Diogo e Sofia olhavam um para o outro sem saberem o que fazer. Não trocavam nenhuma palavra, mas Diogo percebia o que, naquele momento, passava na cabeça do anjo virtude. Não podia acabar assim. Não podia ser aquele o fim dos dois. Que forma tão estúpida para morrerem. No entanto, por mais que tentassem espernear não conseguiam lutar contra as raízes que agarravam os tornozelos de ambos, reduzindo-lhes as forças. Também deviam ser as mesmas raízes que estavam a impedi-los de invocarem armas que pudessem ajudá-los. Por mais que Diogo pensasse em cordas, nada surgia à sua frente. Além disso toda aquela areia impossibilitava-lhes os movimentos, cada parte do corpo soterrada, parecia enterrada em cimento. Diogo já vira as areias movediças nos filmes. Engoliam as pessoas, enterrando-as vivas. Sempre pensou que aquilo era um exagero, mas ali tinha ele a prova. Mal conseguia movimentar-se e cada movimento só fazia avançar ainda mais o processo. Sentiu-se afundar mais um pouco. Ele e Sofia levantaram os braços ao mesmo tempo de forma a mantê-los na superfície. Sem saberem muito bem o que fazer com os braços, em simultâneo, esticaram-nos na direcção do outro e seguraram-se mutuamente, colocando as mãos nos ombros de cada um.
- Estou aberto a sugestões. – brincou Diogo olhando esperançado para Sofia. Esta sorriu-lhe mas apenas lhe apertou um pouco mais os ombros.
Samuel continuava na sua luta contra a jaula que o aprisionava. Tânia mal podia mexer-se. Júlio mantinha-se inconsciente e Matilde estava pela primeira vez sem ideias e sem palavras. Belial apareceu subitamente no seu campo de visão.
- É uma pena que tenha de acabar assim, podias ser-me muito útil… - disse-lhe com o seu tão característico inclinar de cabeça – Mas o que se há-de fazer…serias sempre um insubordinado e eu há muito tempo que deixei de ter paciência para crianças! – de repente sorriu como se tivesse acabado de ter uma ideia brilhante – Para não dizeres que não sou atencioso, vou deixar os teus amigos assistirem à vossa morte e só depois acabar igualmente com eles…
- És louco! – atirou-lhe Sofia – O que é que ganhas com tudo isto?
- Um belo espectáculo! – respondeu-lhe Belial com toda a calma e virando-lhe as costas, logo depois de apanhar a sua Adaga do chão.
- Diogo temos de fazer alguma coisa – exigiu-lhe Sofia com aquela tempestade que descrevia o seu olhar. Algo despertou dentro de Diogo perante o brilho exigente dos olhos de Sofia. Uma esperança…
- Os teus olhos! – foi apenas o que lhe disse.
- O que têm? – perguntou-lhe ao mesmo tempo que os braços de ambos já estavam praticamente submersos.
- O lago de Leviathan… - continuava Diogo como se estivesse a juntar peças de um puzzle.
- Diogo não estás a dizer coisa com coisa… - fez-lhe notar Sofia como se achasse que aquele momento já estava a afectar-lhe o cérebro.
- Isto são areias movediças… - continuou como se estivesse a fazer uma grande descoberta.
- Diogo…estás bem? – Sofia começava a desesperar.
- ISTO SÃO AREIAS MOVEDIÇAS! – gritou Diogo de repente sorridente.
- EU SEI QUE SÃO AREIAS MOVEDIÇAS…E ESTAMOS A SER ENGOLIDOS POR ELAS! – Sofia já estava a perder a paciência.
- Não estás a perceber… - Diogo continuava com o mesmo ar apalermado.
- Diogo estás a assustar-me… - Sofia já não olhava para ele. Desesperada procurava algo à sua volta.
- As areias movediças são feitas de areia e água…
- DIOGO EU NÃO ESTOU PRÓPRIAMENTE INTERESSADA NUMA AULA SOBRE AREIAS MOVEDIÇAS! – Sofia parecia agora mais desesperada com a lucidez de Diogo do que com o facto de os seus braços já não estarem à vista. – CASO NÃO ESTEJAS A REPARAR EM BREVE JÁ NÃO CONSEGUIREMOS SEQUER FALAR…
- ABRAÇA-ME! – gritou-lhe Diogo.
- O QUÊ? – Sofia já não conseguia deixar de gritar devido ao pânico de estar prestes a ficar soterrada numa questão de escassos minutos, se tanto.
