Este blog não cumpre o novo acordo ortográfico!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Mudança de Planos e...2º Volume: Capítulo 1 - A Renegada

Olá!
Antes de começar a escrever o 2º Volume, informei, aqui no Blog, que só começaria a publicar os novos capítulos depois de todos terminados. No entanto...mudei de ideias! Assim, uma vez que ainda estou a escrevê-los decidi que vou publicar um todas as semanas, mais exactamente todas as segundas-feiras. Vou precisar da vossa opinião, de algum feedback da vossa parte relativamente aos capítulos. Fico a aguardar as vossas criticas, sejam elas positivas ou negativas, como já sabem. Assim sendo, aqui fica o primeiro capítulo do segundo volume:

Capítulo 1 - A Renegada

Ali estava ela. O cabelo de um tom castanho claro esvoaçava ao vento, tapando-lhe ligeiramente o rosto, mas os seus olhos cor de caramelo estavam cravados em Diogo. Transbordavam uma intensidade indescritível. Apesar de apenas revelarem tristeza, ela esboçou um pequeno sorriso. Era encantadora, pensou Diogo. Estava descalça e caminhava em passos lentos na sua direcção. O vestido preto até aos joelhos fazia sobressair ainda mais a sua pele branca. No entanto, o pequeno sorriso que segundos antes tinha revelado de forma inocente desapareceu ainda mais rapidamente. A sua expressão transformava-se em desespero, ao mesmo tempo que nas suas costas surgiam duas asas negras de tamanho médio. Ela baixou a cabeça como se tivesse vergonha do que acabava de mostrar e ele deixou de lhe ver o rosto. Mas subitamente ela levantou a cabeça e deixando-se cair de joelhos, os seus lábios murmuraram uma única palavra, “Ajuda-me”.
Diogo acordou sobressaltado. Olhou em seu redor. Continuava tudo escuro. A única luz era fornecida pelas tochas que ardiam de forma invulgar, pois em vez de um fogo laranja, o mesmo era de um azul muito vivo que parecia dar àquele espaço um aspecto ainda mais fantasmagórico do que aquilo que já era. O grande lago continuava no seu tom encarnado, mas não se mexia, tal como tudo em seu redor. Podia ser considerado um local tranquilo e deserto, mas tendo em conta a batalha que ali tinha decorrido, agora o silêncio tornava tudo ainda mais assustador. Diogo ainda tinha dificuldade em acreditar que estava no Inferno. É certo que toda a gente já tinha ouvido falar do Inferno e que muitos apregoavam a sua existência, mas ele nunca sequer tinha pensado muito nesse assunto, nem mesmo quando a mãe o levava à missa todos os domingos. Pensar na mãe fê-lo retrair-se, voltou a sentir o desespero apoderar-se de si. Fora pela mãe e pelo pai que tinha descido até ali, para poder salvá-los e depois levá-los dali logo que arranjasse uma maneira segura para isso. Podiam ser os seus pais adoptivos, mas para Diogo eram os únicos que conhecia e amava. Eles, em retorno, amavam-no incondicionalmente, mesmo sabendo que Diogo era filho de um dos Príncipes do Inferno.
Agora restava saber qual dos quatro príncipes seria o seu verdadeiro pai, pois a sua mãe, um anjo Serafim, um dos mais antigos e puros, fora assassinada quando Diogo apenas tinha 2 anos, sem nunca revelar qual deles era o pai do seu filho. Diogo ainda tinha dificuldade em acreditar que um Anjo tão puro como a sua verdadeira mãe pudesse ter amado um Príncipe do Inferno, ter tido um filho com ele e nunca ter deixado de ser um anjo, nunca se ter transformado num demónio, nunca ter abandonado os seus ideais. Era difícil de acreditar, pois a guerra entre anjos e demónios durava desde sempre e os únicos anjos que se tinham aproximado de forma mais íntima de um demónio, tinham perdido de imediato as asas e tinham abraçado outros ideais, passando a acreditar num outro objectivo para aquela guerra.
