Diogo, juntamente com Sofia, bem agarrada à sua mão, impulsionou a saída de ambos. Atirando lama para todo o lado, assim que chegou à superfície, largou a mão do anjo, vislumbrou Belial e atirou-se a ele. Apanhado de surpresa, Belial não teve tempo de reagir e subitamente tinha uma arma apontada ao seu coração, ou pelo menos onde Diogo julgava poder encontrar um. Se os seus amigos mostraram surpresa pelo seu regresso à superfície, Diogo não reparou. Naquele momento tinha apenas olhos para Belial que além da surpresa, mostrava receio ao encarar o olhar e a espada empunhada por Diogo.
- Essa é a espada de Metatron! – reparou Belial de olhos arregalados – Tu és capaz de…. – Diogo não o deixou terminar a frase ao mesmo tempo que lhe fazia um buraco com a ponta afiada da espada nas roupas negras de demónio.
- Agora liberta os meus amigos! – o tom usado por Diogo não revelava nada mais além de uma ordem impossível de regatear. – Um anjo caído pode ser morto por um demónio ou um anjo portador de uma arma angelical…como podes ver eu reúno todas os requisitos e não tenho medo de usar esta espada…já a usei uma vez e se tiver de mandar mais um para o Poço Sem Fundo…é isso que farei – ameaçou Diogo lembrando-se do local que Belial referenciara quando Diogo lhe revelara que fizera Leviathan desaparecer.
- Calma rapaz, podemos conversar… - tentou Belial, mas apenas sentiu a espada de Metatron penetrar mais nas suas roupas.
Sem outra alternativa Belial estalou novamente os dedos. Diogo desviou o seu olhar apenas o suficiente para se certificar que as jaulas e os soldados que aprisionavam os seus amigos tinham desaparecido. Assim que viu Samuel no seu anglo de visão toda a sua atenção voltou para Belial.
- Como é que conseguiste? – perguntou-lhe Belial, observando Diogo que se encontrava todo coberto de lama, e como se ele fosse um fantasma.
- Surpreso? – perguntou enquanto um sorriso muito parecido como o de Belial surgia nos seus lábios – Não posso dizer que também não tenha ficado algo surpreendido quando percebi que a água me obedecia. – Estas palavras chocaram mais Belial do que a espada apontada ao seu coração.
- Então é verdade… - murmurou e o medo passou-lhe pela luz dos olhos – Tu realmente existes…a lenda é verdadeira! Não é possível…jamais…
- E lá estão vocês a dar-lhe com a lenda! – comentou Diogo aborrecido.
- Tu não conheces a lenda? – pela primeira vez Belial mostrava-se verdadeiramente surpreendido. – Não sabes nada sobre aquele que terá o destino do Céu e do Inferno totalmente nas suas mãos? – o olhar interrogativo de Diogo deu-lhe a resposta. – Inacreditável! - Belial parecia já nem ligar à espada que Diogo lhe apontava apesar de continuar sem se mexer um único milímetro. Para surpresa do seu adversário, Belial sorria. Diogo recordou aquele mesmo sorriso de Leviathan, tão misterioso e ao mesmo tempo tão revelador de algo que Diogo não conseguia atingir.
- Porque é que ris? – perguntou-lhe.
- Eu posso explicar-te… - propôs-lhe Belial – Basta deixares-me mostrar-te uma coisa… - Belial revelou a sua intenção de querer, com a sua mão direita, ir buscar qualquer coisa que estava coberta pela sua camisa. Para que Diogo percebesse que não era um truque fê-lo muito lentamente e sem desviar o olhar.
Diogo deixou-o prosseguir. Não percebeu porque o estava a permitir, mas havia algo mais forte do que a sua própria vontade, que o impelia a querer ver o que estava escondido por baixo daquela camisa. Sentiu a espada de Metatron começar a ficar mais pesada, mas não lhe deu importância. Queria, subitamente com todo o seu ser, com todas as suas forças, ver o que Belial estava prestes a mostrar-lhe. O que viu fez o seu coração acelerar loucamente. Sentiu novamente aquele desejo, aquela necessidade, aquela urgência de possuir o objecto que o príncipe lhe mostrava com um sorriso triunfante. Preso por um fio ao pescoço de Belial, estava um pendente igual ao seu e ao de Leviathan, com a única diferença de que o deste demónio da terra apresentava uma cor esverdeada. Diogo queria aquilo mais do que qualquer outra coisa. Era a mesma ambição, a mesma cobiça desenfreada, que sentira pelo pendente de Leviathan. Tinha de ser seu. Tinha de o ter, nem que para isso fosse necessário esquecer tudo o resto. Subitamente o seu próprio pendente surgiu à vista de Belial. Como se tivesse vontade própria, libertou-se da t-shirt de Diogo e revelou-se perante o outro pendente em forma de lágrima. Era como se, tal como Diogo, também almejasse aquele outro pendente que não largava o fio preso ao pescoço do seu príncipe.