- CONFIA EM MIM…ABRAÇA-ME! – Diogo estava a usar todas as suas energias para puxar Sofia para si. A areia estava a ser um obstáculo quase impossível de ultrapassar, mas assim que Sofia começou a fazer o mesmo sentiu que era possível.
Por fim estavam perto o suficiente para que Sofia o pudesse abraçar. A areia já lhes dava pelo queixo quando com um último esforço que a deixou de rastos Sofia conseguiu puxar os seus braços para cima até os ter à volta do pescoço de Diogo. Este por sua vez já estava a prendê-la pela cintura nas profundezas das areias. Sofia olhou para Diogo que fez o mesmo. Estavam tão perto um do outro que conseguiam sentir as suas respirações cada vez mais ofegantes. Sofia parecia perguntar com os olhos o que significava tudo aquilo.
- Confia em mim…não tenhas medo! – pediu-lhe num murmúrio Diogo - Mas no caso de nada acontecer…quero que saibas que acredito na tua lealdade e que não importa o que já fizeste um dia…para mim és apenas a Sofia, a miúda mais teimosa, refilona e impertinente que eu alguma vez conheci…a única capaz de me tirar do sério só com um olhar, mas a quem eu confiaria sempre a minha vida!
Sofia parecia preparar-se para dizer algo, mas antes que o pudesse a areia movediça afundou-os mais um pouco cobrindo-lhes a boca. A última coisa que Diogo viu antes de fechar os olhos foram os olhos cinzentos mais serenos que alguma vez viu em Sofia. Ela confiava nele, mesmo sem saber o que lhe passava pela cabeça. Sentiu-a apertar-se contra si e o raspar do seu cabelo na sua cara, formando um abraço.
Ele próprio não tinha qualquer certeza da pequena esperança que se apoderara do seu coração. A sua ideia podia não resultar, mas de momento não tinha nenhuma melhor. Apesar de aquilo o arrepiar e repugnar mais do que tudo, tinha de tentar. De olhos fechados e sustendo a respiração assim que sentiu a areia cobrir-lhe o rosto lembrou-se do momento em que perto do lago de Leviathan tinha dado origem àquela onda gigante que fora embater nas rochas após um simples movimento do seu braço. Podia ter sido uma coincidência, mas algo lhe dizia que não. Tentou lembrar-se do que pensara naquele momento. Quisera afastar aquela sensação estranha de ter o braço debaixo de água sem que a mesma lhe tocasse. No entanto, agora, o que queria era chamar a água até si. Em pensamento chamou-a. Sentia-se ridículo, mas não sabia mais o que fazer. Não aconteceu nada. Então lembrou-se do pendente, do pequeno brilho azul que o mesmo agora ostentava. Ao mesmo tempo todos os seus pensamentos começaram a convergir apenas para um…água. Apertou ainda mais Sofia contra si e deixou que o seu pensamento o guiasse. Subitamente sentiu a água. Não a via, mas tinha certeza que a água o alcançara. Era quente, era convidativa, era…obediente. Diogo, naquele momento, teve a certeza de que podia fazer tudo o que quisesse…a água ser-lhe-ia totalmente submissa.
“VEM” – gritou dentro de si. Foi instantâneo. Numa questão de segundos, Diogo deixou de sentir a areia. Estava agora totalmente submerso em água. Sofia continuava agarrada a si. Sentiu-a afastar-se e viu-lhe nitidamente os olhos. Sabia que ela também conseguia vê-lo bem, mas o seu olhar desviou-se para o pendente que flutuava à frente dos dois, no fio que Diogo trazia preso ao pescoço. Brilhava como se tivesse vida. Diogo voltou a olhar para Sofia. Sem querer, devido ao choque do que presenciava, Sofia deixou escapar algum ar. Diogo sobressaltou-se com aquilo e Sofia percebeu que ele estava na eminência de os levar aos dois para cima, mas impediu-o, prendendo-lhe ambas as mãos nas suas. Com um movimento leve e delicado levou as suas mãos até à face de Diogo e aproximou-se dele. Assim que encostou a sua testa à de Diogo ele só viu um grande clarão.