Diogo levantou-se, olhando de relance para Júlio que ressonava ao seu lado. De pele escura e cabelos brancos até aos ombros parecia estar a dormir sem ser invadido por qualquer tipo de sonho. Diogo já conhecia Júlio há tempo suficiente para saber que este não acordava com nada. No entanto, foi forçado a dar-se conta que afinal não o conhecia tão bem como acreditava. Até ontem, pensava que a aparência extravagante de Júlio se devia a algum tipo de genética e não ao facto de o seu melhor amigo ser um Drow, também conhecido por elfo nocturno, possuir uma agilidade muito fora do comum no manuseio de machados e ainda conseguir usar magia sempre que escurecia, ao mesmo tempo que os seus olhos passavam de um verde-esmeralda para um vermelho sangue. E, para além de tudo isso, que entre o seu povo, era um príncipe. Diogo lembrou-se de como, momentos antes, pensara que o seu amigo podia ter morrido, afogado naquelas águas profundas e traiçoeiras e depois na batalha que se seguiu. Tudo porque decidira segui-lo até ali, até ao Inferno. Abanou a cabeça, não era altura de pensar naquilo.
Dirigindo-se para o lago, avistou Samuel no seu turno de vigilância, em cima de uma rocha que havia caído durante a batalha. Não parecia reparar nos movimentos de Diogo, mas este sabia que nada escapava àquele anjo potência, que até há bem pouco tempo Diogo pensava ser um simples psicólogo ao qual era obrigado a ir desde os seus 6 anos de idade. Parecia mais alto do que já era em cima daquela rocha. O seu cabelo loiro, preso num rabo-de-cavalo chegava até ao fundo das costas e os seus olhos de um azul muito vivo, atrás dos seus tão característicos óculos, estavam atentos. Agora era fácil perceber porque é que Samuel parecia ter sempre cerca de 35 anos apesar do passar dos anos.
Ao chegar à beira do lago, Diogo ouviu risos de criança. Antes mesmo de dirigir o olhar nessa direcção sorriu imaginando Matilde, a pequena anjo querubim, que contra a vontade de todos os seguira até ali e, contra todas as expectativas, demonstrara uma coragem e uma maturidade inabaláveis quando tudo parecia perdido. Com uns verdadeiros 8 anos de idade, Matilde era a alegria do grupo, esbanjando inocência e optimismo. Levava todos à exaustão, mas não seriam os mesmos sem aquela cara sardenta emoldurada com um sorriso traquina e desdentado, uns curiosos olhos verdes e um cabelo um pouco abaixo das orelhas completamente revolto e de um ruivo flamejante. No entanto, quando Diogo se virou para encontrar Matilde, os seus olhos não encontraram mais nada a não ser uns olhos de um tom cinzento que esbanjavam segurança e determinação. Ali estava Sofia. De olhos cinzentos como o céu em dia de tempestade e cabelo preto até ao fundo das costas, aquela Anjo Virtude era uma verdadeira guerreira. Até o seu caminhar era grandioso. Diogo sabia que apesar de a achar irritante, intrometida e insuportável, todo aquele desafio seria impossível de levar adiante sem ela. A sua lealdade era inabalável, mesmo depois de ele a ter tentado matar com as suas próprias mãos. Mas havia algo mais. Diogo sabia-o. Sofia escondia algo. Algo que envolvia uma melodia. No entanto, todos ali tinham os seus segredos, até mesmo ele, pensou, envolvendo com a sua mão direita a medalha, em forma de lágrima, que herdara da sua verdadeira mãe, que sempre transportara ao pescoço e que agora num dos cantos mostrava uma tonalidade azul que antes não possuía.
Sofia parecia aborrecida, mas isso talvez se devesse ao facto de Matilde saltitar em volta dela ao mesmo tempo que lhe murmurava qualquer coisa que depois a fazia rir sozinha. Sofia revirou os olhos como se Matilde estivesse prestes a tirá-la do sério e ao fazê-lo os mesmos encontraram os de Diogo. Diogo não sabia o que interpretar dali. Para ele, Sofia era sempre uma surpresa. Sentiu-se subitamente ficar com calor ao lembrar-se do momento em que a beijara. É certo que não fora exactamente um beijo, mas sim a única forma que encontrara para lhe dar algum ar quando ambos estavam debaixo de água e ela prestes a perder a consciência devido à falta de ar. Muito provavelmente ela já nem sequer se lembrava. Então porque raio é que tinha de estar a dar importância àquilo? Recriminava-se Diogo. Assim desviou o olhar de Sofia e encarou o seu próprio rosto nas águas daquele lago sangrento.
