Este blog não cumpre o novo acordo ortográfico!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

2º Volume: Capítulo 9 - O Pendente

Diogo olhava chocado para o cenário à sua volta. O seu olhar prendeu-se em Sofia. Algo de estranho se passava com ela. Não se mexia, mas era fácil de perceber que a sua mente estava em batalha, numa tentativa infrutífera de se libertar daquela prisão. Diogo sentiu a sua mão levantar-se na direcção daquele anjo. Uma enorme necessidade de a segurar nos seus braços apoderou-se de si. Queria protegê-la, retirá-la daquele lugar escuro em que se encontrava. Desviou o olhar para Tânia. Mesmo com as suas asas negras e a sua roupa igualmente escura, ela sempre brilhara. Mas agora, nenhuma luz irradiava dela. A dor de Diogo tornou-se ainda maior ao ver a pequena Matilde deitada perto de Júlio. Ambos completamente imobilizados e a alegria contagiante de Matilde roubada da forma mais cruel. Ali aos seus pés, o rosto inexpressivo de Samuel, incapaz de pronunciar as palavras que Diogo tanto desejava ou vir naquele momento. Mas foi então que a dor de Diogo, perante aquele cenário, começou a alterar-se. Sentiu o ódio tomar conta de todo o seu ser. Sabia que naquele momento os seus olhos estavam do vermelho mais sanguíneo possível. Desviou o seu olhar dos amigos imobilizados concentrando-se por breves segundos no pendente em forma de lágrima pendurado ao pescoço de Belial e logo de seguida encarou o olhar gelado e vingativo do demónio. Belial sorria não só com os lábios, mas também com os olhos sem os desviar de Diogo. Acariciou o pendente com os seus dedos compridos, cobertos por luvas pretas, como que a desafiar Diogo. Este fez exactamente o mesmo gesto no seu pendente, sentindo a espada negra que viera substituir a adaga, aquecer nas suas mãos. Subitamente esqueceu-se dos amigos, da família, do objectivo que o trouxera ali. Era como se apenas ele e Belial, ambos com os seus pendentes, se encontrassem ali para um duelo, cujo prémio final ambos desejavam mais do que qualquer outra coisa. Belial sorriu e viu o mesmo sorriso na expressão de Diogo. Estava deliciado com aquilo e Diogo sentiu o mesmo prazer percorrê-lo como um arrepio.
Partiram um na direcção do outro. O corno negro e afiado de Belial que parecia fazer parte do seu próprio braço esquerdo chocou com uma força avassaladora contra a espada de Diogo. Este quase vacilou com o embate, mas no último momento conseguiu empurrar Belial que fez um pequeno trejeito com os lábios como se visse naquilo uma espécie de satisfação pessoal. Diogo voltou a atacar. Sempre que o fazia, os seus olhos vislumbravam o pendente do seu adversário, mas ao contrário do que acontecera na luta contra Leviathan, em vez de sentir as suas forças rejuvenescerem, sentia uma dor latejante na cabeça que o desconcentrava por alguns segundos. Olhou directamente para Belial que sorria parecendo cada vez mais satisfeito. Endireitaram-se, sempre sem perderem o outro de vista. Levantando a sua mão direita, Belial mostrou o seu dedo indicador. Com o mesmo fez um círculo no ar em direcção ao céu. Diogo percebeu imediatamente o que iria passar-se de seguida e sorriu ao ver uma pequena tempestade de areia começar a envolvê-los formando um remoinho e prejudicando a sua visão. No entanto, sem sequer pestanejar, Diogo, invocou a água que sabia existir ali debaixo daquele terreno seco e arenoso, tal como já fizera antes para não morrer sufocado. Ao fazê-lo, sentiu o chão estremecer e logo de seguida a água invocada envolveu a areia, acabando por formar-se um novo combate entre aqueles elementos que rodeavam os seus mestres provocando um gigante remoinho de água e areia. Belial não esperou mais tempo, atacou Diogo que ripostou. O vento agressivo provocado pela água gelada e mortífera e pela areia cortante e fatal fustigava-lhes os rostos, fazia-lhes rasgões nas roupas e por mais que Diogo se concentrasse no pendente de Belial e no seu desejo obsessivo por tê-lo só para si, não estava a ajudar. Sentia as suas forças abandonarem-no. Quase que podia jurar que a água estava a regredir frente à areia de Belial. As investidas do príncipe do inferno eram cada vez mais violentas e sempre que Diogo tentava um dos seus truques, Belial parecia adivinhar cada pensamento, cada nova jogada. Diogo tentou ripostar, romper a linha defensiva de Belial, mas cada investida, cada gesto, cada tentativa de ataque parecia levá-lo à exaustão. Belial apenas se desviava dos golpes, como se aquilo o divertisse cada vez mais. Pouco mais fazia do que esperar a próxima investida de Diogo, dando-se ao descaramento de apenas se desviar alguns passos ora para a direita, ora para a esquerda.
Foi nesse momento que Diogo caiu de joelhos. Mal sentia os braços, e as pernas já não aguentavam o peso do seu corpo. Nunca se sentira tão esgotado, mal conseguia manter a espada bem segura. Algo de estranho se estava a passar. A sua visão estava a ficar turva, sentia o seu corpo tremer e até a respiração parecia demasiado complexa de executar.
- O que está a acontecer-me? – murmurou Diogo não conseguindo mais segurar a espada que caiu no chão com um baque surdo. Fixou a sua visão na espada e o medo alastrou-se quando viu a espada a triplicar. Abanou a cabeça, tentando concentrar-se, mas parecia impossível de o conseguir.
Diogo tentou captar o rosto de Belial, mas sem sucesso, não conseguia ver nada mais para além de um palmo. Esfregou a cara e o este simples gesto deixou-o sem forças. Numa última tentativa, ainda de joelhos e á mercê de qualquer ataque do seu adversário, concentrou todos os seus pensamentos no pendente, mas nesse preciso momento, todas as forças o abandonaram. O seu corpo abateu-se por completo no chão duro e coberto de grãos de areia que lhe feriram o rosto sem conseguir impedir. A espada que caíra da sua mão estava a escassos centímetros da sua mão, mas só de pensar naquele simples movimento para a agarrar parecia sugar-lhe ainda mais energia.
- Foi mais fácil do que esperava… - confessou subitamente Belial num tom triunfante – És demasiado previsível! – congratulou-se ao mesmo tempo que fazia surgir na sua mão direita a adaga que pouco antes entregara nas mãos de Diogo para ganhar a sua confiança. – Mas não te preocupes, vais morrer mais rapidamente que os teus amiguinhos. – Informou-o ao mesmo tempo que afiava a adaga na arma em forma de corno presa ao seu braço.
Diogo ouvia as palavras de Belial. Percebia que era o fim, mas nem assim conseguia deixar de pensar que iria perder a oportunidade de ficar com o pendente de Belial. Aquele brilho esverdeado era a única coisa que os seus olhos ainda conseguiam distinguir. No entanto, nem o corpo nem a mente conseguiam fazer algo para o alcançar e obter só para si.
- “Diogo…” – na sua mente Diogo ouviu chamarem por si. O tom de voz era fraco e muito distante, mas mesmo assim tinha certeza de que não estava a imaginar coisas. Se estivesse também não se importava, pelo menos podia fingir que não estava completamente só. – “Diogo…” – voltou a ouvir o seu nome e apesar de o tom de voz ser quase um murmúrio, ela tinha a certeza de que conhecia aquela voz.
- “Tânia…” – pensou para consigo Diogo.
- “Não tenho muito tempo…por isso ouve apenas o que eu te digo…” – o esforço e o sacrifício sentiam-se em cada palavra de Tânia. Diogo assentiu com a cabeça antes de se lembrar que ela provavelmente não estava a vê-lo, mas apenas a comunicar de uma forma possível entre demónios tal como já outros demónios que enfrentara o tinham feito. No entanto Tânia também não esperou por uma resposta e no seu tom debilitado prosseguiu. – “Lembras-te do que te disse sobre Belial? Ele entra no coração de qualquer um…consegue perceber o que mais se deseja…e usa isso como arma…as obsessões são a sua paixão e consegue enfraquecer o adversário fazendo-o desejar tanto algo que é capaz de morrer por isso…ele aproveita-se desse sentimento e leva-os mesmo até á morte…” – o tom de voz de Tânia passara quase a um murmúrio, o esforço usado para comunicar com Diogo estava a ser demasiado para ela, mas mesmo assim continuou – “A força que despendes para focar toda a tua atenção em algo, só o alimenta…dá-lhe forças…forças que são tuas…” – o silêncio instalou-se subitamente.
- “Tãnia? Tânia?” – Diogo ficou surpreso por sentir que implorava por continuar a ouvir a voz de Tânia. Não queria ficar ali sozinho – “Por favor volta…não me deixes sozinho…”
- “Não estás sozinho Diogo… - voltou Tânia a murmurar, mas quase num último fôlego – Nunca vais estar sozinho…Lembra-te…reconhece os teus erros, lamenta os teus pecados…renuncia a eles…Diogo…”
Nesse momento Diogo percebeu que Tânia fizera o seu último esforço para o ajudar. Diogo nem sequer estava a pensar no significado das palavras de Tânia, só queria que ela voltasse a falar com ele, que ficasse ali com ele até tudo ter acabado. Subitamente sentiu um pé obrigá-lo a virar-se de costas para o chão. O seu corpo resignou-se, mas Diogo nem se deu ao trabalho de abrir os olhos. Não queria ver o rosto de Belial momentos antes de este lhe dar o golpe final, preferia memorizar a voz de Tânia e lembrar-se do seu rosto pálido em contrates com as suas asas negras e olhos cor de mel.
