava aguentar-se em pé. Belial já desaparecera de vista e apenas um pensamento invadia a sua mente “Para onde é que ele levou o pendente?”. Desorientado, Diogo só se deu conta do perigo que corria quando uma enorme racha no chão avançou a toda a velocidade na sua direcção. Incapaz de manter o equilíbrio, não conseguiu desviar-se daquele enorme buraco a que a fenda dera lugar e o pânico tomou conta de si no momento em que sem conseguir segurar-se a nada, percebeu que estava a cair naquele buraco escuro e infinito. No último momento segurou-se à beira do enorme abismo que tinha debaixo de si, mas os seus dedos, devido à areia, começavam a escorregar sem conseguirem suportar o seu peso. Voltou a tentar subir, mas era impossível. Estava a escorregar cada vez mais. Era impossível. As suas mãos já doridas não aguentaram esta derradeira tentativa…
Foi então que quando perdeu toda a esperança Diogo sentiu duas fortes mãos segurarem-no, impedindo-o de continuar a cair. Olhou para cima e esqueceu tudo. Esqueceu o pendente, esqueceu a angustia, esqueceu os seus pais, esqueceu o abismo…Diogo olhava agora para a cara escura e coberta pelos compridos cabelos brancos de Júlio, que com uma expressão de esforço puxava Diogo para cima, completamente revigorado, cheio de força e com um brilho satisfatório no olhar. Refeito da surpresa, Diogo auxiliou Júlio. Com um último esforço, Diogo conseguiu voltar a sentir-se seguro em terra firme. O tremor de terra já parara, tudo estava calmo, mas sentia-se tão exausto que tanto ele como Júlio caíram de costas no chão duro respirando de forma ofegante.
- Não sabias resolver tudo enquanto eu descansava, pois não? – comentou de repente Júlio voltando a sentar-se com um enorme sorriso na cara. – Isto de estar sempre a salvar-te a pele já está a tornar-se um hábito!
Diogo não disse nada. Sentiu invadir-se por uma alegria tão grande que não resistiu a abraçar o amigo totalmente curado. Júlio correspondeu ao abraço divertido.
Para lá de Júlio, Diogo viu todos os seus amigos. Samuel, Sofia, Tânia e Matilde, esta última completamente mudada. Com um sorriso enorme correu até eles evitando as fendas, logo seguida pelos restantes.
- Diogo, Diogo, o Júlio está curado! – anunciou Matilde, apesar do óbvio.
- Se tu não consegues matar-me de cansaço e irritação, mais ninguém o consegue! – atirou-lhe Júlio olhando divertido para Matilde que com os olhos muito arregalados não conseguia parar de saltitar no mesmo lugar.
- Pensámos que estava tudo perdido quando tu e a Sofia desapareceram debaixo daquela areia! – começou a contar Matilde acompanhada por gestos efusivos que obrigaram Tânia e Samuel a desviar-se  - O Samuel quase que se ia matando dentro da jaula dele…o Júlio já nem respirava, a Tânia ainda conseguiu livrar-se de um dos guardas, mas apareceu logo outro igual que a castigou…e depois tu apareceste novamente com a Sofia atrás….primeiro pensámos que era mais um dos truques de Belial, mas então tu apontaste-lhe a arma, obrigaste-o a soltar-nos e a Sofia foi logo a correr para o Júlio e apesar de ter demorado mais do que o habitual, ela conseguiu trazer o Júlio de volta e…
- Que tal respirares um pouco Matilde – aconselhou-a Júlio – Lá porque a Sofia restaurou todas as minhas forças isso não significa que eu tenha agora algum tipo de escudo contra as dores de cabeça que se sucedem com demasiada frequência ao teu lado.
Aquele comentário deixou por momentos Matilde baralhada. Mas o que se seguiu apanhou Júlio completamente de surpresa.