O seu reflexo mostrou uns olhos azuis preocupados e cansados. Passou a mão pelo cabelo negro deixando-o ainda mais desalinhado do que já estava. Mostrava um rosto pálido e por isso, sem pensar, molhou a cara com a água do lago o que o fez sentir-se muito melhor. Era como se tivesse acabado de recuperar forças. Apercebendo-se do que fizera, Diogo sentiu o seu estômago revolver-se, mas ao prestar mais atenção ao lago descobriu que o seu reflexo tinha afastado o tom vermelho das águas. Essa cor permanecia, agora, apenas em redor do mesmo como se algo a forçasse a isso. Diogo atribuiu a esse estranho fenómeno algo relacionado com aquele local sombrio e perturbante, antigo lar do Príncipe do Inferno Leviathan que controlava o elemento água como se fizesse parte de si mesmo. Diogo conseguira derrubá-lo, para sua própria surpresa, ou pelo menos assim o achava. O certo é que o tinha feito desaparecer e até agora ainda não tinham tido sinais dele ou do seu exército de demónios marinhos. Recordou-se da transformação de Leviathan, da forma como o monstro quase levara a melhor e depois…o pendente. O pendente que tanto desejara, que o fazia esquecer tudo o resto até conseguir tê-lo só para si, e aquela luz azul que parecia ter entrado dentro do seu peito. Voltou a olhar para o objecto. Era tudo tão estranho.
Endireitando as costas, virou-se para trás. Encontrou-a de imediato. Ali estava a rapariga com que acabara de sonhar a cerca de uns 10 metros do resto do grupo. Estava deitada, de olhos fechados e enroscada sob si mesma, como se fosse uma criança pequena a proteger-se no seu próprio mundo. Não parecia ser muito mais nova do que ele, mas Diogo, já sabia, por experiência própria, que os anjos e os demónios nunca tinham a idade que aparentavam. E de que aquela rapariga era um demónio, ninguém tinha dúvidas. Diogo recordou o momento em que ela ali chegara.
- Vocês precisam ajudar-me – disse a rapariga emoldurada por aquelas asas negras, capazes de fazer inveja à noite mais escura – Eu não aguento mais este sítio, levem-me com vocês, por favor!
- É de certeza uma armadilha! – gritou Sofia ao ver Diogo começar a baixar a sua arma – Ela é um demónio!
- Isso quer dizer que estamos a ser novamente atacados? – perguntou Júlio olhando à sua volta, mas tal como os outros sem vislumbrar sequer uma sombra.
- Não, por favor… - murmurou a rapariga numa voz trémula – Eu não quero fazer-vos mal, muito pelo contrário…eu posso…ajudar-vos! – esta última palavra foi proferida num murmúrio como se receasse poder ser ouvida por mais alguém ou até mesmo como se nunca lhe tivesse passado pela cabeça alguma vez vir a oferecer ajuda a anjos.
- Ajudar-nos? Não precisamos da ajuda de demónios! – atirou-lhe Sofia – Na primeira oportunidade irias trair-nos!
- Não, nunca, jamais faria uma coisa dessas. – gaguejou a rapariga sem conseguir encarar Sofia
- E porque não? És um deles, um ser desprezível que não merece sequer viver! - Diogo olhou para Sofia. Já a vira muitas vezes chateada e zangada, vezes demais até, mas aquilo era diferente, o seu tom de voz demonstrava rancor e até mesmo ódio se é que era permitido aos anjos sentirem-no.
- Calma Sofia, ela está sozinha, não se atreveria a lutar contra nós os cinco juntos – Diogo não sabia porque é que estava a tomar o partido de um demónio, nem porque é que aquela postura de Sofia o estava a incomodar tanto, mas tinha de parar com aquilo.
