Diogo olhava chocado para o cenário à sua volta. O seu olhar prendeu-se em Sofia. Algo de estranho se passava com ela. Não se mexia, mas era fácil de perceber que a sua mente estava em batalha, numa tentativa infrutífera de se libertar daquela prisão. Diogo sentiu a sua mão levantar-se na direcção daquele anjo. Uma enorme necessidade de a segurar nos seus braços apoderou-se de si. Queria protegê-la, retirá-la daquele lugar escuro em que se encontrava. Desviou o olhar para Tânia. Mesmo com as suas asas negras e a sua roupa igualmente escura, ela sempre brilhara. Mas agora, nenhuma luz irradiava dela. A dor de Diogo tornou-se ainda maior ao ver a pequena Matilde deitada perto de Júlio. Ambos completamente imobilizados e a alegria contagiante de Matilde roubada da forma mais cruel. Ali aos seus pés, o rosto inexpressivo de Samuel, incapaz de pronunciar as palavras que Diogo tanto desejava ou vir naquele momento. Mas foi então que a dor de Diogo, perante aquele cenário, começou a alterar-se. Sentiu o ódio tomar conta de todo o seu ser. Sabia que naquele momento os seus olhos estavam do vermelho mais sanguíneo possível. Desviou o seu olhar dos amigos imobilizados concentrando-se por breves segundos no pendente em forma de lágrima pendurado ao pescoço de Belial e logo de seguida encarou o olhar gelado e vingativo do demónio. Belial sorria não só com os lábios, mas também com os olhos sem os desviar de Diogo. Acariciou o pendente com os seus dedos compridos, cobertos por luvas pretas, como que a desafiar Diogo. Este fez exactamente o mesmo gesto no seu pendente, sentindo a espada negra que viera substituir a adaga, aquecer nas suas mãos. Subitamente esqueceu-se dos amigos, da família, do objectivo que o trouxera ali. Era como se apenas ele e Belial, ambos com os seus pendentes, se encontrassem ali para um duelo, cujo prémio final ambos desejavam mais do que qualquer outra coisa. Belial sorriu e viu o mesmo sorriso na expressão de Diogo. Estava deliciado com aquilo e Diogo sentiu o mesmo prazer percorrê-lo como um arrepio.
Partiram um na direcção do outro. O corno negro e afiado de Belial que parecia fazer parte do seu próprio braço esquerdo chocou com uma força avassaladora contra a espada de Diogo. Este quase vacilou com o embate, mas no último momento conseguiu empurrar Belial que fez um pequeno trejeito com os lábios como se visse naquilo uma espécie de satisfação pessoal. Diogo voltou a atacar. Sempre que o fazia, os seus olhos vislumbravam o pendente do seu adversário, mas ao contrário do que acontecera na luta contra Leviathan, em vez de sentir as suas forças rejuvenescerem, sentia uma dor latejante na cabeça que o desconcentrava por alguns segundos. Olhou directamente para Belial que sorria parecendo cada vez mais satisfeito. Endireitaram-se, sempre sem perderem o outro de vista. Levantando a sua mão direita, Belial mostrou o seu dedo indicador. Com o mesmo fez um círculo no ar em direcção ao céu. Diogo percebeu imediatamente o que iria passar-se de seguida e sorriu ao ver uma pequena tempestade de areia começar a envolvê-los formando um remoinho e prejudicando a sua visão. No entanto, sem sequer pestanejar, Diogo, invocou a água que sabia existir ali debaixo daquele terreno seco e arenoso, tal como já fizera antes para não morrer sufocado. Ao fazê-lo, sentiu o chão estremecer e logo de seguida a água invocada envolveu a areia, acabando por formar-se um novo combate entre aqueles elementos que rodeavam os seus mestres provocando um gigante remoinho de água e areia. Belial não esperou mais tempo, atacou Diogo que ripostou. O vento agressivo provocado pela água gelada e mortífera e pela areia cortante e fatal fustigava-lhes os rostos, fazia-lhes rasgões nas roupas e por mais que Diogo se concentrasse no pendente de Belial e no seu desejo obsessivo por tê-lo só para si, não estava a ajudar. Sentia as suas forças abandonarem-no. Quase que podia jurar que a água estava a regredir frente à areia de Belial. As investidas do príncipe do inferno eram cada vez mais violentas e sempre que Diogo tentava um dos seus truques, Belial parecia adivinhar cada pensamento, cada nova jogada. Diogo tentou ripostar, romper a linha defensiva de Belial, mas cada investida, cada gesto, cada tentativa de ataque parecia levá-lo à exaustão. Belial apenas se desviava dos golpes, como se aquilo o divertisse cada vez mais. Pouco mais fazia do que esperar a próxima investida de Diogo, dando-se ao descaramento de apenas se desviar alguns passos ora para a direita, ora para a esquerda.