Diogo apercebeu-se mais tarde do que Belial que já não tinha nas mãos a espada de Metatron, mas sim a Adaga que pertencia àquele que seria o seu verdadeiro pai.
- Então é ele o teu verdadeiro pai! – murmurou Belial olhando de uma forma ensandecida para a Adaga nas mãos de Diogo. – Ele conseguiu…
Diogo ainda olhou de forma interrogativa para Belial, mas a sua obsessão pelo pendente era tão grande que o impedia de pensar como um verdadeiro adversário. Quando o percebeu, já Belial voltara a esconder o pendente por entre as suas vestes e estalara novamente os dedos. Diogo sentiu todo o chão começar a tremer. O tremor de terra era tão forte que se viu obrigado a largar a Adaga que caiu no chão desaparecendo de imediato enquanto sem qualquer equilíbrio tentava aguentar-se em pé. Belial já desaparecera de vista e apenas um pensamento invadia a sua mente “Para onde é que ele levou o pendente?”. Desorientado, Diogo só se deu conta do perigo que corria quando uma enorme racha no chão avançou a toda a velocidade na sua direcção. Incapaz de manter o equilíbrio, não conseguiu desviar-se daquele enorme buraco a que a fenda dera lugar e o pânico tomou conta de si no momento em que sem conseguir segurar-se a nada, percebeu que estava a cair naquele buraco escuro e infinito. No último momento segurou-se à beira do enorme abismo que tinha debaixo de si, mas os seus dedos, devido à areia, começavam a escorregar sem conseguirem suportar o seu peso. Voltou a tentar subir, mas era impossível. Estava a escorregar cada vez mais. Era impossível. As suas mãos já doridas não aguentaram esta derradeira tentativa…
Foi então que quando perdeu toda a esperança Diogo sentiu duas fortes mãos segurarem-no, impedindo-o de continuar a cair. Olhou para cima e esqueceu tudo. Esqueceu o pendente, esqueceu a angustia, esqueceu os seus pais, esqueceu o abismo…Diogo olhava agora para a cara escura e coberta pelos compridos cabelos brancos de Júlio, que com uma expressão de esforço puxava Diogo para cima, completamente revigorado, cheio de força e com um brilho satisfatório no olhar. Refeito da surpresa, Diogo auxiliou Júlio. Com um último esforço, Diogo conseguiu voltar a sentir-se seguro em terra firme. O tremor de terra já parara, tudo estava calmo, mas sentia-se tão exausto que tanto ele como Júlio caíram de costas no chão duro respirando de forma ofegante.
- Não sabias resolver tudo enquanto eu descansava, pois não? – comentou de repente Júlio voltando a sentar-se com um enorme sorriso na cara. – Isto de estar sempre a salvar-te a pele já está a tornar-se um hábito!
Diogo não disse nada. Sentiu invadir-se por uma alegria tão grande que não resistiu a abraçar o amigo totalmente curado. Júlio correspondeu ao abraço divertido.
Para lá de Júlio, Diogo viu todos os seus amigos. Samuel, Sofia, Tânia e Matilde, esta última completamente mudada. Com um sorriso enorme correu até eles evitando as fendas, logo seguida pelos restantes.
- Diogo, Diogo, o Júlio está curado! – anunciou Matilde, apesar do óbvio.
- Se tu não consegues matar-me de cansaço e irritação, mais ninguém o consegue! – atirou-lhe Júlio olhando divertido para Matilde que com os olhos muito arregalados não conseguia parar de saltitar no mesmo lugar.
- Pensámos que estava tudo perdido quando tu e a Sofia desapareceram debaixo daquela areia! – começou a contar Matilde acompanhada por gestos efusivos que obrigaram Tânia e Samuel a desviar-se - O Samuel quase que se ia matando dentro da jaula dele…o Júlio já nem respirava, a Tânia ainda conseguiu livrar-se de um dos guardas, mas apareceu logo outro igual que a castigou…e depois tu apareceste novamente com a Sofia atrás….primeiro pensámos que era mais um dos truques de Belial, mas então tu apontaste-lhe a arma, obrigaste-o a soltar-nos e a Sofia foi logo a correr para o Júlio e apesar de ter demorado mais do que o habitual, ela conseguiu trazer o Júlio de volta e…
- Que tal respirares um pouco Matilde – aconselhou-a Júlio – Lá porque a Sofia restaurou todas as minhas forças isso não significa que eu tenha agora algum tipo de escudo contra as dores de cabeça que se sucedem com demasiada frequência ao teu lado.
Aquele comentário deixou por momentos Matilde baralhada. Mas o que se seguiu apanhou Júlio completamente de surpresa.
- Diogo devíamos ficar atentos… - disse Sofia quebrando o ambiente descontraído que tinha surgido e chamando-os à realidade - O Belial vai voltar com reforços, devíamos posicionar-nos…não me admirava nada que ele nos enviasse o seu exército até voltar a querer estar frente a frente contigo…assim sendo tu e o Samuel deviam permanecer juntos, o Júlio e a Matilde formar igualmente uma equipa e eu e a Tânia outra…assim ninguém nos ataca pelas costas.
- Tens toda a razão, vamos fazer como dizes, mas quero que se mantenham todos o mais próximo possível uns dos outros – disse Diogo voltando a ficar igualmente sério – A principal táctica de Belial é fazer-nos acreditar que estamos sozinhos, acreditando que todos são traidores, não o permitam. Convém também que…
- Calma, calma, calma! – ordenou subitamente Júlio verdadeiramente alarmado – Eu estou a ouvir bem? Eu estou a ouvir a Sofia a dizer que vai formar uma dupla com a Tânia? Eu estou realmente a ver o Diogo e a Sofia a concordarem um com o outro? – o tom de alarme na voz de Júlio ia crescendo cada vez mais – Samuel faz já uma das tuas citações ou eu vou começar a achar que vocês todos não são quem dizem ser…
- “Qualquer coisa que encoraje o crescimento de laços emocionais tem de servir contra as guerras” Sigmund Freud. – citou Samuel sorridente.
- O que raio é que eu perdi? – perguntou Júlio mais para si do que propriamente para obter uma resposta. Percebendo, no entanto, que Matilde ia principiar um novo discurso sobre tudo o que tinha acontecido concluiu – Deixa lá…posso viver na ignorância!
Subitamente todos começaram a sentir o chão voltar a tremer, mas desta vez de forma muito menos violenta.
- O que é que está a acontecer? – perguntou Diogo que olhava para o chão. Ninguém lhe respondeu e ao voltar ao olhar para os restantes, vendo-lhes o alarme estampado na cara, seguiu-lhes o olhar.
Parecia estar a formar-se toda uma nova tempestade de areia, no entanto, muito mais próxima ao chão.
- Mas vocês ainda não resolveram a questão das tempestades de areia? – queixou-se de repente Júlio – De que adianta estar inconsciente, se quando acordo parece que estou a viver um déjà vu?
- Aquilo não é uma tempestade de areia… - murmurou ao seu lado Tânia.
Ninguém disse mais nada. Todos se limitaram durante alguns instantes a observar o “espectáculo” de terror que se formava à frente deles. Aquilo que Júlio achara tratar-se de uma nova espécie de tempestade de areia, mais não era do que uma quantidade infindável de soldados de areia que iam surgindo como se fossem ilimitados. Surgiam como um pequeno remoinho de areia que ia ganhando uma forma mais humana, iguais aos que já haviam enfrentado mas agora num número incontável. Possuíam armaduras, armas e escudos de madeira e as suas formas humanas era delineadas por várias camadas de grãos de areia. Formavam um exército pronto para uma guerra contra seis adversários, dois deles, Diogo e Júlio, de boca aberta a olhar para aquilo.