Belial soltou uma gargalhada e Diogo sentiu-o aproximar-se de si.
- Não esperava que fosses chorar… - ouviu-o dizer de forma divertida - …chega a ser algo embaraçoso…também vais começar a implorar para que não te mate?
Ao princípio Diogo não percebeu a que é que Belial estava a referir-se, mas foi então que sentiu um sabor a sal entrar-lhe pelos lábios. Era uma lágrima. Percebeu que estava a chorar. Chorar não o fazia sentir qualquer dor, chegava mesmo a ser reconfortante. Outra lágrima chegou-lhe aos lábios e aquilo fê-lo lembrar-se do seu próprio pendente em forma de lágrima, a única recordação que tinha da sua verdadeira mãe, da sua mãe que para o proteger fora assassinada por Lady Lilith. Agora eram os seus pais adoptivos que tinham a sua vida ameaçada. Mas não só. Também, Sofia, Matilde, Júlio, Samuel e Tânia estavam a dar as suas vidas por ele. E a única coisa em que conseguira pensar fora no estúpido pendente. A Tânia tinha razão. Diogo sentia a raiva por si mesmo crescer dentro dele. Pusera à frente de tudo e de todos algo que não lhe trouxera bem nenhum, algo que não podia substituir os seus pais e os seus amigos. Lembrou-se dos Domingos passados com os seus pais a comer gelados até enjoarem, lembrou-se de Júlio a segui-lo para todo o lado até Diogo o aceitar como seu amigo, lembrou-se de Samuel a recebê-lo aos 6 anos no seu consultório para a primeira de muitas consultas, lembrou-se de Tânia a caminhar lado a lado com ele e a sorrir-lhe como se percebesse pelo que Diogo estava a passar e lembrou-se de Sofia, da sua testa junto á dele, pronta a revelar o seu maior segredo. Todos confiavam em si…todos dependiam de si…
- Adeus rapaz! – disse Belial no preciso momento em que Diogo abriu os olhos. A Adaga vinha na sua direcção e tudo acabou numa questão de segundos.
Os olhos negros de Belial e os olhos encarnados de Diogo fitavam-se, ambos sem expressão. Diogo continuava deitado de costa no chão e Belial estava com um joelho no chão a servir de apoio. A cabeça de Belial inclinou-se para a direita no seu gesto tão característico e logo de seguida olhou para baixo encontrando o brilho de uma espada angelical sobre a qual escorria um liquido negro. Sorriu voltando a devolver o olhar a Diogo.
- Tu existes mesmo! – murmurou Belial.
- Manda cumprimentos meus ao Leviathan no Poço sem fundo! – murmurou-lhe Diogo enterrando mais fundo a espada de Metatron no peito de Belial.
A última expressão que viu no rosto de Belial antes de este se evaporar como areia, foi puro medo.
O silêncio abateu-se naquele espaço. Diogo largou a espada que depressa desapareceu. Respirou fundo e começou a levantar-se. No preciso momento em que o fez os seus olhos depararam-se com uma luz esverdeada no chão. Fitou atentamente o pendente que tanto desejara. Baixou-se e no preciso momento em que as pontas dos seus dedos tocaram nele, uma intensa luz verde deixou-o completamente encandeado. Quando conseguiu voltar a focar o seu olhar o pendente já lá não estava. Tirou o seu pela cabeça e quando o colocou á frente dos olhos percebeu que o pendente em forma de lágrima além do tom azulado que assumira após o desaparecimento de Leviathan, agora numa outra ponta apresentava uma cor esverdeada. Fitou o objecto durante alguns segundos e lembrou-se de como passara a controlar a água. O seu olhar seguiu até ao chão coberto por areia. Voltou a colocar o pendente ao pescoço e estendendo uma mão com a palma aberta para baixo, deixou-se inundar pela energia que provinha do seu pendente. Fechou os olhos tentando concentrar-se, mas sabia que isso não era necessário, pois assim que voltou a abri-los viu o que conseguira fazer só apelando à sua vontade. Um remoinho de areia girava à sua volta e desta vez nada o magoava. Misturou um remoinho de água controlando as duas forças da natureza como se de um brinquedo se tratasse.
Subitamente ouviu um estalido e parou com a brincadeira fazendo a água e a areia caírem no chão de forma desajeitada ficando encharcado e cheio de lama.
- Parece-me que precisas controlar melhor a aterragem! - disse uma voz divertida atrás de si.
Diogo virou-se e viu Sofia ali de pé, tão perto de si que quase conseguia ouvir a sua respiração. Deixara-se distrair novamente pelo pendente. Precisava aprender a controlar-se. No entanto, aquilo que sentiu ao encontrar o pendente, nem se comparava com o turbilhão de sentimentos que despertara dentro de si ao ver Sofia com a sua luz de volta, com o seu ar trocista e com aqueles olhos cinzentos prontos para uma tempestade. Diogo tentou dizer algo divertido, inteligente, mas nada lhe veio à cabeça. A imagem de Sofia toldava-lhe os pensamentos. Sem pensar e seguindo apenas o seu impulso deu um passo em frente, pôs a mão direita à volta da cintura de Sofia, a mão esquerda no seu rosto e puxou-a para si envolvendo-a primeiro com um leve beijo para logo depois tornar o beijo mais intenso e cheio de desejo. Pensou que Sofia iria empurrá-lo e provavelmente desafiá-lo para um duelo, mas para sua surpresa não só correspondeu ao seu beijo como também revelou urgência no mesmo. Sentiu as mãos de Sofia deslizarem pelos seus braços acima, envolverem os seus ombros e puxá-lo mais para ela. Apertou-a tanto contra si que tinha medo de estar a magoá-la tal era a ânsia de tê-la nos seus braços. As suas mãos perderam-se nos seus longos cabelos negros e beijou-a sem nunca desejar parar. O sabor de Sofia era estonteante e o seu toque fazia-o sentir-se flutuar.
- DIOGO! SOFIA! – gritou uma vozinha num tom algo alarmado. Diogo abriu os olhos e percebeu que o tinha feito ao mesmo tempo que Sofia. Esta largou-o imediatamente o que resultou numa queda de cerca de um metro. Massajando a perna Diogo olhou para cima e viu Sofia em todo o seu esplendor angelical. Além de ter as asas abertas, toda ela emanava uma luz quente e reconfortante e naquele momento olhava para Diogo algo divertida. Agora ele percebia que estivera realmente a flutuar. – DIOGOOOOO! – voltou a ouvir. Forçou-se a desviar o olhar de Sofia na direcção da voz de Matilde. Viu-a ao longe a gesticular os braços com força e com alguma urgência. Observando mais atentamente viu Júlio de pé, mas virado de costas para Matilde como se estivesse concentrado noutra coisa qualquer. Mas foi só quando viu Samuel debruçado sobre Tânia é que percebeu que algo muito sério se passava.
Diogo correu o mais rápido que conseguiu na direcção dos outros. Quando lá chegou os seus maiores receios confirmaram-se. Ao contrário dos outros, Tânia continuava adormecida, sem qualquer sinal de estar a despertar.
- O que se passa? – perguntou Matilde e uma vez que ninguém respondeu, Diogo calculou que nem Samuel nem Júlio tinham uma resposta para aquilo. – Nós todos despertámos…porque é que ela não acorda?
Diogo lembrou-se subitamente do momento em que estivera quase inconsciente, da voz fraca e trémula de Tânia ajudando-o a perceber como derrotar Belial. Poderia aquele esforço todo ter feito com que ela nunca mais pudesse voltar a acordar? Teria ela dado a sua vida para dar uma oportunidade a Diogo de vencer o Príncipe do Inferno?
- Ela não respira, não sinto qualquer sinal de vida vindo dela! – informou Samuel num tom cada vez mais triste.
- NÃO! – gritou Diogo deixando-se cair de joelhos junto de Tânia – TÂNIA ACORDA! – ordenou-lhe de forma desesperada ao mesmo tempo que lhe abanava os ombros.
- Diogo ela… - começou Júlio num tom triste.
- NÃO! – voltou a gritar Diogo desta vez amparando Tânia nos seus braços – ELA DEU A VIDA POR MIM, PARA ME DAR UMA OPORTUNIDADE DE DERROTAR O BELIAL…
- Do que é que estás a falar Diogo? – perguntou-lhe Júlio.
- Quando o Belial estava prestes a matar-me, eu ouvi a voz da Tânia…ela conseguiu comunicar comigo de alguma forma, ajudou-me a perceber porque é que eu estava cada vez mais fraco e o Belial cada vez mais forte – explicou Diogo atropelando as palavras – A voz dela era quase um murmúrio…ela podia ter guardado as suas forças, mas em vez disso tentou ajudar-me… - Diogo olhava agora para uma pessoa, Sofia.
- Não me peças isso Diogo! – a voz de Sofia era quase um murmúrio.
- Por favor Sofia…tenta apenas!