Foi nesse momento que Diogo caiu de joelhos. Mal sentia os braços, e as pernas já não aguentavam o peso do seu corpo. Nunca se sentira tão esgotado, mal conseguia manter a espada bem segura. Algo de estranho se estava a passar. A sua visão estava a ficar turva, sentia o seu corpo tremer e até a respiração parecia demasiado complexa de executar.
- O que está a acontecer-me? – murmurou Diogo não conseguindo mais segurar a espada que caiu no chão com um baque surdo. Fixou a sua visão na espada e o medo alastrou-se quando viu a espada a triplicar. Abanou a cabeça, tentando concentrar-se, mas parecia impossível de o conseguir.
Diogo tentou captar o rosto de Belial, mas sem sucesso, não conseguia ver nada mais para além de um palmo. Esfregou a cara e o este simples gesto deixou-o sem forças. Numa última tentativa, ainda de joelhos e á mercê de qualquer ataque do seu adversário, concentrou todos os seus pensamentos no pendente, mas nesse preciso momento, todas as forças o abandonaram. O seu corpo abateu-se por completo no chão duro e coberto de grãos de areia que lhe feriram o rosto sem conseguir impedir. A espada que caíra da sua mão estava a escassos centímetros da sua mão, mas só de pensar naquele simples movimento para a agarrar parecia sugar-lhe ainda mais energia.
- Foi mais fácil do que esperava… - confessou subitamente Belial num tom triunfante – És demasiado previsível! – congratulou-se ao mesmo tempo que fazia surgir na sua mão direita a adaga que pouco antes entregara nas mãos de Diogo para ganhar a sua confiança. – Mas não te preocupes, vais morrer mais rapidamente que os teus amiguinhos. – Informou-o ao mesmo tempo que afiava a adaga na arma em forma de corno presa ao seu braço.
Diogo ouvia as palavras de Belial. Percebia que era o fim, mas nem assim conseguia deixar de pensar que iria perder a oportunidade de ficar com o pendente de Belial. Aquele brilho esverdeado era a única coisa que os seus olhos ainda conseguiam distinguir. No entanto, nem o corpo nem a mente conseguiam fazer algo para o alcançar e obter só para si.
- “Diogo…” – na sua mente Diogo ouviu chamarem por si. O tom de voz era fraco e muito distante, mas mesmo assim tinha certeza de que não estava a imaginar coisas. Se estivesse também não se importava, pelo menos podia fingir que não estava completamente só. – “Diogo…” – voltou a ouvir o seu nome e apesar de o tom de voz ser quase um murmúrio, ela tinha a certeza de que conhecia aquela voz.
- “Tânia…” – pensou para consigo Diogo.
- “Não tenho muito tempo…por isso ouve apenas o que eu te digo…” – o esforço e o sacrifício sentiam-se em cada palavra de Tânia. Diogo assentiu com a cabeça antes de se lembrar que ela provavelmente não estava a vê-lo, mas apenas a comunicar de uma forma possível entre demónios tal como já outros demónios que enfrentara o tinham feito. No entanto Tânia também não esperou por uma resposta e no seu tom debilitado prosseguiu. – “Lembras-te do que te disse sobre Belial? Ele entra no coração de qualquer um…consegue perceber o que mais se deseja…e usa isso como arma…as obsessões são a sua paixão e consegue enfraquecer o adversário fazendo-o desejar tanto algo que é capaz de morrer por isso…ele aproveita-se desse sentimento e leva-os mesmo até á morte…” – o tom de voz de Tânia passara quase a um murmúrio, o esforço usado para comunicar com Diogo estava a ser demasiado para ela, mas mesmo assim continuou – “A força que despendes para focar toda a tua atenção em algo, só o alimenta…dá-lhe forças…forças que são tuas…” – o silêncio instalou-se subitamente.
