Este blog não cumpre o novo acordo ortográfico!

terça-feira, 17 de maio de 2011

2º Volume: Capítulo 5 - Troca por troca

A forma como Sofia gritava, a maneira como os seus olhos sem vida pareciam amedrontados vagueando sem destino, freneticamente à procura de algo que não estava à sua frente…o seu corpo completamente indefeso, o grito ensurdecedor…nada disso foi o que mais assustou Diogo. Aquilo que realmente o fez retrair-se, que fez sentir todo o seu peito rasgar-se em mil pedaços, que o fez sofrer juntamente com ela…foram as lágrimas que começaram a escorrer pela face de Sofia. Escorriam lentamente, como se nunca tivessem sido derramadas e quisessem naquele preciso momento que todos reparassem nelas. Diogo nunca vira Sofia chorar e sempre achara que nela isso era impossível, mas ali estavam as pequenas gotas salgadas. Lágrimas puras que traiam toda a sua força, toda a sua imagem forte e desafiadora. Continuavam a cair umas atrás das outras ao mesmo tempo que Sofia gritava de dor. Subitamente as raízes largaram Sofia que indefesa caiu no chão com um baque surdo. Ficou posicionada de lado, com a cara virada para Diogo. Os gritos haviam cessado, o silêncio era total, mas as lágrimas de Sofia continuavam a ceder lugar a mais e mais lágrimas, deslizando sem cessar. De repente Sofia encolheu-se mais e às lágrimas foi juntar-se uma expressão de puro medo, de dor não corporal, como se estivesse a lembrar-se de algo que para si era insuportável, até mesmo infernal.
- O que é que está a fazer-lhe? – perguntou Diogo desesperado desviando a custo o olhar de Sofia para Belial. Este, no entanto, não lhe respondeu. Permanecia completamente focado em Sofia, como se conseguisse ver algo mais do que Diogo. Parecia saborear cada lágrima, cada expressão de horror e medo, cada contorcer de dor da sua fisionomia. Um sorriso ia-se formando na boca de Belial, um sorriso de prazer. Diogo passara a odiar aquele seu tão característico inclinar de cabeça. Todo ele se deliciava, não tendo olhos para mais nada, senão para o tormento por que Sofia passava. Foi então que Sofia proferiu algo que Diogo não conseguiu perceber. Voltou a olhar atentamente para ela, cuja face estava completamente virada para ele. Viu-a voltar a mexer os lábios, mas continuava sem perceber o que esta dizia.
- Sofia… - murmurou Diogo. Assim que pronunciou o seu nome novas lágrimas assomaram aos olhos de Sofia escorrendo lentamente quando ganhavam volume.
- David… - ouvia-a subitamente ao mesmo tempo que viu os olhos dela abrirem-se a custo e focarem-se nos seus – David…desculpa…
- Sofia, sou eu o Diogo – lembrou-lhe pensando que ela apenas lhe trocara o nome devido à dor que parecia estar constantemente a invadi-la.
- Eu não consegui proteger-te… - continuou Sofia a chorar agora mais convulsivamente – Eu tentei…perdoa-me…perdoa-me…
- Está tudo bem Sofia, eu estou aqui… - continuava Diogo.
- A culpa foi toda a minha… - Sofia voltou a fechar os olhos deixando-se inundar por toda aquela tristeza avassaladora. Parecia que tinha desistido de tudo. Diogo nunca pensara ser possível observar tanta tristeza, tanta culpa, tanta dor numa única expressão – Eu fi-lo por ti…foi tudo em vão…
- DEIXA-A! – gritou subitamente Samuel – O que estás a fazer-lhe é cruel e cobarde!
- Pois eu estou a adorar! – a forma como Belial o disse arrepiou de tal forma Diogo que este sentiu-se desesperar.
- O que é que se passa Samuel? O que é que está a acontecer à Sofia? – Diogo virou-se esperançoso para Samuel. Precisava de uma explicação e Samuel nunca lhe faltara.
- Lembras-te do que te expliquei sobre Belial? – perguntou-lhe Samuel preso na sua jaula. Naquele momento Diogo não conseguia pensar em mais nada senão em Sofia. Percebendo isso, Samuel continuou – Belial consegue entrar no coração de cada um da forma que lhe convém. Percorre as memórias mais profundas, até mesmo aquelas que já nem a própria pessoa se recorda. Aproveitando-se disso, procura aquela que mais estragos pode causar e dela retira toda a dor que consegue. Nesse momento controla todos os sentimentos que permitiriam à vítima submergir de todo aquele sofrimento. A felicidade, a esperança, a confiança, tudo desaparece. A única coisa que te faz sentir é dor, angustia e uma enorme aflição, isto porque obriga a sua vítima a reviver novamente tudo o que tentou esquecer ou que o seu cérebro bloqueou. Algo de que te arrependes, algo de que tens vergonha, algo que queres esconder de tudo e de todos. Tudo isso multiplicado por mil…