- Não, eu jamais tentaria magoar-vos, quanto mais lutar contra vocês – apressou-se a confirmar a rapariga levantando o olhar apenas na direcção de Diogo.
Quando os seus olhos se encontraram Diogo sentiu uma dor e uma angústia tão grande vinda daquela rapariga que por momentos sentiu-se tentado a ir abraçá-la e reconfortá-la. No entanto esta necessidade foi interrompida por Samuel que se dirigiu a ela.
- O que é que queres dizer com puderes ajudar-nos? – perguntou-lhe Samuel num tom muito diferente de Sofia, quase paternal.
- Eu sei o que fazem aqui… - murmurou ela desviando o olhar para Samuel – Eu sei quem vieram procurar… - desta vez voltou novamente a sua atenção para Diogo que se viu atingido pelo mesmo sentimento de compaixão.
- Sabes onde estão os meus pais? – perguntou subitamente Diogo esquecendo por completo a sua defesa.
- Diogo não sejas idiota – interrompeu intempestivamente Sofia - Ela não sabe de nada, está a conseguir o que quer, está a tirar-te as informações que necessita para ganhar a tua confiança e tu idiota como és estás a voluntariar-te para lhe dares explicações ou até mesmo fazer-lhe um desenho!
- Não fales comigo nesse tom – reagiu Diogo, mas consciente que ela poderia ter razão e por isso dirigindo-se agora para a intrusa. – O que é que tu sabes?
- Na verdade não muito… - ao dizer isto ouviu-se um resmungar triunfante vindo de Sofia que Diogo resolveu ignorar incentivando a outra a continuar – Apenas sei aquilo que o Príncipe Leviathan disse em voz alta, que vinhas à procura dos teus pais que foram trazidos para aqui por um dos príncipes do inferno, aquele que será o teu verdadeiro pai…
- Estiveste aqui durante todo esse tempo? – perguntou Sofia – Onde? Nunca demos pela tua presença.
- Estive escondida durante todo esse tempo, ouvi todas as conversas e assisti à batalha que se seguiu e por fim a todo o silêncio que se instalou – revelou ela voltando a baixar a cabeça como se estivesse envergonhada.
- E já que estavas tão disposta a ajudar-nos, porque é que não o fizeste durante a batalha? – atacou Sofia e a rapariga encolheu-se ainda mais.
- Eu estava com medo, se algum demónio me visse ou até mesmo o príncipe eu estaria perdida – parecia estar quase a chorar, mas na opinião de Diogo a aguentar-se muito bem perante o olhar gélido de Sofia – e além disso precisava ter certeza de que seriam capazes de me poder ajudar.
- Porque é que precisas da nossa ajuda? – perguntou Samuel sempre muito calmo, mas sem nunca baixar a sua arma. Depois de um momento de silêncio e no meio de tantas lágrimas que lhe escorriam agora pela cara ela “explodiu”:
- Eu preciso ir embora daqui! Este não é o meu mundo! Mas sozinha eu nunca o conseguirei...depois de ver a forma como vocês venceram aqueles demónios e a depois de te ver matar o Príncipe Leviathan… – nisto olhou para Diogo
- Eu não o matei, ele desapareceu sim, mas foi pura sorte! – apressou-se a dizer Diogo – Nem sequer sabemos muito bem o que aconteceu.
- Nunca ninguém tinha conseguido enfrentar um Príncipe do Inferno, muito menos fazer com que ele desaparecesse sem deixar rasto – continuou ela – Tu és especial! – ao dizer isto olhou para Diogo com uma tal intensidade que este sentiu-se corar – Vocês são a minha única saída – apesar de falar no plural, olhava apenas para Diogo – por favor…eu só quero sair do Inferno!
- Mas nós ainda não sabemos quando nem como vamos conseguir sair daqui – informou-a Diogo – E além disso nunca sem antes encontrar os meus pais.
