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segunda-feira, 9 de maio de 2011

2º Volume: Capítulo 4 - O Primeiro Anjo Caído

O cenário observado por Diogo era aterrador. Estavam todos presos. Samuel atirava-se contra as grades da sua jaula, tentava cortá-las com a sua arma, mas aquilo só servia para se magoar ainda mais. Tânia mal conseguia mover-se de tão perto que os soldados estavam. As suas faces feitas de areia sem qualquer tipo de vida mantinham-se firmes e as armas de madeira nas suas mãos estavam ameaçadoramente apontadas a ela. Diogo olhou para Sofia. Esta tentava debater-se com as raízes, mas de cada vez que o fazia, parecia perder forças parando várias vezes para recuperá-las. Lembrou-se das raízes que tinham saído do lago de Leviathan e que haviam sugado as forças de Sofia e de Matilde, deixando-as fracas e exaustas, completamente impossibilitadas de reagirem ao ataque. Aquelas estavam a ter o mesmo efeito. Também ele não conseguia mexer-se. A força daquelas raízes era avassaladora, sentia-se como se fosse uma estátua, completamente imóvel e à mercê do que quer que poderia seguir-se. Mas não era isso que o preocupava mais. Júlio estava agora longe dos poderes curativos de Sofia e sem eles, todos sabiam ser impossível sobreviver por muito mais tempo. Estava gravemente ferido, mal conseguindo respirar e a esvair-se em sangue. Diogo olhou na direcção do amigo. Ele e Matilde encontravam-se encurralados na mesma jaula feita de troncos de madeira, tal como a de Samuel. Matilde olhava para Sofia desesperada. Ela sabia muito bem que sem a ajuda de Sofia, Júlio tinha muito poucas hipóteses.
- Matilde, tens de passar alguma da tua energia angelical para o Júlio – explicou-lhe Sofia que continuava sem ter sucesso com as suas inúmeras tentativas de se soltar e num tom cada vez mais cansado – É a única oportunidade que temos para mantê-lo vivo até eu conseguir aproximar-me dele.
- Mas e se não resultar? – Matilde tentava conter as lágrimas e o pânico patente na sua voz. Sofia não respondeu. Diogo sabia que também ela não tinha a certeza do que acabara de sugerir. Júlio estava muito mal, a sua vida estava suspensa por um fio. Mas Matilde, ciente do estado dele, não esperou por uma resposta de Sofia. Acenou com a cabeça e virou-se para Júlio. Apertando com mais força a sua mão, respirou fundo e uma luz prateada começou a envolver as mãos de ambos.
- O que é que está a passar-se? – perguntou Diogo a Sofia. Ela encontrava-se mesmo ao seu lado. Poderia tocar-lhe quase na mão. Mas as raízes eram demasiado fortes ao ponto de não lhe permitir mexer-se um único centímetro.
- Estamos prestes a descobrir… - murmurou Sofia de olhar fixo num ponto à sua frente.
- O que queres dizer com isso? – perguntou Diogo.
- Não sentes? – foi a única coisa que Sofia lhe disse, cerrando os punhos logo de seguida.
Diogo seguiu o olhar de Sofia. A imagem que tinha à sua frente de uma planície em tons de castanho terra não se alterara, mas ele sentia. Alguém se aproximava e não havia dúvidas de que esse alguém, o que quer que fosse, possuía uma força demoníaca avassaladora. Era quase palpável, quase respirável. Quem quer que estivesse a aproximar-se deles, não vinha com boas intenções. Esperaram. Primeiro viram os cavalos, eram quatro, dois à frente seguidos logo dos outros dois, todos eles feitos de areia, perfeitamente trabalhados e cheios de vida. Galopavam na direcção deles puxando uma carruagem sem rodas. Parecia flutuar a um metro do chão, toda ela, feita de madeira escura, quase preta. Um soldado, também ele, de areia, fazia de cocheiro, guiando os cavalos com um chicote que se desfazia e voltava a ganhar forma de todas as vezes que atingia os animais. A carruagem, completamente fechada, parou à frente deles tendo o cocheiro, o cuidado de a posicionar de lado, com a porta da mesma virada para eles. Os cavalos permaneciam imóveis, tal como o soldado que se encontrava no lugar do cocheiro. Era como se nenhum deles desse pela presença dos intrusos. A carruagem, apesar de simples, ostentava bom gosto. Parecia toda trabalhada à mão, com pormenores ostensivos do lugar a que pertencia. Vislumbravam-se várias caveiras e adagas desenhadas ao longo da forma de abóbora que constituía a carruagem. Diogo lembrou-se subitamente da história da Cinderela que ouvira no infantário, mas duvidava muito que a sua carruagem fosse tão negra e tão cheia de elementos demoníacos como aquela. Se não fosse a situação em que se encontrava, Diogo não se importava nada de observar mais detalhadamente cada pormenor decorativo. Virada para eles, a carruagem mostrava uma janela, no entanto, era impossível ver algo através dela, tal era a escuridão.
A porta abriu-se subitamente, mas sem emitir qualquer som. Diogo percebeu nesse momento que estava a suster a respiração e que à sua volta o silêncio era total. Todos estavam atentos a quem poderia sair por aquela porta. Até Matilde, que continuava a transmitir a sua energia angelical a Júlio, levantara a sua cabeça para assistir ao que se seguiu. Uma mão surgiu à entrada da porta apoiada na mesma. Era uma mão humana, como qualquer outra, com dedos compridos e brancos, que se perdia para lá da escuridão do interior da carruagem. Não tiveram de esperar muito mais para verem a quem pertencia aquela mão. Sem demoras, mas com toda a calma, surgiu um rosto. Era um rosto pequeno emoldurado por um cabelo negro revolto, mas bem cuidado, que chegava até ao queixo de uma forma irregular. Um penteado muito usado pelos jovens que Diogo encontrava na faculdade. No entanto aquele era um rosto mais velho comparativamente com o de Leviathan, muito próximo da idade que Samuel aparentava ter, entre os 35 e os 40 anos. Era um rosto forte e determinado, não havia ali fingimento ou subterfúgios, não escondia o pecado que emanava daquele olhar gélido e cruel com que os fitava. Tinha feições perfeitas e até mesmo a grande cicatriz que possuía na sua face esquerda que ia do olho até ao canto da boca, parecia encaixar ali perfeitamente, como se sem ela não pudesse ser o mesmo. Começou a sair da carruagem de uma forma majestosa, mostrando um pescoço largo seguido de uns ombros igualmente largos. Logo de seguida todo ele estava de fora da carruagem a fitá-los. Diogo não conseguia tirar os olhos daquele ser, principalmente do outro braço que via agora na sua total plenitude. Não era como o outro. No lugar do antebraço e da própria mão esquerda encontrava-se uma enorme arma. A base da arma bem ornamentada e luxuosa cobria toda a zona onde devia estar o antebraço e no local em que devia encontrar-se uma mão, um enorme chifre, de ponta tão afiada como a de uma espada, despontava ameaçadoramente até ao joelho. O chifre era negro tal como toda a sua roupa constituída por calças, cinto, camisa e botas até aos joelhos, tudo coberto por um casaco comprido e de cabedal, sem mangas e aberto à frente em todo o seu comprimento. Mas todo aquele visual demoníaco só ficou completo quando aquele ser fez surgir atrás de si umas asas enormes, muito parecidas com as de um morcego e de pontas bem afiadas. Sem demoras fitou Diogo com os seus olhos tão negros como a sua própria roupa e cabelo, cujo brilho satânico depressa deu a perceber a Diogo, que estava, não perante qualquer demónio, mas sim perante um Príncipe do Inferno, mais precisamente Belial, o senhor da terra.
Belial desviou por momentos o olhar de Diogo, o tempo suficiente para observar os restantes. O seu olhar deslocou-se primeiro na direcção de Matilde e Júlio, não se detendo por mais de alguns segundos, como se eles não fossem dignos da sua atenção. Logo de seguida observou atentamente Sofia que nunca desviou o seu olhar, o que fez Belial mostrar um pequeno sorriso frio e desafiante. Não se detendo por mais tempo, o seu olhar caiu sobre Samuel. Deteve-se em Samuel por um período mais longo, como se por momentos se lembrasse de algo. Diogo viu-o inclinar a cabeça como costumam fazer os cães, mas ao contrário destes, sem ter nada de adorável naquele movimento. O seu olhar estreitou-se, como se estivesse prestes a lembrar-se, mas num gesto repentino olhou para Tânia. Diogo sentiu o medo a apoderar-se de si, um medo por Tânia, alvo de um olhar odioso e de repulsa por parte daquele Príncipe. Viu-o estender bruscamente a mão que possuía e cerrar o punho. Diogo não percebeu o que aquilo significava até ouvir um grito lancinante vindo de Tânia. Diogo moveu o pescoço para a direita, a única parte do seu corpo que conseguia mexer e, em pânico, viu Tânia rodeada por centenas de folhas típicas de qualquer planta a girarem a grande velocidade à sua volta, à medida que iam convergindo na direcção da mesma. Tânia gritava de cada vez que isso acontecia, como se elas lhe provocassem dores insuportáveis sempre que lhe tocavam, o que acontecia de cinco em cinco segundos não lhe dando qualquer hipótese de recuperar. Diogo não percebia o que estava a acontecer visto que a quantidade de folhas que giravam à volta de Tânia quase que a tapavam por completo, mas não podia permitir aquela tortura.
- CHEGA! – gritou na direcção de Belial. Este olhou para Diogo fazendo o mesmo inclinar de cabeça que usara antes com Samuel. Diogo não conseguiu evitar voltar a lembrar-se dos cães, cujo movimento lhes era tão característico. Diogo sentia medo sim, mas agora tinha de pensar em Tânia e por isso encarou Belial sem pestanejar. O único barulho de fundo era os gritos dolorosos de Tânia, cada vez mais fracos, o que tornava tudo ainda mais preocupante.
- E tu és? – perguntou-lhe Belial no mesmo tom frio e ao mesmo tempo calmante.
- O meu nome é Diogo e sou filho de um dos Príncipes do Inferno! – disse simplesmente Diogo. Foi o suficiente para fazer Belial baixar o braço que ainda mantinha suspenso. Os gritos de Tânia cessaram imediatamente. Diogo desviou novamente o olhar para ela no preciso momento em que a viu cair ao chão sem forças. Observou mais atentamente e percebeu que a pele dela se encontrava em vários pontos dos braços, das pernas e da cara, com marcas de queimaduras. Tânia tentou levantar-se, mas o seu corpo cedeu e voltou a cair no chão derrotada. – Tânia… - murmurou Diogo.
- Posso tratar dela depois… - disse Belial sem sequer olhar para ela e observando Diogo atentamente - Demónios traidores como ela merecem uma atenção especial,e o que ela merece não tardará. Agora nós…
Diogo, a custo, desviou o olhar de Tânia e encarou Belial.
- Com que então os rumores são verdadeiros – voltou a dizer Belial dando os passos suficientes para se posicionar à frente de Diogo, a cerca de pouco mais de um metro deste – Sabes quem eu sou? – perguntou com o típico inclinar de cabeça.
- Belial, um dos quatros Príncipes do Inferno, aquele que governa o lado Norte – respondeu Diogo mostrando o mesmo olhar determinado do anjo caído – Se bem que já não sei se podemos falar de quatro… - aquilo saiu-lhe da boca sem sequer pensar. De onde viria toda aquela arrogância, pensou Diogo, aquela coragem e insolência, num momento em que a desvantagem estava toda do seu lado.
- Parece que afinal devia ter ficado mais atento aos rumores que chegaram aos meus ouvidos… – Belial continuou no mesmo tom sem dar importância à audácia de Diogo – O que aconteceu com o Leviathan?
- Numa situação normal diria que o tinha mandado para o Inferno, mas visto que já estamos nele, o mínimo que posso dizer é que aqui ele também já não está! – Diogo respondeu com o mesmo atrevimento.
- Mandaste-o para o Poço Sem Fundo? – por uma questão de segundos Diogo viu pânico assomar à face de Belial ao pronunciar aquelas últimas palavras. No entanto, o mesmo recompôs-se como se nada o tivesse perturbado segundos antes.
- Não faço ideia de onde isso fica, mas se esse tal Poço Sem Fundo meter tanto medo como aquele que acabei de ver na sua cara, então ele está no sítio certo e é para lá que todos vocês devem ir – atirou-lhe Diogo vigorosamente.
- És atrevido rapaz… - murmurou-lhe Belial – Vejo que já descartaste o Leviathan… assim sendo temos um território para ocupar… - disse envolvido, por momentos, nos seus próprios pensamentos. Diogo viu-lhe a cobiça no olhar, mas depressa a atenção daquele demónio voltou a recair sobre ele. – Com que então és filho de um dos Príncipes do Inferno! – Belial observou-o muito atentamente de cima a baixo – Portanto já meteste de parte o Príncipe da Água…não estás curioso para saber se eu sou o teu pai? – ao dizer isto fez uma pausa no seu discurso olhando para Diogo com mais um inclinar de cabeça.
- Eu só quero saber onde estão os pais que conheço e que me criaram! – atirou-lhe Diogo enraivecido. Belial ficou em silêncio alguns momentos como que a pensar em algo que por enquanto não tencionava partilhar com ninguém.
- Temos tempo para falar dos teus queridos pais…mais tarde, mais tarde. - disse num tom que demonstrava que aquilo não lhe despertava qualquer interesse – Em tempos fui como tu, sabias? Lutava por ideais que os outros me diziam ser os correctos, acreditava mesmo que só havia um caminho certo a seguir e que velar pelos outros era a maior dádiva que eu podia receber. – Perante este discurso, Diogo fez um olhar de desdém. – Olhas para mim como se eu fosse repugnante, repulsivo até…és incapaz até de imaginar que um dia eu fui um Anjo Virtude, o primeiro de todos os anjos virtudes.
“Fui puro, honrado, digno de toda a admiração dos anjos e do próprio Deus. O meu próprio nome significa “A Prosperidade do Senhor”…engraçado não é? – Diogo não conseguia ver o que podia ser engraçado. Tentava perceber como ganhar alguma vantagem, mas por enquanto a única que possuía era tentar ganhar tempo até ter uma ideia. Portanto, se Belial queria falar, então deixá-lo-ia falar – Eu adorava-O, venerava-O, só tinha olhos para a sua luz. E era feliz assim, sem dúvida de que era feliz, bastava-me saber que nós, os anjos, éramos o seu maior tesouro e que eu fora criado para começar uma nova linhagem de anjos, denominados anjos virtudes.
Mas naquela altura eu ainda não tinha percebido a minha verdadeira missão. Pensava que seria apenas adorar Deus e ser adorado por Ele. No entanto, os seus planos eram outros. – Belial falava com o olhar fixo num ponto atrás de Diogo, como se estivesse a lembrar-se de toda uma época vivida há muitos tempos atrás. - Estava tão cego que nem me apercebi da verdadeira missão que Ele tinha para mim e de todo o reino que estava a criar.
Um dia Ele chamou-me, queria mostrar-me algo maravilhoso. Eu sentia-me um privilegiado, sentia-me amado. E então mostrou-me a sua nova criação, feita à sua imagem e semelhança…EU ERA A SUA IMAGEM E SEMELHANÇA! – gritou subitamente, mas continuando tão embrenhado nas suas lembranças como antes – Olhei para Adão, era belo sim, mas era um simples humano, uma raça inferior…inferior a mim…como podia Deus amá-lo tanto. Eu sentia aquele amor e não o compreendia, não fazia sentido. Foi quando me explicou que a minha missão como anjo virtude era velar por Adão, ensinar-lhe tudo para que pudesse sobreviver sozinho, mas sem nunca o deixar completamente sozinho.
Orgulhava-me por me sentir superior a Adão. No entanto, mesmo sem perceber tanta admiração por aquele humano, fiz o que me pediu. Surpreendi-me com tudo o que vi, com todas as belezas que tinham sido criadas só para ele, todas as cores, todos os cheiros. Ensinei-lhe o necessário para sobreviver sozinho e nunca o abandonei. Mas eu não era suficiente para sua companhia e ele não queria sobreviver sozinho. Teve então a audácia de pedir a Deus uma companhia humana, igual a si. Eu não percebia como é que ele poderia querer outra companhia para além de Deus e de mim, mas Ele fez-lhe a vontade e criou a mulher, criou Lady Lilith.”
Diogo sobressaltou-se ao ouvir aquele nome. A imagem daquela mulher de pele clara, olhos cor de avelã e cabelos dourados invadiu toda a sua mente. Sentiu-se arrepiar e por momentos esqueceu-se da situação em que se encontrava, tendo agora como único objectivo absorver qualquer tipo de informação sobre ela.
“Adão podia ser belo, mas ela era linda. Toda ela esbanjava sedução. Era impossível tirar os olhos daquele ser tão deslumbrante. Foi aí que comecei a esquecer-me de Deus, que deixei de olhar apenas para Ele, que deixei de o amar apenas a Ele. Observei-os dia e noite. Via a felicidade de Adão por ter Lilith a seu lado, mas era ela que invadia os meus sonhos, era para ela que eu vivia. Queria tê-la ao meu lado, tal como Adão a tinha. Eu invejava-o com todas as minhas forças.
Apesar de estar proibido de voltar a aparecer diante deles, podendo apenas observá-los de longe para zelar pela sua segurança, eu não resisti e quando Adão partiu para a caça eu fui visitá-la. Se ela se surpreendeu com a minha presença, não o demonstrou. Observou-me de alto a baixo, tal como fiz com ela. Ela nunca vira um anjo e eu nunca vira nada tão belo. Eu tinha-lhes ensinado todo o meu conhecimento e ela, nesse dia, ensinou-me o que era a luxúria. Ambos sabíamos que era errado, mas eu sabia que já não era um anjo. Já tinha cometido vários pecados. Tinha cometido o pecado do orgulho, ao sentir-me superior a Adão, cometera o pecado da Ira, igualmente contra Adão por ser o predilecto de Deus, cometera o pecado da Inveja por vê-LO satisfazer os caprichos de Adão e por fim cometera o pecado da luxúria. Sendo este último pecado, o primeiro de que nuca me arrependi. Eu desejei-a e ela desejou-me da mesma maneira. Destruímos algo que era puro. Naquele momento, vim mais tarde a saber, tornara-me num anjo caído, o primeiro de todos. Fui expulso do Paraíso e vi renegada toda a minha beleza. Escondi-me, envergonhado não do que fizera, mas da minha aparência. Fui encontrado, muito tempo depois, por Lúcifer que havia caído pouco tempo depois de mim. Contou-me o que sucedera com Lilith, depois da minha expulsão. Contou-me que ela conseguira fugir do Paraíso e que com o passar dos anos se casara com Sammael, outro anjo caído. Fiquei feliz por saber que ela já não pertencia a Adão. Não me importava com quem ela estava agora, bastava-me saber que depois de ter sido minha, nunca mais voltara a ser daquele humano, tão inferior a ela e a mim. Lúcifer mostrou-me como podíamos combater a força de Deus e como seria fácil destruir a sua tão preciosa criação, os humanos.
Nem tudo foi fácil, claro. Deus é poderoso e criou mais e mais anjos para defenderem a sua tão adorada raça humana. Mas nós também nos multiplicámos e os humanos são muito susceptíveis a todo o tipo de malícia e tentação. São presas fáceis.”
- Enganas-te! – disse subitamente Samuel – Os humanos têm muita bondade para dar, são capazes de amar incondicionalmente, coisa que já não sabes o que significa. Têm fé de que tudo pode melhorar, acreditam nas suas capacidades e de que não foram ali colocados por acaso. Muitos podem não acreditar em Deus ou até mesmo nunca terem pensado na sua possível existência, mas têm amor no coração e todo um conjunto de sentimentos que os leva a agir de acordo com bons princípios, recusando, mais cedo ou mais tarde a uma vida sem escrúpulos e despida de intenções pérfidas, como aquelas que vocês demónios lhes tentam incutir.
- Olha à tua volta anjo – ordenou-lhe Belial – Estás no Inferno, aqui chegam milhares, milhões de almas pecadoras a todos os minutos. Achas mesmo que esta guerra está a ser-vos favorável?
- Todas essas almas foram influenciadas por demónios…incutiram-lhes ideias…
- É verdade, mas em momento algum pegamos nas suas mãos e cometemos os pecados por eles…não temos culpa que tenham mentes fracas e tão fáceis de direccionar…nós só damos um empurrãozinho, o resto é com eles…A Humanidade é um caso perdido, mais cedo ou mais tarde vais perceber isso. - e com isto Belial voltou a olhar para Diogo. No entanto Samuel ainda não tinha acabado.
- “Nunca percas a fé na Humanidade, pois ela é como o Oceano. Só porque existem algumas gotas de água suja, não quer dizer que todo ele esteja sujo por completo” – Não podia estar mais de acordo com Gandhi. Enquanto houver almas por que lutar, os verdadeiros anjos não vão desistir nunca, muito menos Deus.
- Já estive no teu lugar, sei como é venerá-Lo, mas esta guerra está ganha, principalmente depois de te ter ao meu lado – disse Belial desviando novamente o olhar de Samuel e fixando-o em Diogo de uma forma quase louca de euforia.
- Não é que não me sinta lisonjeado, mas porque é que mal me põem a vista em cima, ganham essa obsessão louca pela minha pessoa? – perguntou Diogo de forma insolente.
- És insolente e atrevido, mas muito…burro! – atirou-lhe Belial com o seu famoso tique de inclinar a cabeça.
- Ei, essa magoou-me! – queixou-se Diogo imitando o mesmo inclinar de cabeça, mas perguntando-se de onde lhe vinha tanta coragem. Começava a achar que só podia ser mesmo muito burro como dissera Belial.
- Não fazes mesmo ideia do poder que tens, pois não?
- Engraçado todos fazerem essa pergunta…agora que penso nisso… - Diogo mostrou-se pensativo o que entusiasmou Belial - …sim agora me lembro…a minha mãe diz que sempre tive o poder de conseguir tirá-la do sério…
- IDIOTA! – gritou-lhe Belial virando-lhe as costas
- Já somos dois a achar o mesmo! – murmurou Sofia revirando os olhos.
- Ei não é para qualquer um…um poder destes não deve ser negligenciado…
- O que achas que estás a fazer? – perguntou-lhe Sofia – Queres matar-nos de uma vez é isso?
- CALEM-SE! – voltou a gritar Belial virando-se novamente na direcção deles.
- Dores de cabeça? É algo chato sim…qualquer barulho incomoda! Não há nada como ficarmos sozinhos e em silêncio, por isso se fossemos directos ao que interessa… - Diogo não conseguia parar, o que raio é que se passava consigo? Pensava ele sentindo-se algo irritado consigo mesmo.
- Chega de brincadeiras! És insolente, arrogante e petulante…características que admiro num demónio, mas está na altura de veres quem manda! – o tom usado por Belial assustou Diogo e depressa percebeu que tinha razões para isso quando ao seu lado Sofia soltou um grito de dor agonizante.

2 comentários:

Angel Sophie disse...

Estou a gostar muitoooooooooooooooooooooooo

em fuga... disse...

Angel Sophie, não podia ficar mais feliz com o teu comentário tão entusiasticamente positivo! Muito obrigado =)