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segunda-feira, 30 de maio de 2011

2º Volume: Capítulo 7 - Uma Ideia e um Passado

Diogo e Sofia olhavam um para o outro sem saberem o que fazer. Não trocavam nenhuma palavra, mas Diogo percebia o que, naquele momento, passava na cabeça do anjo virtude. Não podia acabar assim. Não podia ser aquele o fim dos dois. Que forma tão estúpida para morrerem. No entanto, por mais que tentassem espernear não conseguiam lutar contra as raízes que agarravam os tornozelos de ambos, reduzindo-lhes as forças. Também deviam ser as mesmas raízes que estavam a impedi-los de invocarem armas que pudessem ajudá-los. Por mais que Diogo pensasse em cordas, nada surgia à sua frente. Além disso toda aquela areia impossibilitava-lhes os movimentos, cada parte do corpo soterrada, parecia enterrada em cimento. Diogo já vira as areias movediças nos filmes. Engoliam as pessoas, enterrando-as vivas. Sempre pensou que aquilo era um exagero, mas ali tinha ele a prova. Mal conseguia movimentar-se e cada movimento só fazia avançar ainda mais o processo. Sentiu-se afundar mais um pouco. Ele e Sofia levantaram os braços ao mesmo tempo de forma a mantê-los na superfície. Sem saberem muito bem o que fazer com os braços, em simultâneo, esticaram-nos na direcção do outro e seguraram-se mutuamente, colocando as mãos nos ombros de cada um.
- Estou aberto a sugestões. – brincou Diogo olhando esperançado para Sofia. Esta sorriu-lhe mas apenas lhe apertou um pouco mais os ombros.
Samuel continuava na sua luta contra a jaula que o aprisionava. Tânia mal podia mexer-se. Júlio mantinha-se inconsciente e Matilde estava pela primeira vez sem ideias e sem palavras. Belial apareceu subitamente no seu campo de visão.
- É uma pena que tenha de acabar assim, podias ser-me muito útil… - disse-lhe com o seu tão característico inclinar de cabeça – Mas o que se há-de fazer…serias sempre um insubordinado e eu há muito tempo que deixei de ter paciência para crianças! – de repente sorriu como se tivesse acabado de ter uma ideia brilhante – Para não dizeres que não sou atencioso, vou deixar os teus amigos assistirem à vossa morte e só depois acabar igualmente com eles…
- És louco! – atirou-lhe Sofia – O que é que ganhas com tudo isto?
- Um belo espectáculo! – respondeu-lhe Belial com toda a calma e virando-lhe as costas, logo depois de apanhar a sua Adaga do chão.
- Diogo temos de fazer alguma coisa – exigiu-lhe Sofia com aquela tempestade que descrevia o seu olhar. Algo despertou dentro de Diogo perante o brilho exigente dos olhos de Sofia. Uma esperança…
- Os teus olhos! – foi apenas o que lhe disse.
- O que têm? – perguntou-lhe ao mesmo tempo que os braços de ambos já estavam praticamente submersos.
- O lago de Leviathan… - continuava Diogo como se estivesse a juntar peças de um puzzle.
- Diogo não estás a dizer coisa com coisa… - fez-lhe notar Sofia como se achasse que aquele momento já estava a afectar-lhe o cérebro.
- Isto são areias movediças… - continuou como se estivesse a fazer uma grande descoberta.
- Diogo…estás bem? – Sofia começava a desesperar.
- ISTO SÃO AREIAS MOVEDIÇAS! – gritou Diogo de repente sorridente.
- EU SEI QUE SÃO AREIAS MOVEDIÇAS…E ESTAMOS A SER ENGOLIDOS POR ELAS! – Sofia já estava a perder a paciência.
- Não estás a perceber… - Diogo continuava com o mesmo ar apalermado.
- Diogo estás a assustar-me… - Sofia já não olhava para ele. Desesperada procurava algo à sua volta.
- As areias movediças são feitas de areia e água…
- DIOGO EU NÃO ESTOU PRÓPRIAMENTE INTERESSADA NUMA AULA SOBRE AREIAS MOVEDIÇAS! – Sofia parecia agora mais desesperada com a lucidez de Diogo do que com o facto de os seus braços já não estarem à vista. – CASO NÃO ESTEJAS A REPARAR EM BREVE JÁ NÃO CONSEGUIREMOS SEQUER FALAR…
- ABRAÇA-ME! – gritou-lhe Diogo.
- O QUÊ? – Sofia já não conseguia deixar de gritar devido ao pânico de estar prestes a ficar soterrada numa questão de escassos minutos, se tanto.
- CONFIA EM MIM…ABRAÇA-ME! – Diogo estava a usar todas as suas energias para puxar Sofia para si. A areia estava a ser um obstáculo quase impossível de ultrapassar, mas assim que Sofia começou a fazer o mesmo sentiu que era possível.
Por fim estavam perto o suficiente para que Sofia o pudesse abraçar. A areia já lhes dava pelo queixo quando com um último esforço que a deixou de rastos Sofia conseguiu puxar os seus braços para cima até os ter à volta do pescoço de Diogo. Este por sua vez já estava a prendê-la pela cintura nas profundezas das areias. Sofia olhou para Diogo que fez o mesmo. Estavam tão perto um do outro que conseguiam sentir as suas respirações cada vez mais ofegantes. Sofia parecia perguntar com os olhos o que significava tudo aquilo.
- Confia em mim…não tenhas medo! – pediu-lhe num murmúrio Diogo - Mas no caso de nada acontecer…quero que saibas que acredito na tua lealdade e que não importa o que já fizeste um dia…para mim és apenas a Sofia, a miúda mais teimosa, refilona e impertinente que eu alguma vez conheci…a única capaz de me tirar do sério só com um olhar, mas a quem eu confiaria sempre a minha vida!
Sofia parecia preparar-se para dizer algo, mas antes que o pudesse a areia movediça afundou-os mais um pouco cobrindo-lhes a boca. A última coisa que Diogo viu antes de fechar os olhos foram os olhos cinzentos mais serenos que alguma vez viu em Sofia. Ela confiava nele, mesmo sem saber o que lhe passava pela cabeça. Sentiu-a apertar-se contra si e o raspar do seu cabelo na sua cara, formando um abraço.
Ele próprio não tinha qualquer certeza da pequena esperança que se apoderara do seu coração. A sua ideia podia não resultar, mas de momento não tinha nenhuma melhor. Apesar de aquilo o arrepiar e repugnar mais do que tudo, tinha de tentar. De olhos fechados e sustendo a respiração assim que sentiu a areia cobrir-lhe o rosto lembrou-se do momento em que perto do lago de Leviathan tinha dado origem àquela onda gigante que fora embater nas rochas após um simples movimento do seu braço. Podia ter sido uma coincidência, mas algo lhe dizia que não. Tentou lembrar-se do que pensara naquele momento. Quisera afastar aquela sensação estranha de ter o braço debaixo de água sem que a mesma lhe tocasse. No entanto, agora, o que queria era chamar a água até si. Em pensamento chamou-a. Sentia-se ridículo, mas não sabia mais o que fazer. Não aconteceu nada. Então lembrou-se do pendente, do pequeno brilho azul que o mesmo agora ostentava. Ao mesmo tempo todos os seus pensamentos começaram a convergir apenas para um…água. Apertou ainda mais Sofia contra si e deixou que o seu pensamento o guiasse. Subitamente sentiu a água. Não a via, mas tinha certeza que a água o alcançara. Era quente, era convidativa, era…obediente. Diogo, naquele momento, teve a certeza de que podia fazer tudo o que quisesse…a água ser-lhe-ia totalmente submissa.
“VEM” – gritou dentro de si. Foi instantâneo. Numa questão de segundos, Diogo deixou de sentir a areia. Estava agora totalmente submerso em água. Sofia continuava agarrada a si. Sentiu-a afastar-se e viu-lhe nitidamente os olhos. Sabia que ela também conseguia vê-lo bem, mas o seu olhar desviou-se para o pendente que flutuava à frente dos dois, no fio que Diogo trazia preso ao pescoço. Brilhava como se tivesse vida. Diogo voltou a olhar para Sofia. Sem querer, devido ao choque do que presenciava, Sofia deixou escapar algum ar. Diogo sobressaltou-se com aquilo e Sofia percebeu que ele estava na eminência de os levar aos dois para cima, mas impediu-o, prendendo-lhe ambas as mãos nas suas. Com um movimento leve e delicado levou as suas mãos até à face de Diogo e aproximou-se dele. Assim que encostou a sua testa à de Diogo ele só viu um grande clarão.
Diogo já não estava debaixo de água e também não tinha Sofia à sua frente. Estava num grande salão, um salão com uma decoração muito típica do século XVIII ou XIX. Espaçoso, com cores quentes e todo ele iluminado por centenas de velas, posicionadas em zonas muito especificas cujas sombras tornavam tudo ainda mais majestoso. Olhou para trás. O salão estava cheio de gente. Homens e mulheres de toda uma outra época. Conversavam animadamente, riam e dançavam ao som da música que provinha de…flautas. Diogo seguiu a música. Ninguém parecia reparar nele e no momento em que sem querer chocou contra uma mulher de vestido volumoso, percebeu que nem lhe tocara atravessando-a como se de um fantasma se tratasse. Era uma memória, concluiu mesmo sem saber de onde lhe vinha aquela certeza. Aproximou-se de uma espécie de orquestra, composta por homens e rapazes, todos eles vestidos da mesma maneira. A mesma camisa branca, o mesmo lenço branco à volta do pescoço, as mesmas calças escuras, o mesmo colete escuro, a mesma jaqueta igualmente escura até aos joelhos e aberta à frente. Além disso, todos os cinco músicos tinham uma flauta e tocavam maravilhosamente bem.