- Mas se me deixarem seguir com vocês eu posso ajudar-vos no que for preciso e no final levam-me convosco – Diogo nunca sentiu tanta esperança incutidas nas palavras de uma pessoa – Eu sou uma renegada, logo nunca ninguém dará pela minha presença e eu posso ser-vos muito útil, eu conheço o Inferno, todos os demónios e as suas categorias…
- Renegada? – perguntou Diogo confuso
- É um demónio que não pertence a nenhum dos quatro reinos do Inferno e que por isso mesmo consegue andar livremente em cada um deles. – apressou-se a explicar Samuel – São renegados porque à data do seu nascimento não mostraram qualquer tipo de poder e por conseguinte são a classe mais baixa de demónios que existe. Costumam servir apenas como mensageiros entre os reinos ou para satisfazer caprichos.
- Nesse caso até pode vir a ser-nos útil já que conhece os quatro cantos do Inferno – disse Júlio mais descontraído
- Estás doido, quem é que me garante que ela não vai trair-nos na sua primeira oportunidade? – voltou a atirar Sofia que não baixara a sua guarda nem por um segundo – Quem me garante que és realmente quem dizes ser?
- Saberemos assim que pisarmos outro reino – disse subitamente Matilde num tom sério e que até então se mantivera em silêncio. Todos olharam para a Querubim – Se ela for um demónio de um reino específico, assim que pisar outro reino será logo reconhecida à frente de todos nós. Nenhum demónio pode entrar num reino diferente do seu sem permissão. – E nisto de repente Matilde mostrou um grande sorriso – Eu disse que às vezes estava atenta às aulas! O meu pai ia adorar saber disso! – Júlio revirou os olhos com a repentina mudança de assunto da Matilde, mas Diogo teve de se controlar para não sorrir e por isso desviou o olhar dela.
- Mas e se ela já tiver pedido essa tal permissão? – perguntou Sofia que não dava descanso
- Saberemos à mesma – desta vez foi Samuel quem falou – A sua entrada noutro reino obriga-a a revelar-se sempre, mesmo tendo permissão. Bem no centro da testa irá surgir o símbolo do elemento do reino a que pertence. Se pertencer ao do Leviathan terá marcado o símbolo da água, se pertencer ao de Belial terá o símbolo da terra, no caso do reino de Lucifer terá o símbolo do ar e por fim se pertencer ao de Samael surgirá o símbolo do fogo. Basta olhar para a testa.
- Estranho, não me lembro de me terem ensinado essa parte! – foi o comentário de Matilde
- Isso porque só consegues ficar atenta metade do tempo! – atirou-lhe Júlio e Matilde resolveu cruzar os braços e virar-lhe a cara em sinal de protesto.
- Nesse caso, damos-lhe o benefício da dúvida? – perguntou Diogo olhando para os restantes. Visto que ninguém respondia, continuou. – Quem for a favor de a levarmos connosco levante a mão.
Diogo levantou a sua mão seguido de Júlio e logo pela sorridente Matilde que parecia estar mais interessada em imitar todos os gestos de Júlio do que outra coisa. Pouco depois Samuel também se juntou a eles. Olharam todos para Sofia que não parecia nada satisfeita.
- Depois não digam que eu não vos avisei… - sem levantar a mão Sofia virou-lhes as costas e afastou-se ao mesmo tempo que fazia desaparecer as suas espadas.
- Bem a maioria é que conta – disse Júlio – Sê bem-vinda ao grupo…hmm…
- Tânia, o meu nome é Tânia, ou pelo menos é assim que me chamam. – disse-lhe ela retribuindo o sorriso a Júlio que de repente pareceu corar até à ponta dos cabelos brancos. Sem jeito, disse qualquer coisa imperceptível e afastou-se.
Matilde seguiu atrás dele fazendo questão de informá-lo que estava mesmo muito corado e Samuel, depois de deitar mais um olhar sério a Tânia, também se afastou.
- Não ligues à Sofia, ela tem aquele feitio de quem a qualquer momento vai começar a bater em todos, mas no fundo ela só está preocupada. – resolveu Diogo informar a Tânia – Já passámos por muito e é difícil confiar em… - percebendo o que ia dizer calou-se incomodado.
- …demónios. – completou Tânia fitando as suas mãos – Eu compreendo…mas um dia eu vou conseguir sair daqui e hei-de conseguir arranjar uma maneira de deixar de ser um demónio. – disse isto fitando o olhar de Diogo sem nunca o desviar.