- Ela é um demónio! – Sofia não percebia porque é que Diogo não estava a ver ali um grande problema – Sabes o que acontecerá se eu tentar curá-la?
- Ela é nossa amiga! – atirou-lhe Diogo.
- ELA É UM DEMÓNIO! – gritou Sofia.
- E TU TAMBÉM JÁ FOSTE UM! – Diogo arrependeu-se mal acabou de proferir aquelas palavras. Mas agora não podia voltar atrás e percebeu isso na expressão de Sofia. Não havia raiva, mas uma grande mágoa. – Desculpa Sofia, eu não queria dizer…
- Mas disseste… - o tom de voz de Sofia era agora completamente neutro. Uma nova barreira acabara de ser formada entre eles. A cor cinzenta dos olhos de Sofia nunca parecera a Diogo tão escura como naquele momento.
- Sabes que nunca te magoaria…a Tânia ela… - o olhar de Sofia cortou-lhe a fala.
Sem olhar para Diogo, Sofia concentrou-se apenas em Tânia. Baixou-se, estendeu as mãos por cima desta sem lhe tocar e fechou os olhos. Uma luz começou a emanar de todo o seu corpo libertando-se pela ponta dos seus dedos e envolvendo o demónio adormecido. Uma ruga surgiu na testa de Sofia. Seria tarde demais? Pensou Diogo percebendo que estava a ser mais demorado e mais difícil para Sofia do que das outras vezes em que a vira fazer o mesmo. Quando começou a acreditar que era tarde demais, Tânia mexeu os olhos como se estivesse a despertar. Sofia parou o que estava a fazer, mas manteve-se de olhos fechados e na mesma posição durante mais um minuto, como se ela própria estivesse a recuperar forças. De seguida abriu por fim os olhos. Olhou para Tânia observando-a com atenção e murmurou para ninguém em particular.
- Ela está bem… - sem mais nenhuma palavra levantou-se lentamente, virou costas a Diogo que continuava a segurar Tânia nos braços e começou a afastar-se. De repente pareceu desequilibrar-se, mas Samuel segurou-lhe no braço amparando-a. Murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido e em resposta Sofia afastou-o com um movimento brusco. Esse movimento foi o suficiente para nesse preciso momento Diogo ver a mudança que acontecera com as asas de Sofia. Bem nas omoplatas onde começavam as asas de Sofia, o branco translúcido de cerca de meia dúzia de penas, mudara para um negro igual ao das asas de Tânia. O cabelo de Sofia voltara a cobrir aquela zona, mas a imagem do contraste entre a cor daquelas penas e o resto das asas cravara-se, a ferro e fogo, na mente de Diogo.
Tânia mexeu-se e abriu os olhos. Viu Diogo e sorriu-lhe, voltando logo a seguir a fechar novamente os olhos, caindo num sono profundo. Tânia estava bem e isso deixava Diogo aliviado, mas sabia que o que pedira a Sofia tinha sido demasiado. Continuou a vê-la afastar-se sempre de costas voltadas. Lembrou-se do que acontecera entre eles momentos antes. Aquele beijo parecia ter sido à uma eternidade, numa outra vida. O que implorara a Sofia para fazer tinha-a fechado novamente e sabia que com aquilo havia criado uma muralha entre eles.
- Lilith… - murmurou subitamente Tânia.
Diogo olhou para ela. Continuava de olhos fechados, mas parecia ansiosa, nervosa.
- Tânia?! O que foi que disseste? – perguntou-lhe Diogo quase num murmúrio. Nesse preciso momento Tânia abriu os olhos. Não olhava para Diogo nem para nada em específico, mas o que Diogo viu no seu olhar deixou-o apreensivo e com um mau pressentimento.
Pouco a pouco o olhar de Tânia focou-se no de Diogo.
- Lilith…Lady Lilith vem a caminho… - disse de forma verdadeiramente alarmada, ao mesmo tempo que apertava o braço de Diogo com uma força sobre-humana – Está quase a chegar!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Infinitas Desculpas!

Lamento informar que não tenho mais nenhum capítulo terminado...o tempo tem sido escasso, mas prometo que publicarei o próximo capítulo o mais rapidamente possível! Espero que estejam a gostar! Até breve e boas leituras!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

2º Volume: Capítulo 8 - Um Novo Exército

Diogo, juntamente com Sofia, bem agarrada à sua mão, impulsionou a saída de ambos. Atirando lama para todo o lado, assim que chegou à superfície, largou a mão do anjo, vislumbrou Belial e atirou-se a ele. Apanhado de surpresa, Belial não teve tempo de reagir e subitamente tinha uma arma apontada ao seu coração, ou pelo menos onde Diogo julgava poder encontrar um. Se os seus amigos mostraram surpresa pelo seu regresso à superfície, Diogo não reparou. Naquele momento tinha apenas olhos para Belial que além da surpresa, mostrava receio ao encarar o olhar e a espada empunhada por Diogo.
- Essa é a espada de Metatron! – reparou Belial de olhos arregalados – Tu és capaz de…. – Diogo não o deixou terminar a frase ao mesmo tempo que lhe fazia um buraco com a ponta afiada da espada nas roupas negras de demónio.
- Agora liberta os meus amigos! – o tom usado por Diogo não revelava nada mais além de uma ordem impossível de regatear. – Um anjo caído pode ser morto por um demónio ou um anjo portador de uma arma angelical…como podes ver eu reúno todas os requisitos e não tenho medo de usar esta espada…já a usei uma vez e se tiver de mandar mais um para o Poço Sem Fundo…é isso que farei – ameaçou Diogo lembrando-se do local que Belial referenciara quando Diogo lhe revelara que fizera Leviathan desaparecer.
- Calma rapaz, podemos conversar… - tentou Belial, mas apenas sentiu a espada de Metatron penetrar mais nas suas roupas.
Sem outra alternativa Belial estalou novamente os dedos. Diogo desviou o seu olhar apenas o suficiente para se certificar que as jaulas e os soldados que aprisionavam os seus amigos tinham desaparecido. Assim que viu Samuel no seu anglo de visão toda a sua atenção voltou para Belial.
- Como é que conseguiste? – perguntou-lhe Belial, observando Diogo que se encontrava todo coberto de lama, e como se ele fosse um fantasma.
- Surpreso? – perguntou enquanto um sorriso muito parecido como o de Belial surgia nos seus lábios – Não posso dizer que também não tenha ficado algo surpreendido quando percebi que a água me obedecia. – Estas palavras chocaram mais Belial do que a espada apontada ao seu coração.
- Então é verdade… - murmurou e o medo passou-lhe pela luz dos olhos – Tu realmente existes…a lenda é verdadeira! Não é possível…jamais…
- E lá estão vocês a dar-lhe com a lenda! – comentou Diogo aborrecido.
- Tu não conheces a lenda? – pela primeira vez Belial mostrava-se verdadeiramente surpreendido. – Não sabes nada sobre aquele que terá o destino do Céu e do Inferno totalmente nas suas mãos? – o olhar interrogativo de Diogo deu-lhe a resposta. – Inacreditável! - Belial parecia já nem ligar à espada que Diogo lhe apontava apesar de continuar sem se mexer um único milímetro. Para surpresa do seu adversário, Belial sorria. Diogo recordou aquele mesmo sorriso de Leviathan, tão misterioso e ao mesmo tempo tão revelador de algo que Diogo não conseguia atingir.
- Porque é que ris? – perguntou-lhe.
- Eu posso explicar-te… - propôs-lhe Belial – Basta deixares-me mostrar-te uma coisa… - Belial revelou a sua intenção de querer, com a sua mão direita, ir buscar qualquer coisa que estava coberta pela sua camisa. Para que Diogo percebesse que não era um truque fê-lo muito lentamente e sem desviar o olhar.
Diogo deixou-o prosseguir. Não percebeu porque o estava a permitir, mas havia algo mais forte do que a sua própria vontade, que o impelia a querer ver o que estava escondido por baixo daquela camisa. Sentiu a espada de Metatron começar a ficar mais pesada, mas não lhe deu importância. Queria, subitamente com todo o seu ser, com todas as suas forças, ver o que Belial estava prestes a mostrar-lhe. O que viu fez o seu coração acelerar loucamente. Sentiu novamente aquele desejo, aquela necessidade, aquela urgência de possuir o objecto que o príncipe lhe mostrava com um sorriso triunfante. Preso por um fio ao pescoço de Belial, estava um pendente igual ao seu e ao de Leviathan, com a única diferença de que o deste demónio da terra apresentava uma cor esverdeada. Diogo queria aquilo mais do que qualquer outra coisa. Era a mesma ambição, a mesma cobiça desenfreada, que sentira pelo pendente de Leviathan. Tinha de ser seu. Tinha de o ter, nem que para isso fosse necessário esquecer tudo o resto. Subitamente o seu próprio pendente surgiu à vista de Belial. Como se tivesse vontade própria, libertou-se da t-shirt de Diogo e revelou-se perante o outro pendente em forma de lágrima. Era como se, tal como Diogo, também almejasse aquele outro pendente que não largava o fio preso ao pescoço do seu príncipe.
Diogo apercebeu-se mais tarde do que Belial que já não tinha nas mãos a espada de Metatron, mas sim a Adaga que pertencia àquele que seria o seu verdadeiro pai.