Subitamente começaram a tocar a mesma melodia que já ouvira duas vezes, a melodia que tinha a ver com a memória de Sofia. Olhando de forma mais atenta viu o rapaz loiro que Belial fizera aparecer em forma de miragem à frente de Sofia e deles todos. Estava a tocar de olhos fechados e entregava-se por completo à magia das notas musicais que saiam do seu instrumento de sopro. Viu-o abrir os olhos e dirigi-los apenas numa direcção. Sentada no rebordo de uma varanda a cerca de uns 10 metros de altura, estava Sofia, com a mesma túnica branca que vira anteriormente numa das suas memórias, o mesmo cabelo negro comprido e os mesmos olhos cinzentos da cor da tempestade. Apesar de ter a mesma aparência com que a conhecia, parecia a Diogo, muito mais nova e muito mais serena. O rapaz conseguia vê-la e ela sabia que ele tocava só para ela.
- Aquela sou eu…20 anos depois de ter sido criada…todos me tratavam por Ariel – informou-o de repente uma voz ao seu lado. Era Sofia que estava ali com ele e que olhava para a imagem que um dia vivera. Diogo observou-a. Tendo em conta o século em que se encontravam naquele momento, desistiu de tentar fazer as contas para saber quanto anos tinha a Sofia que hoje conhecia, era demasiado estranho. – E aquele é David… - Sofia olhava para o rapaz loiro que ainda não desviara o olhar dela, naquele tempo Ariel, empoleirada na varanda – Não passava de um simples humano, mas mesmo assim conseguia…
- Ele consegue ver-te! – constatou Diogo surpreendido e acompanhando o raciocínio de Sofia. Diogo lembrava-se de que nem ele, antes de completar 19 anos, conseguia ver os anjos e demónios que andavam à sua volta. Não passavam do que ele achava serem sombras, reflexos. Mas ali estava um simples humano que inequivocamente fitava Ariel, um anjo. – Como é que é possível?
- Foi o que me perguntei da primeira vez que o vi olhar directamente para mim. – respondeu-lhe Sofia – Eu fizera 19 anos, atingira a maioridade e tinha a minha primeira missão…era simples, apenas tinha de vigiar uma aldeia de um possível ataque demoníaco e avisar se algo de estranho se passasse. Ele vivia nessa aldeia. Era pobre e o seu maior tesouro era aquela flauta. Uma noite ouviu-o tocar. A melodia era tão bonita que eu não resisti a aproximar-me. Sentei-me em cima do ramo de uma árvore e fiquei ali a ouvi-lo tocar. Quando acabou, olhou directamente para mim e sorriu-me. Nesse momento pensei que só podia estar a imaginar, mas assustada desapareci dali. Nunca ouvira falar num humano que pudesse ver anjos ou demónios, sem o consentimento dos mesmos. Era uma regra do universo. – Sofia falava sem desviar os olhos de David. – Com medo de ter feito algo de errado na minha primeira missão, resolvi não contar nada a ninguém e voltei lá para certificar-me se o que tinha visto realmente acontecera. Lá estava ele a tocar o seu maior tesouro. Dessa vez sentei-me atrás dele. Mas voltou a acontecer o mesmo, assim que terminou de tocar virou-se para trás e encarou-me com o mesmo sorriso terno. Estranhamente não tive medo e aproximei-me dele. Perguntei-lhe se me conseguia ver e ele respondeu-me que sim. Não sabia quem eu era e nunca tinha visto mais ninguém igual a mim ou sequer parecido. Erradamente regressei todas as outras noites para o ouvir tocar e ficamos amigos. Conversávamos, riamos, brincávamos e ele, antes de qualquer concerto a que era chamado fazia-me ouvir todas as músicas que ia tocar no baile. Conhecia uma pessoa que tocava numa orquestra e o dinheiro permitia-lhe comprar comida para toda a sua família, por isso ensaiava horas a fio. Ouvi-lo não era um sacrifício, muito pelo contrário. Ia vê-lo de todas as vezes que ia tocar numa festa e todas as noites ele tocava para mim. Eu era apaixonada pela sua música e cada vez mais por ele apesar de não reconhecer esse sentimento. Um dia compôs esta música para mim e nesse mesmo dia beijou-me. Explicou-me porque o fizera e eu percebi o que também sentia por ele. Nesse dia, eu traçava a sua morte.
Diogo ouvia-a com toda a atenção percebendo a mágoa e a angústia envolvida em cada palavra de Sofia. Ela continuou.
- O tempo foi passando e comecei a perceber que ele ia ficando mais velho, ao passo que eu continuava sempre igual. Passaram-se quatro anos. Eu vivia para aqueles momentos e sabia que ele também ansiava por cada minuto passado perto de mim. Era burra ao ponto de pensar que vivíamos num mundo só nosso, escondido de todos, quer dos humanos, quer dos anjos e demónios. Um dia encontrei um anjo caído. Pensei que tinha sido por acaso, mas toda a minha inocência e o amor que sentia por David cegavam-me. Já tinha ouvido falar dos anjos caídos, mas nunca encontrara realmente um. Pareceu-me igual a qualquer outro de nós e deixei-me levar pela sua conversa. – Sofia nunca olhava directamente para Diogo, mas ele percebia a tristeza e a vergonha que ela sentia dentro de si – Esse anjo caído contou-me a sua história que era, estupidamente, parecida com a minha. Ingenuamente vi nele uma esperança. Explicou-me que se juntara à sua amada e que era feliz ao lado dela. Não havia mais nada que eu quisesse do que viver com David, como sua mulher, envelhecendo juntamente com ele. O anjo caído aliciou-me com cada palavra. Disse-me o que eu mais desejava ouvir. Perguntei-lhe se não havia nenhum problema se escolhesse tornar-me num anjo caído como ele e acreditei quando me disse que a única contrapartida seria nunca mais poder voltar para o céu, para o palácio dos anjos, que teria de abdicar da minha condição de anjo virtude. Eu conseguia viver com essa contrapartida, oh se conseguia.
“Apressei-me a ir contar a minha descoberta a David…todo ele era alegria, nunca o vira tão feliz. Tomei a minha decisão e subindo ao céu disse as palavras que o anjo caído me ensinara. O que se passou a seguir tu já viste. Nunca senti uma dor tão profunda, tão intensa, tão violenta. Acordei num sítio desconhecido, estava dentro de uma casa às escuras, parecia quase abandonada. O único sinal de vida provinha da lareira que queimava dois troncos de madeira. Reparei que tinha um vestido igual àqueles que via as mulheres humanas da aldeia de David usarem. Levantei-me ao ouvir um passo à minha frente. Quando vi quem era entrei em pânico. Apesar de nunca o ter visto eu sabia que tinha à minha frente o Príncipe Sammael. Juntamente com Lilith explicaram-me que ao tornar-me num anjo caído teria de prestar vassalagem a um dos príncipes, nesse caso a ele que fora o primeiro a sentir a minha queda. Recusei-me terminantemente, mas ameaçaram acabar com a vida de David e eu não tive outra escolha.”
Subitamente já não estavam naquele salão de baile. Estavam numa aldeia, perto de uma casa típica de alguém do povo. Viu Sofia dentro da casa. Nunca a vira com uma expressão tão feliz enquanto preparava uma refeição. Pouco tempo depois viu David abraçá-la por trás, roubar-lhe um beijo rápido e sair pela porta.
- Vivemos felizes durante quase um ano…eu vivia como uma humana ao lado de David e não desejava mais nada…Nenhum demónio, nem nenhum Príncipe nem a própria Lilith tinham voltado a incomodar-me desde então…até este dia! – Sofia olhou para a esquerda e Diogo seguiu-lhe o olhar. Viu Lady Lilith aproximar-se da casa. Diogo sentiu o ódio crescer dentro dele, mas sendo uma memória, não podia fazer nada. Sofia, naquele tempo Ariel, pressentiu-a de imediato e toda a sua expressão mudou. Saiu de casa ao encontro dela, como se não quisesse que aquele demónio conspurcasse a sua casa.
“- Precisamos de ti. – O tom usado por Lilith era frio e distante e não se tratava de um pedido. – Vamos fazer uma emboscada a uns anjos perto daqui, quero que vás com o grupo.
- O quê? Não… - negou-se Ariel cujo medo tomara conta do seu olhar.
- Juraste obediência, prestaste vassalagem, esqueces-te. – lembrou-a Lilith.
- Por favor… - Ariel estava prestes a ajoelhar-se implorando-lhe que não a obrigasse a fazer tal coisa.
- Nesse caso, podes despedir-te desse David… - disse Lilith virando-lhe as costas. Ao ouvir estas palavras todo o sangue parecia ter abandonado Ariel, tal era a forma como empalidecera. Lilith desapareceu deixando-a ali sozinha.”
