“Judas?” pensou para consigo Diogo sem tirar os olhos da Adaga que tinha nas suas mãos, entregue por Belial. Diogo tinha andado na catequese, lembrava-se do significado desse nome. Judas fora um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo. Fora aquele que o entregara aos seus perseguidores em troca de 30 moedas e que o identificara com um beijo na face. Estaria Belial a dizer que Sofia era como Judas? Estaria Sofia a fingir ser-lhe fiel para depois o atraiçoar? Não! Era impossível, nunca acreditaria em tal disparate. Sofia podia ser tudo, mas nunca o trairia, nunca se faria passar por algo que não era. Jamais trairia o seu povo! Diogo olhou para Sofia. Estava fraca, pálida…parecia sentir-se completamente derrotada. Porque é que ela não reagia? Porque é que não se ria de tudo aquilo? Porque é que não estava a comportar-se como a Sofia que ele conhecia?
- Ariel… - murmurou Belial num tom reprovador usando o nome angelical de Sofia ao mesmo tempo que abanava negativamente a cabeça - …não acredito que escondeste aqui do Diogo o teu pequeno segredinho! – o rosto de Belial enchia-se de satisfação - Porque é que não esclarecemos então agora um pouco as coisas?
- Pára com isso Belial! – pediu-lhe Samuel – Está tudo no passado…já nada…
- Sabes do que ele está a falar? – interrompeu-o subitamente Diogo olhando chocado para Samuel.
- Chega! – disse por fim Sofia numa voz fraca – Não adianta esconder mais! Se é a verdade que queres…
- …é a verdade que vais ter! – foi Belial quem terminou a frase por Sofia e subitamente ouviu-se uma musica, mais exactamente uma melodia tocada por uma flauta.
Diogo reconhecia aquela melodia. Era a mesma que tinha ouvido na memória que o Inferno criara para Sofia logo depois de ali terem entrado. Era a maneira que o Inferno tinha encontrado para a atrair tal como fizera com todos eles. Era a memória que ela estava disposta a perseguir. Diogo vira a sua casa, a sua mãe. Samuel a clareira onde Luz fora derrotada por Lilith e que Diogo agora reconhecia. Júlio fora tentado pela floresta onde vivia o seu povo. Matilde não resistira ao parque de diversões. Mas era a memória de Sofia que mais o intrigara naquela altura. Aquela espécie de palácio e a melodia oriunda do som de uma flauta que Sofia parecia respirar. Fora a primeira vez que ela mostrara o seu lado mais frágil, tal como mostrava agora. Diogo olhou para o rosto de Sofia. Aquela melodia que invadia os seus ouvidos transformara-a por completo. Havia desespero sim, mas algo mais…Diogo encontrou naquele rosto que tão bem conhecia uma saudade dolorosa, algo com que Sofia ainda não aprendera a lidar. Viu-a olhar na direcção da qual vinha aquela melodia tão suave e melancólica e a surpresa ao encontrar algo que não esperava.
Sofia apresentava um olhar sobressaltado com um misto de assombro e espanto, como se não acreditasse que o que via fosse possível neste ou em qualquer outro mundo. Diogo seguiu-lhe o olhar e viu um rapaz que se aproximava lentamente enquanto com uma flauta nos lábios tocava de uma forma apaixonada. Tinha os olhos fechados. Apesar de jovem, pois Diogo não lhe dava mais de uns 23 ou 24 anos, parecia ter um ar antiquado. Tal podia, muito bem, dever-se à roupa que trazia vestida. Fazia lembrar a Diogo um vestuário vindo directamente do século XVIII ou XIX e que consistia numa espécie de fato constituído por calças, camisa, colete e casaca até quase aos joelhos. Tirando a camisa em tons de branco e um lenço da mesma cor que cobria todo o pescoço, a restante roupa era em tons escuros, contrastando assim com os cabelos loiros que lhe caiam até á altura do queixo e o verde-esmeralda dos olhos. Parecia vestido para uma festa trazendo consigo uma flauta igualmente de outros tempos da qual saía a melodia que chegava aos ouvidos de todos.
- David… - murmurou Sofia num tom que demonstrava total incredulidade - …não pode ser…
- Tens razão…não pode ser! – confirmou Belial bruscamente, mas sempre satisfeito, ao mesmo tempo que com um estalar de dedos fazia aquele rapaz de flauta desaparecer. Para Sofia, parecia ser o mesmo que voltar a atirá-la para a escuridão que se instalara dentro de si. Com outro estalar de dedos fez surgir uma poltrona do mesmo material da carruagem que o trouxera, ficando a mesma posicionada de frente para Sofia e Diogo. Sentou-se nela com movimentos majestosos, procurando assinalar a sua superioridade.
- Quem é David? – perguntou Diogo fitando Sofia que permanecia em silêncio, como se a imagem daquele rapaz ainda estivesse a passar-lhe à frente dos olhos.
- David…Ariel… - murmurou pensativamente Tânia fitando Sofia, com uma expressão que denunciava estar a começar a lembrar-se de algo, a fazer algum tipo de associação. Diogo olhou para ela. – Eu conheço a história de Ariel e David…foi contada de geração em geração… – Tânia parecia verdadeiramente incrédula - Tu és a Ariel? – perguntou atónita – Tu és…
- …o Anjo Caído que prestou vassalagem ao Príncipe Sammael! – terminou Belial mais uma vez a frase que Tânia começara como uma pergunta, mas que ele finalizara com uma certeza. – É ela mesma!
Diogo sentiu como se o chão lhe tivesse fugido. Como se naquele momento estivesse a olhar para uma nova Sofia, uma que não conhecia, que não era quem sempre aparentara ser. Um anjo caído? Uma vassala de um dos príncipes do inferno?
- Quem és tu? – perguntou-lhe num murmúrio ao mesmo tempo que dava um passo atrás, como se só naquele momento estivesse a vê-la como devia.
- Não é o que estás a pensar Diogo, deixa-me explicar… - Sofia parecia implorar-lhe. Não chorava, mas toda ela era uma súplica. Não estava a negar nada, algo que Diogo esperara até àquele último segundo.
- És um anjo caído? – a pergunta foi feita num tom acusatório.
- NÃO! – gritou-lhe Sofia tentando reunir forças.
- Prestas vassalagem ao Príncipe Sammael? – voltou a perguntar Diogo no mesmo tom, como se a negação anterior de Sofia não lhe fosse suficiente.
- Não…por favor… - Sofia já não conseguia gritar, mas tentava não perder o contacto visual com Diogo que estava, emocionalmente, cada vez mais distante dela.
- Ora para quê ouvir se podes ver com os teus próprios olhos! – sugeriu Belial subitamente ao lado de Diogo e de frente para Sofia, com o seu tão característico inclinar de cabeça e sorriso traiçoeiro. Sem sequer esperar por uma resposta, tocou no ombro de Diogo e preparou-se para voltar a invadir as memórias de Sofia como já antes havia feito.
Diogo ouviu Sofia gritar de forma dolorosa mesmo antes de juntamente com Belial se ver atirado para as memórias daquele anjo virtude que julgava conhecer. De repente já não estava no Inferno. Tinha a certeza disso, pois ali tudo era cheio de cor, cheio de vida…Viu Sofia ali mesmo à sua frente com as suas enormes asas abertas. Envergava uma túnica branca. Estava de costas a olhar atentamente para o mesmo palácio de dimensões gigantescas que Diogo já vira na memória que o inferno projectara para atrair Sofia. Desta vez não havia música nenhuma a tocar ao som de uma flauta, apenas toda aquela luz e cor. Não lhe via a cara, mas, de repente, viu-a abrir os braços.
- Quero, de livre e espontânea vontade, deixar de ser um anjo…quero libertar-me desta vida angelical com a qual já não posso compactuar…quero com todas as minhas forças deixar para trás tudo o que me foi incutido…agora e para sempre… - ouviu-a dizer num tom decidido.
Logo de seguida viu-a cair, literalmente. Já não estavam no mesmo sítio, parecia que estavam, agora, num abismo sem fim. Diogo sentia-se horrorizar com a imagem que tinha à sua frente. Sofia gritava a plenos pulmões enquanto caía naquele abismo sem fim, ao mesmo tempo que as suas asas se desfaziam lenta e dolorosamente. Cada pena que se soltava arrancava um grito atroz da garganta de Sofia. Lágrimas grossas deslizavam sem parar a cada novo grito, enquanto de cabeça virada para baixo caía como se não houvesse fim.
Quando Diogo pensava não aguentar mais, viu-se novamente noutro sítio. Este era escuro, sem vida. Parecia um casarão abandonado, mas não totalmente porque dois troncos de lenha ardiam na grande lareira que iluminava outras duas pessoas. Uma delas era sem dúvida Sofia que já não tinha a mesma túnica branca, mas sim um vestido cinzento, muito simples, típico dos finais do século XVIII ou inícios do século XIX e que estava, naquele preciso momento, ajoelhada em sinal de obediência perante uma outra pessoa que Diogo não conseguia ver o rosto, mas cuja silhueta era o suficiente para arrepiá-lo todo. Percebia que era um homem, mas impossibilitado de se mexer, não conseguia satisfazer mais a sua curiosidade.
- Eu, Ariel, um anjo caído, juro prestar vassalagem a si, Príncipe Sammael, sem nunca, em momento algum, desobedecer a qualquer ordem, mostrando-me sempre disponível para qualquer convocação nesta guerra entre anjos e demónios…sendo fiel aos demónios, aos príncipes do inferno e a Lady Lilith! – este último nome foi seguido de um movimento à esquerda de Sofia. Diogo não reparara numa terceira pessoa que se encontrava na penumbra das sombras daquele compartimento. Se o que ouvira o chocara, ver ali ao lado de Sofia a pessoa que matara a sua mãe e que o atormentara durante 17 anos, atingiu-o como um balde de água gelada, como se cada pedaço do seu corpo se retraísse perante aquela imagem de Sofia fazendo uma vénia àquele que julgava ser o Príncipe Sammael e de seguida a Lady Lilith, logo após um juramento de vassalagem.
Diogo não teve tempo de digerir o que acabara de presenciar e já se encontrava noutro local. Tinha à sua frente um grande descampado. Mais uma vez não estavam sozinhos. Ali debaixo de um sol de Verão, encontravam-se cerca de vinte seres. Tratava-se, sem dúvida alguma, de uma batalha. Diogo distinguiu-os de imediato. Reconheceu os anjos com as suas enormes asas brancas. Os demónios com as suas asas negras. Alguns diabretes como aquele primeiro que atacara Diogo na sua noite de anos. E ali no meio, lutando ao lado dos demónios e contra os anjos estava…Sofia! Sem as asas à mostra, trazia o mesmo vestido de uma outra época que rasgara o suficiente para ter a mobilidade necessária para uma luta como aquela. O cabelo também estava diferente, mas Diogo reconheceria aquela forma de lutar em qualquer lado. Usava uma espada diferente das actuais que ele conhecia, mas esta era arremessada na direcção dos anjos, protegendo os demónios que estavam prestes a ser derrotados, com a mesma destreza que caracterizava Sofia. Percebia-se perfeitamente que era ela quem impedia o extermínio dos mesmos com a sua perícia e habilidade.
Tudo se esfumara à sua frente. Diogo viu-se de volta ao Inferno, ao reino de Belial. Sentiu a mão de Belial largar o seu ombro e percebeu que ele recuara voltando a sentar-se na sua poltrona. Olhava para a Adaga que continuava a agarrar percebendo que o fazia com tal força que os nós dos dedos estavam brancos. Quando levantou o olhar para Sofia tinha a certeza que a cor dos seus olhos estavam encarnados, tal era a raiva que sentia crescer dentro de si. Sofia não estava a olhar para ele, parecia fraca de mais para o conseguir fazer, aguentando-se em pé apenas devido às raízes que sustentavam o seu peso. A fúria e o ódio que tomavam conta do seu peito não permitiam dar lugar a qualquer arrependimento por ter invadido as memórias de Sofia de uma forma que antes considerara completamente bárbara, cruel e desumana. Aquilo tinha-o feito perceber quem era Sofia…uma traidora como Belial tinha dito.
- Solta-a! – ordenou Diogo a Belial cego de raiva. Se Belial se deu conta que recebera uma ordem não o demonstrou, pois nesse mesmo instante com mais um estalar de dedos as raízes largaram Sofia e esta caiu no chão desamparada. Ficou ali deitada sem se mexer. – Recupera as tuas forças e levanta-te! – o tom usado por Diogo não mostrava qualquer réstia de amizade ou afeição.
Sofia ficou como estava durante alguns segundos, mas com o seu dom que actuava mesmo sem que ela o desejasse, depressa viu as suas forças começarem a ser restabelecidas. Apesar de não se levantar de imediato Diogo percebeu que aquilo já acontecera.
- Olha para mim – voltou a ordenar.
Sofia levantou lentamente a cabeça até ter os seus olhos focados nos de Diogo. Não havia qualquer sentimento de culpa, mas sim de resignação, o que enfureceu ainda mais Diogo, provando-lhe que na primeira oportunidade ela os tinha traído a todos.
- O que irias receber em troca quando nos entregasses a Sammael? O teu mestre… - perguntou-lhe mostrando nojo e repulsa.
- Eu não sou uma traidora! – Sofia voltou a repetir no mesmo tom cansado, apesar das forças renovadas.
- ÉS SIM UMA TRAIDORA!!! ESCOLHESTE TORNAR-TE NUM ANJO CAÍDO…VAIS NEGAR?
- ESCOLHI SIM… - admitiu por fim desistindo do seu tom calmo e usando o mesmo tom alterado de Diogo.
- Então confessas que és uma traidora! – anunciou triunfante.
- Não foi isso que me ouviste dizer. – ripostou Sofia
- Eu vi-te Sofia…és capaz de me dizer que tudo aquilo a que eu assisti nas tuas memórias não aconteceu? – apesar do tom acusatório, Diogo ainda guardava uma réstia de esperança em ouvir um “não” da boca de Sofia. No entanto, não foi isso que aconteceu.
- Não, não nego que tenha acontecido! – disse de uma forma que não criava dúvidas – Mas ele apenas te mostrou aquilo que queria que tu visses!
- Estás a dizer que fui manipulado?
- Sim!
- SOFIA EU VI-TE FAZERES A ESCOLHA DE TE TORNARES NUM ANJO CAÍDO, VI-TE PRESTAR VASSALAGEM AO PRÍNCIPE SAMMAEL, VI-TE A LUTAR AO LADO DOS DEMÓNIOS, VI-TE FAZERES UMA VÉNIA…À LADY LILITH! À MULHER QUE MATOU A MINHA MÃE!
- EU NÃO SABIA…E VI-ME OBRIGADA A ISSO!
- OBRIGADA? EU VI-TE FAZÊ-LO DE LIVRE VONTADE! NINGUÉM ESTAVA A OBRIGAR-TE A NADA!
- Não sabes a história toda…
- Não preciso de saber a história toda… - com isto Diogo largou a Adaga de Belial que caiu no chão e fez surgir na sua mão a espada negra que já usara uma vez.
- Queres lutar comigo é isso? – Sofia não queria acreditar.
- Não podes dizer que isso não te trás satisfação! – Diogo mostrou um sorriso muito parecido com o de Belial.
- Podia ser meu filho! – disse Belial da sua poltrona verdadeiramente satisfeito com o rumo das coisas.
- Eu não vou lutar contigo! – recusava-se Sofia – Eu já tive muitas oportunidades para te matar, porque é que esperaria tanto tempo para o fazer? Porquê só agora?
- Mostra-me as tuas armas já! – ordenava Diogo começando a andar na direcção de Sofia.
- Não! Estás cego pelo ódio!
- Disseste que lutarias comigo quando eu passasse para o lado dele, ou devo dizer para o VOSSO lado? Fá-lo AGORA! Se não o fizeres eu vou matar-te!
- Por favor Diogo, não sabes toda a história! Deixa-me explicar-te… - Sofia via-se forçada a começar a recuar perante a aproximação decidida de Diogo. – Tu não és assim…TU NÃO ÉS COMO EU…TU CONFIAS, TU DÁS O BENEFÍCIO DA DÚVIDA!
Aquilo fez parar Diogo que a observou de forma curiosa.
- Tu traíste aqueles que confiavam em ti…prestaste vassalagem e obedeceste a ordens vindas dos Príncipes do Inferno, lutaste ao lado de demónios e compactuaste com a assassina da Luz…PORQUÊ? – esta pergunta foi acompanhada pela investida de Diogo na direcção de Sofia com a sua espada de lâmina afiada. Ouviu ao fundo os gritos de Samuel, Matilde e Tânia, mas ignorou-os.
- Por…amor… - confessou subitamente Sofia perante aquela insistência e a milímetros de ser atingida pelo ataque de Diogo. Este ficou estático no último momento. O silêncio foi absoluto. Diogo e Sofia olhavam um para o outro sem pestanejarem.
- Que bonito… - interrompeu Belial com um falso sorriso – Agora acaba com isso de uma vez! – ordenou de forma terminante. - Começo a perder a paciência!
- Ele tem razão… - disse Diogo no mesmo tom de antes. Para sua surpresa Sofia apenas fechou os olhos aceitando o ataque inevitável de Diogo.
Mas o ataque iminente não aconteceu. Diogo mudou inesperadamente de direcção apanhando todos de surpresa, incluindo Belial, que viu a ponta afiada da espada de Diogo dirigir-se a ele a toda a velocidade. Só teve tempo de reparar que ele já não tinha na mão a espada negra de antes, mas sim uma que era toda ela prateada. Mas quando parecia que a investida de Diogo ia resultar, este sentiu-se ficar, literalmente, preso ao chão.
Belial caíra atrapalhadamente da cadeira, mas a mão humana que possuía estava levantada no ar. Diogo olhou confuso para baixo e viu-se preso pelo que parecia areia. Uma areia espessa que o impedia de se movimentar, de dar qualquer passo. Tentou fazê-lo mas era impossível. Olhou novamente para Belial que apesar de ainda não se ter refeito do susto, já se levantara. Naquele momento olhava de forma odiosa para Diogo.
- Tenho de admitir que me enganaste muito bem! – disse já completamente recomposto, no mesmo tom elegante e já sem qualquer vestígio do ódio que mostrara nutrir por Diogo.
- Parece que afinal não sou assim tão facilmente manipulável – o tom de Diogo era arrogante.
- Tu acreditaste, eu tenho certeza…não foi sempre fingimento! – atirou-lhe Belial curioso – Quando é que…
- A Sofia nunca recusaria uma luta…está-lhe na alma…tu como antigo anjo virtude devias sabê-lo…no momento em que ela recusou revelar-me as suas espadas, percebi que era a forma dela me mostrar que nunca me trairia…. – revelou Diogo.
- Mas tu viste com os teus olhos, viste o que ela fez, no que ela se tornou… - insistiu Belial.
- Caso não tenhas reparado ela voltou a ser um anjo virtude em todo o seu esplendor…alguma coisa muito boa ela deve ter feito para o permitirem – obrigou-o a constatar Diogo. – As asas dela são do mais branco que já vi…de certeza que muito mais do que aquelas que tu alguma vez tiveste! – provocou-o Diogo não conseguindo impedir-se.
- Não devias provocar-me rapaz! Não sabes do que eu sou capaz! – a raiva era agora bem patente na voz de Belial, mas Diogo só sentiu um arrepio quando voltou a vê-lo inclinar a cabeça e sorrir de forma dissimulada. – Podes não tê-la morto, mas vais vê-la morrer à tua frente e de uma forma muito lenta. – ao dizer isto Belial olhou para lá de Diogo.
- Sofia! – disseram Samuel e Matilde ao mesmo tempo de forma alarmante.
Com muita dificuldade Diogo conseguiu voltar-se para trás. Sofia estava a três passos de si e parecia aflita com algo que Diogo ainda não percebera. Foi então que reparou que Sofia estava…a afundar-se muito lentamente.
- Areias Movediças… - informou-o Belial orgulhoso – A minha especialidade…Vais vê-la morrer bem à tua frente…oh mas não te preocupes…terás um lugar na primeira fila… - sem mais demoras, Diogo voltou a sentir raízes apertarem-lhe os tornozelos sendo puxado de forma violenta para junto de Sofia. Ficaram frente a frente sentindo-se serem puxados cada vez mais para baixo. Viu Sofia olhar desesperada na sua direcção.
- Eu não sabia que ao tornar-me um anjo caído teria de prestar vassalagem a um Príncipe, nunca matei um anjo, apenas usei a arma que tinha para me defender e impedir que desconfiassem de mim e só me tornei um anjo caído por um motivo muito forte… - explicou Sofia num só fôlego, como se para ela fosse mais importante explicar-lhe o que acontecera do que o facto de estar prestes a ficar submersa por areias movediças.
- Costumam dizer que o amor é um motivo muito forte… - murmurou-lhe Diogo que também a fitava.
- Acreditas mesmo em mim? – perguntou-lhe Sofia.
- Acho que o facto de estar prestes a ser enterrado vivo, em vez de estar confortavelmente sentado numa poltrona fixe com aquela, quer dizer alguma coisa – brincou Diogo.
Depois de um breve olhar para Diogo, Sofia começou de repente a tentar soltar-se, mas cada tentativa só os levava a afundar-se mais rapidamente. E uma vez que estavam novamente amarrados àquelas raízes sugadoras de energia angelical, Sofia voltava a ficar cada vez mais fraca. Diogo olhou à sua volta. Estavam cada vez mais enterrados e não conseguia perceber como podiam sair dali. O seu olhar cruzou-se com o de Samuel. Via verdadeira aflição nos seus olhos investindo novamente contra a jaula que o rodeava. Olhou para Tânia que devia ter feito alguma tentativa de fuga, pois estava agora a ser segura por dois guardas e apresentava uma viscosidade verde ao longo de todo o braço direito. Por fim viu Júlio ali estendido, completamente inconsciente. “Teria sido tudo em vão?” A face de Matilde já não era a que conhecia. Era a tristeza que agora a definia. Continuava agarrada à mão de Júlio, mas não tirava os olhos deles os dois. Escorreu-lhe uma lágrima pela face. Não era aquela imagem que Diogo queria recordar. Queria aquele sorriso, aquela inocência, aquela gargalhada como a que ouvira horas antes junto ao lago de Leviathan. Desanimado olhou para Sofia que também já desistira de se livrar das areias movediças. As mesmas já lhes davam pelo peito. Diogo não tinha ideias e sabia que Sofia também não as tinha. Era ridículo aquele ser o fim de tudo. Contemplou os olhos cinzentos de Sofia, da cor da tempestade. Não encontrava medo, apenas angústia, como se aquele não fosse o momento certo.
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