- Então é ele o teu verdadeiro pai! – murmurou Belial olhando de uma forma ensandecida para a Adaga nas mãos de Diogo. – Ele conseguiu…
Diogo ainda olhou de forma interrogativa para Belial, mas a sua obsessão pelo pendente era tão grande que o impedia de pensar como um verdadeiro adversário. Quando o percebeu, já Belial voltara a esconder o pendente por entre as suas vestes e estalara novamente os dedos. Diogo sentiu todo o chão começar a tremer. O tremor de terra era tão forte que se viu obrigado a largar a Adaga que caiu no chão desaparecendo de imediato enquanto sem qualquer equilíbrio tentava aguentar-se em pé. Belial já desaparecera de vista e apenas um pensamento invadia a sua mente “Para onde é que ele levou o pendente?”. Desorientado, Diogo só se deu conta do perigo que corria quando uma enorme racha no chão avançou a toda a velocidade na sua direcção. Incapaz de manter o equilíbrio, não conseguiu desviar-se daquele enorme buraco a que a fenda dera lugar e o pânico tomou conta de si no momento em que sem conseguir segurar-se a nada, percebeu que estava a cair naquele buraco escuro e infinito. No último momento segurou-se à beira do enorme abismo que tinha debaixo de si, mas os seus dedos, devido à areia, começavam a escorregar sem conseguirem suportar o seu peso. Voltou a tentar subir, mas era impossível. Estava a escorregar cada vez mais. Era impossível. As suas mãos já doridas não aguentaram esta derradeira tentativa…
Foi então que quando perdeu toda a esperança Diogo sentiu duas fortes mãos segurarem-no, impedindo-o de continuar a cair. Olhou para cima e esqueceu tudo. Esqueceu o pendente, esqueceu a angustia, esqueceu os seus pais, esqueceu o abismo…Diogo olhava agora para a cara escura e coberta pelos compridos cabelos brancos de Júlio, que com uma expressão de esforço puxava Diogo para cima, completamente revigorado, cheio de força e com um brilho satisfatório no olhar. Refeito da surpresa, Diogo auxiliou Júlio. Com um último esforço, Diogo conseguiu voltar a sentir-se seguro em terra firme. O tremor de terra já parara, tudo estava calmo, mas sentia-se tão exausto que tanto ele como Júlio caíram de costas no chão duro respirando de forma ofegante.
- Não sabias resolver tudo enquanto eu descansava, pois não? – comentou de repente Júlio voltando a sentar-se com um enorme sorriso na cara. – Isto de estar sempre a salvar-te a pele já está a tornar-se um hábito!
Diogo não disse nada. Sentiu invadir-se por uma alegria tão grande que não resistiu a abraçar o amigo totalmente curado. Júlio correspondeu ao abraço divertido.
Para lá de Júlio, Diogo viu todos os seus amigos. Samuel, Sofia, Tânia e Matilde, esta última completamente mudada. Com um sorriso enorme correu até eles evitando as fendas, logo seguida pelos restantes.
- Diogo, Diogo, o Júlio está curado! – anunciou Matilde, apesar do óbvio.
- Se tu não consegues matar-me de cansaço e irritação, mais ninguém o consegue! – atirou-lhe Júlio olhando divertido para Matilde que com os olhos muito arregalados não conseguia parar de saltitar no mesmo lugar.
- Pensámos que estava tudo perdido quando tu e a Sofia desapareceram debaixo daquela areia! – começou a contar Matilde acompanhada por gestos efusivos que obrigaram Tânia e Samuel a desviar-se  - O Samuel quase que se ia matando dentro da jaula dele…o Júlio já nem respirava, a Tânia ainda conseguiu livrar-se de um dos guardas, mas apareceu logo outro igual que a castigou…e depois tu apareceste novamente com a Sofia atrás….primeiro pensámos que era mais um dos truques de Belial, mas então tu apontaste-lhe a arma, obrigaste-o a soltar-nos e a Sofia foi logo a correr para o Júlio e apesar de ter demorado mais do que o habitual, ela conseguiu trazer o Júlio de volta e…
- Que tal respirares um pouco Matilde – aconselhou-a Júlio – Lá porque a Sofia restaurou todas as minhas forças isso não significa que eu tenha agora algum tipo de escudo contra as dores de cabeça que se sucedem com demasiada frequência ao teu lado.
Aquele comentário deixou por momentos Matilde baralhada. Mas o que se seguiu apanhou Júlio completamente de surpresa.
- Diogo devíamos ficar atentos… - disse Sofia quebrando o ambiente descontraído que tinha surgido e chamando-os à realidade - O Belial vai voltar com reforços, devíamos posicionar-nos…não me admirava nada que ele nos enviasse o seu exército até voltar a querer estar frente a frente contigo…assim sendo tu e o Samuel deviam permanecer juntos, o Júlio e a Matilde formar igualmente uma equipa e eu e a Tânia outra…assim ninguém nos ataca pelas costas.
- Tens toda a razão, vamos fazer como dizes, mas quero que se mantenham todos o mais próximo possível uns dos outros – disse Diogo voltando a ficar igualmente sério – A principal táctica de Belial é fazer-nos acreditar que estamos sozinhos, acreditando que todos são traidores, não o permitam. Convém também que…
- Calma, calma, calma! – ordenou subitamente Júlio verdadeiramente alarmado – Eu estou a ouvir bem? Eu estou a ouvir a Sofia a dizer que vai formar uma dupla com a Tânia? Eu estou realmente a ver o Diogo e a Sofia a concordarem um com o outro? – o tom de alarme na voz de Júlio ia crescendo cada vez mais – Samuel faz já uma das tuas citações ou eu vou começar a achar que vocês todos não são quem dizem ser…
- “Qualquer coisa que encoraje o crescimento de laços emocionais tem de servir contra as guerras” Sigmund Freud. – citou Samuel sorridente.
- O que raio é que eu perdi? – perguntou Júlio mais para si do que propriamente para obter uma resposta. Percebendo, no entanto, que Matilde ia principiar um novo discurso sobre tudo o que tinha acontecido concluiu – Deixa lá…posso viver na ignorância!
Subitamente todos começaram a sentir o chão voltar a tremer, mas desta vez de forma muito menos violenta.
- O que é que está a acontecer? – perguntou Diogo que olhava para o chão. Ninguém lhe respondeu e ao voltar ao olhar para os restantes, vendo-lhes o alarme estampado na cara, seguiu-lhes o olhar.
Parecia estar a formar-se toda uma nova tempestade de areia, no entanto, muito mais próxima ao chão.
- Mas vocês ainda não resolveram a questão das tempestades de areia? – queixou-se de repente Júlio – De que adianta estar inconsciente, se quando acordo parece que estou a viver um déjà vu?
- Aquilo não é uma tempestade de areia… - murmurou ao seu lado Tânia.
Ninguém disse mais nada. Todos se limitaram durante alguns instantes a observar o “espectáculo” de terror que se formava à frente deles. Aquilo que Júlio achara tratar-se de uma nova espécie de tempestade de areia, mais não era do que uma quantidade infindável de soldados de areia que iam surgindo como se fossem ilimitados. Surgiam como um pequeno remoinho de areia que ia ganhando uma forma mais humana, iguais aos que já haviam enfrentado mas agora num número incontável. Possuíam armaduras, armas e escudos de madeira e as suas formas humanas era delineadas por várias camadas de grãos de areia. Formavam um exército pronto para uma guerra contra seis adversários, dois deles, Diogo e Júlio, de boca aberta a olhar para aquilo.
- Claro que isto tinha de sobrar para mim! – Lamentou Júlio respirando profundamente de forma pesarosa. Mas, logo de seguida ao mesmo tempo que apanhava do chão um dos seus preciosos machados que ali devia ter deixado cair para impedir que Diogo caísse no abismo, revelou toda a sua postura de combate, pronto para uma guerra. – Vamos então a isto! Caíram no erro de me deixarem apenas inconsciente…pois eu não vou cometer o mesmo erro!
- Tentem aguentar o mais que puderem – pediu-lhes Diogo – Belial virá atrás de mim, mas desta vez eu vou estar preparado. – ao dizer estas palavras Diogo levou a mão ao peito onde sentiu o pendente por baixo da t-shirt.
- Como é que tens tanta certeza? – perguntou-lhe Tânia.
- Ambos temos algo que o outro deseja! – murmurou Diogo confiante, fazendo com que olhassem para si interrogativamente, à excepção de Sofia e Samuel que mantiveram o olhar fixo no exército.
- Ei Júlio, tu disseste que se alguma vez o Diogo e a Sofia concordassem em algo, cortarias o teu cabelo! – lembrou-se de repente Matilde esperançosa e com o maior dos seus sorrisos, quebrando o silêncio incómodo que se instalara.
- Exijo outro parceiro de batalha! – declarou automaticamente Júlio verdadeiramente alarmado com a memória de Matilde – Não há condições! – Matilde mostrava-se confusa com aquela reacção, mas não houve tempo para mais conversas, os soldados de Belial iniciavam, naquele momento, uma corrida na direcção deles.
Diogo invocou a espada de Metatron, Sofia as suas espadas de duas lâminas, Samuel a sua foice tamanho gigante, Matilde a sua besta e Tânia os seus punhais, três em cada mão presos ameaçadoramente entre os dedos.
- É agora! – murmurou Júlio empunhando o seu machado preferido e certificando-se que tinha outro preso às costas com uma fivela de pele. Automaticamente todos se aproximaram dos seus parceiros de luta.