Diogo olhou para Sofia. O que poderia ela estar a ser obrigada a recordar, a reviver? Nunca a vira tão desamparada, tão sozinha, tão indefesa…O que quer que fosse, ela não merecia passar por aquilo. Ninguém tinha o direito de a tornar em alguém que se resumia a uma única memória. Diogo lembrou-se de várias situações que Belial poderia usar contra ele. A aflição que sentiu quando descobriu que os seus pais tinham sido raptados, o pânico ao pensar que os seus amigos poderiam morrer na batalha praticamente perdida contra Leviathan, o terror que se apoderara de si quando viu o estado em que Júlio agora se encontrava, tendo como única esperança o poder de cura de Sofia, agora impossível.
- Não, não posso…o que foi que eu fiz… - continuava Sofia no seu delírio – …David…
Diogo olhou à sua volta. Samuel também não tirava os olhos de Sofia, estava realmente a sofrer por ela. Tânia continuava deitada, parecia fraca de mais para conseguir manter-se em pé, mas também ela olhava de forma triste para aquele anjo em plena angústia emocional. Júlio continuava inconsciente e Matilde, apesar de permanecer agarrada à sua mão, ambas as mãos rodeadas pela luz prateada emitida por ela, tinha o seu olhar igualmente fixo em Sofia. Diogo tinha de fazer alguma coisa, aquilo não podia continuar.
- O que queres? – disse por fim encarando decididamente Belial – O que preciso fazer para que pares com isso? – Finalmente tinha a atenção de Belial. Este olhou para Diogo de forma deslumbrada e nesse preciso momento novas raízes a uma velocidade impressionante voltaram a emergir do chão agarrando violentamente Sofia pelos pulsos e tornozelos, fazendo-a ocupar a mesma posição em que se encontrava anteriormente, ao lado de Diogo. – Sofia… - murmurou Diogo observando-a carinhosamente.
Sofia não respondeu. O seu rosto estava oculto pelo cabelo negro. Pouco a pouco pareceu começar a despertar. Levantou lentamente a cabeça, primeiro na direcção de Belial e por fim inclinou-a na direcção de Diogo. A cara continuava parcialmente tapada pelo cabelo. Diogo conseguia ver-lhe apenas o lado direito da cara. Estava mais pálida do que alguma vez a vira e o olho cinzento que estava à vista brilhava intensamente devido às lágrimas. Já não chorava, mas o olhar triste e amargurado continuava presente.
- Estavas a dizer? – interrompeu-os Belial incentivando-o. Foi com muita dificuldade que Diogo desviou o seu olhar da expressão sofredora de Sofia e encarou o olhar entusiástico, quase delirante daquele Príncipe do Inferno, bem consciente do mal que podia infligir em qualquer um deles.
- És completamente louco! – atirou-lhe Diogo sentindo a raiva apoderar-se de si, ao mesmo tempo que sentia o pulsar da Adaga junto à sua cintura, onde estava presa. – És demente!
- Uma vez que estás disposto a cooperar comigo, eu não vou, por agora, dar importância à tua falta de respeito. Vais ter tempo para aprender a respeitar-me e a servir-me como se deve… - aquilo soava a uma promessa – Isto que acabaste de ver foi só uma amostra. Sabes que posso usá-lo contra todos os outros…até mesmo contra o teu amiguinho que ali está às portas da morte…
- NÃO TE ATREVAS! – gritou-lhe Diogo sentindo toda a raiva e ódio apoderar-se de todo o seu ser. Podia apostar que a cor dos seus olhos já não tinham aquele azul cristalino, tendo tal cor sido substituída pelo vermelho sangue que o caracterizam naquelas alturas.
- AQUI QUEM DÁ AS ORDENS SOU EU! – gritou Belial furioso e logo de seguida ouviu-se outro grito. Um grito infantil, mas tão cheio de dor e angustia como o de Sofia.
Diogo olhou em pânico para Matilde. Largara a mão de Júlio e de joelhos gritava a plenos pulmões.
-PÁRA COM ISSO…CHEGA! – Diogo sentia que estava a implorar, mas não se importava. Por Matilde engoliria todo o seu orgulho. Ao seu lado percebeu que Sofia se encolhera, na medida do possível, como que a sentir tudo muito recente dentro da sua cabeça.
Tal como acontecera com Sofia, o silêncio instalara-se. Matilde continuava de joelhos. O seu olhar tal como a sua cara estavam virados para cima, fitando um céu que não existia. Os braços, caídos ao lado do corpo, estavam inertes e as lágrimas escorriam-lhe novamente pela cara.
- Júlio pára por favor… - chorou Matilde – Não me protejas mais, precisas defender-te…parem parem parem…por favor…vão matá-lo… - a voz de Matilde despertava desespero dentro de Diogo. Percebia que ela estava a reviver novamente todo aquele momento que passara com Júlio durante a tempestade de areia. Ela voltava a ver Júlio ser constantemente atacado pelos soldados de areia, presa num escudo invisível criado pela magia do elfo que a impedia de se ver envolvida pela areia. A mesma areia que a teria morto se não fosse a protecção dele. – Júlio acorda, levanta-te, não podes morrer…por favor…
- JÁ CHEGA, JÁ PERCEBI…EU FAÇO O QUE QUISERES… - gritou novamente Diogo para Belial.
 - Agora sim voltámos a falar a mesma língua – disse Belial sorridente – Da próxima vez, não erro o alvo… - disse num tom ameaçador, dando a entender a Diogo que não teria problemas em usar o seu poder no indefeso Júlio.
Diogo viu Matilde cair desamparada no chão. Pensou que ela ficaria ali, sem forças, mas, para sua surpresa, Matilde voltava a mostrar toda a sua resistência e teimosia. Sem olhar para eles, apesar de toda a dificuldade que Diogo tinha a certeza de que ela estaria a sentir provocada pela recente recordação, voltou a agarrar a mão de Júlio fazendo ressurgir a mesma luz prateada à volta das mãos de ambos. Toda a sua concentração estava focada naquela única coisa e Diogo sentia dever-lhe tudo pelo que ela fazia pelo seu melhor amigo.
- O que queres? – perguntou a Belial, mostrando-lhe todo o ódio que sentia por ele naquele momento. No entanto, aquilo apenas fez Belial mostrar mais satisfação.
- Tenho de reconhecer que tens muito potencial… - Diogo achou que Belial tinha acabado de lhe fazer um elogio, mas aquilo apenas o deixou mais enraivecido - Não olhes assim para mim…eu posso ser muito bonzinho, sabes? – a meiguice usada na voz de Belial era do vidro mais fino que podia existir.
- Ah sim? - Diogo usou o mesmo tom de Belial – E como pretendias ser bonzinho?
- O que tu queres são os teus pais, não é? – atirou-lhe Belial com o seu inclinar de cabeça e o provocante sorriso – Então eu levo-te até eles…
Aquilo silenciou Diogo. “Poderia ele fazer mesmo o que dizia?” Perguntou-se Diogo. “Poderia isso querer dizer que ele era o seu pai?” Apesar de não lhe interessar qual dos Príncipes do Inferno seria o seu verdadeiro pai, era estranho pensar na sua mãe com um ser cruel e insano como Belial. Mas isso agora não interessava. Ele estava ali pelos seus pais adoptivos e faria de tudo para impedir que tanto eles como os seus amigos sofressem durante mais tempo.
- E o que vais querer em troca? – perguntou-lhe Diogo.   
- Estás a ver como já estamos a falar a mesma língua – divertiu-se Belial – Basta um pequeno acordo – disse por fim.
- Que tipo de acordo? – perguntou Diogo determinado a ir ao que interessava sem rodeios.
- És bem parecido com a tua mãe – disse Belial surpreendendo Diogo – Ela também era assim…queria chegar depressa ao que interessava…não estava muito virada para a criação de todo um ambiente, toda uma atmosfera propicia ao momento. Já eu…bem acabaste de ter a oportunidade de presenciar…
- O que queres de mim? – voltou a insistir Diogo não se deixando envolver no discurso de Belial.
- Com o tempo passarás a gostar de todo um enredo, toda uma dramatologia… - Belial parecia verdadeiramente divertido – Nem imaginas a satisfação que se pode sentir ao dares tudo o que alguém mais desejou na vida e depois tirares-lhe mais do que aquilo que deste…o sofrimento, a angústia que sentem nesse momento e depois toda a decadência e destruição que se segue…não há melhor…seduzir os humanos e depois arrancar-lhes ainda mais do que o que lhes foi dado…
- É isso que vais fazer comigo? – perguntou Diogo
- ISSO FOI O QUE ELE FEZ COMIGO! – gritou subitamente furioso – DEU-ME TODO O SEU AMOR E DEPOIS TIROU-MO ENTREGANDO-O A UM INÚTIL HUMANO…
- Deus partilhou o seu amor, nunca substituiu um por outro… – interveio Samuel
- TODO ESSE AMOR E ATENÇÃO DEVIAM SER ÚNICAMENTE MEUS! – Belial estava completamente fora de si. Diogo não podia perdê-lo agora.
- Isso é tudo muito interessante, mas ainda estou à espera de saber o que terei de fazer ou dar em troca!
- Oh algo muito simples… - Belial voltara a sua atenção novamente para Diogo, o que certificava mais uma vez o seu estado de loucura, pois parecia que já nem se lembrava de se ter exaltado há segundos atrás - Se fizermos um acordo, dentro de cinco minutos tens os teus pais ao teu lado e prometo que poderão voltar para casa sem qualquer contrapartida.
- Diogo… - murmurou Samuel, mas Diogo olhava apenas para Belial.
- Que tipo de acordo seria esse? – perguntou Diogo fitando-o sem qualquer temor, o que parecia agradar muito a Belial.
- Ficarás aqui comigo e seguirás todas as minhas ordens – o sorriso do Príncipe desapareceu e ele olhava para Diogo como se estivesse a testá-lo.
- E quanto aos meus amigos? – perguntou simplesmente Diogo – Eles também vão poder sair daqui sem qualquer tipo de contrapartida? Incluindo a Tânia… - acrescentou olhando para ela.
- Eu não preciso que faças acordos com o inimigo para salvar a minha pele – interrompeu de repente Sofia olhando de lado para Diogo. Ele tinha a certeza que era apenas devido à força das raízes que a seguravam que ela se mantinha em pé, por isso admirava a sua tentativa para discutir com ele como costumava fazer, fingindo estar a aguentar-se muito bem – Se queres passar para o lado dele isso é contigo, mas não esperes que eu…
- Será que não és capaz de estar calada um minuto, nem mesmo depois do que acabou de acontecer contigo? – Diogo virou-se para ela descontrolado – Nem todas as conversas têm a ver contigo!
- Óptimo, porque eu não terei qualquer problema em matar-te no momento em que te tornares um deles! – atirou-lhe Sofia com uma falsa energia.
- Não esperava outra coisa vinda de ti! – Diogo tentou dizer-lhe isto de forma ofensiva, mas o seu tom foi quase meigo ao ver o seu olhar mais frágil do que alguma vez imaginara encontrar em Sofia.
- Ainda bem que ficámos esclarecidos! – disse também num tom menos ofensivo do que o habitual - Vê se te decides então rapidamente porque eu não tenho uma vida desocupada como a tua! – sem mais Sofia virou-se para o lado em que se encontrava Samuel e Diogo deixou de lhe ver a cara.
Diogo ainda tinha bem presente na memória o sofrimento de Sofia perante uma qualquer recordação que a consumira por completo. Sabia que apesar da força que ela aparentava, por dentro existia um medo puro de voltar a sentir o mesmo.
- O mesmo se aplica aos teus amigos – garantiu-lhe por fim Belial quando, após um revirar de olhos na direcção de Sofia, Diogo voltou a olhar para ele. – Incluindo esse…demónio. – acrescentou com repulsa sem se dignar a dirigir o seu olhar para Tânia.
- Nesse caso, temos acordo! – disse Diogo muito sério e apesar de não olhar para os outros ouviu as suas exclamações de choque, até mesmo de Tânia. 
- Não podes Diogo! – gritou-lhe Tânia.
- Não podes confiar nele! – foi o apelo de Matilde na sua voz esganiçada.
- Diogo, não vale a pena, nós vamos arranjar outra solução! – tentou trazê-lo à razão Samuel
- QUE OUTRA SOLUÇÃO? – atirou-lhe Diogo encarando Samuel – OLHA ONDES ESTÁS, OLHA PARA MIM E PARA A SOFIA, VÊ O ESTADO DO JÚLIO E A EXAUSTÃO EM QUE A MATILDE ESTÁ A CAIR…NÃO EXISTE OUTRA SOLUÇÃO…TODOS SABIAMOS DESDE O INÍCIO QUE SERIA MUITO COMPLICADO SAIR DAQUI VIVOS E AINDA MAIS SEM QUALQUER TIPO DE CONTRAPARTIDA OU SEQUELA! – Diogo respirou fundo - O Júlio tinha razão quando disse que se tratava de um suicídio colectivo, é exactamente disso que se trata…e se eu tiver de abdicar da minha liberdade e do meu mundo para que os meus pais e vocês possam sair daqui, é isso mesmo que vou fazer! – disse decidido.
- E os teus ideais? - foi Sofia quem falou. O cabelo dela estava mais afastado e Diogo viu ambos os olhos cinzentos de Sofia cravarem-se nos seus de forma intensa e com um misto de desilusão e decepção – Vais simplesmente apagar tudo o que os teus pais te ensinaram? Vais manchar o nome da Luz? Vais desiludir todos aqueles que se importam contigo? Achas que os teus pais vão ficar felizes com a tua escolha? Achas mesmo que vão conseguir levar uma vida normal sabendo o que tiveste de fazer para eles voltarem para casa? Achas mesmo que para os teus pais tu vales menos do que eles?
- Não preciso da tua opinião e muito menos das tuas lições de moral! – disse-lhe Diogo de forma agressiva – Tu sempre acreditaste que eu era um demónio e que vos trairia na primeira oportunidade! E eu demonstrei isso mesmo ao tentar matar-te! – Aquilo silenciou Sofia - Foste sempre a primeira a ter certeza de que a minha costela demoníaca levaria a melhor, portanto não precisas fingir que te importas comigo ou dissimular surpresa por me veres aceitar um acordo com o Diabo! Tinhas razão, eu não pertenço ao teu mundo e sinceramente não faço questão de pertencer, por isso, guarda essa tua fraca tentativa de apelar à minha consciência porque a minha decisão já está tomada – Diogo precisava de obrigá-los e deixarem-se de se sentirem culpados. Por isso sem mais demoras virou-se para Belial – Temos acordo, agora faz a tua parte! Trás os meus pais!
- Não tão rápido! – foram as palavras de Belial – Preciso ter a certeza absoluta de que me permanecerás sempre leal e que acatarás eternamente as minhas ordens.
- E o que é preciso para teres certeza disso? – perguntou-lhe Diogo impaciente.
- A única forma que existe de ter a certeza de que me prestarás vassalagem para sempre. Terás de cumprir, sem hesitar, uma ordem minha – explicou com uma expressão, pela primeira vez, indecifrável.
- Só isso? – perguntou Diogo desconfiado.
- A tua obediência à minha ordem demonstrará a tua lealdade e acima de tudo, aquilo que irás fazer, permitirá que uma parte da tua alma passe a pertencer-me e isso significa que terei um certo controlo sobre ti – Diogo sentiu, por uma fracção de segundo, medo. O tom de voz usado por Belial podia não ser diferente, mas havia algo por baixo de todo aquele controlo, algo que Diogo não sabia o que era, mas que sentia estar prestes a descobrir. Ninguém falou. Diogo ficou à espera. Tentou imaginar o que é que teria de fazer, mas uma vez que estava perante um dos Príncipes do Inferno, tudo o que lhe passasse pela cabeça, provavelmente, não seria nada comparado com o que viria.
- Diogo… - a forma como o seu nome foi pronunciado igualou mil punhais a espetarem-se no seu estômago. Ele olhou para Sofia. Nunca vira tanta ternura no seu rosto e na sua voz. Aquele olhar era só para ele. – Nós aguentamos tudo…não faças algo de que vás arrepender-te, por favor… - ela implorava. O silêncio abateu-se sobre todos. Nem Diogo, nem Sofia desviavam o olhar um do outro.
- Como sei que posso confiar em ti? – Diogo desviou repentinamente o olhar de Sofia encarando Belial. Sem nenhuma reposta, com a mesma rapidez com que o prenderam, as raízes soltaram-no indo enterrar-se novamente no subsolo. Diogo estava agora livre.
- Para começar estás livre… - disse-lhe Belial e de repente atirou uma arma para os pés de Diogo.
Diogo olhou para ela. Era uma Adaga. Uma Adaga igual à que ele trazia presa à cintura. Significava isso que…
- Não sou eu o teu pai… - continuou Belial como se aquilo fosse apenas um pequeno erro de lógica – Mas deixo-te usar a minha Adaga para que possas sair do meu reino se essa for a tua vontade. – informou-o.
- Como assim? – Diogo estava confuso.
- As Adagas dos Príncipes do Inferno não servem apenas para lutar. – começou Belial – Uma das suas principais características é permitir ao seu dono ou àquele a quem foi emprestada poder sair do Inferno quando bem lhe apetecer. – Belial viu o olhar esperançado no rosto de Diogo e respondeu à pergunta que se formava na sua cabeça. – Só tu podes sair do Inferno, não podes levar ninguém contigo. Essa Adaga tem apenas saída para um.
- Então…
- Significa que podes ir embora se assim o desejares…sozinho…
- Muito bem, o que tenho de fazer para os tirares daqui em segurança?
- Apenas…matar a anjo virtude…essa a que chamas de Sofia! – esclareceu como se fosse a coisa mais normal do mundo.
- O quê? Estás louco? Acabaste de dizer que todos os meus amigos seriam soltos…
- Há sacrifícios que têm de ser feitos…vais aprender isso comigo. E imagina…perdes uma amiguinha, mas salvas os teus pais, dois anjos, um moribundo e um demónio traidor…um em troca de seis! Não podes dizer-me que não é uma conta justa… - ripostou Belial com um sorriso triunfante – Ah e claro que terás de matá-la com essa Adaga que te entreguei – acrescentou.
Diogo estava chocado. Acreditaria mesmo aquele monstro de que ele era capaz de matar Sofia. Desviou o seu olhar para ela e arrependeu-se logo pois viu a típica expressão de Sofia que dizia “Eu bem que te avisei”.
- Oh, mas espera… - ouviu de repente Belial dizer num tom de falsa hesitação – Estás mesmo com dúvidas sobre matá-la? – Diogo olhou para ele. – Olha que eu tive o cuidado de te escolher a pessoa certa! Nunca te pediria para matares nenhum dos outros… - Diogo não estava a perceber onde ele queria chegar e olhava confuso para Belial. – Ah, não me digas que ainda não percebeste? – o falso choque na expressão de Belial só estava a irritar Diogo.
- O que é que eu ainda não percebi? – perguntou Diogo sentindo-se exausto.
- Não acredito que ela ainda não te contou o seu pequeno segredinho? – Belial apesar do tom sentimentalista que adoptava no seu discurso não escondia que estava a adorar cada palavra que pronunciava.
- Segredo? – Diogo olhou para Sofia. Esperava ver uma expressão desdenhosa, uma piada trocista, um suspiro que demonstraria todo o ridículo da situação, mas ao contrário disso, encontrou alarme, apreensão e até mesmo rendição.
- Não sabes mesmo que tens andado com uma traidora da raça dos anjos? Uma vira-casacas…uma “judas”?

3 comentários:

O Mundo d'Anita disse...

Um blog sobre escrita... Estou nas minhas quintas ahahah Irei acompanhar a partir de agora :)

P.S. Adoro o recado "Este blog não cumpre o novo acordo ortográfico!" Vejo aí alguma indignação não é verdade? Só de pensar que a ortografia dos meus livros de infância vai parecer estranha aos meus (futuros) filhos, sobrinhos... :(

Depois se puderes diz-me como posso fazer esse truque de colocar os textos no blog sem que possam facilmente selecionar, copiar e colar. É que há muita gente que não sabe o que é dar "créditos" pelo trabalho dos outros.

em fuga... disse...

Olá Mundo d'Anita! =) Fico contente por saber que pensas em acompanhar as minhas pequenas fugas. Já estou a publicar o segundo volume, mas podes encontrar o primeiro volume na página da coluna que está à direita do blog. Adoraria saber a tua opinião!

Quanto ao novo acordo ortográfico, é realmente lamentável a desconsideração para com a língua portuguesa...ainda não me conformei!

Relativamente à tua última pergunta, encontrei um site onde explicam como impedir o plágio através da opção copiar/colar. Fica aqui o endereço do mesmo:

http://www.rascunhosblogger.com/2010/06/proteja-se-de-plagio-desabilite-opcao.html

Boas leituras! =)

O Mundo d'Anita disse...

Assim que tiver tempo irei ler com muita atenção... Eu também escrevo mas poesia... Tenho alguns trabalhos publicados em revistas literárias e, mais recentemente, numa colectânea de jovens poetas daí a minha atracção por blogs do género :)
Obrigada pela dica contra o plágio... :)
Até breve!