Diogo já não estava debaixo de água e também não tinha Sofia à sua frente. Estava num grande salão, um salão com uma decoração muito típica do século XVIII ou XIX. Espaçoso, com cores quentes e todo ele iluminado por centenas de velas, posicionadas em zonas muito especificas cujas sombras tornavam tudo ainda mais majestoso. Olhou para trás. O salão estava cheio de gente. Homens e mulheres de toda uma outra época. Conversavam animadamente, riam e dançavam ao som da música que provinha de…flautas. Diogo seguiu a música. Ninguém parecia reparar nele e no momento em que sem querer chocou contra uma mulher de vestido volumoso, percebeu que nem lhe tocara atravessando-a como se de um fantasma se tratasse. Era uma memória, concluiu mesmo sem saber de onde lhe vinha aquela certeza. Aproximou-se de uma espécie de orquestra, composta por homens e rapazes, todos eles vestidos da mesma maneira. A mesma camisa branca, o mesmo lenço branco à volta do pescoço, as mesmas calças escuras, o mesmo colete escuro, a mesma jaqueta igualmente escura até aos joelhos e aberta à frente. Além disso, todos os cinco músicos tinham uma flauta e tocavam maravilhosamente bem.
Subitamente começaram a tocar a mesma melodia que já ouvira duas vezes, a melodia que tinha a ver com a memória de Sofia. Olhando de forma mais atenta viu o rapaz loiro que Belial fizera aparecer em forma de miragem à frente de Sofia e deles todos. Estava a tocar de olhos fechados e entregava-se por completo à magia das notas musicais que saiam do seu instrumento de sopro. Viu-o abrir os olhos e dirigi-los apenas numa direcção. Sentada no rebordo de uma varanda a cerca de uns 10 metros de altura, estava Sofia, com a mesma túnica branca que vira anteriormente numa das suas memórias, o mesmo cabelo negro comprido e os mesmos olhos cinzentos da cor da tempestade. Apesar de ter a mesma aparência com que a conhecia, parecia a Diogo, muito mais nova e muito mais serena. O rapaz conseguia vê-la e ela sabia que ele tocava só para ela.
- Aquela sou eu…20 anos depois de ter sido criada…todos me tratavam por Ariel – informou-o de repente uma voz ao seu lado. Era Sofia que estava ali com ele e que olhava para a imagem que um dia vivera. Diogo observou-a. Tendo em conta o século em que se encontravam naquele momento, desistiu de tentar fazer as contas para saber quanto anos tinha a Sofia que hoje conhecia, era demasiado estranho. – E aquele é David… - Sofia olhava para o rapaz loiro que ainda não desviara o olhar dela, naquele tempo Ariel, empoleirada na varanda – Não passava de um simples humano, mas mesmo assim conseguia…
- Ele consegue ver-te! – constatou Diogo surpreendido e acompanhando o raciocínio de Sofia. Diogo lembrava-se de que nem ele, antes de completar 19 anos, conseguia ver os anjos e demónios que andavam à sua volta. Não passavam do que ele achava serem sombras, reflexos. Mas ali estava um simples humano que inequivocamente fitava Ariel, um anjo. – Como é que é possível?
- Foi o que me perguntei da primeira vez que o vi olhar directamente para mim. – respondeu-lhe Sofia – Eu fizera 19 anos, atingira a maioridade e tinha a minha primeira missão…era simples, apenas tinha de vigiar uma aldeia de um possível ataque demoníaco e avisar se algo de estranho se passasse. Ele vivia nessa aldeia. Era pobre e o seu maior tesouro era aquela flauta. Uma noite ouviu-o tocar. A melodia era tão bonita que eu não resisti a aproximar-me. Sentei-me em cima do ramo de uma árvore e fiquei ali a ouvi-lo tocar. Quando acabou, olhou directamente para mim e sorriu-me. Nesse momento pensei que só podia estar a imaginar, mas assustada desapareci dali. Nunca ouvira falar num humano que pudesse ver anjos ou demónios, sem o consentimento dos mesmos. Era uma regra do universo. – Sofia falava sem desviar os olhos de David. – Com medo de ter feito algo de errado na minha primeira missão, resolvi não contar nada a ninguém e voltei lá para certificar-me se o que tinha visto realmente acontecera. Lá estava ele a tocar o seu maior tesouro. Dessa vez sentei-me atrás dele. Mas voltou a acontecer o mesmo, assim que terminou de tocar virou-se para trás e encarou-me com o mesmo sorriso terno. Estranhamente não tive medo e aproximei-me dele. Perguntei-lhe se me conseguia ver e ele respondeu-me que sim. Não sabia quem eu era e nunca tinha visto mais ninguém igual a mim ou sequer parecido. Erradamente regressei todas as outras noites para o ouvir tocar e ficamos amigos. Conversávamos, riamos, brincávamos e ele, antes de qualquer concerto a que era chamado fazia-me ouvir todas as músicas que ia tocar no baile. Conhecia uma pessoa que tocava numa orquestra e o dinheiro permitia-lhe comprar comida para toda a sua família, por isso ensaiava horas a fio. Ouvi-lo não era um sacrifício, muito pelo contrário. Ia vê-lo de todas as vezes que ia tocar numa festa e todas as noites ele tocava para mim. Eu era apaixonada pela sua música e cada vez mais por ele apesar de não reconhecer esse sentimento. Um dia compôs esta música para mim e nesse mesmo dia beijou-me. Explicou-me porque o fizera e eu percebi o que também sentia por ele. Nesse dia, eu traçava a sua morte.