Diogo nunca pensou ver Sofia e Tânia aproximarem-se uma da outra com a intenção de lutarem em equipa e protegerem-se mutuamente. Mas ali estavam elas a trocar um olhar entre si que mostrava estarem prontas. Diogo sabia que para Sofia aquilo era um sacrifício, logo tinha de lhe dar todo o mérito que lhe era merecido. Estava a esforçar-se e com determinação. Sofia olhou na sua direcção naquele preciso momento. Sentindo-se apanhado a fazer algo que não devia, Diogo esboçou um sorriso que acreditou ser completamente ridículo, mas que, infelizmente, já não podia retirar. Mas o que se seguiu ainda o fez sentir-se pior, pois Sofia olhava para ele como se ele estivesse com algum problema facial, voltando logo de seguida a concentrar-se nos seus atacantes.
- Algum problema Diogo? – perguntou-lhe Samuel ao seu lado.
- Além de um batalhão que se dirige na nossa direcção? – murmurou-lhe Diogo desviando o olhar de Sofia. – Ainda podemos ter alguma esperança Samuel?
- Se não houvesse esperança, neste momento não estaríamos aqui à espera de enfrentar um exército que se multiplica a cada palavra que proferimos – disse-lhe Samuel de olhos fixos nos soldados que estavam cada vez mais próximos.
Ali estavam todos. Novamente prontos para uma batalha. Diogo sabia que eles ficariam ao seu lado, ignorando qualquer tentativa da sua parte para os impedir. Mas também sabia que naquele momento todos estavam a depositar esperança em algo que ele não podia garantir-lhes. Leviathan tinha vindo ao seu encontro e a batalha terminara quando ele o fizera desaparecer. Tinha a certeza de que Belial viria à sua procura, os pendentes eram tão preciosos para um como para outro. Mas conseguiria fazer-lhe frente como fizera a Leviathan? Diogo acreditava que apenas tivera sorte frente ao príncipe da água e duvidava que aquilo voltasse a repetir-se. O mesmo raio não costumava cair no mesmo sítio duas vezes. Diogo percebeu que estava com medo. Medo de falhar, medo de não conseguir fazer algo pelos seus amigos, pelos seus pais…medo do próprio medo que se apoderava de cada célula do seu corpo.
- “O medo faz parte da nossa vida. Algumas pessoas não sabem como enfrentá-lo, outras…aprendem a viver com ele e encaram-no não como uma coisa negativa, mas como um sentimento de auto preservação” – murmurou Samuel ao seu lado, como se percebesse pela expressão de Diogo o que se passava dentro de si.
- Posso saber quem disse tão profunda frase? – perguntou Diogo sentindo-se mais descontraído, coisa que só Samuel conseguia proporcionar-lhe em momentos daqueles. Este fez uma pausa solene antes de fazer a revelação.
- Ayrton Senna! – revelou-lhe por fim Samuel divertido fazendo com que Diogo soltasse uma gargalhada sonora.
- Vejo que partilham do mesmo humor aqui da Matilde… – a voz de Júlio chegou-lhes do lado direito. Viram-no olhar de forma reprovadora para Matilde que continuava completamente descontraída perante a aproximação dos oponentes, como se para ela só o facto de estarem ali todos novamente juntos fosse o suficiente para a deixar feliz – Quantos parafusos terá ela a menos? – murmurou Júlio a Diogo que lhe encolheu os ombros, ainda divertido.
- Preparem-se! – ouviram vindo de Sofia do lado esquerdo.
O chocar das armas foi menos sonoro do que Diogo esperava. As mortais armas de madeira dos soldados de Belial abafavam quase todo o som. Vislumbravam-se todo o tipo de delas, mas todas feitas do mesmo material. Era uma multidão sem qualquer tipo de expressão, completamente apática, que os atacava ferozmente. Diogo e Samuel defendiam-se e atacavam com destreza, formando uma equipa com movimentos muito bem coordenados e com uma troca de olhares que tanto um como outro sabiam interpretar instintivamente. Diogo atacava, defendia-se, voltava a atacar, desvia-se das investidas dos seus oponentes. Nenhum som provinha destes, a não ser o pouco que as suas armas produziam. Eram igualmente fortes e impressionantemente rápidos.
Com a espada de Metatron, Diogo começava a sentir novamente as suas forças a crescerem dentro de si. Tornava-se cada vez mais rápido, mais mortal, mais intimidador. Eram poucos os que conseguiam invadir o seu espaço de forma mais ameaçadora. Confiante, olhou para a luta travada ali perto por Sofia e Tânia. Ao contrário dele e de Samuel, ambas as duas tinham as suas asas abertas fazendo contrastar o branco verdadeiramente luminoso da primeira e o preto mais escuro que a noite da segunda. Com aquela fusão de cor, elas eram igualmente impressionantes de ver. As duas conjugavam rapidez e destreza. Seguiam os movimentos uma da outra como se fossem uma só. Desferiam golpes em conjunto, respeitavam o espaço necessário da outra e auxiliavam sempre que era preciso.
Satisfeito com o resultado daquela equipa, Diogo voltou a conseguir, com toda a velocidade, voltar a livrar-se de novas investidas, juntamente com Samuel que manejava como ninguém aquela magnifica arma que transportava e que lançava em todas as direcções, conseguindo muitas vezes livrar-se de mais de um soldado ao mesmo tempo. Costas com costas, ambos se movimentavam como siameses. Desta vez, Júlio e Matilde entraram no seu campo de visão. Também eles formavam um duo perfeito. Matilde, com as suas enormes asas abertas, disparava setas por todo o lado e muitas vezes fazia investidas com a própria besta. Já Júlio manuseava com mestria os seus dois machados. Nenhum soldado conseguia aproximar-se deles. Viu-os sorrir entre si e murmurarem qualquer coisa como se fossem duas crianças travessas, voltando ao combate logo de seguida. Matilde não perdia o sorriso e até parecia divertida.
Tudo aquilo deu ainda mais ânimo a Diogo que voltou a concentrar-se com uma determinação renovada. Não sentia qualquer perigo vindo dos seus atacantes, sentia-se superior a eles. E foi isso que começou a deixá-lo nervoso. Lembrava-se dos soldados que os tinham atacado no reino de Leviathan. Nessa altura todos tinham estado realmente em completa desvantagem, não só numérica, mas também com sérias dificuldades em fazer-lhes frente. Belial demonstrara uma força e esperteza superiores às de Leviathan. Algo não batia certo. Tânia explicara-lhe que cada soldado era formado pelas almas dos pecadores sendo todos eles, todo um conjunto de pura maldade. Não fizera qualquer distinção entre os soldados dos diferentes reinos. Seria normal que uns se revelassem mais fortes que outros?
- Samuel, não estás a achar demasiado estranho estarmos a sair-nos tão bem? – perguntou-lhe Diogo livrando-se facilmente de três atacantes.
- Já pensei nisso… - revelou-lhe Samuel com a mesma destreza – Não faz sentido. Não estão a criar-nos qualquer dificuldade, é como se estes soldados tivessem ordens para não nos ferirem mortalmente. – explicou enquanto lutava.
- É como se quisessem apenas…cansar-nos – concluiu de repente Diogo cada vez mais incomodado.
Foi ao pronunciar estas palavras que tudo mudou. Subitamente todos os soldados se desvaneceram numa nuvem de areia que caiu no chão com um baque surdo. O silêncio era total. Olharam todos uns para os outros com expressões interrogativas, mas preparados nas suas posições para o que pudesse seguir-se. No entanto, nenhuma preparação lhes valeu para o que se seguiu.
Diogo assistiu a tudo incapaz de fazer alguma coisa para ajudar os seus amigos. Não houve gritos, não houve pedidos de socorro. Ao inicio penas olhares inquiridores e logo depois viu-os a todos caírem de joelhos no chão, agarrados ao peito. Não tinham forças, não conseguiam respirar. As suas expressões começavam apenas a revelar uma total apatia, era como se estivessem a ser privados de todos os seus sentidos. Como uma encenação, Diogo viu-os cair a todos no chão como se de pedras se tratassem. Sem qualquer possibilidade de se movimentarem, de reagirem, de se defenderem do que quer que estivesse a acontecer-lhes. Continuavam todos de olhos abertos, mas era como se nada estivesse para lá daquele olhar sem emoção, sem vida.
Diogo, caindo igualmente de joelhos ao lado de Samuel, abanou-o, chamou por ele, ordenou-lhe que se levantasse, mas nada aconteceu. Nem uma resposta, um gemido…nada.
- SAMUEL… - gritou-lhe Diogo com o desespero bem patente na voz. Continuou sem obter qualquer resposta.
Diogo olhou à sua volta. Júlio, Matilde, Samuel, Sofia e Tânia encontravam-se todos no chão, completamente imóveis e de olhar apático, indiferentes ao seu desespero e aflição. Percebia que não estavam mortos, pois Samuel tinha pulsação. Mas então o que é que se passava?
- Agora nós! – uma voz chegou até Diogo. Era fria e triunfante. Diogo olhou na direcção em que a mesma provinha. Encontrou Belial, com a sua postura gloriosa, o seu tão característico inclinar de cabeça e o sorriso dissimulado nos lábios. – Ambos queremos a mesma coisa. – disse-lhe retirando o pendente de dentro da camisa e deixando-o à mostra – Vamos então ver do que és capaz sem os teus amigos!