- “Tãnia? Tânia?” – Diogo ficou surpreso por sentir que implorava por continuar a ouvir a voz de Tânia. Não queria ficar ali sozinho – “Por favor volta…não me deixes sozinho…”
- “Não estás sozinho Diogo… - voltou Tânia a murmurar, mas quase num último fôlego – Nunca vais estar sozinho…Lembra-te…reconhece os teus erros, lamenta os teus pecados…renuncia a eles…Diogo…”
Nesse momento Diogo percebeu que Tânia fizera o seu último esforço para o ajudar. Diogo nem sequer estava a pensar no significado das palavras de Tânia, só queria que ela voltasse a falar com ele, que ficasse ali com ele até tudo ter acabado. Subitamente sentiu um pé obrigá-lo a virar-se de costas para o chão. O seu corpo resignou-se, mas Diogo nem se deu ao trabalho de abrir os olhos. Não queria ver o rosto de Belial momentos antes de este lhe dar o golpe final, preferia memorizar a voz de Tânia e lembrar-se do seu rosto pálido em contrates com as suas asas negras e olhos cor de mel.
Belial soltou uma gargalhada e Diogo sentiu-o aproximar-se de si.
- Não esperava que fosses chorar… - ouviu-o dizer de forma divertida - …chega a ser algo embaraçoso…também vais começar a implorar para que não te mate?
Ao princípio Diogo não percebeu a que é que Belial estava a referir-se, mas foi então que sentiu um sabor a sal entrar-lhe pelos lábios. Era uma lágrima. Percebeu que estava a chorar. Chorar não o fazia sentir qualquer dor, chegava mesmo a ser reconfortante. Outra lágrima chegou-lhe aos lábios e aquilo fê-lo lembrar-se do seu próprio pendente em forma de lágrima, a única recordação que tinha da sua verdadeira mãe, da sua mãe que para o proteger fora assassinada por Lady Lilith. Agora eram os seus pais adoptivos que tinham a sua vida ameaçada. Mas não só. Também, Sofia, Matilde, Júlio, Samuel e Tânia estavam a dar as suas vidas por ele. E a única coisa em que conseguira pensar fora no estúpido pendente. A Tânia tinha razão. Diogo sentia a raiva por si mesmo crescer dentro dele. Pusera à frente de tudo e de todos algo que não lhe trouxera bem nenhum, algo que não podia substituir os seus pais e os seus amigos. Lembrou-se dos Domingos passados com os seus pais a comer gelados até enjoarem, lembrou-se de Júlio a segui-lo para todo o lado até Diogo o aceitar como seu amigo, lembrou-se de Samuel a recebê-lo aos 6 anos no seu consultório para a primeira de muitas consultas, lembrou-se de Tânia a caminhar lado a lado com ele e a sorrir-lhe como se percebesse pelo que Diogo estava a passar e lembrou-se de Sofia, da sua testa junto á dele, pronta a revelar o seu maior segredo. Todos confiavam em si…todos dependiam de si…
- Adeus rapaz! – disse Belial no preciso momento em que Diogo abriu os olhos. A Adaga vinha na sua direcção e tudo acabou numa questão de segundos.
Os olhos negros de Belial e os olhos encarnados de Diogo fitavam-se, ambos sem expressão. Diogo continuava deitado de costa no chão e Belial estava com um joelho no chão a servir de apoio. A cabeça de Belial inclinou-se para a direita no seu gesto tão característico e logo de seguida olhou para baixo encontrando o brilho de uma espada angelical sobre a qual escorria um liquido negro. Sorriu voltando a devolver o olhar a Diogo.
- Tu existes mesmo! – murmurou Belial.
- Manda cumprimentos meus ao Leviathan no Poço sem fundo! – murmurou-lhe Diogo enterrando mais fundo a espada de Metatron no peito de Belial.
A última expressão que viu no rosto de Belial antes de este se evaporar como areia, foi puro medo.
O silêncio abateu-se naquele espaço. Diogo largou a espada que depressa desapareceu. Respirou fundo e começou a levantar-se. No preciso momento em que o fez os seus olhos depararam-se com uma luz esverdeada no chão. Fitou atentamente o pendente que tanto desejara. Baixou-se e no preciso momento em que as pontas dos seus dedos tocaram nele, uma intensa luz verde deixou-o completamente encandeado. Quando conseguiu voltar a focar o seu olhar o pendente já lá não estava. Tirou o seu pela cabeça e quando o colocou á frente dos olhos percebeu que o pendente em forma de lágrima além do tom azulado que assumira após o desaparecimento de Leviathan, agora numa outra ponta apresentava uma cor esverdeada. Fitou o objecto durante alguns segundos e lembrou-se de como passara a controlar a água. O seu olhar seguiu até ao chão coberto por areia. Voltou a colocar o pendente ao pescoço e estendendo uma mão com a palma aberta para baixo, deixou-se inundar pela energia que provinha do seu pendente. Fechou os olhos tentando concentrar-se, mas sabia que isso não era necessário, pois assim que voltou a abri-los viu o que conseguira fazer só apelando à sua vontade. Um remoinho de areia girava à sua volta e desta vez nada o magoava. Misturou um remoinho de água controlando as duas forças da natureza como se de um brinquedo se tratasse.