Diogo ouvia-a com toda a atenção percebendo a mágoa e a angústia envolvida em cada palavra de Sofia. Ela continuou.
- O tempo foi passando e comecei a perceber que ele ia ficando mais velho, ao passo que eu continuava sempre igual. Passaram-se quatro anos. Eu vivia para aqueles momentos e sabia que ele também ansiava por cada minuto passado perto de mim. Era burra ao ponto de pensar que vivíamos num mundo só nosso, escondido de todos, quer dos humanos, quer dos anjos e demónios. Um dia encontrei um anjo caído. Pensei que tinha sido por acaso, mas toda a minha inocência e o amor que sentia por David cegavam-me. Já tinha ouvido falar dos anjos caídos, mas nunca encontrara realmente um. Pareceu-me igual a qualquer outro de nós e deixei-me levar pela sua conversa. – Sofia nunca olhava directamente para Diogo, mas ele percebia a tristeza e a vergonha que ela sentia dentro de si – Esse anjo caído contou-me a sua história que era, estupidamente, parecida com a minha. Ingenuamente vi nele uma esperança. Explicou-me que se juntara à sua amada e que era feliz ao lado dela. Não havia mais nada que eu quisesse do que viver com David, como sua mulher, envelhecendo juntamente com ele. O anjo caído aliciou-me com cada palavra. Disse-me o que eu mais desejava ouvir. Perguntei-lhe se não havia nenhum problema se escolhesse tornar-me num anjo caído como ele e acreditei quando me disse que a única contrapartida seria nunca mais poder voltar para o céu, para o palácio dos anjos, que teria de abdicar da minha condição de anjo virtude. Eu conseguia viver com essa contrapartida, oh se conseguia.
“Apressei-me a ir contar a minha descoberta a David…todo ele era alegria, nunca o vira tão feliz. Tomei a minha decisão e subindo ao céu disse as palavras que o anjo caído me ensinara. O que se passou a seguir tu já viste. Nunca senti uma dor tão profunda, tão intensa, tão violenta. Acordei num sítio desconhecido, estava dentro de uma casa às escuras, parecia quase abandonada. O único sinal de vida provinha da lareira que queimava dois troncos de madeira. Reparei que tinha um vestido igual àqueles que via as mulheres humanas da aldeia de David usarem. Levantei-me ao ouvir um passo à minha frente. Quando vi quem era entrei em pânico. Apesar de nunca o ter visto eu sabia que tinha à minha frente o Príncipe Sammael. Juntamente com Lilith explicaram-me que ao tornar-me num anjo caído teria de prestar vassalagem a um dos príncipes, nesse caso a ele que fora o primeiro a sentir a minha queda. Recusei-me terminantemente, mas ameaçaram acabar com a vida de David e eu não tive outra escolha.”
Subitamente já não estavam naquele salão de baile. Estavam numa aldeia, perto de uma casa típica de alguém do povo. Viu Sofia dentro da casa. Nunca a vira com uma expressão tão feliz enquanto preparava uma refeição. Pouco tempo depois viu David abraçá-la por trás, roubar-lhe um beijo rápido e sair pela porta.
- Vivemos felizes durante quase um ano…eu vivia como uma humana ao lado de David e não desejava mais nada…Nenhum demónio, nem nenhum Príncipe nem a própria Lilith tinham voltado a incomodar-me desde então…até este dia! – Sofia olhou para a esquerda e Diogo seguiu-lhe o olhar. Viu Lady Lilith aproximar-se da casa. Diogo sentiu o ódio crescer dentro dele, mas sendo uma memória, não podia fazer nada. Sofia, naquele tempo Ariel, pressentiu-a de imediato e toda a sua expressão mudou. Saiu de casa ao encontro dela, como se não quisesse que aquele demónio conspurcasse a sua casa.
“- Precisamos de ti. – O tom usado por Lilith era frio e distante e não se tratava de um pedido. – Vamos fazer uma emboscada a uns anjos perto daqui, quero que vás com o grupo.
- O quê? Não… - negou-se Ariel cujo medo tomara conta do seu olhar.
- Juraste obediência, prestaste vassalagem, esqueces-te. – lembrou-a Lilith.
- Por favor… - Ariel estava prestes a ajoelhar-se implorando-lhe que não a obrigasse a fazer tal coisa.
- Nesse caso, podes despedir-te desse David… - disse Lilith virando-lhe as costas. Ao ouvir estas palavras todo o sangue parecia ter abandonado Ariel, tal era a forma como empalidecera. Lilith desapareceu deixando-a ali sozinha.”
- O que se seguiu também já presenciaste – continuou Sofia ao seu lado – Fui obrigada a lutar ao lado dos demónios, dos anjos caídos, dos diabretes, dos Príncipes…Nunca matei um anjo, mas era obrigada a defender-me e para proteger David, salvei a vida a centenas de demónios. Até hoje não me sinto em paz com o que fiz. Mas na altura, aquilo era suficiente para manter o David seguro e eu amava-o demais para pensar noutra alternativa. Ficámos bem mais dois meses…até ao dia em que aquele demónio o matou apenas para se vingar de mim! – Sofia mostrou toda a raiva que estava dentro de si e de repente apesar de continuarem na mesma aldeia e em frente da mesma casa, a imagem era completamente diferente.
Havia pessoas a correrem de um lado para o outro, em pânico e em total alvoroço. O fogo consumia as casas como se fossem papel e as tentativas para o apagarem eram completamente infrutíferas. As pessoas da aldeia não se davam conta das forças demoníacas que os cercavam, mas Diogo via os demónios que brincavam com as vidas e o património de uma vida inteira daqueles aldeões. Viu também David e Ariel tentarem salvar a sua casa. Ariel conseguia ver os demónios, mas tentava ignorá-los para não assustar David que não os via. Diogo olhou para Sofia e reparou que uma lágrima lhe descia pela face. Tinha os olhos presos no cenário que se desenrolava à sua frente.
- Eu era jovem, sentia-me destroçada com tudo o que estava a acontecer… - a voz de Sofia parecia vir também ela de uma outra época - Não consegui ficar parada com todos aqueles demónios a provocarem o caos!
Diogo voltou a olhar para Sofia, no seu tempo como Ariel, ao mesmo tempo ao seu lado ela lhe relatava tudo o que lhe ia no coração naquele tempo.
- Sem pensar em possíveis consequências, invoquei as primeiras armas que me vieram à cabeça – explicou e Diogo viu surgir nas mãos de Ariel as espadas de duas lâminas que tão bem conhecia – Ouvi o David gritar por mim, mas eu só tinha uma coisa na cabeça…fazer parar aqueles demónios que estavam a destruir tudo aquilo que eu mais amava e o único local onde conhecera o amor e toda a felicidade que nunca pensei poder sentir junto de um humano. Dirigi-me àqueles demónios, entre eles um anjo caído e desafiei-os. Um a um, destrui-os a todos, num total de sete. Ou pelo menos assim pensava eu quando ouvi David gritar pelo meu nome. Mal me virei, foi como se me tivessem morto naquele preciso momento, como se uma espada tivesse atravessado o meu coração. Foi isso que senti, mas não foi o meu coração que a espada atravessou, foi sim o de David.
Diogo observava toda aquela cena. Vira Ariel derrotar todos os demónios com uma destreza e velocidade impressionantes e de seguida ouvira-a gritar dolorosamente pelo nome de David, no preciso momento em que um demónio se aproximava por trás de dele e com uma espada o atravessava mortalmente. David nem se dera conta da aproximação de um demónio, nunca o vira, nunca tivera olhos senão para Sofia, por mais que até hoje isso fosse completamente inexplicável. Mas Sofia viu o demónio, viu a expressão do demónio transformar-se em puro prazer e crueldade. E Diogo reconheceu o demónio. Era Aaba. O mesmo demónio fêmea que o perseguira na noite do seu aniversário, o mesmo com quem lutara perto da ponte, ainda no mundo dos humanos.
- Isto é pelo que fizeste aos meus irmãos…aos TEUS irmãos! – atirou-lhe a Aaba daquele tempo – Deves-nos lealdade…o teu humano sofreu a tua traição, tu foste a única culpada.
Sem perder mais tempo Aaba desapareceu largando o corpo de David que caiu desamparado no chão.
- Ele já estava morto quando me aproximei… - informou-o Sofia e Diogo reparou que já não estava ao pé da casa em chamas, mas sim no mesmo sitio em que David olhara pela primeira vez para Ariel e onde tantas vezes lhe tocara a mesma melodia.
Ariel estava junto a uma campa. Não foi preciso Sofia explicar-lhe que fora ali que enterrara o corpo de David. Inesperadamente surgiu alguém atrás de Ariel. Diogo abriu a boca de espanto. Apesar de nunca a ter visto, sabia que aquela mulher que se ajoelhava ao lado de Ariel, era Luz, a sua mãe. Era linda. Um pouco mais baixa do que Sofia, com longos cabelos loiros e com movimentos sublimes. Os olhos, de um azul cristalino, que Diogo herdara dela, eram quentes e cheios de paz e serenidade.
- Foi Luz quem veio até mim naquela mesma noite – murmurou-lhe Sofia – Explicou-me que estava a par de tudo o que acontecera comigo e perguntou-me se estava disposta a lutar contra os demónios, ao lado dos anjos. Disse-me que voltaria de manhã cedo para obter uma resposta, mas não foi necessário, naquele momento assegurei-lhe que era o que mais queria. Assim seguia-a. Como tinha abdicado da minha condição de anjo, tive de começar como Anjo da Guarda, depois passei para Arcanjo, Principado e por fim voltei a tornar-me num Anjo Virtude. Desde então tenho combatido todo o tipo de demónios, anjos caídos, diabretes e agora Príncipes do Inferno. No entanto, sempre com a mesma coisa na cabeça, derrotar Aaba em combate. Já nos encontrámos várias vezes ao longo dos séculos, mas ela consegue sempre fugir no último momento.
Diogo recordou-se daquela noite em que Sofia havia lutado contra Aaba. Lembrou-se da forma como se fitavam mutuamente, de como se atacavam com ferocidade. Era um ajuste de contas mortal.
- Foi a primeira e última vez que vi Luz, o Anjo Serafim mais admirado pelos anjos e o mais respeitado até mesmo pelos demónios – informou-o Sofia. Diogo reparou que tinham voltado ao mesmo salão de baile onde David tocava a melodia que criara para Ariel, sem desviar os olhos daquele anjo. – Naquela noite perguntei-lhe como era possível que David conseguisse ver-me no meu estado angelical. Sabia que um anjo podia revelar-se se fosse necessário, mas nunca ouvira falar de um humano capaz de ver um anjo no seu estado celestial. No entanto David conseguira ver-me desde o primeiro dia que me apresentara para cumprir a minha missão. – Diogo aguardou a resposta que Luz, a sua mãe, pudesse ter dado a Ariel – Luz não soube responder-me. Nunca tinha ouvido falar de algo do mesmo género. Citou-me apenas a frase da autoria de alguém que considerava muito importante na sua vida, um anjo potência de nome Samuel: “Há coisas que só o amor pode explicar, mas como são raros aqueles que sabem interpretar a sua língua, o explicável será sempre inexplicavelmente incompreendido”.
Diogo encontrava-se novamente dentro de água junto de Sofia que se afastara o suficiente para que pudessem olhar um para o outro. Enquanto Diogo mal sentia a água tocar-lhe, por sua vez os cabelos de Sofia flutuavam na ondulação da água tornando tudo aquilo real. Sofia confiara nele ao ponto de lhe mostrar as suas memórias mais dolorosas. Agora percebia porque é que ela olhava para todos com desconfiança. Percebia porque é que Tânia, um demónio, era alvo de todas as suspeitas. Sofia não conseguia evitar. Desde muito cedo caíra nas mãos de demónios, anjos caídos e Príncipes do Inferno. Ela não fora sempre assim. Fora inocente, crente e apaixonada. De um momento para o outro tinham-lhe roubado tudo e aquela fora a forma que encontrara para enfrentar toda a culpa que continuava a transportar dentro de si. Diogo mostrou-se decidido. Precisavam voltar para enfrentar aquele monstro, para impedir que mais humanos sofressem nas suas mãos. Sem esperar mais tempo agarrou na mão de Sofia e como se a água fosse todo o seu mundo, impulsionou-os em direcção à superfície.