- O que se seguiu também já presenciaste – continuou Sofia ao seu lado – Fui obrigada a lutar ao lado dos demónios, dos anjos caídos, dos diabretes, dos Príncipes…Nunca matei um anjo, mas era obrigada a defender-me e para proteger David, salvei a vida a centenas de demónios. Até hoje não me sinto em paz com o que fiz. Mas na altura, aquilo era suficiente para manter o David seguro e eu amava-o demais para pensar noutra alternativa. Ficámos bem mais dois meses…até ao dia em que aquele demónio o matou apenas para se vingar de mim! – Sofia mostrou toda a raiva que estava dentro de si e de repente apesar de continuarem na mesma aldeia e em frente da mesma casa, a imagem era completamente diferente.
Havia pessoas a correrem de um lado para o outro, em pânico e em total alvoroço. O fogo consumia as casas como se fossem papel e as tentativas para o apagarem eram completamente infrutíferas. As pessoas da aldeia não se davam conta das forças demoníacas que os cercavam, mas Diogo via os demónios que brincavam com as vidas e o património de uma vida inteira daqueles aldeões. Viu também David e Ariel tentarem salvar a sua casa. Ariel conseguia ver os demónios, mas tentava ignorá-los para não assustar David que não os via. Diogo olhou para Sofia e reparou que uma lágrima lhe descia pela face. Tinha os olhos presos no cenário que se desenrolava à sua frente.
- Eu era jovem, sentia-me destroçada com tudo o que estava a acontecer… - a voz de Sofia parecia vir também ela de uma outra época - Não consegui ficar parada com todos aqueles demónios a provocarem o caos!
Diogo voltou a olhar para Sofia, no seu tempo como Ariel, ao mesmo tempo ao seu lado ela lhe relatava tudo o que lhe ia no coração naquele tempo.
- Sem pensar em possíveis consequências, invoquei as primeiras armas que me vieram à cabeça – explicou e Diogo viu surgir nas mãos de Ariel as espadas de duas lâminas que tão bem conhecia – Ouvi o David gritar por mim, mas eu só tinha uma coisa na cabeça…fazer parar aqueles demónios que estavam a destruir tudo aquilo que eu mais amava e o único local onde conhecera o amor e toda a felicidade que nunca pensei poder sentir junto de um humano. Dirigi-me àqueles demónios, entre eles um anjo caído e desafiei-os. Um a um, destrui-os a todos, num total de sete. Ou pelo menos assim pensava eu quando ouvi David gritar pelo meu nome. Mal me virei, foi como se me tivessem morto naquele preciso momento, como se uma espada tivesse atravessado o meu coração. Foi isso que senti, mas não foi o meu coração que a espada atravessou, foi sim o de David.
Diogo observava toda aquela cena. Vira Ariel derrotar todos os demónios com uma destreza e velocidade impressionantes e de seguida ouvira-a gritar dolorosamente pelo nome de David, no preciso momento em que um demónio se aproximava por trás de dele e com uma espada o atravessava mortalmente. David nem se dera conta da aproximação de um demónio, nunca o vira, nunca tivera olhos senão para Sofia, por mais que até hoje isso fosse completamente inexplicável. Mas Sofia viu o demónio, viu a expressão do demónio transformar-se em puro prazer e crueldade. E Diogo reconheceu o demónio. Era Aaba. O mesmo demónio fêmea que o perseguira na noite do seu aniversário, o mesmo com quem lutara perto da ponte, ainda no mundo dos humanos.
- Isto é pelo que fizeste aos meus irmãos…aos TEUS irmãos! – atirou-lhe a Aaba daquele tempo – Deves-nos lealdade…o teu humano sofreu a tua traição, tu foste a única culpada.
Sem perder mais tempo Aaba desapareceu largando o corpo de David que caiu desamparado no chão.
- Ele já estava morto quando me aproximei… - informou-o Sofia e Diogo reparou que já não estava ao pé da casa em chamas, mas sim no mesmo sitio em que David olhara pela primeira vez para Ariel e onde tantas vezes lhe tocara a mesma melodia.
Ariel estava junto a uma campa. Não foi preciso Sofia explicar-lhe que fora ali que enterrara o corpo de David. Inesperadamente surgiu alguém atrás de Ariel. Diogo abriu a boca de espanto. Apesar de nunca a ter visto, sabia que aquela mulher que se ajoelhava ao lado de Ariel, era Luz, a sua mãe. Era linda. Um pouco mais baixa do que Sofia, com longos cabelos loiros e com movimentos sublimes. Os olhos, de um azul cristalino, que Diogo herdara dela, eram quentes e cheios de paz e serenidade.
- Foi Luz quem veio até mim naquela mesma noite – murmurou-lhe Sofia – Explicou-me que estava a par de tudo o que acontecera comigo e perguntou-me se estava disposta a lutar contra os demónios, ao lado dos anjos. Disse-me que voltaria de manhã cedo para obter uma resposta, mas não foi necessário, naquele momento assegurei-lhe que era o que mais queria. Assim seguia-a. Como tinha abdicado da minha condição de anjo, tive de começar como Anjo da Guarda, depois passei para Arcanjo, Principado e por fim voltei a tornar-me num Anjo Virtude. Desde então tenho combatido todo o tipo de demónios, anjos caídos, diabretes e agora Príncipes do Inferno. No entanto, sempre com a mesma coisa na cabeça, derrotar Aaba em combate. Já nos encontrámos várias vezes ao longo dos séculos, mas ela consegue sempre fugir no último momento.
Diogo recordou-se daquela noite em que Sofia havia lutado contra Aaba. Lembrou-se da forma como se fitavam mutuamente, de como se atacavam com ferocidade. Era um ajuste de contas mortal.
- Foi a primeira e última vez que vi Luz, o Anjo Serafim mais admirado pelos anjos e o mais respeitado até mesmo pelos demónios – informou-o Sofia. Diogo reparou que tinham voltado ao mesmo salão de baile onde David tocava a melodia que criara para Ariel, sem desviar os olhos daquele anjo. – Naquela noite perguntei-lhe como era possível que David conseguisse ver-me no meu estado angelical. Sabia que um anjo podia revelar-se se fosse necessário, mas nunca ouvira falar de um humano capaz de ver um anjo no seu estado celestial. No entanto David conseguira ver-me desde o primeiro dia que me apresentara para cumprir a minha missão. – Diogo aguardou a resposta que Luz, a sua mãe, pudesse ter dado a Ariel – Luz não soube responder-me. Nunca tinha ouvido falar de algo do mesmo género. Citou-me apenas a frase da autoria de alguém que considerava muito importante na sua vida, um anjo potência de nome Samuel: “Há coisas que só o amor pode explicar, mas como são raros aqueles que sabem interpretar a sua língua, o explicável será sempre inexplicavelmente incompreendido”.
Diogo encontrava-se novamente dentro de água junto de Sofia que se afastara o suficiente para que pudessem olhar um para o outro. Enquanto Diogo mal sentia a água tocar-lhe, por sua vez os cabelos de Sofia flutuavam na ondulação da água tornando tudo aquilo real. Sofia confiara nele ao ponto de lhe mostrar as suas memórias mais dolorosas. Agora percebia porque é que ela olhava para todos com desconfiança. Percebia porque é que Tânia, um demónio, era alvo de todas as suspeitas. Sofia não conseguia evitar. Desde muito cedo caíra nas mãos de demónios, anjos caídos e Príncipes do Inferno. Ela não fora sempre assim. Fora inocente, crente e apaixonada. De um momento para o outro tinham-lhe roubado tudo e aquela fora a forma que encontrara para enfrentar toda a culpa que continuava a transportar dentro de si. Diogo mostrou-se decidido. Precisavam voltar para enfrentar aquele monstro, para impedir que mais humanos sofressem nas suas mãos. Sem esperar mais tempo agarrou na mão de Sofia e como se a água fosse todo o seu mundo, impulsionou-os em direcção à superfície.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

2º Volume: Capítulo 6 - Uma Verdade Irrefutável

“Judas?” pensou para consigo Diogo sem tirar os olhos da Adaga que tinha nas suas mãos, entregue por Belial. Diogo tinha andado na catequese, lembrava-se do significado desse nome. Judas fora um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo. Fora aquele que o entregara aos seus perseguidores em troca de 30 moedas e que o identificara com um beijo na face. Estaria Belial a dizer que Sofia era como Judas? Estaria Sofia a fingir ser-lhe fiel para depois o atraiçoar? Não! Era impossível, nunca acreditaria em tal disparate. Sofia podia ser tudo, mas nunca o trairia, nunca se faria passar por algo que não era. Jamais trairia o seu povo! Diogo olhou para Sofia. Estava fraca, pálida…parecia sentir-se completamente derrotada. Porque é que ela não reagia? Porque é que não se ria de tudo aquilo? Porque é que não estava a comportar-se como a Sofia que ele conhecia?
- Ariel… - murmurou Belial num tom reprovador usando o nome angelical de Sofia ao mesmo tempo que abanava negativamente a cabeça - …não acredito que escondeste aqui do Diogo o teu pequeno segredinho! – o rosto de Belial enchia-se de satisfação - Porque é que não esclarecemos então agora um pouco as coisas?