- Diogo devíamos ficar atentos… - disse Sofia quebrando o ambiente descontraído que tinha surgido e chamando-os à realidade - O Belial vai voltar com reforços, devíamos posicionar-nos…não me admirava nada que ele nos enviasse o seu exército até voltar a querer estar frente a frente contigo…assim sendo tu e o Samuel deviam permanecer juntos, o Júlio e a Matilde formar igualmente uma equipa e eu e a Tânia outra…assim ninguém nos ataca pelas costas.
- Tens toda a razão, vamos fazer como dizes, mas quero que se mantenham todos o mais próximo possível uns dos outros – disse Diogo voltando a ficar igualmente sério – A principal táctica de Belial é fazer-nos acreditar que estamos sozinhos, acreditando que todos são traidores, não o permitam. Convém também que…
- Calma, calma, calma! – ordenou subitamente Júlio verdadeiramente alarmado – Eu estou a ouvir bem? Eu estou a ouvir a Sofia a dizer que vai formar uma dupla com a Tânia? Eu estou realmente a ver o Diogo e a Sofia a concordarem um com o outro? – o tom de alarme na voz de Júlio ia crescendo cada vez mais – Samuel faz já uma das tuas citações ou eu vou começar a achar que vocês todos não são quem dizem ser…
- “Qualquer coisa que encoraje o crescimento de laços emocionais tem de servir contra as guerras” Sigmund Freud. – citou Samuel sorridente.
- O que raio é que eu perdi? – perguntou Júlio mais para si do que propriamente para obter uma resposta. Percebendo, no entanto, que Matilde ia principiar um novo discurso sobre tudo o que tinha acontecido concluiu – Deixa lá…posso viver na ignorância!
Subitamente todos começaram a sentir o chão voltar a tremer, mas desta vez de forma muito menos violenta.
- O que é que está a acontecer? – perguntou Diogo que olhava para o chão. Ninguém lhe respondeu e ao voltar ao olhar para os restantes, vendo-lhes o alarme estampado na cara, seguiu-lhes o olhar.
Parecia estar a formar-se toda uma nova tempestade de areia, no entanto, muito mais próxima ao chão.
- Mas vocês ainda não resolveram a questão das tempestades de areia? – queixou-se de repente Júlio – De que adianta estar inconsciente, se quando acordo parece que estou a viver um déjà vu?
- Aquilo não é uma tempestade de areia… - murmurou ao seu lado Tânia.
Ninguém disse mais nada. Todos se limitaram durante alguns instantes a observar o “espectáculo” de terror que se formava à frente deles. Aquilo que Júlio achara tratar-se de uma nova espécie de tempestade de areia, mais não era do que uma quantidade infindável de soldados de areia que iam surgindo como se fossem ilimitados. Surgiam como um pequeno remoinho de areia que ia ganhando uma forma mais humana, iguais aos que já haviam enfrentado mas agora num número incontável. Possuíam armaduras, armas e escudos de madeira e as suas formas humanas era delineadas por várias camadas de grãos de areia. Formavam um exército pronto para uma guerra contra seis adversários, dois deles, Diogo e Júlio, de boca aberta a olhar para aquilo.
- Claro que isto tinha de sobrar para mim! – Lamentou Júlio respirando profundamente de forma pesarosa. Mas, logo de seguida ao mesmo tempo que apanhava do chão um dos seus preciosos machados que ali devia ter deixado cair para impedir que Diogo caísse no abismo, revelou toda a sua postura de combate, pronto para uma guerra. – Vamos então a isto! Caíram no erro de me deixarem apenas inconsciente…pois eu não vou cometer o mesmo erro!
- Tentem aguentar o mais que puderem – pediu-lhes Diogo – Belial virá atrás de mim, mas desta vez eu vou estar preparado. – ao dizer estas palavras Diogo levou a mão ao peito onde sentiu o pendente por baixo da t-shirt.
- Como é que tens tanta certeza? – perguntou-lhe Tânia.
- Ambos temos algo que o outro deseja! – murmurou Diogo confiante, fazendo com que olhassem para si interrogativamente, à excepção de Sofia e Samuel que mantiveram o olhar fixo no exército.
