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segunda-feira, 25 de abril de 2011

2º VOLUME: Capítulo 2 - Lady

Diogo não se lembrava da última vez que demorara tanto tempo a arrumar as suas coisas para seguir viagem. Apesar de saber que não havia outra opção, no entanto, pensar que daí a umas horas estariam a pisar o reino de outro Príncipe do Inferno e a depararem-se com mais uma infinidade de perigos, não era um grande incentivo. Mas estava na hora, não podia atrasar-se mais. Ele estava entre amigos, mas e os seus pais? Naquele momento poderiam estar a suportar dores terríveis, provações inimagináveis. Era sua obrigação ir buscá-los o mais depressa possível. Diogo olhou para os seus companheiros. Estavam todos prontos para continuar a caminhar pelo inferno. Bastava um sinal da sua parte e segui-lo-iam em silêncio. Há 48 horas atrás estava deitado na sua cama, sem sequer imaginar que naquele momento estaria rodeado de anjos e demónios numa busca pelos seus pais, travando batalhas contra os próprios príncipes do inferno. Demasiadas surpresas, demasiados segredos, demasiadas guerras. E afinal o que era ele no meio de todos? Um anjo ou um demónio? Mais cedo ou mais tarde iria descobrir, mas será que essa descoberta iria agradar-lhe? Diogo sentiu a Adaga bem presa à sua cintura. Ao contrário da Espada de Metatron que desaparecia sempre que ele não precisava mais dela, já aquela Adaga nunca se afastava. Significaria isso alguma coisa? Diogo abanou a cabeça, não podia deixar-se levar por aqueles pensamentos, não naquele momento em que todos esperavam uma decisão da sua parte.
- Se estiverem todos de acordo podemos partir. – informou-os, tentando mostrar mais determinação do que aquela que sentia. Ninguém disse uma palavra, mas estavam todos em sincronia. Júlio pôs a mochila, já com poucos mantimentos, mas com uma grande variedade de machados, às costas. Matilde posicionou-se ao lado deste com o seu tão característico sorriso. Samuel aproximou-se do grupo e Sofia começou a caminhar, mas não sem antes se dirigir a Tânia.
- Se queres ajudar, podes começar por nos indicar o caminho para o próximo reino. – isto foi dito de uma forma fria e sem qualquer duvida de que ela ainda não aceitara Tânia naquele grupo.
- Bem…- começou Tânia algo nervosa, mas recuperando imediatamente o controlo da voz – Tendo em conta a zona do reino em que nos encontrarmos, aquele do qual estamos agora mais próximos é o do Príncipe…Belial, a Norte do Inferno.
- Belial… - murmurou Diogo. Lembrava-se muito bem do que Samuel lhe dissera sobre aquele Príncipe do Inferno.
É o mais imoral de todos, a sua intenção é proliferar a perversidade e a culpa. Diverte-se a destruir casamentos, negócios, saúde, a felicidade em geral com o único intuito de levar as suas vítimas à loucura. Todo ele esbanja arrogância e só responde correctamente a uma pergunta se lhe oferecerem algum sacrifício em troca. E todos aqueles que aceitam presenteá-lo com um sacrifício acabam por sair a perder porque Belial consegue ludibriar de forma a ser o único a sair a ganhar.”
Todos ficaram em silêncio durante alguns segundos, cada um deles envolvido nos seus próprios pensamentos. Para Diogo, Leviathan, já tinha demonstrado um grau tão elevado de malvadez e crueldade que era difícil imaginar algo ainda pior. No entanto, já nada lhe parecia impossível.
- Nesse caso é para lá que vamos. – apressou-se ele a dizer determinado – Quanto tempo achas que levamos a chegar lá? – perguntou dirigindo-se a Tânia.
- Se fossemos a voar, estaríamos lá em menos de uma hora – informou-os
- Essa não é uma opção – lembrou-lhe Júlio – Eu não tenho asas…
- Eu posso levar-te! – sugeriu Matilde feliz
- Fora de questão! – disse Júlio contrariado – Eu não vou ser transportado por uma pirralha como se fosse um saco de batatas!
Diogo sabia que Júlio tinha pavor a alturas e por isso voar seria algo que ele desejaria nunca ter de vir a experimentar. Nada disse, mas sentia-se grato por aquela intervenção negativa do amigo. Diogo nunca experimentara fazer surgir as suas asas. Sendo filho de um anjo o mais provável seria tê-las, mas não podia esquecer-se que também era descendente de um Príncipe do Inferno. Não estava preparado para descobrir se as suas asas seriam de um branco quase transparente ou de um negro mais escuro que a própria noite. Ainda não estava preparado para essa revelação
- Nesse caso demoraremos cerca de meio dia…conheço alguns atalhos que irão ser-nos úteis – continuou Tânia.
- Então é melhor metermo-nos a caminho o quanto antes – incentivou Samuel.
Assim o fizeram. Seguiram em silêncio, à excepção de Matilde que era impossível manter-se mais de cinco minutos sem conversar. Era Tânia que liderava o grupo, logo seguida de Diogo, Júlio e Matilde e por fim por Samuel e Sofia, esta última recusando-se terminantemente a aproximar-se do demónio que fazia agora parte do grupo. Caminharam durante muito tempo, fazendo as pausas que apenas consideravam necessárias e mais no interesse de Júlio e de Diogo que continuavam demasiado apegados ao esforço físico de um humano.
- Nunca imaginei o Inferno tão deserto - comentou a certa altura Diogo caminhando junto de Tânia ao mesmo tempo que olhava em seu redor onde a paisagem era sempre igual, uma planície sem fim de um encarnado desbotado – Sempre o imaginei cheio de almas daqueles que merecem castigo devido aos crimes praticados na terra, pelo menos foi a ideia com que fiquei depois de todas as minhas idas à missa.
- Na verdade não é isso que acontece – revelou-lhe Tânia – É verdade que as almas dos mortais pecadores vêem todas para cá, mas o fim que lhes está reservado é outro.
- Que destino é esse? – perguntou Diogo a medo
- Lembras-te daquele pequeno exército do Príncipe Leviathan com o qual vocês combateram? – perguntou-lhe
- Pequeno? – Diogo sentiu-se injustiçado, mas Tânia não reparou continuando.
- As almas são transformados nesse tipo de demónios, formando um exército de escravos ao serviço de cada príncipe – esclareceu-o – São precisas várias almas para cada soldado, mas como sabes os pecadores são tantos que os exércitos são sempre numerosos.
- Estás a dizer-me que nós estivemos a lutar com almas de pessoas que viveram na terra? – Diogo começava a sentir-se incomodado com esta ideia.
- O número de almas necessárias para um único soldado é tão grande que este acumula todo o tipo de pecados dentro dele – Tânia olhou de relance para Diogo que estava algo pálido – Quero com isto dizer que não tens de te sentir culpado, pois ao derrubares um soldado, estás a fazer desaparecer uma infinidade de pura maldade.
- Mas não é suposto as almas dos pecadores virem para aqui sofrer – insistiu Diogo – Não deviam estar a ser sujeitos a uma espécie de castigo doloroso?
- Queres sofrimento maior do que sentires para toda a eternidade todo o mal que praticaste na tua vida? – perguntou-lhe Tânia.
- Como assim? – perguntou Diogo confuso.
- Cada alma que chega ao Inferno trás consigo o seu pior pecado praticado como humano. – explicou – Significa isso que cada alma irá sentir para toda a eternidade o mal que fez. Imagina uma alma cujo corpo humano praticou um assassinato com um revolver, com uma faca, com uma corda…o acto praticado irá senti-lo aqui na sua alma para toda a eternidade…irá sentir o tiro, a facada ou o estrangulamento para toda a eternidade. O mesmo acontece com os violadores, os ladrões, os traficantes e por aí fora…cada um à sua maneira, todos sofrem indescritivelmente para toda a eternidade…é o tipo de paga que não desejarias ao teu pior inimigo.
Diogo não imaginara nada daquilo e optando por não pensar mais nisso, resolveu mudar de assunto.    
- Esse Belial…o que sabes sobre ele? – perguntou.
- Aquilo que todos os demónios sabem… - começou Tânia olhando de relance para Diogo que a incentivou com o olhar. – Nos seus tempos de anjo era um dos mais importantes anjos virtudes, dizem mesmo que foi o primeiro anjo virtude a ser criado. Ele considerava-se mesmo o primogénito de Deus. Só tinha olhos para Deus e por isso nem sequer se apercebia que existiam outras categorias de anjos hierarquicamente mais próximos de Deus do que ele próprio. Mas um dia olhou para além de Dele e descobriu a existência de Adão e portanto do início da criação da raça humana. E viu para além disso…
- O que queres dizer? – perguntou Diogo curioso.
- Viu o que Deus criara para aquele humano. Viu o Jardim do Éden e viu-a…
- Viu-a? Quem?
- A primeira mulher criada por Deus…
- Eva?
- Não, Eva não foi a primeira mulher a ser criada.
- Não foi? – Diogo estava agora confuso – Sempre ouvira a história de Adão e Eva e de como ela fora criada a partir da costela de Adão. Não fazia ideia de que antes dela existira outra mulher.
- Antes dela Deus criou…Lady Lilith – revelou-lhe Tânia.
Diogo não sabe o que sentiu naquele instante. No momento em que ouviu o nome pronunciado por Tânia algo despertou dentro dele. Uma angústia cada vez mais crescente apoderou-se do seu interior. Vinha junto com o medo da perda, com a aflição de não poder controlar algo. Viu asas, uma luta desenfreada, lágrimas, a privação de qualquer sentimento de esperança. E ouviu-a. Ouviu-a dentro de si, dentro da sua cabeça. Os seus ouvidos estavam cheios daquela gargalhada vitoriosa e que durante 17 anos o envolvera em pesadelos e suores frios. E de repente viu-a nitidamente. Como era bela com a sua pele branca e luminosa, emoldurada por aquele longo “manto” dourado que eram os seus cabelos, cujos caracóis faziam cócegas nas suas bochechas coradas e sadias iluminando ainda mais os seus olhos cor de avelã. Como a odiava! Como desejava poder cravar nela a adaga que trazia à cintura! Como desejava vingança! Como desejava derramar sangue! O rosto da sua mãe no momento em que ela a atingira. A tentativa de murmurar palavras que nunca chegaram a ser proferidas quando percebeu que era o seu fim.
-ELA MATOU-A!!! FOI ELA!– gritou subitamente Diogo sentindo a raiva e o ódio a inundar-lhe todos os seus sentidos
- O que é que lhe fizeste? – ouviu ele Sofia gritar para Tânia depois de correr até eles. Sofia apontou as suas espadas ao pescoço do demónio.
- Eu não fiz nada! – Tânia demonstrava medo na sua voz e olhava para Diogo como se ele estivesse louco ao mesmo tempo que tentava não mexer-se demasiado tendo em conta a proximidade das armas de Sofia – Estávamos apenas a conversar…
- Os teus olhos Diogo… - murmurou Júlio que olhava directamente para o amigo.
Diogo calculou que naquele momento os seus olhos estariam de um vermelho sangue tal era o ódio que sentia crescer dentro de si, mas não quis saber. Retirou a Adaga que trazia à cintura e em tom ameaçador apontou-a a Samuel, para surpresa de todos, menos do próprio que se mantinha sereno.
- TU ESTAVAS LÁ! – atirou-lhe Diogo cheio de raiva e cada vez mais perto de Samuel – DISSESTE QUE NÃO SABIAS QUEM A TINHA MORTO, MAS TU ESTAVAS LÁ! VISTE-A MORRER E NÃO FIZESTE NADA…NADA!!!
- Isso não é verdade Diogo – o tom de Samuel continuava calmo mas o seu olhar revelava outra coisa – Eu faria tudo pela tua mãe, eu daria a minha vida por ela, se ela o tivesse permitido!
- EU LEMBRO-ME! NO MOMENTO EM QUE ELA MORREU TU ESTAVAS AO MEU LADO! EU VI QUEM A MATOU E TU TAMBÉM! – continuava Diogo fora de si – DEIXASTE-A IR EMBORA, NÃO RECLAMASTE VINGANÇA! NÃO A IMPEDISTE DE IR EMBORA! – Diogo não sabia se neste momento estava a falar da assassina da sua mãe ou se da própria mãe. Samuel podia ter evitado a sua morte prematura, podia ter lutado a seu lado, podia ter feito algo por um futuro em que ele pudesse ter conhecido a sua mãe…mas não o fez, ficou ali parado.
- A minha função era proteger-te. – defendeu-se Samuel sem se importar com a Adaga cada vez mais próxima que Diogo lhe apontava – Esse fora o meu juramento para com a Luz, essa fora a única intenção da tua mãe quando me enviou aquela oração, proteger-te e nunca interferir se isso te pusesse em perigo.
- Mas do que é que estão a falar? – perguntou Júlio confuso.
- Foi Lilith quem matou a Luz, a minha mãe! – revelou Diogo num tom menos audível, mas não menos colérico. A surpresa foi geral.
- Lilith… - murmurou Sofia
- Mas como é que sabes isso? – voltou a questionar Júlio
- Quando ouvi a Tânia pronunciar o nome dela, lembrei-me de tudo, eu estava lá, eu assisti à luta, eu vi a minha mãe morrer… - Diogo sentiu a voz falhar, mas nem por isso desviou o olhar de Samuel que também o encarava.
- Mas nesse caso terias…o quê? Dois anos? Impossível! – proferiu Júlio
- É possível sim – esclareceu-o Sofia num tom calmo – Os anjos e demónios têm memória desde o momento em que são criados, e o Diogo, apesar de ter sido gerado e não criado, acredito que também possua essa mesma capacidade.
- E porque é que só agora é que ele se lembrou desse lapso de tempo?
- Não sei ao certo, mas posso supor que o facto de ele ter sido criado como um simples humano, sem consciência do seu verdadeiro mundo e ainda o facto de se tratar de uma situação traumática, possa ter feito com que o seu consciente ocultasse essa informação para o proteger – aventou Sofia que continuava atenta aos passos de Diogo.
- Mas não contavas com isso, pois não Samuel? – disse Diogo cheio de ódio sem desviar a sua atenção do antigo psicólogo – Não contavas que eu pudesse lembrar-me de que assististe à morte da Luz sem fazer nada. O que me faz ponderar se a sua morte não seria também do teu interesse…
Foi aqui que Diogo cometeu o seu grande erro. A calma de Samuel abandonou-o por completo. Em segundos, Diogo tinha a arma em forma de foice literalmente encostada ao pescoço e o rosto de Samuel a escassos centímetros do seu.
- NÃO TE ATREVAS A PROFERIR UMA BARBARIDADE DESSA NATUREZA! – Samuel estava fora de si. Diogo nunca o vira assim. Estava completamente descontrolado – A LUZ ERA TUDO PARA MIM! ELA SALVOU-ME E EU…DARIA A MINHA VIDA POR ELA…EU AMAVA-A!
O silêncio foi total. Diogo e Samuel fitavam-se mutuamente. Diogo percebia que Samuel sentia que tinha falado de mais, mas que não ia retirar aquilo que dissera. De repente sentiu uma mão pousar no seu braço. No mesmo braço que segurava a Adaga. Era a mão de Matilde que agora lhe transmitia um calor reconfortante. Tinha um olhar sério, mas caloroso.
- Tudo o que o Samuel acabou de dizer é a pura da verdade. – murmurou-lhe Matilde ao mesmo tempo que lhe transmitia alguma calma. Uma vez que Diogo se manteve em silêncio ela continuou – Sou um anjo querubim lembras-te? – disse empertigando-se toda – Eu vejo não só a verdade no coração dele, como também toda a dor e arrependimento que o inundam. Aquilo que o Samuel mais desejava era voltar atrás no tempo e todos os dias se pergunta se devia ter respeitado a vontade de Luz. Há 17 anos que ele se martiriza. Tu és o único que o faz seguir em frente e podes acreditar que não é só porque o fazes lembrar-se da Luz.
Diogo sentiu-se acalmar cada vez mais. O toque de Matilde e o tom tranquilo que lhe dirigia estavam a ter efeito nele. Voltou a olhar para Samuel, no preciso momento em que ele afastava a arma do seu pescoço desviando completamente o olhar.
- Eu sabia que tinha sido a Lilith a matar a Luz sim, mas contar-te não ia servir de nada. Irias querer vingança e esquecerias tudo o resto – disse-lhe Samuel – Eu não podia permitir que o filho da Luz fosse desafiar o mais malévolo demónio feminino sem antes se encontrar preparado.
- Isso quer dizer que nunca pensaste em impedir-me? – perguntou Diogo baixando também a Adaga.
- Mesmo que o quisesse nunca o conseguiria, pois não? – o tom que Samuel empregava agora era muito mais descontraído, como se lhe tivessem tirado um peso do coração. No entanto continuava sem encarar Diogo. – Mas não o poderia permitir enquanto não achasse que estavas preparado para encontrar a Lilith.
- Pois era isso que eu deveria fazer agora! – revoltou-se Diogo
- E esquecerias os teus pais? Deixá-los-ias nas mãos de um Príncipe do Inferno até conseguires a vingança que queres? – perguntou-lhe Samuel agora com os olhos cravados nos de Diogo. – Fizeste uma promessa a ti mesmo e aos teus pais. Vais voltar atrás?
- Mas ela matou a Luz! E nunca pagou por isso! – insistiu Diogo apesar de já não empregar tanta força nos seus argumentos.
- A hora dela vai chegar…e nós vamos cá estar todos para permitir que isso aconteça. - disse de repente Sofia num tom meigo. Tom esse que surpreendeu mais Diogo do que qualquer outra coisa. Apercebendo-se disso, Sofia resmungou qualquer coisa e desviou o olhar.
- Prometes? – perguntou Diogo dirigindo-se a Sofia, ignorando o seu mal estar. Sofia olhou para Diogo. Fitaram-se por momentos e de seguida ela acenou afirmativamente. Depressa desviaram o olhar e Diogo voltou a prender a Adaga à cintura. Naquele momento não conseguia encarar o olhar de Samuel. Ainda se sentia irritado com o facto de nunca lhe ter dito toda a verdade, mas ao mesmo tempo começava agora a sentir-se algo constrangido. Obrigara-o a confessar algo muito pessoal, algo que lhe devia trazer recordações que ele procurava guardar só para si. Depois lembrou-se…saberia a sua mãe o que Samuel sentira por ela? Ela engravidara de outro e Samuel nunca a abandonara e prometera-lhe proteger Diogo com a sua vida se isso fosse preciso. E Lilith! Quem era ela? Agora sabia que fora a primeira mulher a ser criada, mesmo antes de Eva, mas não sabia mais nada. Diogo olhou para Tânia que o fitava nervosa e foi ter com ela. - O que mais me podes dizer sobre essa Lady Lilith? Quero saber tudo!
Continuaram a caminhada. Desta vez era Samuel quem seguia em último. Mas Diogo e Tânia continuavam a ser os primeiros, com este a tentar tirar-lhe todas as informações que conseguia.
- Alguma vez estiveste com ela? – perguntou Diogo a Tânia
- Sim…como renegada, uma das nossas principais funções é a entrega de mensagens entre as categorias superiores – Diogo percebeu o facto de Tânia tentar não pronunciar a palavra “demónio” – E a Lady Lilith já me solicitou para esse tipo de serviços. Mas não gosto sequer de dizer o nome dela, ela sempre me assustou – Diogo sentiu Tânia arrepiar-se. – Ela tem um olhar que nunca encontrei nos outros…parece que nos lê os pensamentos mesmo antes de os termos…é arrepiante!
- O que podes dizer-me sobre ela? – insistiu Diogo ignorando a reticência de Tânia em falar do assunto.
- É um dos anjos caídos mais temidos e mais respeitados. – cedeu Tânia - É comum entre os…demónios…recusarem-se sequer a pensar no nome dela, quanto mais dizê-lo em voz alta…é por isso que muitas vezes só se referem a ela como “Lady”. Como já te disse, foi a primeira mulher a ser criada, foi a primeira esposa de Adão. E ao contrário de Eva que foi criada a partir da costela de Adão, já Lady foi gerada do mesmo barro que Adão. Diz-se que para ela significava que estava em pé de igualdade com ele, o que o desagradava. Era totalmente livre e independente, com ideias próprias. Dizem que se fartou do machismo de Adão e que abandonou o Paraíso.
- E depois? – Diogo “bebia” cada palavra de Tânia
- Dizem que fugiu para o Mar Vermelho, onde viveu muito tempo, completamente em liberdade – continuou – Um dia três anjos apareceram para a levarem de volta a Adão. No entanto foi impossível levarem-na…
- Porquê?
- Bem, ela havia quebrado as leis de Deus… - informou como se aquilo fosse suficiente para perceber. Mas ao dar-se conta de que Diogo não reagia, explicou melhor – Ela já tinha desgraçado a sua honra como esposa mantendo relações com todo o tipo de demónios. Assim os anjos reconhecendo a veracidade daquilo, não a levaram de volta ao Paraíso.
- Ela usou as regras do criador a seu favor… - murmurou Diogo
- Isso mesmo e por isso conseguiu manter a sua liberdade vivendo com os demónios e gerando mais. – Tânia fez uma pausa antes de continuar – Mas para ela ninguém se iguala ao Príncipe Sammael…
- Como assim? – perguntou Diogo apanhado de surpresa.
- Há quem diga que ela abandonou o Paraíso com a ajuda do Príncipe Sammael que lhe revelou o nome de Deus tal como toda a sabedoria mística e mágica. Foi com o poder que deriva do conhecimento desse nome que conseguiu a chave para sair do Paraíso, ao passo que com a magia negra conseguiu um grande poder sobrenatural. Ela foi a primeira…bruxa da humanidade! – informou-o - Apaixonada pelo Príncipe Sammael alcançou a imortalidade e casou-se com ele…
- Estás a dizer-me que… - Diogo estava incrédulo - …Sammael e Lilith são…casados?
- Sim… - confirmou Tânia – Até hoje se fala da grande festa que se deu.
Diogo ficou pensativo. De um momento para o outro obtivera tanta informação, Parecia que o seu cérebro estava a ficar atolado. Mas precisava de saber muito mais, precisava de saber tudo sobre essa Lady Lilith, precisava estar pronto para quando a encontrasse. Tânia era a sua melhor fonte para o que precisava saber. Diogo preparava-se, assim, para uma nova onda de perguntas quando de repente reparou que Tânia estava completamente parada.
- O que foi? – perguntou juntando-se a ela e olhando na mesma direcção, mas continuando a ver a mesma infindável planície.
- Chegámos à fronteira – murmurou ela ao mesmo tempo que os outros se reuniam à volta dos dois.
- Com medo da verdade? – perguntou-lhe Sofia num tom que não deixava duvidas de como pensava.
- “ A verdade é inalterável…a malícia pode atacá-la, a ignorância pode zombar dela, mas no fim: lá está ela!” Sábias as palavras de Sir Winston Churchill – citou Samuel no seu tom tão característico o que acalmou o “espírito” de Diogo.

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