- Pára com isso Belial! – pediu-lhe Samuel – Está tudo no passado…já nada…
- Sabes do que ele está a falar? – interrompeu-o subitamente Diogo olhando chocado para Samuel.
- Chega! – disse por fim Sofia numa voz fraca – Não adianta esconder mais! Se é a verdade que queres…
- …é a verdade que vais ter! – foi Belial quem terminou a frase por Sofia e subitamente ouviu-se uma musica, mais exactamente uma melodia tocada por uma flauta.
Diogo reconhecia aquela melodia. Era a mesma que tinha ouvido na memória que o Inferno criara para Sofia logo depois de ali terem entrado. Era a maneira que o Inferno tinha encontrado para a atrair tal como fizera com todos eles. Era a memória que ela estava disposta a perseguir. Diogo vira a sua casa, a sua mãe. Samuel a clareira onde Luz fora derrotada por Lilith e que Diogo agora reconhecia. Júlio fora tentado pela floresta onde vivia o seu povo. Matilde não resistira ao parque de diversões. Mas era a memória de Sofia que mais o intrigara naquela altura. Aquela espécie de palácio e a melodia oriunda do som de uma flauta que Sofia parecia respirar. Fora a primeira vez que ela mostrara o seu lado mais frágil, tal como mostrava agora. Diogo olhou para o rosto de Sofia. Aquela melodia que invadia os seus ouvidos transformara-a por completo. Havia desespero sim, mas algo mais…Diogo encontrou naquele rosto que tão bem conhecia uma saudade dolorosa, algo com que Sofia ainda não aprendera a lidar. Viu-a olhar na direcção da qual vinha aquela melodia tão suave e melancólica e a surpresa ao encontrar algo que não esperava.
Sofia apresentava um olhar sobressaltado com um misto de assombro e espanto, como se não acreditasse que o que via fosse possível neste ou em qualquer outro mundo. Diogo seguiu-lhe o olhar e viu um rapaz que se aproximava lentamente enquanto com uma flauta nos lábios tocava de uma forma apaixonada. Tinha os olhos fechados. Apesar de jovem, pois Diogo não lhe dava mais de uns 23 ou 24 anos, parecia ter um ar antiquado. Tal podia, muito bem, dever-se à roupa que trazia vestida. Fazia lembrar a Diogo um vestuário vindo directamente do século XVIII ou XIX e que consistia numa espécie de fato constituído por calças, camisa, colete e casaca até quase aos joelhos. Tirando a camisa em tons de branco e um lenço da mesma cor que cobria todo o pescoço, a restante roupa era em tons escuros, contrastando assim com os cabelos loiros que lhe caiam até á altura do queixo e o verde-esmeralda dos olhos. Parecia vestido para uma festa trazendo consigo uma flauta igualmente de outros tempos da qual saía a melodia que chegava aos ouvidos de todos.
- David… - murmurou Sofia num tom que demonstrava total incredulidade - …não pode ser…
- Tens razão…não pode ser! – confirmou Belial bruscamente, mas sempre satisfeito, ao mesmo tempo que com um estalar de dedos fazia aquele rapaz de flauta desaparecer. Para Sofia, parecia ser o mesmo que voltar a atirá-la para a escuridão que se instalara dentro de si. Com outro estalar de dedos fez surgir uma poltrona do mesmo material da carruagem que o trouxera, ficando a mesma posicionada de frente para Sofia e Diogo. Sentou-se nela com movimentos majestosos, procurando assinalar a sua superioridade.
- Quem é David? – perguntou Diogo fitando Sofia que permanecia em silêncio, como se a imagem daquele rapaz ainda estivesse a passar-lhe à frente dos olhos.
- David…Ariel… - murmurou pensativamente Tânia fitando Sofia, com uma expressão que denunciava estar a começar a lembrar-se de algo, a fazer algum tipo de associação. Diogo olhou para ela. – Eu conheço a história de Ariel e David…foi contada de geração em geração… – Tânia parecia verdadeiramente incrédula - Tu és a Ariel? – perguntou atónita – Tu és…
- …o Anjo Caído que prestou vassalagem ao Príncipe Sammael! – terminou Belial mais uma vez a frase que Tânia começara como uma pergunta, mas que ele finalizara com uma certeza. – É ela mesma!
Diogo sentiu como se o chão lhe tivesse fugido. Como se naquele momento estivesse a olhar para uma nova Sofia, uma que não conhecia, que não era quem sempre aparentara ser. Um anjo caído? Uma vassala de um dos príncipes do inferno?
- Quem és tu? – perguntou-lhe num murmúrio ao mesmo tempo que dava um passo atrás, como se só naquele momento estivesse a vê-la como devia.
- Não é o que estás a pensar Diogo, deixa-me explicar… - Sofia parecia implorar-lhe. Não chorava, mas toda ela era uma súplica. Não estava a negar nada, algo que Diogo esperara até àquele último segundo.
- És um anjo caído? – a pergunta foi feita num tom acusatório.
- NÃO! – gritou-lhe Sofia tentando reunir forças.
- Prestas vassalagem ao Príncipe Sammael? – voltou a perguntar Diogo no mesmo tom, como se a negação anterior de Sofia não lhe fosse suficiente.
- Não…por favor… - Sofia já não conseguia gritar, mas tentava não perder o contacto visual com Diogo que estava, emocionalmente, cada vez mais distante dela.
- Ora para quê ouvir se podes ver com os teus próprios olhos! – sugeriu Belial subitamente ao lado de Diogo e de frente para Sofia, com o seu tão característico inclinar de cabeça e sorriso traiçoeiro. Sem sequer esperar por uma resposta, tocou no ombro de Diogo e preparou-se para voltar a invadir as memórias de Sofia como já antes havia feito.
Diogo ouviu Sofia gritar de forma dolorosa mesmo antes de juntamente com Belial se ver atirado para as memórias daquele anjo virtude que julgava conhecer. De repente já não estava no Inferno. Tinha a certeza disso, pois ali tudo era cheio de cor, cheio de vida…Viu Sofia ali mesmo à sua frente com as suas enormes asas abertas. Envergava uma túnica branca. Estava de costas a olhar atentamente para o mesmo palácio de dimensões gigantescas que Diogo já vira na memória que o inferno projectara para atrair Sofia. Desta vez não havia música nenhuma a tocar ao som de uma flauta, apenas toda aquela luz e cor. Não lhe via a cara, mas, de repente, viu-a abrir os braços.
- Quero, de livre e espontânea vontade, deixar de ser um anjo…quero libertar-me desta vida angelical com a qual já não posso compactuar…quero com todas as minhas forças deixar para trás tudo o que me foi incutido…agora e para sempre… - ouviu-a dizer num tom decidido.
 Logo de seguida viu-a cair, literalmente. Já não estavam no mesmo sítio, parecia que estavam, agora, num abismo sem fim. Diogo sentia-se horrorizar com a imagem que tinha à sua frente. Sofia gritava a plenos pulmões enquanto caía naquele abismo sem fim, ao mesmo tempo que as suas asas se desfaziam lenta e dolorosamente. Cada pena que se soltava arrancava um grito atroz da garganta de Sofia. Lágrimas grossas deslizavam sem parar a cada novo grito, enquanto de cabeça virada para baixo caía como se não houvesse fim.
Quando Diogo pensava não aguentar mais, viu-se novamente noutro sítio. Este era escuro, sem vida. Parecia um casarão abandonado, mas não totalmente porque dois troncos de lenha ardiam na grande lareira que iluminava outras duas pessoas. Uma delas era sem dúvida Sofia que já não tinha a mesma túnica branca, mas sim um vestido cinzento, muito simples, típico dos finais do século XVIII ou inícios do século XIX e que estava, naquele preciso momento, ajoelhada em sinal de obediência perante uma outra pessoa que Diogo não conseguia ver o rosto, mas cuja silhueta era o suficiente para arrepiá-lo todo. Percebia que era um homem, mas impossibilitado de se mexer, não conseguia satisfazer mais a sua curiosidade.
- Eu, Ariel, um anjo caído, juro prestar vassalagem a si, Príncipe Sammael, sem nunca, em momento algum, desobedecer a qualquer ordem, mostrando-me sempre disponível para qualquer convocação nesta guerra entre anjos e demónios…sendo fiel aos demónios, aos príncipes do inferno e a Lady Lilith! – este último nome foi seguido de um movimento à esquerda de Sofia. Diogo não reparara numa terceira pessoa que se encontrava na penumbra das sombras daquele compartimento. Se o que ouvira o chocara, ver ali ao lado de Sofia a pessoa que matara a sua mãe e que o atormentara durante 17 anos, atingiu-o como um balde de água gelada, como se cada pedaço do seu corpo se retraísse perante aquela imagem de Sofia fazendo uma vénia àquele que julgava ser o Príncipe Sammael e de seguida a Lady Lilith, logo após um juramento de vassalagem.