- Bem, a força de vontade faz milagres! – disse Diogo algo sem jeito perante aquele olhar tão intenso. Após alguns segundos, resolveu afastar-se, mas Tânia agarrou-lhe na mão antes que ele se fosse embora.
Diogo sentiu um arrepio percorrer-lhe todo o corpo no momento em que esta lhe tocou.
- Obrigado! – disse-lhe ela apenas e de seguida com um sorriso terno afastou-se e foi deitar-se a um canto mais afastado do grupo.
Diogo olhou para a sua mão. Aquele arrepio fora estranho, mas ao mesmo tempo agradável.”
- Posso saber em que estás a pensar? – perguntou-lhe Samuel subitamente perto de si. Diogo estivera tão embrenhado naquelas lembranças de há tão poucas horas atrás que nem se dera conta da aproximação do Anjo Potência.
- Porque é que achas que ela quer deixar de ser um demónio? – perguntou-lhe Diogo sem deixar de olhar para Tânia
- Da mesma maneira que um anjo quer deixar de ser um anjo e assim transformar-se num anjo caído, o que não deixa de ser um demónio. – informou-o Samuel olhando também para ela – É raro, mas não seria a primeira vez a acontecer.
- Achas que podemos confiar nela? – perguntou
- Daqui a umas horas, assim que atravessarmos a fronteira entre este e outro reino, teremos a resposta – respondeu Samuel ficando de seguida muito pensativo. Diogo adivinhou logo o que lá vinha – “O relacionamento entre pessoas é mantido menos pela confiança recíproca e mais pela recíproca suspeita” Napoleão Bonaparte. O mesmo se aplica aos anjos e demónios.
Com isto Samuel afastou-se voltando para o seu posto de vigilante. Diogo divertia-se sempre com as frases profundas que o seu psicólogo tinha preparadas para cada momento, para cada pergunta e para cada situação, parecendo mais um dicionário ambulante de citações.
Diogo espreguiçou-se de tal maneira que sentiu-se desequilibrar. Para evitar uma queda recuou um passo atrás o que fez com que enfiasse um pé na água do lago. Retirou-o imediatamente, como se o lago pudesse engoli-lo. Para sua surpresa reparou que tanto os ténis como as calças estavam completamente secos. Mas ele tinha certeza que o seu pé mergulhara na água. Confuso voltou a baixar-se ficando muito próximo da água. Olhou em seu redor, mas nenhum dos seus companheiros estava a prestar-lhe atenção. Reticente esticou a mão e, mal o fez, toda a cor encarnada que lembrava sangue se afastara. Ainda inseguro do que estava a fazer e olhando mais uma vez em volta, mergulhou a mão e o braço na água até ao cotovelo. Sentia o frio da água e a ondulação contra o seu braço, mas para além disso era como se a mesma não lhe tocasse. A sua mão e braço continuavam secos. Mas ainda momentos antes molhara a cara, lembrou-se confuso. Diogo recordou-se de como a água também parecera nunca interferir com Leviathan, respeitando todas as suas vontades. Os seus movimentos não eram toldados por se encontrar debaixo de água, ao contrário do que se passara com Diogo no momento da batalha. Era como se para Leviathan a água não fosse objecto de dificuldades ou impedimentos, como se, pelo contrário, fosse o seu mundo. Sentindo de repente um medo súbito, Diogo deu um safanão à mão como que para afastar a água e para sua enorme surpresa daquele gesto surgiu uma onda que foi embater nas rochas, grande o suficiente, para deitar abaixo algumas delas.
Todos se sobressaltaram, fazendo surgir as suas armas. Até mesmo Tânia se mostrava inquieta depois de se ter levantado tal como os outros. Olharam todos para Diogo como que a perguntar-lhe o que acontecera.
- É melhor arrumarmos as nossas coisas e sairmos daqui… - disse congratulando-se por perceber que o seu tom de voz parecia soar normal, apesar de no seu interior Diogo se encontrar em pânico devido ao que acabara de ver. Diogo queria acreditar que tudo aquilo fora uma coincidência, que nada tivera a ver com o seu gesto e por isso aproximou-se dos outros para ajudar a levantar o “acampamento”.

Sem comentários: