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segunda-feira, 2 de maio de 2011

2º Volume: Capítulo 3 - Para lá da Fronteira

Era então ali a fronteira que separava os reinos de Leviathan e de Belial, pensou para consigo Diogo. Estavam prestes a deixar para trás o território que pertencia ao príncipe da água para enfrentar aquele que era governado pelo príncipe da terra. Não se via qualquer linha divisória, qualquer marco, mas, sem saber dizer porquê, Diogo tinha a certeza de que era realmente ali, a dois passos de distância. À sua frente esperavam-no novos desafios, novos perigos, novas batalhas e o medo de que tudo aquilo fosse em vão. Olhou para os amigos. Estavam todos de olhos fixos no horizonte, na planície que se estendia à frente deles, sem qualquer vestígio de que estavam prestes a atravessar uma fronteira. Todos sabiam quer era o momento, por isso olharam em simultâneo para Tânia que também mantinha o olhar cravado no caminho que estavam prestes a seguir. Mantiveram-se todos em silêncio até que ouviram Tânia suspirar profundamente. Deu um passo em frente e fazendo meia volta sob si mesma ficou de frente para eles. Todos a observavam quando esta sorriu e deitando um último olhar a Sofia, deu um passo atrás. Diogo sentiu todos susterem a respiração e tal como ele, o olhar dos restantes convergiu para a testa de Tânia. Nada aconteceu. Ela continuava tal e qual como antes, nenhum símbolo apareceu na sua testa e nada de diferente se verificou. Diogo sorriu-lhe.
- Como podes ver Sofia, por mais que isso te transtorne, nem sempre tens razão! – atirou-lhe Diogo.
- Lá porque ela é realmente quem diz ser, isso não quer dizer que seja de confiança. – respondeu-lhe Sofia sem dar o braço a torcer.
- No dia em que vocês os dois encontrarem um assunto em que estejam de acordo, eu juro que corto o meu cabelo – interrompeu-os Júlio antes que Diogo respondesse à letra a Sofia.
- A sério? E posso ser eu a cortar? – aproveitou-se logo Matilde esperançosa – Eu sempre quis…
- Mas há alguma coisa que nunca tivesses tido vontade de fazer? – interrompeu-a Júlio exasperado, mas conseguindo vitoriosamente o efeito de deixar Matilde pensativa.
- Vamos atravessar a fronteira de uma vez ou devo presumir que vamos ficar aqui a criar raízes? – atirou Sofia dando os passos suficientes para atravessar a invisível linha divisória.
Samuel seguiu-lhe os passos, logo seguido por Júlio que teve de puxar por Matilde que continuava envolvida nos seus pensamentos murmurando algo sobre malabarismo, mas abanando de imediato a cabeça.
- Diogo vais gostar de ver isto! – disse-lhe de repente Júlio, que tal como os outros olhava à sua volta com um ar surpreso.
Diogo achou aquilo muito estranho. Ele continuava a ver uma planície infindável, mas é certo que algo captava a atenção dos outros que permaneciam verdadeiramente abismados com algo que os rodeava. Assim deu dois passos, os suficientes para alcançar o novo reino. Por momentos pensou que algo fosse acontecer, mas não sentiu nada de especial. Isso até olhar ao seu redor. Não conseguiu deixar de abrir a boca tal era a sua perplexidade. Não havia dúvidas de que estavam noutro reino, mas tendo em conta o que agora o rodeava, se não soubesse que estava no Inferno nunca o adivinharia.
Estavam rodeados de árvores repletas de folhas verdes e com frutos de todas as cores. Um manto de relva verde estendia-se até o perderem de vista. Diogo conseguia mesmo sentir o agradável cheiro da mesma, como se tivesse sido acabada de cortar. Havia infindáveis qualidades de flores, algumas delas que ele tinha a certeza de nunca ter visto ou ouvido falar na sua vida. Era tudo inacreditavelmente belo e pacífico. Até mesmo o musgo que rodeava alguma das árvores libertava um aroma agradável. O céu era realmente azul e apesar de não conseguir ver nenhum pássaro, podia quase jurar que conseguia ouvi-los.
- Continuamos no Inferno, certo? – perguntou Júlio que ainda não fechara a boca e que tinha o olhar agora preso numa planta que parecia brilhar.
- Não se esqueçam que acabámos de entrar no reino do Príncipe que controla a terra e tudo aquilo que cresce nela – lembrou Tânia sem desviar o olhar do céu azul – E apesar de ser um demónio, não tem necessariamente de possuir mau gosto. Ele já foi um anjo, já viu o que há de mais belo. Assistiu à criação do Paraíso e achou-o deslumbrante…
- E agora? – perguntou Sofia que não parecia nada à vontade com aquela surpreendente mudança de cenário.
- É estranho… - murmurou Júlio – A paisagem é muito bonita, mas não acham que falta qualquer coisa? Parece tudo demasiado parado…
Diogo olhou mais atentamente. Era verdade, nada mexia, nem sequer uma única folha das árvores ou qualquer pétala das flores. Apesar de tudo aquilo parecer autêntico e de uma beleza invejável, faltava algo, faltava…vida, constatou.
- Eu nunca quis ser levada por uma tempestade de areia! – disse subitamente Matilde de olhos muito arregalados fixando um ponto atrás deles.
- Não acredito que ainda estás a pensar nisso! – recriminou-a Júlio abanando a cabeça – Quando te perguntei se havia algo que nunca quisesses ter feito, não estava propriamente à espera de uma resposta. E quem é que se vai lembrar de uma tempestade de areia? Ninguém no seu juízo perfeito… - Júlio não terminou o que tinha para dizer. Tal como os outros seguiu o pequeno braço que Matilde estendia em todo o seu comprimento.
O que viram silenciou-os por completo. Mas antes que tivessem tempo de tomar consciência do que tinham à sua frente, a paisagem que antes tinham admirado com tanto fascínio desfez-se como se de um cenário se tratasse. Todas as árvores, plantas, flores, relva, tudo se transformou, em breves segundos, numa nuvem de areia. Era como se aquilo nunca ali estivesse estado, como se tivessem apenas assistido a uma miragem, antes de enfrentarem o verdadeiro terror que agora ganhava forma.
- Aquilo é… - murmurou Júlio sem verbalizar o que o seu cérebro já tinha captado.
- Uma tempestade de areia! Sem dúvida… - murmurou também Samuel com o receio estampado no rosto.
O espectáculo aterrador que se desenrolava à frente deles era impressionante de se ver. Em poucos segundos toda a areia e terra que ali se encontrava convergiram para um único ponto, dando origem a uma nuvem espessa que rodava em torno de si mesma formando um remoinho que aumentava cada vez mais à medida que se aproximava deles.
- Voltamos para trás? – perguntou Sofia de forma retórica. Olharam todos para trás em simultâneo, mas o que viram ainda os deixou mais aterrorizados. Onde devia estar uma planície infindável, aproximava-se igualmente uma tempestade de areia. Estavam completamente encurralados.
- Afastámo-nos demasiado da fronteira enquanto observávamos a paisagem – informou-os Tânia também alarmada – E se voltarmos para trás vamos direitos àquela tempestade.
“Pensa Diogo, vá lá” – dizia Diogo para consigo – “Não podemos desistir agora, não podemos ficar aqui enterrados…”
- Não quero alarmar ninguém, mas… - começou Matilde que no entanto foi interrompida por Diogo.
- JÚLIO!!! – gritou Diogo - Tu fizeste um trabalho sobre tempestades de areia no final do secundário, lembras-te? Havia qualquer coisa sobre o que fazer se fossemos apanhados por uma… - Diogo olhava para Júlio em busca de esperança. Ele lembrava-se disso. Júlio tivera problemas com o computador e por isso fora para sua casa fazer o trabalho, tendo como único tema de assunto durante uma semana inteira apenas o raio da areia. Porque é que não lhe prestara atenção? Recriminava-se Diogo.
- O quê? – Júlio parecia nem ouvi-lo tal era a velocidade com que a tempestade se dirigia para eles.
- O TRABALHO!!! – gritou-lhe desesperado – Havia qualquer coisa…
- Sim claro! – lembrou-se subitamente Júlio com um sorriso que depressa esmoreceu – Como raio é que queres que me lembre de um trabalho sobre areia que foi feito há séculos? Eu não tenho memória de anjo…
- Pensa Júlio… - gritou-lhe novamente Diogo olhando para a tempestade cada vez mais próxima – E depressa…
- Matilde se continuares a puxar o meu braço eu não vou conseguir lembrar-me! – resmungou-lhe Júlio tentando concentrar-se – Sim havia qualquer coisa…
- O QUÊ??? – gritaram-lhe todos excepto Matilde que parecia verdadeiramente em pânico com a velocidade que a tempestade ganhava.
- Eu lembro-me que começava com algo sobre as tempestades de areia estarem entre os fenómenos mais violentos e imprevisíveis da natureza podendo causar ferimentos, danos e até a morte – disse animado por se lembrar, mas calando-se de imediato ao ver a cara do outros.
- Nós sabemos o que nos espera Júlio, a ideia é tentar evitar a nossa morte! – atirou-lhe Diogo que já precisava gritar para se fazer ouvir tal era o uivo ensurdecedor que provinha do remoinho de areia que estava a escassos metros deles.
- Não grites comigo, eu estou a tentar… - ripostou Júlio também aos gritos – Eu queria ver se tivesses de ser tu a lembrar-te de algum trabalho que fizeste há séculos!
- JÚLIO!!! – gritaram todos novamente desesperados.
- Pronto está bem… havia qualquer coisa sobre termos de ficar atentos aos anúncios de rádio e da televisão…
- Como podes ver, podemos descartar essa ideia tão fabulosa! – gritou-lhe Sofia sarcasticamente ao mesmo tempo que fazia surgir as suas armas. Diogo duvidava muito que elas servissem de alguma coisa contra areia, mas preferiu não fazer referência a isso.
- Matilde, se parares de me puxar, talvez eu consiga lembrar-me de alguma coisa! – gritou-lhe novamente Júlio – Havia também algo sobre devermos fugir se estivermos de veículo… - o grito de exasperação que Júlio ouviu da parte dos outros foi o suficiente para começar a seleccionar a informação que lhe vinha à cabeça – Também era importante não tentarmos mover-nos às cegas – lembrou-se triunfante.
- O que queres dizer com isso? – perguntou-lhe Diogo alarmado
- Significa que em menos de um minuto vamos estar completamente às escuras – explicou-lhe Júlio com uma expressão de pânico no rosto e apressando-se a lembrar-se de mais alguma coisa que lhes pudesse dar alguma esperança – Devemos arranjar um abrigo, uma rocha grande, um local alto para evitar a grande concentração de areia que se encontra perto do solo, devemos pôr um pano em redor da cabeça para proteger os olhos e o nariz… - A voz de Júlio demonstrava cada vez mais desespero. Todos sabiam que nada daquilo lhes era útil ali. – Raios! Não havia nada no meu trabalho sobre tempestades de areia no Inferno!
A visibilidade já estava cada vez mais reduzida quando Júlio se lembrou de algo que podia ajudar.
- GRUPOS! – gritou subitamente com um sorriso e todos olharam para ele esperançosos – Se estivermos em grupo devemos dar as mãos e os braços, para…bem vocês sabem…para não sermos levados pela tempestade. – engoliu em seco.
Sem outra alternativa, Tânia deu a mão a Diogo, que por sua vez estendeu a sua a Sofia, que apertou a mão de Samuel que se preparava para agarrar a de Júlio quando de repente viram Matilde a chorar.
- Matilde, vai correr tudo bem… - disse-lhe Júlio apertando bem a mão de Matilde que continuava a chorar.
Diogo estava surpreso com aquela reacção de Matilde. Ela era sempre a primeira a atirar-se de cabeça, a primeira a acreditar que tudo ia acabar bem. Mas ali estava ela, como uma verdadeira criança indefesa, com medo e a sentir o desespero que todos eles sentiam naquele momento.
- Se…calhar…não é…o momento…ideal…para vos…dizer que eu…tenho…asma – revelou Matilde entre altos soluços sem conseguir encará-los.  
Aquilo apanhou-os a todos de surpresa. Diogo nunca sequer imaginara que um anjo poderia ter problemas respiratórios. Tal parecia tão fora do normal. No entanto, ali nada era normal, nada era conforme ele pensava. E agora sim tinham um problema ainda maior para juntar ao que já tinham a sua frente. Sentiu o medo de Matilde e de todos os outros que não conseguiam pronunciar qualquer palavra, mas que pela cara deles, percebiam muito bem a gravidade da situação. Mas antes de poderem pensar em algo, a escuridão e os ventos fortes abateram-se sobre os seis. A última coisa que Diogo viu foi Júlio recusar a mão de Samuel. O que se seguiu foi a total escuridão e um vento com uma força demoníaca que dificultava em muito a tentativa de Diogo em manter-se de mãos dadas quer com Sofia, quer com Tânia.
Diogo não conseguia ver nenhuma delas. Sentia apenas as mãos de cada uma a apertarem as suas com toda a força que aquela tempestade de areia lhes permitia. Mas algo de errado se passava, principalmente com Sofia. A sua mão parecia estar sempre a escorregar, como se algo a forçasse a isso. Diogo sentia puxões bruscos da parte dela e tinha a certeza de que aquilo não se devia apenas aos fortes ventos que investiam contra todos eles. Apertava-a com força, mas estava cada vez mais difícil, conseguir manter aquele contacto com Sofia. Além das fortes rajadas de vento que Diogo sentia investir com ferocidade contra si, agora estava a ficar cada vez mais difícil conseguir respirar sem dificuldade. Lembrou-se de Matilde e por pouco não conseguiu controlar o desespero que começava a envolvê-lo. Com aquela escuridão era impossível saber o que se passava com Júlio e Matilde. Júlio tinha razão, a grande concentração de areia estava toda ao nível deles, mas não havia nada, nenhuma rocha, nenhum monte, nada que lhes permitisse ter alguma altitude, algo que lhes permitisse conseguir alguma vantagem.
De repente Diogo sentiu a mão de Sofia soltar-se por completo e imediatamente a seguir a mão de Tânia também deixou de apertar a sua. Diogo sabia que era inevitável, a poeira começava a sufocá-lo e o mesmo também devia estar a acontecer com os restantes. Precisava saber o que se passava com os outros, principalmente com Matilde. Mal conseguia abrir os olhos, apesar de o pouco que conseguia, de nada lhe servir, tal era a escuridão. Diogo viu-se forçado a puxar a sua t-shirt para cima até conseguir cobrir a boca e o nariz. A areia fustigava-lhe a cara, arranhava-o tal era a velocidade a que se movia. Mas o que se seguiu não podia ter nada a ver com a areia. Diogo sentiu subitamente uma dor lancinante no braço direito. Levou de imediato a outra mão ao braço e sentiu algo viscoso. Tendo em conta a dor que agora se alastrava, presumiu que só podia ser sangue. Mas a areia não podia fazer algo daquele género, pensou Diogo, ou podia? No entanto, o golpe que se seguiu na perna esquerda fê-lo ter certeza que tal não provinha da areia. Algo se passava. Não conseguia ver um palmo à sua frente, mas podia jurar que não estavam sozinhos. Essa mesma certeza fê-lo pensar na espada de Metatron que no mesmo momento apareceu na sua mão. Como se a própria espada adivinhasse a escuridão em que Diogo se encontrava, a mesma começou a brilhar, conseguindo iluminar pelo menos um metro de distância. Mal o fez, Diogo quase a deixou cair novamente, tal foi o susto que apanhou. Apesar da ventania que havia à sua volta e da areia que teimava em arranhar-lhe a cara e a dificultar-lhe a visão, aquilo não fora imaginação sua, tinha certeza. Não estavam definitivamente sozinhos. Diogo preparou a espada no momento certo, pois mal o fez voltou a ver quem ou o que o atacava. Parecia misturar-se com a própria areia, como se só ganhasse forma a partir dela. Não se individualizava, o que tornava tudo ainda mais difícil pois estava completamente a desaparecer e a aparecer noutro lado qualquer. A sua cara não tinha exactamente uma forma, era apenas feita de areia, tal como o braço e a mão que segurava a arma que o atacara. Se é que se podia chamar de arma ao bastão de madeira que era usado. Mas tendo em conta o corte que já lhe fizera no braço e na perna, Diogo sabia muito bem que não devia julgar aquela arma apenas pela aparência.
Sentiu novo golpe, desta vez no peito, e a dor foi tal que se viu forçado a usar a espada de Metatron como apoio para se manter de pé. Apesar de a sua arma emitir alguma luz, continuava a ser difícil ripostar, uma vez que o seu atacante nunca aparecia no mesmo sítio. Também não podia contar com a audição tal era o vento que invadia os seus ouvidos. Mas foi então que Diogo viu aquela luz que tão bem conhecia. Era a luz angelical de Sofia. Ela devia ter aberto as suas asas para conseguir ter o máximo de luz possível. A sua luz era tão forte que Diogo conseguia ver quase tudo o que agora o rodeava. Não sabia se os outros estavam bem nem onde poderiam estar, mas saber que Sofia ali estava a combater dava-lhe esperanças. Apesar de a areia o impedir de manter os olhos mais abertos do que apenas alguns centímetros, agora conseguia observar o que se passava à sua volta. Viu-o, percebeu o que se preparava para fazer e defendeu-se. A sua espada e a arma de madeira do seu adversário chocaram. Aquele pedaço de madeira, tal como Diogo esperara, era tão resistente quanto a sua espada. Mas o seu oponente não esperou para confirmar o mesmo, em segundos já desaparecera e voltara a atacar do seu lado direito. Diogo fez-se valer dos seus rápidos reflexos, no entanto, apenas conseguiu evitar o pior, pois foi projectado alguns metros para trás tal era a força do remoinho de areia que acompanhou o ataque. Bateu com a cabeça o que lhe valeu uma forte tontura. As suas feridas ardiam com o toque da areia e tinha a sensação de que a luz de Sofia já não estava tão forte. Temeu por ela e pediu a todos os seres que tal se devesse apenas ao facto de ela estar mais longe dele e não à possibilidade de estar a ficar em desvantagem na sua luta.
Diogo conseguiu endireitar-se, mas sofreu nova investida. Desta vez gritou ao sentir o mais recente golpe também no peito, mais profundo e logo seguido de uma dura pancada nas costelas. O grito obrigou-o a engolir alguma areia engasgando-o. Sentia-se um fantoche nas mãos de algum tipo de demónio que parecia apenas interessado em brincar com ele, em divertir-se de uma forma cruel e beneficiando de todo aquele cenário que impedia Diogo de conseguir reagir.
Não podia deixar que isso continuasse, precisava fazer alguma coisa. Mas o quê? Mal conseguia ver, muito menos ouvir e estava a ser constantemente empurrado pelos fortes remoinhos de areia. Assim desistiu de tentar procurar o seu adversário e às cegas começou a golpear a areia à sua volta, na esperança de que ao menos conseguisse defender-se de nova investida. Sentia-se ridículo, mas não se lembrava de mais nada. Foi então que a sua arma embateu contra outra lâmina. A luz que a sua espada emitia permitiu-lhe ver dois punhais negros que em cruz suportavam o peso da sua espada. Olhou para as mãos que os seguravam e viu Tânia. Também ela respirava com dificuldade e todo o seu braço estava revestido de um líquido verde. Não sabia se aquilo provinha dela ou de outro demónio, pois sendo Tânia também um demónio, tal podia advir de algum golpe que havia sofrido. Ela observou igualmente o sangue vermelho que escorria quer do peito, quer do braço de Diogo. Os seus olhares cruzaram-se. A cor de caramelo dos seus olhos parecia mais iluminada do que antes e depressa Diogo percebeu porquê. Tânia trazia as suas asas negras abertas, mas não produzia qualquer luz como Sofia, apesar de a sua pele parecer mais reluzente. Os seus cabelos pareciam chicotes devido à ventania que os envolvia e estavam mais escuros do que nunca. Como se lessem os pensamentos um do outro, viraram-se de costas. Lutariam juntos para poderem ter mais hipóteses. Diogo sentiu as costas de Tânia contra as suas, mas aquilo que estava a fasciná-lo eram as penas das asas que sentia tocar no seu rosto e nos seus braços nus. Eram macias, mas ao mesmo tempo fortes, como se de um escudo se tratasse. Não se atreveu a tocar-lhes com a sua mão livre, apesar da imensa vontade que sentia de o fazer. Nunca estivera em contacto com as asas de algum ser daquele mundo. Sentia o seu toque delicado e o calor que lhe transmitia. Subitamente voltou a ver a luz de Sofia mais próxima e novamente forte. Aquilo deu-lhe ânimo e percebeu de imediato que estava prestes a sofrer novo ataque. Reagiu antes de dar qualquer oportunidade ao seu adversário e apesar de o mesmo se ter desfeito de imediato em areia, percebeu que o surpreendera. Colada a si, Tânia também atacara, o que significava que eram muitos mais os atacantes. A luz de Sofia era uma grande ajuda o que se veio a verificar. Diogo começou a sentir o momento em que seria novamente atacado. Não percebia como podia adivinhar tal coisa, mas isso não interessava agora, se tinha uma vantagem precisava aproveitá-la. Diogo começou a investir mesmo antes de os seus oponentes terem a possibilidade de arremeterem qualquer golpe. Começou a perceber que afinal não eram apenas areia, havia algo corpóreo e os seus constantes ataques impediam-nos de desaparecerem para voltarem a aparecer noutro lado com a mesma rapidez anterior. Diogo sentia a espada de Metatron, sentia-se fortalecer, sentia os seus movimentos mais rápidos, a sua mente previa todos os movimentos. Além disso era evidente que fazia uma excelente equipa com Tânia. Coordenavam os movimentos de uma forma instintiva, muitas vezes quando Diogo defendia um golpe, logo de seguida era Tânia quem destruía o demónio e vice-versa. Diogo percebia que estavam a destruir vários demónios, mas eles não pareciam reduzir.
Foi então que se lembrou da conversa que tivera com Tânia. Ela explicara-lhe que todos os Príncipes do Inferno tinham o seu próprio exército, constituído por soldados, cada um deles criado a partir de centenas de almas daqueles que no momento da sua morte eram condenados ao Inferno devido ao grau de pecados cometidos em vida. Significava isso que Diogo estava a lutar contra as almas de pessoas que tal como ele tinham vivido na terra, como meros humanos. Pessoas que tinham tido uma família, que, apesar de tudo o que tinham feito de errado na vida, haviam sido amados e queridos por alguém. Sem saber o que sentir quanto àquilo, Diogo baixou a sua guarda. Foi o seu erro. Viu-o como se estivesse em câmara lenta. O demónio de areia, aproveitando a oportunidade, atirou-se a ele para matar. Mas, inesperadamente, para sua surpresa, Diogo sentiu umas mãos enrolarem-se à volta do seu tronco de forma protectora e tudo ficou escuro. Sentiu uma forte pancada vinda do lado esquerdo. No entanto, apesar de a força do embate ter feito Diogo cair no chão aos trambolhões, não sentiu qualquer dor. Percebeu então o que tinha acontecido quando abriu os olhos e mesmo no escuro viu a cor de caramelo que provinha do olhar de Tânia fixo no seu. Para evitar o golpe mortal do demónio, Tânia envolvera Diogo com as suas fortes asas negras que ampararam o ataque protegendo-o. No entanto, a força do mesmo atirou-os para o chão onde agora se encontravam. Tânia continuava com os braços à volta do tronco de Diogo e este percebia agora que também envolvera a cintura dela com um abraço forte. Ficaram por momentos a olhar um para o outro com a respiração acelerada devido ao esforço da batalha e envolvidos pelas asas quentes e suaves daquele demónio que acabara de salvar a vida a Diogo.
- Obrigado. – balbuciou finalmente Diogo. Tânia preparava-se para dizer qualquer coisa, mas o que ouviram a seguir alarmou-os o suficiente para voltarem a entrar em pânico.
- SOFIAAAAAAAAAAA…SOFIA RÁPIDO, POR FAVOR! – era Matilde quem gritava de uma forma alarmante.