Diogo não teve tempo de digerir o que acabara de presenciar e já se encontrava noutro local. Tinha à sua frente um grande descampado. Mais uma vez não estavam sozinhos. Ali debaixo de um sol de Verão, encontravam-se cerca de vinte seres. Tratava-se, sem dúvida alguma, de uma batalha. Diogo distinguiu-os de imediato. Reconheceu os anjos com as suas enormes asas brancas. Os demónios com as suas asas negras. Alguns diabretes como aquele primeiro que atacara Diogo na sua noite de anos. E ali no meio, lutando ao lado dos demónios e contra os anjos estava…Sofia! Sem as asas à mostra, trazia o mesmo vestido de uma outra época que rasgara o suficiente para ter a mobilidade necessária para uma luta como aquela. O cabelo também estava diferente, mas Diogo reconheceria aquela forma de lutar em qualquer lado. Usava uma espada diferente das actuais que ele conhecia, mas esta era arremessada na direcção dos anjos, protegendo os demónios que estavam prestes a ser derrotados, com a mesma destreza que caracterizava Sofia. Percebia-se perfeitamente que era ela quem impedia o extermínio dos mesmos com a sua perícia e habilidade.
Tudo se esfumara à sua frente. Diogo viu-se de volta ao Inferno, ao reino de Belial. Sentiu a mão de Belial largar o seu ombro e percebeu que ele recuara voltando a sentar-se na sua poltrona. Olhava para a Adaga que continuava a agarrar percebendo que o fazia com tal força que os nós dos dedos estavam brancos. Quando levantou o olhar para Sofia tinha a certeza que a cor dos seus olhos estavam encarnados, tal era a raiva que sentia crescer dentro de si. Sofia não estava a olhar para ele, parecia fraca de mais para o conseguir fazer, aguentando-se em pé apenas devido às raízes que sustentavam o seu peso. A fúria e o ódio que tomavam conta do seu peito não permitiam dar lugar a qualquer arrependimento por ter invadido as memórias de Sofia de uma forma que antes considerara completamente bárbara, cruel e desumana. Aquilo tinha-o feito perceber quem era Sofia…uma traidora como Belial tinha dito.
- Solta-a! – ordenou Diogo a Belial cego de raiva. Se Belial se deu conta que recebera uma ordem não o demonstrou, pois nesse mesmo instante com mais um estalar de dedos as raízes largaram Sofia e esta caiu no chão desamparada. Ficou ali deitada sem se mexer. – Recupera as tuas forças e levanta-te! – o tom usado por Diogo não mostrava qualquer réstia de amizade ou afeição.
Sofia ficou como estava durante alguns segundos, mas com o seu dom que actuava mesmo sem que ela o desejasse, depressa viu as suas forças começarem a ser restabelecidas. Apesar de não se levantar de imediato Diogo percebeu que aquilo já acontecera.
- Olha para mim – voltou a ordenar.
Sofia levantou lentamente a cabeça até ter os seus olhos focados nos de Diogo. Não havia qualquer sentimento de culpa, mas sim de resignação, o que enfureceu ainda mais Diogo, provando-lhe que na primeira oportunidade ela os tinha traído a todos.
- O que irias receber em troca quando nos entregasses a Sammael? O teu mestre… - perguntou-lhe mostrando nojo e repulsa.
- Eu não sou uma traidora! – Sofia voltou a repetir no mesmo tom cansado, apesar das forças renovadas.
- ÉS SIM UMA TRAIDORA!!! ESCOLHESTE TORNAR-TE NUM ANJO CAÍDO…VAIS NEGAR?
- ESCOLHI SIM… - admitiu por fim desistindo do seu tom calmo e usando o mesmo tom alterado de Diogo.
- Então confessas que és uma traidora! – anunciou triunfante.
- Não foi isso que me ouviste dizer. – ripostou Sofia
- Eu vi-te Sofia…és capaz de me dizer que tudo aquilo a que eu assisti nas tuas memórias não aconteceu? – apesar do tom acusatório, Diogo ainda guardava uma réstia de esperança em ouvir um “não” da boca de Sofia. No entanto, não foi isso que aconteceu.
- Não, não nego que tenha acontecido! – disse de uma forma que não criava dúvidas – Mas ele apenas te mostrou aquilo que queria que tu visses!
- Estás a dizer que fui manipulado?
- Sim!
- SOFIA EU VI-TE FAZERES A ESCOLHA DE TE TORNARES NUM ANJO CAÍDO, VI-TE PRESTAR VASSALAGEM AO PRÍNCIPE SAMMAEL, VI-TE A LUTAR AO LADO DOS DEMÓNIOS, VI-TE FAZERES UMA VÉNIA…À LADY LILITH! À MULHER QUE MATOU A MINHA MÃE!
- EU NÃO SABIA…E VI-ME OBRIGADA A ISSO!
- OBRIGADA? EU VI-TE FAZÊ-LO DE LIVRE VONTADE! NINGUÉM ESTAVA A OBRIGAR-TE A NADA!
- Não sabes a história toda…
- Não preciso de saber a história toda… - com isto Diogo largou a Adaga de Belial que caiu no chão e fez surgir na sua mão a espada negra que já usara uma vez.
- Queres lutar comigo é isso? – Sofia não queria acreditar.
- Não podes dizer que isso não te trás satisfação! – Diogo mostrou um sorriso muito parecido com o de Belial.
- Podia ser meu filho! – disse Belial da sua poltrona verdadeiramente satisfeito com o rumo das coisas.
- Eu não vou lutar contigo! – recusava-se Sofia – Eu já tive muitas oportunidades para te matar, porque é que esperaria tanto tempo para o fazer? Porquê só agora?
- Mostra-me as tuas armas já! – ordenava Diogo começando a andar na direcção de Sofia.
- Não! Estás cego pelo ódio!
- Disseste que lutarias comigo quando eu passasse para o lado dele, ou devo dizer para o VOSSO lado? Fá-lo AGORA! Se não o fizeres eu vou matar-te!
- Por favor Diogo, não sabes toda a história! Deixa-me explicar-te… - Sofia via-se forçada a começar a recuar perante a aproximação decidida de Diogo. – Tu não és assim…TU NÃO ÉS COMO EU…TU CONFIAS, TU DÁS O BENEFÍCIO DA DÚVIDA!
Aquilo fez parar Diogo que a observou de forma curiosa.
- Tu traíste aqueles que confiavam em ti…prestaste vassalagem e obedeceste a ordens vindas dos Príncipes do Inferno, lutaste ao lado de demónios e compactuaste com a assassina da Luz…PORQUÊ? – esta pergunta foi acompanhada pela investida de Diogo na direcção de Sofia com a sua espada de lâmina afiada. Ouviu ao fundo os gritos de Samuel, Matilde e Tânia, mas ignorou-os.
- Por…amor… - confessou subitamente Sofia perante aquela insistência e a milímetros de ser atingida pelo ataque de Diogo. Este ficou estático no último momento. O silêncio foi absoluto. Diogo e Sofia olhavam um para o outro sem pestanejarem.
- Que bonito… - interrompeu Belial com um falso sorriso – Agora acaba com isso de uma vez! – ordenou de forma terminante. - Começo a perder a paciência!
- Ele tem razão… - disse Diogo no mesmo tom de antes. Para sua surpresa Sofia apenas fechou os olhos aceitando o ataque inevitável de Diogo.
Mas o ataque iminente não aconteceu. Diogo mudou inesperadamente de direcção apanhando todos de surpresa, incluindo Belial, que viu a ponta afiada da espada de Diogo dirigir-se a ele a toda a velocidade. Só teve tempo de reparar que ele já não tinha na mão a espada negra de antes, mas sim uma que era toda ela prateada. Mas quando parecia que a investida de Diogo ia resultar, este sentiu-se ficar, literalmente, preso ao chão.
Belial caíra atrapalhadamente da cadeira, mas a mão humana que possuía estava levantada no ar. Diogo olhou confuso para baixo e viu-se preso pelo que parecia areia. Uma areia espessa que o impedia de se movimentar, de dar qualquer passo. Tentou fazê-lo mas era impossível. Olhou novamente para Belial que apesar de ainda não se ter refeito do susto, já se levantara. Naquele momento olhava de forma odiosa para Diogo.
- Tenho de admitir que me enganaste muito bem! – disse já completamente recomposto, no mesmo tom elegante e já sem qualquer vestígio do ódio que mostrara nutrir por Diogo.
- Parece que afinal não sou assim tão facilmente manipulável – o tom de Diogo era arrogante.
- Tu acreditaste, eu tenho certeza…não foi sempre fingimento! – atirou-lhe Belial curioso – Quando é que…
- A Sofia nunca recusaria uma luta…está-lhe na alma…tu como antigo anjo virtude devias sabê-lo…no momento em que ela recusou revelar-me as suas espadas, percebi que era a forma dela me mostrar que nunca me trairia…. – revelou Diogo.
- Mas tu viste com os teus olhos, viste o que ela fez, no que ela se tornou… - insistiu Belial.
- Caso não tenhas reparado ela voltou a ser um anjo virtude em todo o seu esplendor…alguma coisa muito boa ela deve ter feito para o permitirem – obrigou-o a constatar Diogo. – As asas dela são do mais branco que já vi…de certeza que muito mais do que aquelas que tu alguma vez tiveste! – provocou-o Diogo não conseguindo impedir-se.
- Não devias provocar-me rapaz! Não sabes do que eu sou capaz! – a raiva era agora bem patente na voz de Belial, mas Diogo só sentiu um arrepio quando voltou a vê-lo inclinar a cabeça e sorrir de forma dissimulada. – Podes não tê-la morto, mas vais vê-la morrer à tua frente e de uma forma muito lenta. – ao dizer isto Belial olhou para lá de Diogo.
- Sofia! – disseram Samuel e Matilde ao mesmo tempo de forma alarmante.
Com muita dificuldade Diogo conseguiu voltar-se para trás. Sofia estava a três passos de si e parecia aflita com algo que Diogo ainda não percebera. Foi então que reparou que Sofia estava…a afundar-se muito lentamente.
- Areias Movediças… - informou-o Belial orgulhoso – A minha especialidade…Vais vê-la morrer bem à tua frente…oh mas não te preocupes…terás um lugar na primeira fila… - sem mais demoras, Diogo voltou a sentir raízes apertarem-lhe os tornozelos sendo puxado de forma violenta para junto de Sofia. Ficaram frente a frente sentindo-se serem puxados cada vez mais para baixo. Viu Sofia olhar desesperada na sua direcção.
- Eu não sabia que ao tornar-me um anjo caído teria de prestar vassalagem a um Príncipe, nunca matei um anjo, apenas usei a arma que tinha para me defender e impedir que desconfiassem de mim e só me tornei um anjo caído por um motivo muito forte… - explicou Sofia num só fôlego, como se para ela fosse mais importante explicar-lhe o que acontecera do que o facto de estar prestes a ficar submersa por areias movediças.
- Costumam dizer que o amor é um motivo muito forte… - murmurou-lhe Diogo que também a fitava.
- Acreditas mesmo em mim? – perguntou-lhe Sofia.
- Acho que o facto de estar prestes a ser enterrado vivo, em vez de estar confortavelmente sentado numa poltrona fixe com aquela, quer dizer alguma coisa – brincou Diogo.
Depois de um breve olhar para Diogo, Sofia começou de repente a tentar soltar-se, mas cada tentativa só os levava a afundar-se mais rapidamente. E uma vez que estavam novamente amarrados àquelas raízes sugadoras de energia angelical, Sofia voltava a ficar cada vez mais fraca. Diogo olhou à sua volta. Estavam cada vez mais enterrados e não conseguia perceber como podiam sair dali. O seu olhar cruzou-se com o de Samuel. Via verdadeira aflição nos seus olhos investindo novamente contra a jaula que o rodeava. Olhou para Tânia que devia ter feito alguma tentativa de fuga, pois estava agora a ser segura por dois guardas e apresentava uma viscosidade verde ao longo de todo o braço direito. Por fim viu Júlio ali estendido, completamente inconsciente. “Teria sido tudo em vão?” A face de Matilde já não era a que conhecia. Era a tristeza que agora a definia. Continuava agarrada à mão de Júlio, mas não tirava os olhos deles os dois. Escorreu-lhe uma lágrima pela face. Não era aquela imagem que Diogo queria recordar. Queria aquele sorriso, aquela inocência, aquela gargalhada como a que ouvira horas antes junto ao lago de Leviathan. Desanimado olhou para Sofia que também já desistira de se livrar das areias movediças. As mesmas já lhes davam pelo peito. Diogo não tinha ideias e sabia que Sofia também não as tinha. Era ridículo aquele ser o fim de tudo. Contemplou os olhos cinzentos de Sofia, da cor da tempestade. Não encontrava medo, apenas angústia, como se aquele não fosse o momento certo.

terça-feira, 17 de maio de 2011

2º Volume: Capítulo 5 - Troca por troca

A forma como Sofia gritava, a maneira como os seus olhos sem vida pareciam amedrontados vagueando sem destino, freneticamente à procura de algo que não estava à sua frente…o seu corpo completamente indefeso, o grito ensurdecedor…nada disso foi o que mais assustou Diogo. Aquilo que realmente o fez retrair-se, que fez sentir todo o seu peito rasgar-se em mil pedaços, que o fez sofrer juntamente com ela…foram as lágrimas que começaram a escorrer pela face de Sofia. Escorriam lentamente, como se nunca tivessem sido derramadas e quisessem naquele preciso momento que todos reparassem nelas. Diogo nunca vira Sofia chorar e sempre achara que nela isso era impossível, mas ali estavam as pequenas gotas salgadas. Lágrimas puras que traiam toda a sua força, toda a sua imagem forte e desafiadora. Continuavam a cair umas atrás das outras ao mesmo tempo que Sofia gritava de dor. Subitamente as raízes largaram Sofia que indefesa caiu no chão com um baque surdo. Ficou posicionada de lado, com a cara virada para Diogo. Os gritos haviam cessado, o silêncio era total, mas as lágrimas de Sofia continuavam a ceder lugar a mais e mais lágrimas, deslizando sem cessar. De repente Sofia encolheu-se mais e às lágrimas foi juntar-se uma expressão de puro medo, de dor não corporal, como se estivesse a lembrar-se de algo que para si era insuportável, até mesmo infernal.
- O que é que está a fazer-lhe? – perguntou Diogo desesperado desviando a custo o olhar de Sofia para Belial. Este, no entanto, não lhe respondeu. Permanecia completamente focado em Sofia, como se conseguisse ver algo mais do que Diogo. Parecia saborear cada lágrima, cada expressão de horror e medo, cada contorcer de dor da sua fisionomia. Um sorriso ia-se formando na boca de Belial, um sorriso de prazer. Diogo passara a odiar aquele seu tão característico inclinar de cabeça. Todo ele se deliciava, não tendo olhos para mais nada, senão para o tormento por que Sofia passava. Foi então que Sofia proferiu algo que Diogo não conseguiu perceber. Voltou a olhar atentamente para ela, cuja face estava completamente virada para ele. Viu-a voltar a mexer os lábios, mas continuava sem perceber o que esta dizia.
- Sofia… - murmurou Diogo. Assim que pronunciou o seu nome novas lágrimas assomaram aos olhos de Sofia escorrendo lentamente quando ganhavam volume.
- David… - ouvia-a subitamente ao mesmo tempo que viu os olhos dela abrirem-se a custo e focarem-se nos seus – David…desculpa…
- Sofia, sou eu o Diogo – lembrou-lhe pensando que ela apenas lhe trocara o nome devido à dor que parecia estar constantemente a invadi-la.
- Eu não consegui proteger-te… - continuou Sofia a chorar agora mais convulsivamente – Eu tentei…perdoa-me…perdoa-me…
- Está tudo bem Sofia, eu estou aqui… - continuava Diogo.
- A culpa foi toda a minha… - Sofia voltou a fechar os olhos deixando-se inundar por toda aquela tristeza avassaladora. Parecia que tinha desistido de tudo. Diogo nunca pensara ser possível observar tanta tristeza, tanta culpa, tanta dor numa única expressão – Eu fi-lo por ti…foi tudo em vão…
- DEIXA-A! – gritou subitamente Samuel – O que estás a fazer-lhe é cruel e cobarde!
- Pois eu estou a adorar! – a forma como Belial o disse arrepiou de tal forma Diogo que este sentiu-se desesperar.
- O que é que se passa Samuel? O que é que está a acontecer à Sofia? – Diogo virou-se esperançoso para Samuel. Precisava de uma explicação e Samuel nunca lhe faltara.
- Lembras-te do que te expliquei sobre Belial? – perguntou-lhe Samuel preso na sua jaula. Naquele momento Diogo não conseguia pensar em mais nada senão em Sofia. Percebendo isso, Samuel continuou – Belial consegue entrar no coração de cada um da forma que lhe convém. Percorre as memórias mais profundas, até mesmo aquelas que já nem a própria pessoa se recorda. Aproveitando-se disso, procura aquela que mais estragos pode causar e dela retira toda a dor que consegue. Nesse momento controla todos os sentimentos que permitiriam à vítima submergir de todo aquele sofrimento. A felicidade, a esperança, a confiança, tudo desaparece. A única coisa que te faz sentir é dor, angustia e uma enorme aflição, isto porque obriga a sua vítima a reviver novamente tudo o que tentou esquecer ou que o seu cérebro bloqueou. Algo de que te arrependes, algo de que tens vergonha, algo que queres esconder de tudo e de todos. Tudo isso multiplicado por mil…
Diogo olhou para Sofia. O que poderia ela estar a ser obrigada a recordar, a reviver? Nunca a vira tão desamparada, tão sozinha, tão indefesa…O que quer que fosse, ela não merecia passar por aquilo. Ninguém tinha o direito de a tornar em alguém que se resumia a uma única memória. Diogo lembrou-se de várias situações que Belial poderia usar contra ele. A aflição que sentiu quando descobriu que os seus pais tinham sido raptados, o pânico ao pensar que os seus amigos poderiam morrer na batalha praticamente perdida contra Leviathan, o terror que se apoderara de si quando viu o estado em que Júlio agora se encontrava, tendo como única esperança o poder de cura de Sofia, agora impossível.
- Não, não posso…o que foi que eu fiz… - continuava Sofia no seu delírio – …David…
Diogo olhou à sua volta. Samuel também não tirava os olhos de Sofia, estava realmente a sofrer por ela. Tânia continuava deitada, parecia fraca de mais para conseguir manter-se em pé, mas também ela olhava de forma triste para aquele anjo em plena angústia emocional. Júlio continuava inconsciente e Matilde, apesar de permanecer agarrada à sua mão, ambas as mãos rodeadas pela luz prateada emitida por ela, tinha o seu olhar igualmente fixo em Sofia. Diogo tinha de fazer alguma coisa, aquilo não podia continuar.
- O que queres? – disse por fim encarando decididamente Belial – O que preciso fazer para que pares com isso? – Finalmente tinha a atenção de Belial. Este olhou para Diogo de forma deslumbrada e nesse preciso momento novas raízes a uma velocidade impressionante voltaram a emergir do chão agarrando violentamente Sofia pelos pulsos e tornozelos, fazendo-a ocupar a mesma posição em que se encontrava anteriormente, ao lado de Diogo. – Sofia… - murmurou Diogo observando-a carinhosamente.
Sofia não respondeu. O seu rosto estava oculto pelo cabelo negro. Pouco a pouco pareceu começar a despertar. Levantou lentamente a cabeça, primeiro na direcção de Belial e por fim inclinou-a na direcção de Diogo. A cara continuava parcialmente tapada pelo cabelo. Diogo conseguia ver-lhe apenas o lado direito da cara. Estava mais pálida do que alguma vez a vira e o olho cinzento que estava à vista brilhava intensamente devido às lágrimas. Já não chorava, mas o olhar triste e amargurado continuava presente.
- Estavas a dizer? – interrompeu-os Belial incentivando-o. Foi com muita dificuldade que Diogo desviou o seu olhar da expressão sofredora de Sofia e encarou o olhar entusiástico, quase delirante daquele Príncipe do Inferno, bem consciente do mal que podia infligir em qualquer um deles.
- És completamente louco! – atirou-lhe Diogo sentindo a raiva apoderar-se de si, ao mesmo tempo que sentia o pulsar da Adaga junto à sua cintura, onde estava presa. – És demente!
- Uma vez que estás disposto a cooperar comigo, eu não vou, por agora, dar importância à tua falta de respeito. Vais ter tempo para aprender a respeitar-me e a servir-me como se deve… - aquilo soava a uma promessa – Isto que acabaste de ver foi só uma amostra. Sabes que posso usá-lo contra todos os outros…até mesmo contra o teu amiguinho que ali está às portas da morte…
- NÃO TE ATREVAS! – gritou-lhe Diogo sentindo toda a raiva e ódio apoderar-se de todo o seu ser. Podia apostar que a cor dos seus olhos já não tinham aquele azul cristalino, tendo tal cor sido substituída pelo vermelho sangue que o caracterizam naquelas alturas.
- AQUI QUEM DÁ AS ORDENS SOU EU! – gritou Belial furioso e logo de seguida ouviu-se outro grito. Um grito infantil, mas tão cheio de dor e angustia como o de Sofia.
Diogo olhou em pânico para Matilde. Largara a mão de Júlio e de joelhos gritava a plenos pulmões.
-PÁRA COM ISSO…CHEGA! – Diogo sentia que estava a implorar, mas não se importava. Por Matilde engoliria todo o seu orgulho. Ao seu lado percebeu que Sofia se encolhera, na medida do possível, como que a sentir tudo muito recente dentro da sua cabeça.
Tal como acontecera com Sofia, o silêncio instalara-se. Matilde continuava de joelhos. O seu olhar tal como a sua cara estavam virados para cima, fitando um céu que não existia. Os braços, caídos ao lado do corpo, estavam inertes e as lágrimas escorriam-lhe novamente pela cara.
- Júlio pára por favor… - chorou Matilde – Não me protejas mais, precisas defender-te…parem parem parem…por favor…vão matá-lo… - a voz de Matilde despertava desespero dentro de Diogo. Percebia que ela estava a reviver novamente todo aquele momento que passara com Júlio durante a tempestade de areia. Ela voltava a ver Júlio ser constantemente atacado pelos soldados de areia, presa num escudo invisível criado pela magia do elfo que a impedia de se ver envolvida pela areia. A mesma areia que a teria morto se não fosse a protecção dele. – Júlio acorda, levanta-te, não podes morrer…por favor…
- JÁ CHEGA, JÁ PERCEBI…EU FAÇO O QUE QUISERES… - gritou novamente Diogo para Belial.
 - Agora sim voltámos a falar a mesma língua – disse Belial sorridente – Da próxima vez, não erro o alvo… - disse num tom ameaçador, dando a entender a Diogo que não teria problemas em usar o seu poder no indefeso Júlio.
Diogo viu Matilde cair desamparada no chão. Pensou que ela ficaria ali, sem forças, mas, para sua surpresa, Matilde voltava a mostrar toda a sua resistência e teimosia. Sem olhar para eles, apesar de toda a dificuldade que Diogo tinha a certeza de que ela estaria a sentir provocada pela recente recordação, voltou a agarrar a mão de Júlio fazendo ressurgir a mesma luz prateada à volta das mãos de ambos. Toda a sua concentração estava focada naquela única coisa e Diogo sentia dever-lhe tudo pelo que ela fazia pelo seu melhor amigo.
- O que queres? – perguntou a Belial, mostrando-lhe todo o ódio que sentia por ele naquele momento. No entanto, aquilo apenas fez Belial mostrar mais satisfação.
- Tenho de reconhecer que tens muito potencial… - Diogo achou que Belial tinha acabado de lhe fazer um elogio, mas aquilo apenas o deixou mais enraivecido - Não olhes assim para mim…eu posso ser muito bonzinho, sabes? – a meiguice usada na voz de Belial era do vidro mais fino que podia existir.
- Ah sim? - Diogo usou o mesmo tom de Belial – E como pretendias ser bonzinho?
- O que tu queres são os teus pais, não é? – atirou-lhe Belial com o seu inclinar de cabeça e o provocante sorriso – Então eu levo-te até eles…
Aquilo silenciou Diogo. “Poderia ele fazer mesmo o que dizia?” Perguntou-se Diogo. “Poderia isso querer dizer que ele era o seu pai?” Apesar de não lhe interessar qual dos Príncipes do Inferno seria o seu verdadeiro pai, era estranho pensar na sua mãe com um ser cruel e insano como Belial. Mas isso agora não interessava. Ele estava ali pelos seus pais adoptivos e faria de tudo para impedir que tanto eles como os seus amigos sofressem durante mais tempo.
- E o que vais querer em troca? – perguntou-lhe Diogo.   
- Estás a ver como já estamos a falar a mesma língua – divertiu-se Belial – Basta um pequeno acordo – disse por fim.
- Que tipo de acordo? – perguntou Diogo determinado a ir ao que interessava sem rodeios.
- És bem parecido com a tua mãe – disse Belial surpreendendo Diogo – Ela também era assim…queria chegar depressa ao que interessava…não estava muito virada para a criação de todo um ambiente, toda uma atmosfera propicia ao momento. Já eu…bem acabaste de ter a oportunidade de presenciar…
- O que queres de mim? – voltou a insistir Diogo não se deixando envolver no discurso de Belial.
- Com o tempo passarás a gostar de todo um enredo, toda uma dramatologia… - Belial parecia verdadeiramente divertido – Nem imaginas a satisfação que se pode sentir ao dares tudo o que alguém mais desejou na vida e depois tirares-lhe mais do que aquilo que deste…o sofrimento, a angústia que sentem nesse momento e depois toda a decadência e destruição que se segue…não há melhor…seduzir os humanos e depois arrancar-lhes ainda mais do que o que lhes foi dado…
- É isso que vais fazer comigo? – perguntou Diogo
- ISSO FOI O QUE ELE FEZ COMIGO! – gritou subitamente furioso – DEU-ME TODO O SEU AMOR E DEPOIS TIROU-MO ENTREGANDO-O A UM INÚTIL HUMANO…
- Deus partilhou o seu amor, nunca substituiu um por outro… – interveio Samuel
- TODO ESSE AMOR E ATENÇÃO DEVIAM SER ÚNICAMENTE MEUS! – Belial estava completamente fora de si. Diogo não podia perdê-lo agora.
- Isso é tudo muito interessante, mas ainda estou à espera de saber o que terei de fazer ou dar em troca!
- Oh algo muito simples… - Belial voltara a sua atenção novamente para Diogo, o que certificava mais uma vez o seu estado de loucura, pois parecia que já nem se lembrava de se ter exaltado há segundos atrás - Se fizermos um acordo, dentro de cinco minutos tens os teus pais ao teu lado e prometo que poderão voltar para casa sem qualquer contrapartida.
- Diogo… - murmurou Samuel, mas Diogo olhava apenas para Belial.
- Que tipo de acordo seria esse? – perguntou Diogo fitando-o sem qualquer temor, o que parecia agradar muito a Belial.
- Ficarás aqui comigo e seguirás todas as minhas ordens – o sorriso do Príncipe desapareceu e ele olhava para Diogo como se estivesse a testá-lo.
- E quanto aos meus amigos? – perguntou simplesmente Diogo – Eles também vão poder sair daqui sem qualquer tipo de contrapartida? Incluindo a Tânia… - acrescentou olhando para ela.
- Eu não preciso que faças acordos com o inimigo para salvar a minha pele – interrompeu de repente Sofia olhando de lado para Diogo. Ele tinha a certeza que era apenas devido à força das raízes que a seguravam que ela se mantinha em pé, por isso admirava a sua tentativa para discutir com ele como costumava fazer, fingindo estar a aguentar-se muito bem – Se queres passar para o lado dele isso é contigo, mas não esperes que eu…
- Será que não és capaz de estar calada um minuto, nem mesmo depois do que acabou de acontecer contigo? – Diogo virou-se para ela descontrolado – Nem todas as conversas têm a ver contigo!