Subitamente ouviu um estalido e parou com a brincadeira fazendo a água e a areia caírem no chão de forma desajeitada ficando encharcado e cheio de lama.
- Parece-me que precisas controlar melhor a aterragem! - disse uma voz divertida atrás de si.
Diogo virou-se e viu Sofia ali de pé, tão perto de si que quase conseguia ouvir a sua respiração. Deixara-se distrair novamente pelo pendente. Precisava aprender a controlar-se. No entanto, aquilo que sentiu ao encontrar o pendente, nem se comparava com o turbilhão de sentimentos que despertara dentro de si ao ver Sofia com a sua luz de volta, com o seu ar trocista e com aqueles olhos cinzentos prontos para uma tempestade. Diogo tentou dizer algo divertido, inteligente, mas nada lhe veio à cabeça. A imagem de Sofia toldava-lhe os pensamentos. Sem pensar e seguindo apenas o seu impulso deu um passo em frente, pôs a mão direita à volta da cintura de Sofia, a mão esquerda no seu rosto e puxou-a para si envolvendo-a primeiro com um leve beijo para logo depois tornar o beijo mais intenso e cheio de desejo. Pensou que Sofia iria empurrá-lo e provavelmente desafiá-lo para um duelo, mas para sua surpresa não só correspondeu ao seu beijo como também revelou urgência no mesmo. Sentiu as mãos de Sofia deslizarem pelos seus braços acima, envolverem os seus ombros e puxá-lo mais para ela. Apertou-a tanto contra si que tinha medo de estar a magoá-la tal era a ânsia de tê-la nos seus braços. As suas mãos perderam-se nos seus longos cabelos negros e beijou-a sem nunca desejar parar. O sabor de Sofia era estonteante e o seu toque fazia-o sentir-se flutuar.
- DIOGO! SOFIA! – gritou uma vozinha num tom algo alarmado. Diogo abriu os olhos e percebeu que o tinha feito ao mesmo tempo que Sofia. Esta largou-o imediatamente o que resultou numa queda de cerca de um metro. Massajando a perna Diogo olhou para cima e viu Sofia em todo o seu esplendor angelical. Além de ter as asas abertas, toda ela emanava uma luz quente e reconfortante e naquele momento olhava para Diogo algo divertida. Agora ele percebia que estivera realmente a flutuar. – DIOGOOOOO! – voltou a ouvir. Forçou-se a desviar o olhar de Sofia na direcção da voz de Matilde. Viu-a ao longe a gesticular os braços com força e com alguma urgência. Observando mais atentamente viu Júlio de pé, mas virado de costas para Matilde como se estivesse concentrado noutra coisa qualquer. Mas foi só quando viu Samuel debruçado sobre Tânia é que percebeu que algo muito sério se passava.
Diogo correu o mais rápido que conseguiu na direcção dos outros. Quando lá chegou os seus maiores receios confirmaram-se. Ao contrário dos outros, Tânia continuava adormecida, sem qualquer sinal de estar a despertar.
- O que se passa? – perguntou Matilde e uma vez que ninguém respondeu, Diogo calculou que nem Samuel nem Júlio tinham uma resposta para aquilo. – Nós todos despertámos…porque é que ela não acorda?
Diogo lembrou-se subitamente do momento em que estivera quase inconsciente, da voz fraca e trémula de Tânia ajudando-o a perceber como derrotar Belial. Poderia aquele esforço todo ter feito com que ela nunca mais pudesse voltar a acordar? Teria ela dado a sua vida para dar uma oportunidade a Diogo de vencer o Príncipe do Inferno?
- Ela não respira, não sinto qualquer sinal de vida vindo dela! – informou Samuel num tom cada vez mais triste.
- NÃO! – gritou Diogo deixando-se cair de joelhos junto de Tânia – TÂNIA ACORDA! – ordenou-lhe de forma desesperada ao mesmo tempo que lhe abanava os ombros.
- Diogo ela… - começou Júlio num tom triste.
- NÃO! – voltou a gritar Diogo desta vez amparando Tânia nos seus braços – ELA DEU A VIDA POR MIM, PARA ME DAR UMA OPORTUNIDADE DE DERROTAR O BELIAL…
- Do que é que estás a falar Diogo? – perguntou-lhe Júlio.