- Ei Júlio, tu disseste que se alguma vez o Diogo e a Sofia concordassem em algo, cortarias o teu cabelo! – lembrou-se de repente Matilde esperançosa e com o maior dos seus sorrisos, quebrando o silêncio incómodo que se instalara.
- Exijo outro parceiro de batalha! – declarou automaticamente Júlio verdadeiramente alarmado com a memória de Matilde – Não há condições! – Matilde mostrava-se confusa com aquela reacção, mas não houve tempo para mais conversas, os soldados de Belial iniciavam, naquele momento, uma corrida na direcção deles.
Diogo invocou a espada de Metatron, Sofia as suas espadas de duas lâminas, Samuel a sua foice tamanho gigante, Matilde a sua besta e Tânia os seus punhais, três em cada mão presos ameaçadoramente entre os dedos.
- É agora! – murmurou Júlio empunhando o seu machado preferido e certificando-se que tinha outro preso às costas com uma fivela de pele. Automaticamente todos se aproximaram dos seus parceiros de luta.
Diogo nunca pensou ver Sofia e Tânia aproximarem-se uma da outra com a intenção de lutarem em equipa e protegerem-se mutuamente. Mas ali estavam elas a trocar um olhar entre si que mostrava estarem prontas. Diogo sabia que para Sofia aquilo era um sacrifício, logo tinha de lhe dar todo o mérito que lhe era merecido. Estava a esforçar-se e com determinação. Sofia olhou na sua direcção naquele preciso momento. Sentindo-se apanhado a fazer algo que não devia, Diogo esboçou um sorriso que acreditou ser completamente ridículo, mas que, infelizmente, já não podia retirar. Mas o que se seguiu ainda o fez sentir-se pior, pois Sofia olhava para ele como se ele estivesse com algum problema facial, voltando logo de seguida a concentrar-se nos seus atacantes.
- Algum problema Diogo? – perguntou-lhe Samuel ao seu lado.
- Além de um batalhão que se dirige na nossa direcção? – murmurou-lhe Diogo desviando o olhar de Sofia. – Ainda podemos ter alguma esperança Samuel?
- Se não houvesse esperança, neste momento não estaríamos aqui à espera de enfrentar um exército que se multiplica a cada palavra que proferimos – disse-lhe Samuel de olhos fixos nos soldados que estavam cada vez mais próximos.
Ali estavam todos. Novamente prontos para uma batalha. Diogo sabia que eles ficariam ao seu lado, ignorando qualquer tentativa da sua parte para os impedir. Mas também sabia que naquele momento todos estavam a depositar esperança em algo que ele não podia garantir-lhes. Leviathan tinha vindo ao seu encontro e a batalha terminara quando ele o fizera desaparecer. Tinha a certeza de que Belial viria à sua procura, os pendentes eram tão preciosos para um como para outro. Mas conseguiria fazer-lhe frente como fizera a Leviathan? Diogo acreditava que apenas tivera sorte frente ao príncipe da água e duvidava que aquilo voltasse a repetir-se. O mesmo raio não costumava cair no mesmo sítio duas vezes. Diogo percebeu que estava com medo. Medo de falhar, medo de não conseguir fazer algo pelos seus amigos, pelos seus pais…medo do próprio medo que se apoderava de cada célula do seu corpo.
- “O medo faz parte da nossa vida. Algumas pessoas não sabem como enfrentá-lo, outras…aprendem a viver com ele e encaram-no não como uma coisa negativa, mas como um sentimento de auto preservação” – murmurou Samuel ao seu lado, como se percebesse pela expressão de Diogo o que se passava dentro de si.
- Posso saber quem disse tão profunda frase? – perguntou Diogo sentindo-se mais descontraído, coisa que só Samuel conseguia proporcionar-lhe em momentos daqueles. Este fez uma pausa solene antes de fazer a revelação.
- Ayrton Senna! – revelou-lhe por fim Samuel divertido fazendo com que Diogo soltasse uma gargalhada sonora.