- O que é que lhes fizeste? – perguntou-lhe Diogo esforçando-se por não se concentrar apenas no pendente de Belial.
- Oh nada de especial…apenas um pequeno truque, um dos meus preferidos, devo acrescentar, que os faz acreditar fielmente terem perdido todos os sentidos – revelou-lhe deliciado – Um truque que daqui a algum tempo começa a tomar proporções algo desastrosas…
- O que queres dizer com isso? – perguntou Diogo levantando-se, pois até então tinha estado ajoelhado ao lado de Samuel.
- Vejamos como posso explicar… - Belial não podia mostrar-se mais satisfeito - Quanto mais tempo permanecerem assim, mais mortal se vai tornar este pequeno truque. - O seu olhar era agora todo um júbilo pelo que ia obrigar Diogo a ouvir. - E lamento informar, mas nem os anjinhos da categoria deles conseguem lutar contra essa inevitabilidade.
Diogo olhou novamente à sua volta desesperado com a possibilidade de os perder a todos. Sentia-se novamente sozinho, mas desta vez era muito pior, pois sabia que se não fizesse algo, todos eles morreriam igualmente sozinhos e fechados naquele sofrimento do qual não conseguiam escapar e que o seu corpo apenas reconhecia como um sinal inevitável de um desfecho fatal. Sem poderem lutar, retaliar ou apenas defender-se. Tudo isso lhes fora vedado, apenas lhes restando esperar pela morte.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

2º Volume: Capítulo 7 - Uma Ideia e um Passado

Diogo e Sofia olhavam um para o outro sem saberem o que fazer. Não trocavam nenhuma palavra, mas Diogo percebia o que, naquele momento, passava na cabeça do anjo virtude. Não podia acabar assim. Não podia ser aquele o fim dos dois. Que forma tão estúpida para morrerem. No entanto, por mais que tentassem espernear não conseguiam lutar contra as raízes que agarravam os tornozelos de ambos, reduzindo-lhes as forças. Também deviam ser as mesmas raízes que estavam a impedi-los de invocarem armas que pudessem ajudá-los. Por mais que Diogo pensasse em cordas, nada surgia à sua frente. Além disso toda aquela areia impossibilitava-lhes os movimentos, cada parte do corpo soterrada, parecia enterrada em cimento. Diogo já vira as areias movediças nos filmes. Engoliam as pessoas, enterrando-as vivas. Sempre pensou que aquilo era um exagero, mas ali tinha ele a prova. Mal conseguia movimentar-se e cada movimento só fazia avançar ainda mais o processo. Sentiu-se afundar mais um pouco. Ele e Sofia levantaram os braços ao mesmo tempo de forma a mantê-los na superfície. Sem saberem muito bem o que fazer com os braços, em simultâneo, esticaram-nos na direcção do outro e seguraram-se mutuamente, colocando as mãos nos ombros de cada um.
- Estou aberto a sugestões. – brincou Diogo olhando esperançado para Sofia. Esta sorriu-lhe mas apenas lhe apertou um pouco mais os ombros.
Samuel continuava na sua luta contra a jaula que o aprisionava. Tânia mal podia mexer-se. Júlio mantinha-se inconsciente e Matilde estava pela primeira vez sem ideias e sem palavras. Belial apareceu subitamente no seu campo de visão.
- É uma pena que tenha de acabar assim, podias ser-me muito útil… - disse-lhe com o seu tão característico inclinar de cabeça – Mas o que se há-de fazer…serias sempre um insubordinado e eu há muito tempo que deixei de ter paciência para crianças! – de repente sorriu como se tivesse acabado de ter uma ideia brilhante – Para não dizeres que não sou atencioso, vou deixar os teus amigos assistirem à vossa morte e só depois acabar igualmente com eles…
- És louco! – atirou-lhe Sofia – O que é que ganhas com tudo isto?
- Um belo espectáculo! – respondeu-lhe Belial com toda a calma e virando-lhe as costas, logo depois de apanhar a sua Adaga do chão.
- Diogo temos de fazer alguma coisa – exigiu-lhe Sofia com aquela tempestade que descrevia o seu olhar. Algo despertou dentro de Diogo perante o brilho exigente dos olhos de Sofia. Uma esperança…
- Os teus olhos! – foi apenas o que lhe disse.
- O que têm? – perguntou-lhe ao mesmo tempo que os braços de ambos já estavam praticamente submersos.
- O lago de Leviathan… - continuava Diogo como se estivesse a juntar peças de um puzzle.
- Diogo não estás a dizer coisa com coisa… - fez-lhe notar Sofia como se achasse que aquele momento já estava a afectar-lhe o cérebro.
- Isto são areias movediças… - continuou como se estivesse a fazer uma grande descoberta.
- Diogo…estás bem? – Sofia começava a desesperar.
- ISTO SÃO AREIAS MOVEDIÇAS! – gritou Diogo de repente sorridente.
- EU SEI QUE SÃO AREIAS MOVEDIÇAS…E ESTAMOS A SER ENGOLIDOS POR ELAS! – Sofia já estava a perder a paciência.
- Não estás a perceber… - Diogo continuava com o mesmo ar apalermado.
- Diogo estás a assustar-me… - Sofia já não olhava para ele. Desesperada procurava algo à sua volta.
- As areias movediças são feitas de areia e água…
- DIOGO EU NÃO ESTOU PRÓPRIAMENTE INTERESSADA NUMA AULA SOBRE AREIAS MOVEDIÇAS! – Sofia parecia agora mais desesperada com a lucidez de Diogo do que com o facto de os seus braços já não estarem à vista. – CASO NÃO ESTEJAS A REPARAR EM BREVE JÁ NÃO CONSEGUIREMOS SEQUER FALAR…
- ABRAÇA-ME! – gritou-lhe Diogo.
- O QUÊ? – Sofia já não conseguia deixar de gritar devido ao pânico de estar prestes a ficar soterrada numa questão de escassos minutos, se tanto.
- CONFIA EM MIM…ABRAÇA-ME! – Diogo estava a usar todas as suas energias para puxar Sofia para si. A areia estava a ser um obstáculo quase impossível de ultrapassar, mas assim que Sofia começou a fazer o mesmo sentiu que era possível.
Por fim estavam perto o suficiente para que Sofia o pudesse abraçar. A areia já lhes dava pelo queixo quando com um último esforço que a deixou de rastos Sofia conseguiu puxar os seus braços para cima até os ter à volta do pescoço de Diogo. Este por sua vez já estava a prendê-la pela cintura nas profundezas das areias. Sofia olhou para Diogo que fez o mesmo. Estavam tão perto um do outro que conseguiam sentir as suas respirações cada vez mais ofegantes. Sofia parecia perguntar com os olhos o que significava tudo aquilo.
- Confia em mim…não tenhas medo! – pediu-lhe num murmúrio Diogo - Mas no caso de nada acontecer…quero que saibas que acredito na tua lealdade e que não importa o que já fizeste um dia…para mim és apenas a Sofia, a miúda mais teimosa, refilona e impertinente que eu alguma vez conheci…a única capaz de me tirar do sério só com um olhar, mas a quem eu confiaria sempre a minha vida!
Sofia parecia preparar-se para dizer algo, mas antes que o pudesse a areia movediça afundou-os mais um pouco cobrindo-lhes a boca. A última coisa que Diogo viu antes de fechar os olhos foram os olhos cinzentos mais serenos que alguma vez viu em Sofia. Ela confiava nele, mesmo sem saber o que lhe passava pela cabeça. Sentiu-a apertar-se contra si e o raspar do seu cabelo na sua cara, formando um abraço.
Ele próprio não tinha qualquer certeza da pequena esperança que se apoderara do seu coração. A sua ideia podia não resultar, mas de momento não tinha nenhuma melhor. Apesar de aquilo o arrepiar e repugnar mais do que tudo, tinha de tentar. De olhos fechados e sustendo a respiração assim que sentiu a areia cobrir-lhe o rosto lembrou-se do momento em que perto do lago de Leviathan tinha dado origem àquela onda gigante que fora embater nas rochas após um simples movimento do seu braço. Podia ter sido uma coincidência, mas algo lhe dizia que não. Tentou lembrar-se do que pensara naquele momento. Quisera afastar aquela sensação estranha de ter o braço debaixo de água sem que a mesma lhe tocasse. No entanto, agora, o que queria era chamar a água até si. Em pensamento chamou-a. Sentia-se ridículo, mas não sabia mais o que fazer. Não aconteceu nada. Então lembrou-se do pendente, do pequeno brilho azul que o mesmo agora ostentava. Ao mesmo tempo todos os seus pensamentos começaram a convergir apenas para um…água. Apertou ainda mais Sofia contra si e deixou que o seu pensamento o guiasse. Subitamente sentiu a água. Não a via, mas tinha certeza que a água o alcançara. Era quente, era convidativa, era…obediente. Diogo, naquele momento, teve a certeza de que podia fazer tudo o que quisesse…a água ser-lhe-ia totalmente submissa.