- Quando o Belial estava prestes a matar-me, eu ouvi a voz da Tânia…ela conseguiu comunicar comigo de alguma forma, ajudou-me a perceber porque é que eu estava cada vez mais fraco e o Belial cada vez mais forte – explicou Diogo atropelando as palavras – A voz dela era quase um murmúrio…ela podia ter guardado as suas forças, mas em vez disso tentou ajudar-me… - Diogo olhava agora para uma pessoa, Sofia.
- Não me peças isso Diogo! – a voz de Sofia era quase um murmúrio.
- Por favor Sofia…tenta apenas!
- Ela é um demónio! – Sofia não percebia porque é que Diogo não estava a ver ali um grande problema – Sabes o que acontecerá se eu tentar curá-la?
- Ela é nossa amiga! – atirou-lhe Diogo.
- ELA É UM DEMÓNIO! – gritou Sofia.
- E TU TAMBÉM JÁ FOSTE UM! – Diogo arrependeu-se mal acabou de proferir aquelas palavras. Mas agora não podia voltar atrás e percebeu isso na expressão de Sofia. Não havia raiva, mas uma grande mágoa. – Desculpa Sofia, eu não queria dizer…
- Mas disseste… - o tom de voz de Sofia era agora completamente neutro. Uma nova barreira acabara de ser formada entre eles. A cor cinzenta dos olhos de Sofia nunca parecera a Diogo tão escura como naquele momento.
- Sabes que nunca te magoaria…a Tânia ela… - o olhar de Sofia cortou-lhe a fala.
Sem olhar para Diogo, Sofia concentrou-se apenas em Tânia. Baixou-se, estendeu as mãos por cima desta sem lhe tocar e fechou os olhos. Uma luz começou a emanar de todo o seu corpo libertando-se pela ponta dos seus dedos e envolvendo o demónio adormecido. Uma ruga surgiu na testa de Sofia. Seria tarde demais? Pensou Diogo percebendo que estava a ser mais demorado e mais difícil para Sofia do que das outras vezes em que a vira fazer o mesmo. Quando começou a acreditar que era tarde demais, Tânia mexeu os olhos como se estivesse a despertar. Sofia parou o que estava a fazer, mas manteve-se de olhos fechados e na mesma posição durante mais um minuto, como se ela própria estivesse a recuperar forças. De seguida abriu por fim os olhos. Olhou para Tânia observando-a com atenção e murmurou para ninguém em particular.
- Ela está bem… - sem mais nenhuma palavra levantou-se lentamente, virou costas a Diogo que continuava a segurar Tânia nos braços e começou a afastar-se. De repente pareceu desequilibrar-se, mas Samuel segurou-lhe no braço amparando-a. Murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido e em resposta Sofia afastou-o com um movimento brusco. Esse movimento foi o suficiente para nesse preciso momento Diogo ver a mudança que acontecera com as asas de Sofia. Bem nas omoplatas onde começavam as asas de Sofia, o branco translúcido de cerca de meia dúzia de penas, mudara para um negro igual ao das asas de Tânia. O cabelo de Sofia voltara a cobrir aquela zona, mas a imagem do contraste entre a cor daquelas penas e o resto das asas cravara-se, a ferro e fogo, na mente de Diogo.
Tânia mexeu-se e abriu os olhos. Viu Diogo e sorriu-lhe, voltando logo a seguir a fechar novamente os olhos, caindo num sono profundo. Tânia estava bem e isso deixava Diogo aliviado, mas sabia que o que pedira a Sofia tinha sido demasiado. Continuou a vê-la afastar-se sempre de costas voltadas. Lembrou-se do que acontecera entre eles momentos antes. Aquele beijo parecia ter sido à uma eternidade, numa outra vida. O que implorara a Sofia para fazer tinha-a fechado novamente e sabia que com aquilo havia criado uma muralha entre eles.
- Lilith… - murmurou subitamente Tânia.
Diogo olhou para ela. Continuava de olhos fechados, mas parecia ansiosa, nervosa.
- Tânia?! O que foi que disseste? – perguntou-lhe Diogo quase num murmúrio. Nesse preciso momento Tânia abriu os olhos. Não olhava para Diogo nem para nada em específico, mas o que Diogo viu no seu olhar deixou-o apreensivo e com um mau pressentimento.
Pouco a pouco o olhar de Tânia focou-se no de Diogo.
- Lilith…Lady Lilith vem a caminho… - disse de forma verdadeiramente alarmada, ao mesmo tempo que apertava o braço de Diogo com uma força sobre-humana – Está quase a chegar!