- Claro que isto tinha de sobrar para mim! – Lamentou Júlio respirando profundamente de forma pesarosa. Mas, logo de seguida ao mesmo tempo que apanhava do chão um dos seus preciosos machados que ali devia ter deixado cair para impedir que Diogo caísse no abismo, revelou toda a sua postura de combate, pronto para uma guerra. – Vamos então a isto! Caíram no erro de me deixarem apenas inconsciente…pois eu não vou cometer o mesmo erro!
- Tentem aguentar o mais que puderem – pediu-lhes Diogo – Belial virá atrás de mim, mas desta vez eu vou estar preparado. – ao dizer estas palavras Diogo levou a mão ao peito onde sentiu o pendente por baixo da t-shirt.
- Como é que tens tanta certeza? – perguntou-lhe Tânia.
- Ambos temos algo que o outro deseja! – murmurou Diogo confiante, fazendo com que olhassem para si interrogativamente, à excepção de Sofia e Samuel que mantiveram o olhar fixo no exército.
- Ei Júlio, tu disseste que se alguma vez o Diogo e a Sofia concordassem em algo, cortarias o teu cabelo! – lembrou-se de repente Matilde esperançosa e com o maior dos seus sorrisos, quebrando o silêncio incómodo que se instalara.
- Exijo outro parceiro de batalha! – declarou automaticamente Júlio verdadeiramente alarmado com a memória de Matilde – Não há condições! – Matilde mostrava-se confusa com aquela reacção, mas não houve tempo para mais conversas, os soldados de Belial iniciavam, naquele momento, uma corrida na direcção deles.
Diogo invocou a espada de Metatron, Sofia as suas espadas de duas lâminas, Samuel a sua foice tamanho gigante, Matilde a sua besta e Tânia os seus punhais, três em cada mão presos ameaçadoramente entre os dedos.
- É agora! – murmurou Júlio empunhando o seu machado preferido e certificando-se que tinha outro preso às costas com uma fivela de pele. Automaticamente todos se aproximaram dos seus parceiros de luta.
Diogo nunca pensou ver Sofia e Tânia aproximarem-se uma da outra com a intenção de lutarem em equipa e protegerem-se mutuamente. Mas ali estavam elas a trocar um olhar entre si que mostrava estarem prontas. Diogo sabia que para Sofia aquilo era um sacrifício, logo tinha de lhe dar todo o mérito que lhe era merecido. Estava a esforçar-se e com determinação. Sofia olhou na sua direcção naquele preciso momento. Sentindo-se apanhado a fazer algo que não devia, Diogo esboçou um sorriso que acreditou ser completamente ridículo, mas que, infelizmente, já não podia retirar. Mas o que se seguiu ainda o fez sentir-se pior, pois Sofia olhava para ele como se ele estivesse com algum problema facial, voltando logo de seguida a concentrar-se nos seus atacantes.
- Algum problema Diogo? – perguntou-lhe Samuel ao seu lado.
- Além de um batalhão que se dirige na nossa direcção? – murmurou-lhe Diogo desviando o olhar de Sofia. – Ainda podemos ter alguma esperança Samuel?
- Se não houvesse esperança, neste momento não estaríamos aqui à espera de enfrentar um exército que se multiplica a cada palavra que proferimos – disse-lhe Samuel de olhos fixos nos soldados que estavam cada vez mais próximos.
Ali estavam todos. Novamente prontos para uma batalha. Diogo sabia que eles ficariam ao seu lado, ignorando qualquer tentativa da sua parte para os impedir. Mas também sabia que naquele momento todos estavam a depositar esperança em algo que ele não podia garantir-lhes. Leviathan tinha vindo ao seu encontro e a batalha terminara quando ele o fizera desaparecer. Tinha a certeza de que Belial viria à sua procura, os pendentes eram tão preciosos para um como para outro. Mas conseguiria fazer-lhe frente como fizera a Leviathan? Diogo acreditava que apenas tivera sorte frente ao príncipe da água e duvidava que aquilo voltasse a repetir-se. O mesmo raio não costumava cair no mesmo sítio duas vezes. Diogo percebeu que estava com medo. Medo de falhar, medo de não conseguir fazer algo pelos seus amigos, pelos seus pais…medo do próprio medo que se apoderava de cada célula do seu corpo.
- “O medo faz parte da nossa vida. Algumas pessoas não sabem como enfrentá-lo, outras…aprendem a viver com ele e encaram-no não como uma coisa negativa, mas como um sentimento de auto preservação” – murmurou Samuel ao seu lado, como se percebesse pela expressão de Diogo o que se passava dentro de si.
- Posso saber quem disse tão profunda frase? – perguntou Diogo sentindo-se mais descontraído, coisa que só Samuel conseguia proporcionar-lhe em momentos daqueles. Este fez uma pausa solene antes de fazer a revelação.
- Ayrton Senna! – revelou-lhe por fim Samuel divertido fazendo com que Diogo soltasse uma gargalhada sonora.
- Vejo que partilham do mesmo humor aqui da Matilde… – a voz de Júlio chegou-lhes do lado direito. Viram-no olhar de forma reprovadora para Matilde que continuava completamente descontraída perante a aproximação dos oponentes, como se para ela só o facto de estarem ali todos novamente juntos fosse o suficiente para a deixar feliz – Quantos parafusos terá ela a menos? – murmurou Júlio a Diogo que lhe encolheu os ombros, ainda divertido.
- Preparem-se! – ouviram vindo de Sofia do lado esquerdo.
O chocar das armas foi menos sonoro do que Diogo esperava. As mortais armas de madeira dos soldados de Belial abafavam quase todo o som. Vislumbravam-se todo o tipo de delas, mas todas feitas do mesmo material. Era uma multidão sem qualquer tipo de expressão, completamente apática, que os atacava ferozmente. Diogo e Samuel defendiam-se e atacavam com destreza, formando uma equipa com movimentos muito bem coordenados e com uma troca de olhares que tanto um como outro sabiam interpretar instintivamente. Diogo atacava, defendia-se, voltava a atacar, desvia-se das investidas dos seus oponentes. Nenhum som provinha destes, a não ser o pouco que as suas armas produziam. Eram igualmente fortes e impressionantemente rápidos.
Com a espada de Metatron, Diogo começava a sentir novamente as suas forças a crescerem dentro de si. Tornava-se cada vez mais rápido, mais mortal, mais intimidador. Eram poucos os que conseguiam invadir o seu espaço de forma mais ameaçadora. Confiante, olhou para a luta travada ali perto por Sofia e Tânia. Ao contrário dele e de Samuel, ambas as duas tinham as suas asas abertas fazendo contrastar o branco verdadeiramente luminoso da primeira e o preto mais escuro que a noite da segunda. Com aquela fusão de cor, elas eram igualmente impressionantes de ver. As duas conjugavam rapidez e destreza. Seguiam os movimentos uma da outra como se fossem uma só. Desferiam golpes em conjunto, respeitavam o espaço necessário da outra e auxiliavam sempre que era preciso.
Satisfeito com o resultado daquela equipa, Diogo voltou a conseguir, com toda a velocidade, voltar a livrar-se de novas investidas, juntamente com Samuel que manejava como ninguém aquela magnifica arma que transportava e que lançava em todas as direcções, conseguindo muitas vezes livrar-se de mais de um soldado ao mesmo tempo. Costas com costas, ambos se movimentavam como siameses. Desta vez, Júlio e Matilde entraram no seu campo de visão. Também eles formavam um duo perfeito. Matilde, com as suas enormes asas abertas, disparava setas por todo o lado e muitas vezes fazia investidas com a própria besta. Já Júlio manuseava com mestria os seus dois machados. Nenhum soldado conseguia aproximar-se deles. Viu-os sorrir entre si e murmurarem qualquer coisa como se fossem duas crianças travessas, voltando ao combate logo de seguida. Matilde não perdia o sorriso e até parecia divertida.
Tudo aquilo deu ainda mais ânimo a Diogo que voltou a concentrar-se com uma determinação renovada. Não sentia qualquer perigo vindo dos seus atacantes, sentia-se superior a eles. E foi isso que começou a deixá-lo nervoso. Lembrava-se dos soldados que os tinham atacado no reino de Leviathan. Nessa altura todos tinham estado realmente em completa desvantagem, não só numérica, mas também com sérias dificuldades em fazer-lhes frente. Belial demonstrara uma força e esperteza superiores às de Leviathan. Algo não batia certo. Tânia explicara-lhe que cada soldado era formado pelas almas dos pecadores sendo todos eles, todo um conjunto de pura maldade. Não fizera qualquer distinção entre os soldados dos diferentes reinos. Seria normal que uns se revelassem mais fortes que outros?
- Samuel, não estás a achar demasiado estranho estarmos a sair-nos tão bem? – perguntou-lhe Diogo livrando-se facilmente de três atacantes.
- Já pensei nisso… - revelou-lhe Samuel com a mesma destreza – Não faz sentido. Não estão a criar-nos qualquer dificuldade, é como se estes soldados tivessem ordens para não nos ferirem mortalmente. – explicou enquanto lutava.
- É como se quisessem apenas…cansar-nos – concluiu de repente Diogo cada vez mais incomodado.
Foi ao pronunciar estas palavras que tudo mudou. Subitamente todos os soldados se desvaneceram numa nuvem de areia que caiu no chão com um baque surdo. O silêncio era total. Olharam todos uns para os outros com expressões interrogativas, mas preparados nas suas posições para o que pudesse seguir-se. No entanto, nenhuma preparação lhes valeu para o que se seguiu.
Diogo assistiu a tudo incapaz de fazer alguma coisa para ajudar os seus amigos. Não houve gritos, não houve pedidos de socorro. Ao inicio penas olhares inquiridores e logo depois viu-os a todos caírem de joelhos no chão, agarrados ao peito. Não tinham forças, não conseguiam respirar. As suas expressões começavam apenas a revelar uma total apatia, era como se estivessem a ser privados de todos os seus sentidos. Como uma encenação, Diogo viu-os cair a todos no chão como se de pedras se tratassem. Sem qualquer possibilidade de se movimentarem, de reagirem, de se defenderem do que quer que estivesse a acontecer-lhes. Continuavam todos de olhos abertos, mas era como se nada estivesse para lá daquele olhar sem emoção, sem vida.
Diogo, caindo igualmente de joelhos ao lado de Samuel, abanou-o, chamou por ele, ordenou-lhe que se levantasse, mas nada aconteceu. Nem uma resposta, um gemido…nada.
- SAMUEL… - gritou-lhe Diogo com o desespero bem patente na voz. Continuou sem obter qualquer resposta.
Diogo olhou à sua volta. Júlio, Matilde, Samuel, Sofia e Tânia encontravam-se todos no chão, completamente imóveis e de olhar apático, indiferentes ao seu desespero e aflição. Percebia que não estavam mortos, pois Samuel tinha pulsação. Mas então o que é que se passava?
- Agora nós! – uma voz chegou até Diogo. Era fria e triunfante. Diogo olhou na direcção em que a mesma provinha. Encontrou Belial, com a sua postura gloriosa, o seu tão característico inclinar de cabeça e o sorriso dissimulado nos lábios. – Ambos queremos a mesma coisa. – disse-lhe retirando o pendente de dentro da camisa e deixando-o à mostra – Vamos então ver do que és capaz sem os teus amigos!
- O que é que lhes fizeste? – perguntou-lhe Diogo esforçando-se por não se concentrar apenas no pendente de Belial.
- Oh nada de especial…apenas um pequeno truque, um dos meus preferidos, devo acrescentar, que os faz acreditar fielmente terem perdido todos os sentidos – revelou-lhe deliciado – Um truque que daqui a algum tempo começa a tomar proporções algo desastrosas…
- O que queres dizer com isso? – perguntou Diogo levantando-se, pois até então tinha estado ajoelhado ao lado de Samuel.
- Vejamos como posso explicar… - Belial não podia mostrar-se mais satisfeito - Quanto mais tempo permanecerem assim, mais mortal se vai tornar este pequeno truque. - O seu olhar era agora todo um júbilo pelo que ia obrigar Diogo a ouvir. - E lamento informar, mas nem os anjinhos da categoria deles conseguem lutar contra essa inevitabilidade.
Diogo olhou novamente à sua volta desesperado com a possibilidade de os perder a todos. Sentia-se novamente sozinho, mas desta vez era muito pior, pois sabia que se não fizesse algo, todos eles morreriam igualmente sozinhos e fechados naquele sofrimento do qual não conseguiam escapar e que o seu corpo apenas reconhecia como um sinal inevitável de um desfecho fatal. Sem poderem lutar, retaliar ou apenas defender-se. Tudo isso lhes fora vedado, apenas lhes restando esperar pela morte.
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