- Vejo que partilham do mesmo humor aqui da Matilde… – a voz de Júlio chegou-lhes do lado direito. Viram-no olhar de forma reprovadora para Matilde que continuava completamente descontraída perante a aproximação dos oponentes, como se para ela só o facto de estarem ali todos novamente juntos fosse o suficiente para a deixar feliz – Quantos parafusos terá ela a menos? – murmurou Júlio a Diogo que lhe encolheu os ombros, ainda divertido.
- Preparem-se! – ouviram vindo de Sofia do lado esquerdo.
O chocar das armas foi menos sonoro do que Diogo esperava. As mortais armas de madeira dos soldados de Belial abafavam quase todo o som. Vislumbravam-se todo o tipo de delas, mas todas feitas do mesmo material. Era uma multidão sem qualquer tipo de expressão, completamente apática, que os atacava ferozmente. Diogo e Samuel defendiam-se e atacavam com destreza, formando uma equipa com movimentos muito bem coordenados e com uma troca de olhares que tanto um como outro sabiam interpretar instintivamente. Diogo atacava, defendia-se, voltava a atacar, desvia-se das investidas dos seus oponentes. Nenhum som provinha destes, a não ser o pouco que as suas armas produziam. Eram igualmente fortes e impressionantemente rápidos.
Com a espada de Metatron, Diogo começava a sentir novamente as suas forças a crescerem dentro de si. Tornava-se cada vez mais rápido, mais mortal, mais intimidador. Eram poucos os que conseguiam invadir o seu espaço de forma mais ameaçadora. Confiante, olhou para a luta travada ali perto por Sofia e Tânia. Ao contrário dele e de Samuel, ambas as duas tinham as suas asas abertas fazendo contrastar o branco verdadeiramente luminoso da primeira e o preto mais escuro que a noite da segunda. Com aquela fusão de cor, elas eram igualmente impressionantes de ver. As duas conjugavam rapidez e destreza. Seguiam os movimentos uma da outra como se fossem uma só. Desferiam golpes em conjunto, respeitavam o espaço necessário da outra e auxiliavam sempre que era preciso.
Satisfeito com o resultado daquela equipa, Diogo voltou a conseguir, com toda a velocidade, voltar a livrar-se de novas investidas, juntamente com Samuel que manejava como ninguém aquela magnifica arma que transportava e que lançava em todas as direcções, conseguindo muitas vezes livrar-se de mais de um soldado ao mesmo tempo. Costas com costas, ambos se movimentavam como siameses. Desta vez, Júlio e Matilde entraram no seu campo de visão. Também eles formavam um duo perfeito. Matilde, com as suas enormes asas abertas, disparava setas por todo o lado e muitas vezes fazia investidas com a própria besta. Já Júlio manuseava com mestria os seus dois machados. Nenhum soldado conseguia aproximar-se deles. Viu-os sorrir entre si e murmurarem qualquer coisa como se fossem duas crianças travessas, voltando ao combate logo de seguida. Matilde não perdia o sorriso e até parecia divertida.
Tudo aquilo deu ainda mais ânimo a Diogo que voltou a concentrar-se com uma determinação renovada. Não sentia qualquer perigo vindo dos seus atacantes, sentia-se superior a eles. E foi isso que começou a deixá-lo nervoso. Lembrava-se dos soldados que os tinham atacado no reino de Leviathan. Nessa altura todos tinham estado realmente em completa desvantagem, não só numérica, mas também com sérias dificuldades em fazer-lhes frente. Belial demonstrara uma força e esperteza superiores às de Leviathan. Algo não batia certo. Tânia explicara-lhe que cada soldado era formado pelas almas dos pecadores sendo todos eles, todo um conjunto de pura maldade. Não fizera qualquer distinção entre os soldados dos diferentes reinos. Seria normal que uns se revelassem mais fortes que outros?
- Samuel, não estás a achar demasiado estranho estarmos a sair-nos tão bem? – perguntou-lhe Diogo livrando-se facilmente de três atacantes.