“VEM” – gritou dentro de si. Foi instantâneo. Numa questão de segundos, Diogo deixou de sentir a areia. Estava agora totalmente submerso em água. Sofia continuava agarrada a si. Sentiu-a afastar-se e viu-lhe nitidamente os olhos. Sabia que ela também conseguia vê-lo bem, mas o seu olhar desviou-se para o pendente que flutuava à frente dos dois, no fio que Diogo trazia preso ao pescoço. Brilhava como se tivesse vida. Diogo voltou a olhar para Sofia. Sem querer, devido ao choque do que presenciava, Sofia deixou escapar algum ar. Diogo sobressaltou-se com aquilo e Sofia percebeu que ele estava na eminência de os levar aos dois para cima, mas impediu-o, prendendo-lhe ambas as mãos nas suas. Com um movimento leve e delicado levou as suas mãos até à face de Diogo e aproximou-se dele. Assim que encostou a sua testa à de Diogo ele só viu um grande clarão.
Diogo já não estava debaixo de água e também não tinha Sofia à sua frente. Estava num grande salão, um salão com uma decoração muito típica do século XVIII ou XIX. Espaçoso, com cores quentes e todo ele iluminado por centenas de velas, posicionadas em zonas muito especificas cujas sombras tornavam tudo ainda mais majestoso. Olhou para trás. O salão estava cheio de gente. Homens e mulheres de toda uma outra época. Conversavam animadamente, riam e dançavam ao som da música que provinha de…flautas. Diogo seguiu a música. Ninguém parecia reparar nele e no momento em que sem querer chocou contra uma mulher de vestido volumoso, percebeu que nem lhe tocara atravessando-a como se de um fantasma se tratasse. Era uma memória, concluiu mesmo sem saber de onde lhe vinha aquela certeza. Aproximou-se de uma espécie de orquestra, composta por homens e rapazes, todos eles vestidos da mesma maneira. A mesma camisa branca, o mesmo lenço branco à volta do pescoço, as mesmas calças escuras, o mesmo colete escuro, a mesma jaqueta igualmente escura até aos joelhos e aberta à frente. Além disso, todos os cinco músicos tinham uma flauta e tocavam maravilhosamente bem.
Subitamente começaram a tocar a mesma melodia que já ouvira duas vezes, a melodia que tinha a ver com a memória de Sofia. Olhando de forma mais atenta viu o rapaz loiro que Belial fizera aparecer em forma de miragem à frente de Sofia e deles todos. Estava a tocar de olhos fechados e entregava-se por completo à magia das notas musicais que saiam do seu instrumento de sopro. Viu-o abrir os olhos e dirigi-los apenas numa direcção. Sentada no rebordo de uma varanda a cerca de uns 10 metros de altura, estava Sofia, com a mesma túnica branca que vira anteriormente numa das suas memórias, o mesmo cabelo negro comprido e os mesmos olhos cinzentos da cor da tempestade. Apesar de ter a mesma aparência com que a conhecia, parecia a Diogo, muito mais nova e muito mais serena. O rapaz conseguia vê-la e ela sabia que ele tocava só para ela.
- Aquela sou eu…20 anos depois de ter sido criada…todos me tratavam por Ariel – informou-o de repente uma voz ao seu lado. Era Sofia que estava ali com ele e que olhava para a imagem que um dia vivera. Diogo observou-a. Tendo em conta o século em que se encontravam naquele momento, desistiu de tentar fazer as contas para saber quanto anos tinha a Sofia que hoje conhecia, era demasiado estranho. – E aquele é David… - Sofia olhava para o rapaz loiro que ainda não desviara o olhar dela, naquele tempo Ariel, empoleirada na varanda – Não passava de um simples humano, mas mesmo assim conseguia…
- Ele consegue ver-te! – constatou Diogo surpreendido e acompanhando o raciocínio de Sofia. Diogo lembrava-se de que nem ele, antes de completar 19 anos, conseguia ver os anjos e demónios que andavam à sua volta. Não passavam do que ele achava serem sombras, reflexos. Mas ali estava um simples humano que inequivocamente fitava Ariel, um anjo. – Como é que é possível?
- Foi o que me perguntei da primeira vez que o vi olhar directamente para mim. – respondeu-lhe Sofia – Eu fizera 19 anos, atingira a maioridade e tinha a minha primeira missão…era simples, apenas tinha de vigiar uma aldeia de um possível ataque demoníaco e avisar se algo de estranho se passasse. Ele vivia nessa aldeia. Era pobre e o seu maior tesouro era aquela flauta. Uma noite ouviu-o tocar. A melodia era tão bonita que eu não resisti a aproximar-me. Sentei-me em cima do ramo de uma árvore e fiquei ali a ouvi-lo tocar. Quando acabou, olhou directamente para mim e sorriu-me. Nesse momento pensei que só podia estar a imaginar, mas assustada desapareci dali. Nunca ouvira falar num humano que pudesse ver anjos ou demónios, sem o consentimento dos mesmos. Era uma regra do universo. – Sofia falava sem desviar os olhos de David. – Com medo de ter feito algo de errado na minha primeira missão, resolvi não contar nada a ninguém e voltei lá para certificar-me se o que tinha visto realmente acontecera. Lá estava ele a tocar o seu maior tesouro. Dessa vez sentei-me atrás dele. Mas voltou a acontecer o mesmo, assim que terminou de tocar virou-se para trás e encarou-me com o mesmo sorriso terno. Estranhamente não tive medo e aproximei-me dele. Perguntei-lhe se me conseguia ver e ele respondeu-me que sim. Não sabia quem eu era e nunca tinha visto mais ninguém igual a mim ou sequer parecido. Erradamente regressei todas as outras noites para o ouvir tocar e ficamos amigos. Conversávamos, riamos, brincávamos e ele, antes de qualquer concerto a que era chamado fazia-me ouvir todas as músicas que ia tocar no baile. Conhecia uma pessoa que tocava numa orquestra e o dinheiro permitia-lhe comprar comida para toda a sua família, por isso ensaiava horas a fio. Ouvi-lo não era um sacrifício, muito pelo contrário. Ia vê-lo de todas as vezes que ia tocar numa festa e todas as noites ele tocava para mim. Eu era apaixonada pela sua música e cada vez mais por ele apesar de não reconhecer esse sentimento. Um dia compôs esta música para mim e nesse mesmo dia beijou-me. Explicou-me porque o fizera e eu percebi o que também sentia por ele. Nesse dia, eu traçava a sua morte.
Diogo ouvia-a com toda a atenção percebendo a mágoa e a angústia envolvida em cada palavra de Sofia. Ela continuou.
- O tempo foi passando e comecei a perceber que ele ia ficando mais velho, ao passo que eu continuava sempre igual. Passaram-se quatro anos. Eu vivia para aqueles momentos e sabia que ele também ansiava por cada minuto passado perto de mim. Era burra ao ponto de pensar que vivíamos num mundo só nosso, escondido de todos, quer dos humanos, quer dos anjos e demónios. Um dia encontrei um anjo caído. Pensei que tinha sido por acaso, mas toda a minha inocência e o amor que sentia por David cegavam-me. Já tinha ouvido falar dos anjos caídos, mas nunca encontrara realmente um. Pareceu-me igual a qualquer outro de nós e deixei-me levar pela sua conversa. – Sofia nunca olhava directamente para Diogo, mas ele percebia a tristeza e a vergonha que ela sentia dentro de si – Esse anjo caído contou-me a sua história que era, estupidamente, parecida com a minha. Ingenuamente vi nele uma esperança. Explicou-me que se juntara à sua amada e que era feliz ao lado dela. Não havia mais nada que eu quisesse do que viver com David, como sua mulher, envelhecendo juntamente com ele. O anjo caído aliciou-me com cada palavra. Disse-me o que eu mais desejava ouvir. Perguntei-lhe se não havia nenhum problema se escolhesse tornar-me num anjo caído como ele e acreditei quando me disse que a única contrapartida seria nunca mais poder voltar para o céu, para o palácio dos anjos, que teria de abdicar da minha condição de anjo virtude. Eu conseguia viver com essa contrapartida, oh se conseguia.
“Apressei-me a ir contar a minha descoberta a David…todo ele era alegria, nunca o vira tão feliz. Tomei a minha decisão e subindo ao céu disse as palavras que o anjo caído me ensinara. O que se passou a seguir tu já viste. Nunca senti uma dor tão profunda, tão intensa, tão violenta. Acordei num sítio desconhecido, estava dentro de uma casa às escuras, parecia quase abandonada. O único sinal de vida provinha da lareira que queimava dois troncos de madeira. Reparei que tinha um vestido igual àqueles que via as mulheres humanas da aldeia de David usarem. Levantei-me ao ouvir um passo à minha frente. Quando vi quem era entrei em pânico. Apesar de nunca o ter visto eu sabia que tinha à minha frente o Príncipe Sammael. Juntamente com Lilith explicaram-me que ao tornar-me num anjo caído teria de prestar vassalagem a um dos príncipes, nesse caso a ele que fora o primeiro a sentir a minha queda. Recusei-me terminantemente, mas ameaçaram acabar com a vida de David e eu não tive outra escolha.”
Subitamente já não estavam naquele salão de baile. Estavam numa aldeia, perto de uma casa típica de alguém do povo. Viu Sofia dentro da casa. Nunca a vira com uma expressão tão feliz enquanto preparava uma refeição. Pouco tempo depois viu David abraçá-la por trás, roubar-lhe um beijo rápido e sair pela porta.