- Óptimo, porque eu não terei qualquer problema em matar-te no momento em que te tornares um deles! – atirou-lhe Sofia com uma falsa energia.
- Não esperava outra coisa vinda de ti! – Diogo tentou dizer-lhe isto de forma ofensiva, mas o seu tom foi quase meigo ao ver o seu olhar mais frágil do que alguma vez imaginara encontrar em Sofia.
- Ainda bem que ficámos esclarecidos! – disse também num tom menos ofensivo do que o habitual - Vê se te decides então rapidamente porque eu não tenho uma vida desocupada como a tua! – sem mais Sofia virou-se para o lado em que se encontrava Samuel e Diogo deixou de lhe ver a cara.
Diogo ainda tinha bem presente na memória o sofrimento de Sofia perante uma qualquer recordação que a consumira por completo. Sabia que apesar da força que ela aparentava, por dentro existia um medo puro de voltar a sentir o mesmo.
- O mesmo se aplica aos teus amigos – garantiu-lhe por fim Belial quando, após um revirar de olhos na direcção de Sofia, Diogo voltou a olhar para ele. – Incluindo esse…demónio. – acrescentou com repulsa sem se dignar a dirigir o seu olhar para Tânia.
- Nesse caso, temos acordo! – disse Diogo muito sério e apesar de não olhar para os outros ouviu as suas exclamações de choque, até mesmo de Tânia. 
- Não podes Diogo! – gritou-lhe Tânia.
- Não podes confiar nele! – foi o apelo de Matilde na sua voz esganiçada.
- Diogo, não vale a pena, nós vamos arranjar outra solução! – tentou trazê-lo à razão Samuel
- QUE OUTRA SOLUÇÃO? – atirou-lhe Diogo encarando Samuel – OLHA ONDES ESTÁS, OLHA PARA MIM E PARA A SOFIA, VÊ O ESTADO DO JÚLIO E A EXAUSTÃO EM QUE A MATILDE ESTÁ A CAIR…NÃO EXISTE OUTRA SOLUÇÃO…TODOS SABIAMOS DESDE O INÍCIO QUE SERIA MUITO COMPLICADO SAIR DAQUI VIVOS E AINDA MAIS SEM QUALQUER TIPO DE CONTRAPARTIDA OU SEQUELA! – Diogo respirou fundo - O Júlio tinha razão quando disse que se tratava de um suicídio colectivo, é exactamente disso que se trata…e se eu tiver de abdicar da minha liberdade e do meu mundo para que os meus pais e vocês possam sair daqui, é isso mesmo que vou fazer! – disse decidido.
- E os teus ideais? - foi Sofia quem falou. O cabelo dela estava mais afastado e Diogo viu ambos os olhos cinzentos de Sofia cravarem-se nos seus de forma intensa e com um misto de desilusão e decepção – Vais simplesmente apagar tudo o que os teus pais te ensinaram? Vais manchar o nome da Luz? Vais desiludir todos aqueles que se importam contigo? Achas que os teus pais vão ficar felizes com a tua escolha? Achas mesmo que vão conseguir levar uma vida normal sabendo o que tiveste de fazer para eles voltarem para casa? Achas mesmo que para os teus pais tu vales menos do que eles?
- Não preciso da tua opinião e muito menos das tuas lições de moral! – disse-lhe Diogo de forma agressiva – Tu sempre acreditaste que eu era um demónio e que vos trairia na primeira oportunidade! E eu demonstrei isso mesmo ao tentar matar-te! – Aquilo silenciou Sofia - Foste sempre a primeira a ter certeza de que a minha costela demoníaca levaria a melhor, portanto não precisas fingir que te importas comigo ou dissimular surpresa por me veres aceitar um acordo com o Diabo! Tinhas razão, eu não pertenço ao teu mundo e sinceramente não faço questão de pertencer, por isso, guarda essa tua fraca tentativa de apelar à minha consciência porque a minha decisão já está tomada – Diogo precisava de obrigá-los e deixarem-se de se sentirem culpados. Por isso sem mais demoras virou-se para Belial – Temos acordo, agora faz a tua parte! Trás os meus pais!
- Não tão rápido! – foram as palavras de Belial – Preciso ter a certeza absoluta de que me permanecerás sempre leal e que acatarás eternamente as minhas ordens.
- E o que é preciso para teres certeza disso? – perguntou-lhe Diogo impaciente.
- A única forma que existe de ter a certeza de que me prestarás vassalagem para sempre. Terás de cumprir, sem hesitar, uma ordem minha – explicou com uma expressão, pela primeira vez, indecifrável.
- Só isso? – perguntou Diogo desconfiado.
- A tua obediência à minha ordem demonstrará a tua lealdade e acima de tudo, aquilo que irás fazer, permitirá que uma parte da tua alma passe a pertencer-me e isso significa que terei um certo controlo sobre ti – Diogo sentiu, por uma fracção de segundo, medo. O tom de voz usado por Belial podia não ser diferente, mas havia algo por baixo de todo aquele controlo, algo que Diogo não sabia o que era, mas que sentia estar prestes a descobrir. Ninguém falou. Diogo ficou à espera. Tentou imaginar o que é que teria de fazer, mas uma vez que estava perante um dos Príncipes do Inferno, tudo o que lhe passasse pela cabeça, provavelmente, não seria nada comparado com o que viria.
- Diogo… - a forma como o seu nome foi pronunciado igualou mil punhais a espetarem-se no seu estômago. Ele olhou para Sofia. Nunca vira tanta ternura no seu rosto e na sua voz. Aquele olhar era só para ele. – Nós aguentamos tudo…não faças algo de que vás arrepender-te, por favor… - ela implorava. O silêncio abateu-se sobre todos. Nem Diogo, nem Sofia desviavam o olhar um do outro.
- Como sei que posso confiar em ti? – Diogo desviou repentinamente o olhar de Sofia encarando Belial. Sem nenhuma reposta, com a mesma rapidez com que o prenderam, as raízes soltaram-no indo enterrar-se novamente no subsolo. Diogo estava agora livre.
- Para começar estás livre… - disse-lhe Belial e de repente atirou uma arma para os pés de Diogo.
Diogo olhou para ela. Era uma Adaga. Uma Adaga igual à que ele trazia presa à cintura. Significava isso que…
- Não sou eu o teu pai… - continuou Belial como se aquilo fosse apenas um pequeno erro de lógica – Mas deixo-te usar a minha Adaga para que possas sair do meu reino se essa for a tua vontade. – informou-o.
- Como assim? – Diogo estava confuso.
- As Adagas dos Príncipes do Inferno não servem apenas para lutar. – começou Belial – Uma das suas principais características é permitir ao seu dono ou àquele a quem foi emprestada poder sair do Inferno quando bem lhe apetecer. – Belial viu o olhar esperançado no rosto de Diogo e respondeu à pergunta que se formava na sua cabeça. – Só tu podes sair do Inferno, não podes levar ninguém contigo. Essa Adaga tem apenas saída para um.
- Então…
- Significa que podes ir embora se assim o desejares…sozinho…
- Muito bem, o que tenho de fazer para os tirares daqui em segurança?
- Apenas…matar a anjo virtude…essa a que chamas de Sofia! – esclareceu como se fosse a coisa mais normal do mundo.
- O quê? Estás louco? Acabaste de dizer que todos os meus amigos seriam soltos…
- Há sacrifícios que têm de ser feitos…vais aprender isso comigo. E imagina…perdes uma amiguinha, mas salvas os teus pais, dois anjos, um moribundo e um demónio traidor…um em troca de seis! Não podes dizer-me que não é uma conta justa… - ripostou Belial com um sorriso triunfante – Ah e claro que terás de matá-la com essa Adaga que te entreguei – acrescentou.
Diogo estava chocado. Acreditaria mesmo aquele monstro de que ele era capaz de matar Sofia. Desviou o seu olhar para ela e arrependeu-se logo pois viu a típica expressão de Sofia que dizia “Eu bem que te avisei”.
- Oh, mas espera… - ouviu de repente Belial dizer num tom de falsa hesitação – Estás mesmo com dúvidas sobre matá-la? – Diogo olhou para ele. – Olha que eu tive o cuidado de te escolher a pessoa certa! Nunca te pediria para matares nenhum dos outros… - Diogo não estava a perceber onde ele queria chegar e olhava confuso para Belial. – Ah, não me digas que ainda não percebeste? – o falso choque na expressão de Belial só estava a irritar Diogo.
- O que é que eu ainda não percebi? – perguntou Diogo sentindo-se exausto.
- Não acredito que ela ainda não te contou o seu pequeno segredinho? – Belial apesar do tom sentimentalista que adoptava no seu discurso não escondia que estava a adorar cada palavra que pronunciava.
- Segredo? – Diogo olhou para Sofia. Esperava ver uma expressão desdenhosa, uma piada trocista, um suspiro que demonstraria todo o ridículo da situação, mas ao contrário disso, encontrou alarme, apreensão e até mesmo rendição.
- Não sabes mesmo que tens andado com uma traidora da raça dos anjos? Uma vira-casacas…uma “judas”?