- Já pensei nisso… - revelou-lhe Samuel com a mesma destreza – Não faz sentido. Não estão a criar-nos qualquer dificuldade, é como se estes soldados tivessem ordens para não nos ferirem mortalmente. – explicou enquanto lutava.
- É como se quisessem apenas…cansar-nos – concluiu de repente Diogo cada vez mais incomodado.
Foi ao pronunciar estas palavras que tudo mudou. Subitamente todos os soldados se desvaneceram numa nuvem de areia que caiu no chão com um baque surdo. O silêncio era total. Olharam todos uns para os outros com expressões interrogativas, mas preparados nas suas posições para o que pudesse seguir-se. No entanto, nenhuma preparação lhes valeu para o que se seguiu.
Diogo assistiu a tudo incapaz de fazer alguma coisa para ajudar os seus amigos. Não houve gritos, não houve pedidos de socorro. Ao inicio penas olhares inquiridores e logo depois viu-os a todos caírem de joelhos no chão, agarrados ao peito. Não tinham forças, não conseguiam respirar. As suas expressões começavam apenas a revelar uma total apatia, era como se estivessem a ser privados de todos os seus sentidos. Como uma encenação, Diogo viu-os cair a todos no chão como se de pedras se tratassem. Sem qualquer possibilidade de se movimentarem, de reagirem, de se defenderem do que quer que estivesse a acontecer-lhes. Continuavam todos de olhos abertos, mas era como se nada estivesse para lá daquele olhar sem emoção, sem vida.
Diogo, caindo igualmente de joelhos ao lado de Samuel, abanou-o, chamou por ele, ordenou-lhe que se levantasse, mas nada aconteceu. Nem uma resposta, um gemido…nada.
- SAMUEL… - gritou-lhe Diogo com o desespero bem patente na voz. Continuou sem obter qualquer resposta.
Diogo olhou à sua volta. Júlio, Matilde, Samuel, Sofia e Tânia encontravam-se todos no chão, completamente imóveis e de olhar apático, indiferentes ao seu desespero e aflição. Percebia que não estavam mortos, pois Samuel tinha pulsação. Mas então o que é que se passava?
- Agora nós! – uma voz chegou até Diogo. Era fria e triunfante. Diogo olhou na direcção em que a mesma provinha. Encontrou Belial, com a sua postura gloriosa, o seu tão característico inclinar de cabeça e o sorriso dissimulado nos lábios. – Ambos queremos a mesma coisa. – disse-lhe retirando o pendente de dentro da camisa e deixando-o à mostra – Vamos então ver do que és capaz sem os teus amigos!
- O que é que lhes fizeste? – perguntou-lhe Diogo esforçando-se por não se concentrar apenas no pendente de Belial.
- Oh nada de especial…apenas um pequeno truque, um dos meus preferidos, devo acrescentar, que os faz acreditar fielmente terem perdido todos os sentidos – revelou-lhe deliciado – Um truque que daqui a algum tempo começa a tomar proporções algo desastrosas…
- O que queres dizer com isso? – perguntou Diogo levantando-se, pois até então tinha estado ajoelhado ao lado de Samuel.
- Vejamos como posso explicar… - Belial não podia mostrar-se mais satisfeito - Quanto mais tempo permanecerem assim, mais mortal se vai tornar este pequeno truque. - O seu olhar era agora todo um júbilo pelo que ia obrigar Diogo a ouvir. - E lamento informar, mas nem os anjinhos da categoria deles conseguem lutar contra essa inevitabilidade.
Diogo olhou novamente à sua volta desesperado com a possibilidade de os perder a todos. Sentia-se novamente sozinho, mas desta vez era muito pior, pois sabia que se não fizesse algo, todos eles morreriam igualmente sozinhos e fechados naquele sofrimento do qual não conseguiam escapar e que o seu corpo apenas reconhecia como um sinal inevitável de um desfecho fatal. Sem poderem lutar, retaliar ou apenas defender-se. Tudo isso lhes fora vedado, apenas lhes restando esperar pela morte.