- Vivemos felizes durante quase um ano…eu vivia como uma humana ao lado de David e não desejava mais nada…Nenhum demónio, nem nenhum Príncipe nem a própria Lilith tinham voltado a incomodar-me desde então…até este dia! – Sofia olhou para a esquerda e Diogo seguiu-lhe o olhar. Viu Lady Lilith aproximar-se da casa. Diogo sentiu o ódio crescer dentro dele, mas sendo uma memória, não podia fazer nada. Sofia, naquele tempo Ariel, pressentiu-a de imediato e toda a sua expressão mudou. Saiu de casa ao encontro dela, como se não quisesse que aquele demónio conspurcasse a sua casa.
“- Precisamos de ti. – O tom usado por Lilith era frio e distante e não se tratava de um pedido. – Vamos fazer uma emboscada a uns anjos perto daqui, quero que vás com o grupo.
- O quê? Não… - negou-se Ariel cujo medo tomara conta do seu olhar.
- Juraste obediência, prestaste vassalagem, esqueces-te. – lembrou-a Lilith.
- Por favor… - Ariel estava prestes a ajoelhar-se implorando-lhe que não a obrigasse a fazer tal coisa.
- Nesse caso, podes despedir-te desse David… - disse Lilith virando-lhe as costas. Ao ouvir estas palavras todo o sangue parecia ter abandonado Ariel, tal era a forma como empalidecera. Lilith desapareceu deixando-a ali sozinha.”
- O que se seguiu também já presenciaste – continuou Sofia ao seu lado – Fui obrigada a lutar ao lado dos demónios, dos anjos caídos, dos diabretes, dos Príncipes…Nunca matei um anjo, mas era obrigada a defender-me e para proteger David, salvei a vida a centenas de demónios. Até hoje não me sinto em paz com o que fiz. Mas na altura, aquilo era suficiente para manter o David seguro e eu amava-o demais para pensar noutra alternativa. Ficámos bem mais dois meses…até ao dia em que aquele demónio o matou apenas para se vingar de mim! – Sofia mostrou toda a raiva que estava dentro de si e de repente apesar de continuarem na mesma aldeia e em frente da mesma casa, a imagem era completamente diferente.
Havia pessoas a correrem de um lado para o outro, em pânico e em total alvoroço. O fogo consumia as casas como se fossem papel e as tentativas para o apagarem eram completamente infrutíferas. As pessoas da aldeia não se davam conta das forças demoníacas que os cercavam, mas Diogo via os demónios que brincavam com as vidas e o património de uma vida inteira daqueles aldeões. Viu também David e Ariel tentarem salvar a sua casa. Ariel conseguia ver os demónios, mas tentava ignorá-los para não assustar David que não os via. Diogo olhou para Sofia e reparou que uma lágrima lhe descia pela face. Tinha os olhos presos no cenário que se desenrolava à sua frente.
- Eu era jovem, sentia-me destroçada com tudo o que estava a acontecer… - a voz de Sofia parecia vir também ela de uma outra época - Não consegui ficar parada com todos aqueles demónios a provocarem o caos!
Diogo voltou a olhar para Sofia, no seu tempo como Ariel, ao mesmo tempo ao seu lado ela lhe relatava tudo o que lhe ia no coração naquele tempo.
- Sem pensar em possíveis consequências, invoquei as primeiras armas que me vieram à cabeça – explicou e Diogo viu surgir nas mãos de Ariel as espadas de duas lâminas que tão bem conhecia – Ouvi o David gritar por mim, mas eu só tinha uma coisa na cabeça…fazer parar aqueles demónios que estavam a destruir tudo aquilo que eu mais amava e o único local onde conhecera o amor e toda a felicidade que nunca pensei poder sentir junto de um humano. Dirigi-me àqueles demónios, entre eles um anjo caído e desafiei-os. Um a um, destrui-os a todos, num total de sete. Ou pelo menos assim pensava eu quando ouvi David gritar pelo meu nome. Mal me virei, foi como se me tivessem morto naquele preciso momento, como se uma espada tivesse atravessado o meu coração. Foi isso que senti, mas não foi o meu coração que a espada atravessou, foi sim o de David.
Diogo observava toda aquela cena. Vira Ariel derrotar todos os demónios com uma destreza e velocidade impressionantes e de seguida ouvira-a gritar dolorosamente pelo nome de David, no preciso momento em que um demónio se aproximava por trás de dele e com uma espada o atravessava mortalmente. David nem se dera conta da aproximação de um demónio, nunca o vira, nunca tivera olhos senão para Sofia, por mais que até hoje isso fosse completamente inexplicável. Mas Sofia viu o demónio, viu a expressão do demónio transformar-se em puro prazer e crueldade. E Diogo reconheceu o demónio. Era Aaba. O mesmo demónio fêmea que o perseguira na noite do seu aniversário, o mesmo com quem lutara perto da ponte, ainda no mundo dos humanos.
- Isto é pelo que fizeste aos meus irmãos…aos TEUS irmãos! – atirou-lhe a Aaba daquele tempo – Deves-nos lealdade…o teu humano sofreu a tua traição, tu foste a única culpada.
Sem perder mais tempo Aaba desapareceu largando o corpo de David que caiu desamparado no chão.
- Ele já estava morto quando me aproximei… - informou-o Sofia e Diogo reparou que já não estava ao pé da casa em chamas, mas sim no mesmo sitio em que David olhara pela primeira vez para Ariel e onde tantas vezes lhe tocara a mesma melodia.
Ariel estava junto a uma campa. Não foi preciso Sofia explicar-lhe que fora ali que enterrara o corpo de David. Inesperadamente surgiu alguém atrás de Ariel. Diogo abriu a boca de espanto. Apesar de nunca a ter visto, sabia que aquela mulher que se ajoelhava ao lado de Ariel, era Luz, a sua mãe. Era linda. Um pouco mais baixa do que Sofia, com longos cabelos loiros e com movimentos sublimes. Os olhos, de um azul cristalino, que Diogo herdara dela, eram quentes e cheios de paz e serenidade.
- Foi Luz quem veio até mim naquela mesma noite – murmurou-lhe Sofia – Explicou-me que estava a par de tudo o que acontecera comigo e perguntou-me se estava disposta a lutar contra os demónios, ao lado dos anjos. Disse-me que voltaria de manhã cedo para obter uma resposta, mas não foi necessário, naquele momento assegurei-lhe que era o que mais queria. Assim seguia-a. Como tinha abdicado da minha condição de anjo, tive de começar como Anjo da Guarda, depois passei para Arcanjo, Principado e por fim voltei a tornar-me num Anjo Virtude. Desde então tenho combatido todo o tipo de demónios, anjos caídos, diabretes e agora Príncipes do Inferno. No entanto, sempre com a mesma coisa na cabeça, derrotar Aaba em combate. Já nos encontrámos várias vezes ao longo dos séculos, mas ela consegue sempre fugir no último momento.
Diogo recordou-se daquela noite em que Sofia havia lutado contra Aaba. Lembrou-se da forma como se fitavam mutuamente, de como se atacavam com ferocidade. Era um ajuste de contas mortal.
- Foi a primeira e última vez que vi Luz, o Anjo Serafim mais admirado pelos anjos e o mais respeitado até mesmo pelos demónios – informou-o Sofia. Diogo reparou que tinham voltado ao mesmo salão de baile onde David tocava a melodia que criara para Ariel, sem desviar os olhos daquele anjo. – Naquela noite perguntei-lhe como era possível que David conseguisse ver-me no meu estado angelical. Sabia que um anjo podia revelar-se se fosse necessário, mas nunca ouvira falar de um humano capaz de ver um anjo no seu estado celestial. No entanto David conseguira ver-me desde o primeiro dia que me apresentara para cumprir a minha missão. – Diogo aguardou a resposta que Luz, a sua mãe, pudesse ter dado a Ariel – Luz não soube responder-me. Nunca tinha ouvido falar de algo do mesmo género. Citou-me apenas a frase da autoria de alguém que considerava muito importante na sua vida, um anjo potência de nome Samuel: “Há coisas que só o amor pode explicar, mas como são raros aqueles que sabem interpretar a sua língua, o explicável será sempre inexplicavelmente incompreendido”.
Diogo encontrava-se novamente dentro de água junto de Sofia que se afastara o suficiente para que pudessem olhar um para o outro. Enquanto Diogo mal sentia a água tocar-lhe, por sua vez os cabelos de Sofia flutuavam na ondulação da água tornando tudo aquilo real. Sofia confiara nele ao ponto de lhe mostrar as suas memórias mais dolorosas. Agora percebia porque é que ela olhava para todos com desconfiança. Percebia porque é que Tânia, um demónio, era alvo de todas as suspeitas. Sofia não conseguia evitar. Desde muito cedo caíra nas mãos de demónios, anjos caídos e Príncipes do Inferno. Ela não fora sempre assim. Fora inocente, crente e apaixonada. De um momento para o outro tinham-lhe roubado tudo e aquela fora a forma que encontrara para enfrentar toda a culpa que continuava a transportar dentro de si. Diogo mostrou-se decidido. Precisavam voltar para enfrentar aquele monstro, para impedir que mais humanos sofressem nas suas mãos. Sem esperar mais tempo agarrou na mão de Sofia e como se a água fosse todo o seu mundo, impulsionou-os em direcção à superfície.