Tânia abriu de imediato as suas asas libertando-os aos dois. Nesse preciso momento Diogo viu Sofia passar por eles a correr, mas não sem antes lhe lançar um olhar que Diogo não soube como interpretar. Parecia furiosa com ele e até mesmo magoada. Mas Diogo não teve muito tempo para pensar nisso. Ao levantar-se deu-se conta que a tempestade de areia tinha desaparecido por completo, estava tudo calmo, parecia um verdadeiro deserto. E por fim viu-o. Sentiu o seu coração “cair-lhe aos pés”. Júlio estava deitado de costas no chão, completamente imóvel. Daquele ângulo, não conseguia ver-lhe a cara, mas ao ver a expressão de alarme na cara de Matilde e o medo estampado na de Samuel que rodeavam Júlio, percebeu que nada de bom se passava ali. Correu para junto do amigo e o que viu deixou-o horrorizado. Júlio tinha vários golpes ao longo de todo o corpo, alguns deles bastantes profundos e com muito mau aspecto. Havia sangue por todo o lado e ele estava inconsciente. A respiração muito fraca era o único sinal de vida de Júlio. Diogo olhou para Matilde, cujas lágrimas escorriam umas atrás das outras. Também estava coberta de sangue, mas Diogo tinha certeza de que todo ele pertencia a Júlio. Samuel também não estava em bom estado, sofrera um valente golpe na face e o seu ombro tinha um ângulo estranho.
- Por favor Sofia, tens de usar o teu poder com o Júlio – implorou-lhe Matilde desesperada – Ele está assim por causa de mim – a voz falhava devido à enorme vontade que tinha de chorar.
- O que aconteceu? – perguntou Tânia num murmúrio, igualmente chocada com aquela imagem.
- Quando ele soube que eu sofria de asma, percebeu de imediato que aquela tempestade de areia seria a minha morte – explicou Matilde a custo – Assim afastou-me do grupo e usou toda a sua magia para criar um campo de protecção à minha volta que impedisse a entrada de qualquer areia. Mas isso impediu-o de se defender contra aqueles demónios de areia que o atacaram sem piedade. – estava a ficar cada vez mais difícil perceber Matilde devido às convulsões provocadas pelo choro, mas ela continuou – Ele aguentou-se sempre, mesmo comigo a suplicar-lhe para que parasse de me proteger, para tirar aquele escudo…ele nunca parou…ele nunca parou…ele nunca parou… - Matilde parecia estar a entrar em choque.
- Calma Matilde, a Sofia pode ajudá-lo – lembrou-lhe Samuel que no entanto não conseguia fazer com que Matilde se afastasse um pouco de Júlio – o Júlio vai ficar bem…
Todos olharam para Sofia. Diogo observou-a. Estava igualmente coberta de sangue e tinha vários golpes que atravessavam as calças de ganga e outros que pareciam estar a impossibilitá-la de mexer a mão esquerda. Parecia ter o braço imobilizado, mas mesmo assim esforçou-se para sorrir a Matilde dando-lhe a entender que ia realmente ficar tudo bem. Sofia respirou fundo durante alguns segundos e Diogo viu todas as suas feridas começarem a cicatrizar a uma rapidez estonteante. Em menos de um minuto Sofia voltara ao normal. Se não fossem as calças rasgadas onde antes sofrera os golpes ninguém diria que sofrera qualquer tipo de ataque. Aquilo foi o suficiente para conseguir roubar o tão característico sorriso a Matilde, que no entanto, não largava a mão de Júlio.
Sofia, já com o braço como novo, preparou-se para, com o seu dom, curar por completo Júlio. Mas foi então que algo aconteceu. No momento em que se preparava para tocar em Júlio, duas fortes raízes de árvores irromperam de dentro do chão e agarraram os pulsos de Sofia arrastando-a para longe dos outros com uma rapidez surpreendente. Em segundos, Sofia estava a uns 10 metros deles, presa pelas raízes que agora não só lhe prendiam os pulsos, como também os tornozelos. Mantinham-na em pé, mas completamente impossibilitada de se mexer. Diogo nem teve tempo de reagir, pois logo de seguida o mesmo se passou consigo, sendo posicionado ao lado de Sofia e sentindo a mesma força nos pulsos e nos tornozelos. Não eram os únicos. O mesmo sucedeu a Samuel que no entanto em vez de ficar preso como os outros dois, foi enclausurado numa espécie de jaula feita de troncos espessos, separados por escassos centímetros entre eles, formando um quadrado, apenas com o tamanho suficiente para que ele tivesse espaço para ficar em pé. Uma jaula igual aprisionou igualmente Matilde e Júlio. Por sua vez, Tânia viu-se rodeada por cinco dos estranhos soldados demoníacos que pareciam feitos de areia e que a impediam de qualquer tentativa de salvamento.

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